CelleXty Saga - Temporada II

11 O Vírus Legado - PARTE 5



Arquivo Confidencial: Instituto Xavier

Sujeito(s): Gregory, Alex Aleff, Basco Khassan (Nevoeiro), Igon, Lucius, Ivan, Isabelle, Lydia, Carcará, Gerson

Status: Crítico – Baixas confirmadas pelo Vírus Legado


ESCOLA BRASIL X (subterrâneos do metrô paulista)

O som metálico de uma composição abandonada ecoava pelos túneis como um gemido distante, arrastado pelo vento que corria entre os trilhos desativados. A iluminação irregular projetava sombras trêmulas sobre os corredores improvisados da Escola Brasil X, revelando macas alinhadas, cabos expostos e equipamentos médicos adaptados às pressas. Gregory caminhava entre os leitos com os ombros curvados, os olhos fundos, o brilho prateado de sua pele opaco como aço oxidado. O ar ali embaixo era pesado, quase viscoso, misturado ao cheiro de antisséptico e ferrugem. Ele parou ao lado de Ivan, observando o peito do amigo subir e descer em respirações curtas e descompassadas.

— Fica comigo, Ivan… controla isso… você consegue… — murmurou Gregory, segurando a grade do leito como se pudesse ancorá-lo à realidade.

A resposta veio em forma de explosão. O corpo de Ivan arqueou-se num espasmo brutal e uma onda psíquica percorreu o quarto, energizando o próprio leito e o abajur ao lado, que estourou em faíscas azuladas. O impacto lançou Gregory contra a parede, arrancando-lhe um gemido surdo. O vírus não apenas consumia seus hospedeiros; ele os transformava em bombas instáveis, detonando dons que antes eram controlados com disciplina e treino.

No setor seguinte, os gritos de Isabelle e Lídia ecoavam como um coral de desespero. As duas estavam sentadas nas macas, mãos cravadas nas próprias têmporas, olhos arregalados diante de algo invisível para qualquer outro. Gregory aproximou-se, mesmo sabendo que nada do que dissesse seria suficiente para silenciar o caos dentro das mentes delas.

— Elas estão aqui! Elas não param de falar! — gritava Isabelle, as lágrimas escorrendo sem controle.

— São muitas vozes! Tira elas da minha cabeça! TIRA! — Implorava Lídia, batendo contra a lateral da cama.

As vozes que ouviam não eram alucinações simples; eram ecos amplificados pelo vírus, uma espécie de sintonia forçada com cada pensamento perdido nos túneis da cidade e arredores na superfície. Gregory, com o coração dilacerado, ativou as celas de contenção — estruturas criadas para conter criminosos superpoderosos, agora usadas como abrigo contra o próprio colapso dos amigos. As portas desceram com um ruído pesado, isolando as duas do restante da equipe. Ele apoiou a testa no vidro reforçado.

— Me perdoem… é só até passar… — sussurrou, embora soubesse que talvez não houvesse “passar”.

Carcará e Gerson, por sua vez, permaneciam em estado febril, o suor frio cobrindo-lhes a testa enquanto tremores percorriam seus corpos. O descontrole dos poderes havia cessado, mas a doença seguia avançando como um incêndio invisível. Gregory observava os monitores improvisados, perguntando-se que hospital aceitaria tratar mutantes contaminados por um vírus que, segundo a mídia, poderia sofrer mutação e atingir humanos. O medo já se espalhava na superfície, inflamado por manchetes sensacionalistas. Foi então que o sistema de segurança apitou, cortando o silêncio como um tiro.

— Quem quer que seja… que seja a cura… — murmurou Gregory, correndo até as telas.

A imagem capturada mostrava uma silhueta atravessando os túneis escuros com passo decidido. Quando a porta principal da EBX se abriu e a figura emergiu sob a luz trêmula, Gregory sentiu o ar faltar nos pulmões.

Alex? — A incredulidade escapou como um sussurro.

Alex Aleff avançou pelos corredores com expressão endurecida, o olhar percorrendo rapidamente cada detalhe do improvisado hospital subterrâneo. Não houve abraço, não houve celebração; apenas urgência.

— Onde estão os infectados? — Perguntou, a voz grave ecoando pelo concreto úmido.

