CelleXty Saga - Temporada II
2 O caçador da dupla estação
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Classificação: Nível Ômega
Período Monitorado: Março de 2000
Eixo Principal: São Paulo (SP)
Observação: Evento não relacionado às anomalias registradas no litoral gaúcho
Metrô Vila Olímpia — O Chamado
Dezenas de pessoas subiam as escadarias da estação Vila Olímpia após o trem quase descarrilar nos túneis do centro expandido. A Guarda Civil Metropolitana organizava a evacuação enquanto paramédicos atendiam passageiros em estado de choque. O interior da estação parecia ter sido mergulhado em um inverno artificial. Repórteres já associavam o ocorrido às notícias do Sul, repetindo a narrativa de um frio que avançava pelo país. Gregory observou a transmissão rápida em um celular abandonado no chão e balançou a cabeça.
— Isso não tem a mesma assinatura energética — murmurou.
— A imprensa não liga para assinatura — respondeu Basco. — Liga para manchete.
Nos trilhos, o cenário era mais brutal do que as câmeras mostrariam. Grossas camadas de gelo travavam as rodas, e alguns vagões haviam se tornado câmaras cristalizadas. Basco quebrou uma das portas congeladas com esforço, apenas para encontrar três passageiros imóveis, preservados no instante exato do desespero. Gregory fechou os olhos por um segundo, contendo a própria raiva.
— Quem fez isso, fez de propósito — disse o vampiro em tom grave. — Isso é espetáculo.
O som de passos metálicos ecoou pelo túnel, lento e ritmado. A névoa abriu caminho para a figura alta que avançava com postura de guerreiro ancestral. Um homem, alto, loiro e com uma armadura surgiu sem pressa, a barba espessa ocultando cicatrizes e o olhar fixo como lâmina.
— Inquisidor — pronunciou com sotaque francês carregado. — Levem-me até ele.
Com o braço direito, moldou uma espada de gelo; com o esquerdo, ergueu um escudo de chamas que iluminou as paredes congeladas. O contraste distorcia o ar ao redor. Basco avançou um passo.
— Você matou civis para enviar um recado?
— Não. — A voz de La’Vern permaneceu fria. — Eu enviei um recado. A morte é consequência da escolha dele.
- Quem é você? – Perguntou Gregory
Ele revelou ser La’Vern e agir sob ordens de um estranho chamado Raziel, a quem chamava de “o Antigo”. Acusava Inquisidor de assassinar Angelique, a filha de Raziel, em Paris. Gregory franziu o cenho.
— Lucius nunca mencionou que esteve na França — comentou baixo.
La’Vern gravou coordenadas nas paredes com fogo vivo e lançou o ultimato: se Inquisidor não comparecesse, São Paulo conheceria extremos de gelo e cinzas. Ao cruzar espada e escudo, uma explosão de vapor envolveu o túnel. Quando a névoa dissipou, ele havia desaparecido.

Litoral Norte do Rio Grande do Sul — A Verdade do Frio
Enquanto São Paulo lidava com um novo inimigo, Folkhen caminhava pela areia fria de Xangri-lá. O mar parecia normal à distância, mas o local do ataque permanecia isolado por fitas policiais após a misteriosa morte de um casal à beira mar. Ele se aproximou dos investigadores discretamente e conseguiu acesso ao laudo preliminar.
— Nenhuma gota de sangue — afirmou o perito, confuso. — Como se tivessem sido drenados por completo.
Folkhen observou os corpos no necrotério improvisado. Não havia marcas de congelamento semelhantes às de São Paulo. O padrão era outro. Era preciso. Cirúrgico.
— Não é expansão — murmurou para si. — São forças distintas.
Ele registrou símbolos circulares desenhados na areia, misturando grafias arcaicas europeias e marcas coloniais portuguesas. O inverno do Sul não avançava; estava se instalando.
Mosteiro de São Bento — Verdades Ocultas
Basco encontrou Lucius em seus aposentos no Mosteiro de São Bento. O silêncio do claustro contrastava violentamente com o caos urbano. O monge escrevia quando o amigo entrou sem cerimônia.
— Pessoas morreram hoje — disse Basco direto. — E o responsável quer você.
Lucius ergueu os olhos com serenidade forçada. A conversa rapidamente abandonou formalidades e revelou tensões antigas. Basco questionou o distanciamento do amigo; Lucius criticou o uso recorrente da magia arcana.
— Você brinca com forças que não compreende completamente — afirmou o clérigo.
— E você acha que fé resolve tudo? — retrucou Basco. — Meus “truques”, como você chama, salvaram vidas.
