Notas iniciais
Fenômenos inexplicáveis começam a se espalhar pelo sul do Brasil. O frio avança onde não deveria existir. Criaturas antigas despertam. Forças organizadas se movem nas sombras com precisão estratégica. E enquanto São Paulo se torna palco de confrontos cada vez mais violentos, uma verdade começa a se revelar: o inverno não é uma estação… é uma conquista. Com alianças frágeis, inimigos ancestrais e uma guerra prestes a ultrapassar todos os limites, os CelleXtys enfrentarão um novo cenário — onde sobreviver pode não ser o suficiente.

Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Classificação: Nível Ômega

Período Monitorado: Novembro de 1999 a Março de 2000

Eixos Geográficos: São Paulo (SP) / Litoral Norte e Serra Gaúcha (RS)

Status: Anomalia Climática e Sobrenatural em Expansão


Novembro de 1999 — Primavera sob Tensão

A primavera de 1999 avançava sobre São Paulo, mas o clima político e social estava longe de ser ameno. O segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso ainda tentava estabilizar os impactos da crise cambial daquele ano, enquanto o país era tomado pelo temor do chamado Bug do Milênio. Nos telejornais, especialistas discutiam sistemas bancários e satélites; nas ruas, entretanto, o assunto era outro: mutantes haviam sido filmados lutando em plena luz do dia. O Brasil, até então periférico nas narrativas internacionais sobre fenômenos meta-humanos, tornava-se pauta recorrente.

Na Escola Brasil X, instalada nos túneis abandonados do metrô paulista, o ambiente era de vigilância constante. Alex Aleff permanecia desaparecido, e sua ausência criava um vazio difícil de nomear. Folkhen tentava manter a liderança coesa, enquanto Carcará assumia a parte operacional com pragmatismo quase militar. “Nós não somos manchete. Somos resistência”, afirmou ele durante uma reunião tensa. Basco discordava da postura defensiva, mas permaneceu em silêncio.

Gregory observava tudo com inquietação contida. Ele vinha relatando ter visto Cibele nas imediações da Mascarade, mas poucos levaram a sério no início. “Eu sei o que vi”, insistiu ele, cruzando os braços. Isabelle ponderou que poderia ser coincidência ou ilusão emocional. Ainda assim, a simples possibilidade de Cibele estar viva — ou transformada — reabria feridas que Gregory jamais cicatrizara completamente.

Natal de 1999 — A Trégua Possível

O Natal chegou como uma pausa estratégica, não como celebração plena. Basco decidiu passar a noite em seu pequeno apartamento alugado próximo ao Shopping Osasco Plaza, onde trabalhava durante o dia para manter uma fachada civil. Ele preparou algo simples, colocou uma música baixa e tentou se convencer de que aquela normalidade era real. “Só por uma noite”, murmurou para si mesmo, olhando as luzes piscando na janela. Mas o celular permaneceu ao lado do prato, como se esperasse um chamado inevitável. Pensar em Igon, o qual enviou para o Limbo na última batalha era inegável. Por um momento imaginou abrindo um portal e ver como o seu irmão estava, mas se conteve.

Na EBX, Folkhen e Carcará permaneceram de plantão, revisando mapas e relatórios. O silêncio dos túneis parecia mais denso naquela noite, como se a cidade respirasse diferente. Aproveitavam para relembrar os seus tempos de aventuras ao lado de Alex, Carmem e Cassiopéia. Isabelle e Madalenna acolheram dois jovens mutantes expulsos de casa, improvisando uma ceia modesta em seu pequeno apartamento. Entre risos contidos e relatos dolorosos, tentaram construir uma sensação de pertencimento. “Aqui ninguém é erro”, disse Madalenna, segurando a mão de um dos garotos.

Gregory não conseguiu relaxar. A imagem de Cibele atravessava sua mente com insistência quase cruel. Ele lembrava das noites frias divididas nas ruas antes de sua transformação, da promessa silenciosa de que um dia teriam algo melhor. Se ela estivesse na Mascarade, significava que o passado não estava enterrado. Significava que alguém a puxara para o mesmo abismo que o reclamara.

Litoral Norte do Rio Grande do Sul — O Primeiro Sinal

Ainda em novembro, semanas antes do Natal, o litoral norte gaúcho registrara um fenômeno inexplicável. Em Xangri-lá, o vento mudou subitamente, trazendo um frio incompatível com a estação. Vinícius e Camila, um simples casal comemorando 1 ano de namoro, caminhavam pela orla quando as águas começaram a ondular de forma irregular. Das profundezas emergiu uma figura pálida, acompanhada por outras sombras que pareciam mover-se com sincronia ritualística.