Gregory engoliu em seco, sentindo que a esperança que acendera há segundos começava a vacilar sob o peso da realidade.


LIMBO (dimensão do caos e da destruição)

No Reino do Silêncio, o vento gélido varria as ruínas do que fora o majestoso Castelo dos Exilados, agora reduzido a um amontoado de gelo quebrado e torres tombadas. A névoa branca se espalhava como um sudário sobre os escombros, e Basco caminhava entre as formações rochosas com passos pesados, sentindo o eco de cada escolha reverberar em seu peito.

Basco conhecia o Castelo dos Exilados neste lado do reino como ninguém, afinal o governou como co-regente enquanto lutava lado a lado com a sua melhor amiga, a Nova Mutante conhecida como Magia contra as hordas de Belasco, o antigo regente do Limbo e responsável pelo que Magia havia se tornado. O plano para invadir o castelo parecia relativamente simples: com a ajuda de Pilgrin, Basco planejava ser o mais discreto o quanto fosse possível, adentrar o seu antigo salão-biblioteca e conseguir pistas de um artefato lendário desta dimensão, o Shofar de Krianor, uma espécie de chifre encantado que, segundo as lendas antigas, era capaz de curar qualquer doença ou pestilência. Khassan consegue adentrar o castelo em sua forma de nevoeiro e sem levantar suspeitas aos guardas demoníacos, harpias diabólicas e ceifadores de almas perdidas. O “Nevoeiro” se embrenha por corredores, escadarias e grandes salões até finalmente chegar ao Boticário Livresco pelas frestas das grandes portas de madeira. Khassan retorna a forma humana próximo as prateleiras de antigos pergaminhos de feitiços! De uma das janelas no canto da sala, Pilgrin surge após escalar o grande paredão. Sua asa solitária e parte da névoa de Basco lhe deram estabilidade para escalar o “inscalável” paredão sul do castelo.

— Não imaginei que veria este lugar novamente. Parece que foi ontem que estive aqui lendo os seus livros e tomos antigos. Tudo está no mesmo lugar que deixei! — Diz Basco enquanto caminhava por entre as grandes prateleiras de madeira com ornamentos de ouro onde era possível ver centenas de obras arcanas. — O estranho é o castelo estar repleto de guardas, mas aqui, completamente vazio.— Indagou Basco!

— Então sabe onde procurar o que veio buscar?— Pergunta Pilgrin enquanto senta sobre uma velha mesa no canto da sala.

— Creio que sim!— Basco abre um antigo armário de madeira com portas de vidro. Haviam ali, textos que jamais tinha posto as mãos, porém, um livro lhe era conhecido.

— É este! Aqui eu vou achar o local onde o Shofar está...

— Ora, mas porque se dar ao trabalho em procurar pistas em um livro velho se o que você quer está bem aqui?— Pilgrin salta pela sala e abre um grande baú de madeira ao lado da lareira e do mesmo retira um objeto envolto em um grosso tecido de veludo vermelho com detalhes em dourado. Ao desenrolar, Basco fica surpreso ao ver que entre as mãos da pequena criatura se encontrava...

— O Shofar de Krianor!? Mas...Pilgrin como você sabia que o shofar estava ai?

— Pilgrin? Aquele traidor? Morreu há cerca de 20 anos nas minas de M’Kraan. Suas últimas palavras se eu bem me lembro foram, “vida longa ao Filho do Nevoeiro”. Ordenei que seus membros fossem arrancados um por um até ele parecer um verme rastejante! O mais intrigante, no entanto, irmão, é saber o que o fez sair do seu mundinho perfeito e vir até aqui em busca disso!?

O corpo de Pilgrin passa por uma rápida metamorfose enquanto fala, assumindo uma forma maior e mais PERIGOSA....

— Igon!? Mas como que você...!— Basco fica surpreso ao rever o seu irmão. Igon não parecia mais velho do que quando fora exilado. Ostentava uma farta barba negra e trajava vestes brancas, botas pretas e um manto que lhe cobria parte do ombro, mas as feições eram ainda do jovem que Basco exilou. Seus olhos pareciam mais expressivos e sedentos por vingança. Se havia alguma esperança de Igon se arrepender dos seus crimes, isto havia ficado para trás.