- Eu andei pesquisando, Basco! Eu sei o que esse reino infernal do Limbo fez para a “bruxinha”...a sua colega encapetada dos EUA! — Afirmou Lucius em um tom mais severo e áspero
— A “bruxinha” tem nome: Illyana Rasputin! É melhor pararmos por aqui! Antes que você acabe falando alguma besteira maior — Respondeu Basco, demonstrando desconforto com as insinuações do amigo
— Gregory e eu fomos atacados há cerca de duas horas quando estávamos indo para o Mascarade e...
— Está vendo!? É disso que eu falo. Metade de você está conosco e metade compactua com a Geração Vamp e...
— Estávamos indo ao Mascarade pois o local pode ter pistas do paradeiro de uma amiga de infância de Gregory! – Interrompe Basco. — Fomos atacados por um cara que está na sua cola. O nome La’Vern te diz alguma coisa?
Quando o nome La’Vern foi mencionado, o silêncio tornou-se pesado. Lucius respirou fundo antes de revelar a viagem secreta à França meses antes. Contou sobre Angelique, sobre o atentado político e sobre Raziel.
— Eu tentei salvá-la — disse, a voz finalmente carregada. — Mas o próprio pai ordenou sua execução.
Ele explicou que Raziel possuía habilidades extraordinárias e que, no confronto, teve o rosto desfigurado. Jurou vingança e divulgou imagens de Inquisidor como assassino. La’Vern, conhecido caçador de recompensas, fora contratado.
— Eu não matei Angelique — afirmou Lucius. — Mas para ele, pouco importa a verdade.
Basco cruzou os braços.
— Então ele vai transformar São Paulo em campo de batalha por causa de uma mentira?
Lucius não respondeu de imediato.
Protocolos de Contenção
Naquela mesma noite, parlamentares reuniam-se emergencialmente para discutir os “Protocolos de Contenção”. A proposta previa cadastro obrigatório de indivíduos com Fator X, monitoramento constante e possibilidade de confinamento preventivo. A mídia associava o ataque no metrô aos eventos do Sul, criando narrativa de invasão mutante descontrolada.
Gregory assistiu ao noticiário antes de sair rumo à Mascarade novamente.
— Eles estão esperando o próximo incidente — comentou. — Precisam de medo para aprovar isso.
Sua mente, porém, estava dividida. Venâncio havia sido evasivo quando perguntado sobre Cibele.
— Ele sabe de algo — murmurou para si. — E está escondendo.
Cemitério da Consolação — Gelo Contra Luz
La’Vern iniciou novo espetáculo destrutivo na região da Consolação, alternando prédios entre congelamento e combustão. Era um chamariz claro.
O Cemitério da Consolação é a mais antiga necrópole em funcionamento no município de São Paulo. Quando foi criado em meados do século XIX, recebia sepultamentos de pessoas das mais diversas classes sociais, inclusive de escravos. Com a prosperidade proveniente do café e de uma pequena e seleta burguesia paulista que aflorava, trouxe status de um portal de descanso final que atraia requinte, sofisticação e os mais renomados escultores que viam na arte sepulcral um mercado em expansão. Hoje o cemitério ganhou ares de museu a céu aberto, com belíssimas esculturas e grandes personalidade brasileiras em seu repouso eterno. Era comum encontrar membros da Geração Vamp nas madrugadas do Consolação. Alguns o usavam até mesmo como morada. Contudo, não toleravam intrusos no cair da aurora. Roqueiros e “góticos de fim de semana” não eram bem-vindos ao local após o pôr-do-sol. Contudo, o homem peculiar sentado à beira de um dos túmulos conseguiu trazer o terror aos vampiros locais apenas com o seu olhar em chamas. La’Vern não se intimidava com os vampiros brasileiros aliás, alguns já haviam cruzado o seu caminho em regiões da França e suas cinzas ainda permeiam pelo solo do país. As criaturas noturnas que o observavam dentre os túmulos não eram o seu alvo no momento e se fossem espertos continuariam na escuridão.
Lucius seguira o seu rastro e decidiu enfrentá-lo antes que mais civis fossem atingidos. Basco acompanhou o amigo e assumiu a forma de Nevoeiro, atravessou os portões do Cemitério da Consolação sem ser notado.
A temperatura caiu abruptamente entre as alamedas de mármore. Vampiros observavam à distância, desconfortáveis com os intrusos. La’Vern estava sentado à beira de um túmulo quando Inquisidor surgiu entre as esculturas.
— Eu cheguei a duvidar que viesse — ecoou a voz francesa. — Fugiu da França e veio se esconder nesta cidade.
— Eu não fugi — respondeu Lucius, o olho direito começando a brilhar. — Eu sobrevivi.
La’Vern ergueu a espada de gelo.
— Angelique também tentou sobreviver.
O primeiro choque iluminou o cemitério como relâmpago. Energia luminosa contra gelo ancestral. Basco solidificou-se ao lado de Lucius, pronto para intervir.
— Isso termina hoje — disse Inquisidor.
— Sim — respondeu La’Vern. — Para um de nós.
O duelo apenas começava.
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