O ataque foi rápido, quase cirúrgico, e a temperatura caiu a níveis improváveis para aquela latitude. Pescadores relataram que a água endurecia ao redor dos cascos dos barcos durante a madrugada. Antes de desaparecer, a figura central observou o horizonte e declarou, com sotaque lusitano antigo: “O inverno está chegando.” Não era metáfora poética; era proclamação territorial.


Verão de 2000 — O Frio Avança


A virada do milênio ocorreu sem o colapso tecnológico previsto pelo Bug do Milênio, mas o Brasil iniciou o ano 2000 sob outra sombra. No estúdio do Jornal Nacional, reportagens exibiam imagens do litoral gaúcho com praias congeladas ao amanhecer. Em Gramado, autoridades tratavam a neve fora de época como curiosidade turística, mas meteorologistas falavam em anomalias sem precedentes históricos.

Folkhen analisou os dados com atenção silenciosa. Ele conhecia assinaturas energéticas quando as via, e aquilo não era fenômeno natural. “Isso não é clima. É domínio”, afirmou a Carcará, apontando para mapas onde as ocorrências formavam um desenho quase estratégico. Decidiu retornar ao Sul para investigar in loco, deixando a supervisão da EBX nas mãos do companheiro. A despedida foi breve, mas carregada de pressentimento.

A Mascarade e o Patriarca das Sombras


A boate Mascarade operava com discrição renovada desde os conflitos envolvendo Geração Vamp e Lycans meses antes. Sob o comando de Venâncio, pai de Verônica, o local tornara-se mais do que ponto de encontro: era centro diplomático noturno. Venâncio chegara ao Brasil em 1889, no mesmo ano da queda do Império, desembarcando no Porto de Santos em meio às incertezas da nova República. Sobreviveu a caçadas no início do século XX e firmou pactos silenciosos durante períodos autoritários, sempre preservando influência sem exposição.

Quando Gregory decidiu confrontá-lo, não foi movido por arrogância, mas por necessidade. Ele entrou na Mascarade antes do pico da noite, sentindo o peso simbólico daquele território. Venâncio o recebeu em um camarote reservado, onde a iluminação era baixa e calculada. “Você busca respostas, não confronto”, disse o patriarca, a voz grave e controlada. Gregory manteve o olhar firme. “Quero saber se Cibele está aqui. Se alguém a transformou.”

Venâncio não respondeu de imediato, como quem mede consequências em séculos. Ele observou Gregory com curiosidade analítica antes de falar. “O passado raramente retorna intacto. Mas às vezes retorna.” A ambiguidade da frase foi suficiente para confirmar que algo estava sendo ocultado. Gregory saiu dali com mais perguntas do que respostas, mas com a certeza de que Cibele não era fruto de imaginação.

O Incidente no Metrô


Dias depois, Basco e Gregory seguiam de metrô para uma nova tentativa de diálogo quando o calor do verão paulistano evaporou subitamente. O vidro das janelas começou a cristalizar por dentro, e o metal estalou sob contração térmica abrupta. Passageiros entraram em pânico, enquanto o trem desacelerava de maneira irregular. “Retirem todos com calma!”, ordenou Gregory, projetando autoridade que misturava instinto humano e disciplina vampírica.

Quando os vagões ficaram vazios, o silêncio tornou-se opressivo. Uma névoa densa avançou pelo túnel, acompanhada por passos metálicos ritmados. Basco assumiu posição de combate, mas não atacou; havia algo diferente naquela presença. A figura que emergiu não investiu imediatamente, limitando-se a observar como quem avalia território recém-conquistado. “Será que isso tem relação com o que aconteceu no Sul?”, murmurou Basco, sentindo a mesma energia descrita nos relatórios.

O homem à sua frente inclinou levemente a cabeça, como se reconhecesse a resistência diante dela. Não houve batalha naquele momento, apenas um aviso silencioso.

Março de 2000 — Reconhecimento de Território


No Sul, Folkhen caminhava pela orla gaúcha sob um céu de tonalidade incomum para a estação. Marcas circulares na areia indicavam rituais ou demarcações energéticas, misturando grafias europeias arcaicas com símbolos coloniais portugueses. Ele registrou tudo em silêncio metódico, consciente de que enfrentava algo estruturado e hierárquico. Não eram predadores dispersos; era organização.

Ao tocar a areia congelada, sentiu o mesmo padrão energético detectado em São Paulo. A conexão era inequívoca. “Não é apenas invasão”, concluiu em voz baixa. “É instalação.” O inverno não simbolizava estação climática, mas mudança de poder. E o Brasil, em pleno início de milênio, tornava-se palco dessa transição.