— Eu senti a sua presença assim que colocou os seus pés no reino. Dividir o meu espírito para encontrá-lo, foi rápido. Meus lacaios me contaram tudo sobre o tempo que você reinou aqui, como marionete da Illyana Rasputin, sobre seus dons e seu leal escudeiro, Pilgrin. Assumir a forma dessa criatura asquerosa foi a parte difícil, o mais fácil foi trazê-lo ao meu castelo!

— Igon, não vim aqui para termos um momento família. Me entregue o Shofar! — Responde Khassan assumindo uma postura de ataque. — Uma mutante espalhou um vírus mortal no país que mata apenas... outros Mutantes. Ele age rápido e talvez esse artefato seja a única esperança de nossa espécie.

Igon sorri e parece não dar importância aos argumentos do irmão.


Ele caminha calmamente ao redor de Basco…. — Eu me lembro.... Você esteve no Reino de Sangue. Meus servos me contaram. Ficou lá por 3 anos adestrando o seu novo cachorro de prata. Como era mesmo o nome do garoto? Enfim.... Na época eu era um reles prisioneiro no Reino do Silêncio e trabalhava nas minas, sendo atormentado dia após dia pelas criaturas ceifadoras de almas, mas por ser um mutante, consegui galgar altos postos esperando o dia em que poderia finalmente destruir você!

— Então…80 anos! Está bem conservado!— Ironizou Basco

— De fato, por algum motivo o tempo no Limbo não alterou quem eu sou... o que eu sou.... talvez a razão seja por eu conseguir decifrar os feitiços desta biblioteca que você abandonou. Após a queda de Belasco e a partida de Magia e da Rainha dos Duendes o Limbo passou por um tempo em constante guerra civil, até que a filha de Belasco, Witchfire, tomou o poder no Reino de Sangue e eu...conquistei o Reino do Silêncio em uma espécie de sociedade.

— Já chega! Eu não tenho tempo a perder com sua ladainha!

Basco parte para cima de Igon! Com extrema agilidade assume a forma de um poderoso nevoeiro que coloca parte do Boticário Livresco abaixo. Em seguida, envolve o corpo de Igon fazendo-o levitar e prendendo os seus braços em um forte tornado girando no salão! Igon por sua vez, recita um rápido encanto que ordena a abertura de todas as portas e janelas do salão fazendo o ar gélido adentrar o recinto. Apesar da umidade estar alta, o encanto faz com que o nevoeiro perca força e Basco retorne a forma humana! Igon sorri ao ver o irmão mais novo escorado em uma parede da grande muralha de gelo.

— Você acha mesmo que esse seu poder mutante é páreo para o que me tornei? Não sou mais o mesmo que conheceu na Gangue Fantasma, Basco. Hoje acertamos as nossas contas e eu vingo o nosso pai!

— O seu problema é que você fala demais!— Responde Basco enquanto lança sobre Igon uma pequena esfera de metal que explode ao se aproximar do alvo expelindo uma grande quantidade de luz e dardos de prata! — Cortesia do Gregory, acho que lembra dele!


A explosão atinge Igon em cheio e faz o seu corpo queimar com os dardos de prata, mas Basco também é gravemente ferido. E assim, mesmo com a voz trêmula e fraco pelo último golpe que recebeu, recita o antigo encanto:

— Remert oãhc o açaf! Ardep erbos ardep erbos oãn que. Anedro ehl ertsem ues o, oletsac!

Igon sente o chão sob suas patas tremerem. Guardas e criaturas em todos os espaços do castelo também sentem o tremor tomar conta dos grandes salões. Como um dominó ou uma casa de cartas, o Castelo dos Exilados começa a ruir e a desmoronar de maneira abrupta! Igon alça voo, mas Basco estende sua mão em direção do irmão e recita mais um encanto:

— Ogimini uem o madnerp, setnerroc sednarg!

Subitamente grandes e poderosas correntes de gelo emanam dos paredões que ainda desmoronavam e agarram o dragão branco, puxando-o pelas patas e pescoço. Em questão de minutos, todo o Castelo dos Exilados cai. Basco com muito esforço, consegue assumir a sua forma de nevoeiro mais uma vez enquanto grandes blocos de gelo transpassam o seu corpo. Uma gigantesca nuvem branca engole a tudo e a todos como um grande ceifador glacial.

O corpo ainda pulsava com o resquício da batalha, e o gosto metálico da magia antiga permanecia em sua boca. À sua frente, soterrado parcialmente sob blocos de gelo, Igon jazia em forma humana, a respiração irregular manchando o ar frio.

— Então… é assim… que termina? — Murmurou Igon, tossindo sangue escuro como carvão. — Deveria ter sido… você naquele acam-pa-mento… Deveria ter sido… você…

A lembrança de 1983, da floresta, do acidente e do encontro com Althy, atravessou Basco como uma lâmina invisível. A estaca de gelo firmou-se em sua mão, e o Filho do Nevoeiro — frio, implacável, sem compaixão — quase assumiu por completo. Igon havia destruído o Shofar de Krianor, talvez a única esperança contra o Vírus Legado. A lógica dizia que ali, naquele instante, tudo deveria acabar. Basco ergueu à estaca, mirando o coração do irmão.

— Basco! Não faça isso, filho! Não mate o seu irmão! — Ecoou uma voz carregada de calor e autoridade.

Os dois estremeceram simultaneamente.

— Pai!? — indagou Basco, a mão tremendo.

— Pai… é o senhor!? — Repetiu Igon, incrédulo.

O timbre inconfundível de Edher Markel pairou sobre as ruínas como um sopro de humanidade em meio ao inferno congelado. Por um instante, o ódio cedeu espaço à memória de Igon: risadas antigas, conselhos esquecidos, a sensação de proteção perdida no tempo. A influência sombria recuou do olhar de Basco, e a estaca caiu ao chão com um som seco. O silêncio que se seguiu era quase sagrado.

Sem mais palavras, Basco abriu um portal, rasgando o ar do Limbo com energia azulada. Ele atravessou a fenda sem olhar para trás, deixando Igon entre escombros e perguntas não respondidas.


ESCOLA BRASIL X

O portal se abriu no coração dos túneis da Estação Barra Funda como um corte luminoso na escuridão. Basco caiu de joelhos ao atravessá-lo, o corpo exausto, as roupas marcadas por gelo e sangue seco. O cheiro de concreto e óleo substituiu o frio cortante do Limbo. Lucius foi o primeiro a correr até ele, segurando-o antes que tombasse por completo.

— Basco! Você voltou! — Exclamou, sustentando-o pelos ombros.

Gregory surgiu logo atrás, mas seu olhar não trazia o brilho da esperança, apenas um cansaço antigo e dolorido. Basco ergueu o rosto, tentando compreender a atmosfera diferente, pesada como luto acumulado.

— Quanto tempo… eu fiquei? — Perguntou, com a voz rouca e falha.

O silêncio que antecedeu a resposta foi mais cruel do que qualquer palavra.

— Um mês e meio — respondeu Alex, firme, aproximando-se com passos controlados. — O tempo no Limbo corre diferente. Você sabe disso.

Basco sentiu o mundo inclinar-se sob seus pés.

— Alex...você voltou...mas e os outros? Ivan… Isabelle… Lydia… Carcará… Gerson… — a lista saiu como uma súplica.

Gregory desviou o olhar, incapaz de sustentar o peso daquele momento. Foi Alex quem assumiu a responsabilidade.

— Todos sucumbiram ao Vírus Legado há algumas semanas.

As palavras caíram como pedras. Nenhum ruído de trem, nenhum estalo elétrico — apenas um vazio absoluto preenchendo os túneis. Basco tentou levantar-se, mas as forças lhe faltaram.

— Eu quase consegui…. Eu tinha… — balbuciou, a culpa corroendo cada sílaba.

— Você precisa descansar, agora — ordenou Alex, a voz firme como aço.

— Não! Eu posso voltar! Posso encontrar outra forma! — Protestou Basco, tentando se desvencilhar.

— Isso é uma ordem, Khassan! — A autoridade cortou o ar, definitiva.

Lucius segurou o amigo com mais força enquanto Gregory permanecia imóvel, sentindo o peso das perdas esmagar o pouco que restava de esperança. Nos túneis da EBX, o silêncio assumiu uma nova forma — não o silêncio do Limbo, mas o silêncio da ausência, daquilo que não poderia mais ser salvo.