CelleXty Saga - Temporada II
6 Destinos selados
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Sujeito(s): CelleXtys / Cassiopéia / Alcateia Lycan
Status: Conflito em Escala Pública — Evento de Contaminação em Curso
A televisão na sala principal da Escola Brasil X não apenas transmitia imagens — ela pulsava como um coração em arritmia. O noticiário exibia, ao vivo, o colapso do Aeroporto de Congonhas, e cada explosão refletida na tela parecia atravessar o vidro e atingir os que assistiam. Entre fumaça, gritos e sirenes, dezenas de Lycans avançavam como uma maré de presas brancas e garras ensanguentadas. No centro da cena, Gerson e Madalena resistiam enquanto o saguão se transformava em campo de guerra. Então a câmera fechou o foco numa mulher de postura ereta, observando o massacre como uma maestrina conduzindo sua sinfonia de horror — e o sangue de Carcará gelou.
— Seria mesmo ela? — murmurou, sentindo o passado rasgar-se diante de seus olhos.
Segundo os arquivos da EBX, em 1977, Cassiopéia fora uma das integrantes mais destemidas da equipe CelleXty. Atuaram durante a Ditadura Militar, resgatando perseguidos, libertando mutantes torturados, enfrentando o Departamento de Ordem Política e Social nas sombras de um país que fingia não sangrar. Ao lado de Alex Aleff, Carmen, Folkhen e do próprio Carcará, ela fora luz em meio ao breu. Até desaparecer no meio de uma missão. Sem corpo. Sem despedida. Apenas silêncio. Até agora.
Sem hesitar, Carcará, Inquisidor e La’Vern atravessaram o portal aberto por Basco. Rosa Vermelha e Gregory permaneceram na EBX, atentos a novos focos de ataque. O ar do aeroporto os recebeu com cheiro de querosene, sangue e metal queimado. Gerson jazia no chão, o abdômen dilacerado pelas garras de uma alcateia furiosa. Tentara reagir com seu gás tóxico, mas o efeito fora inverso: os Lycans tornaram-se ainda mais agressivos, como se a dor fosse combustível.
O vento quente da pista agitava o sobretudo de La’Vern enquanto ele observava o avanço da alcateia. O caos refletia-se nas vidraças quebradas, mas seu semblante estava diferente — menos tempestade, mais decisão. Lucius aproximou-se, pronto para questionar qualquer imprudência, mas o francês falou primeiro.
— Não sou um CelleXty — declarou, a voz firme. — Não carrego o nome de vocês. Mas hoje, lutarei como se carregasse.
Uma labareda percorreu-lhe o braço direito enquanto o gelo se condensava no esquerdo, equilibrados como dois hemisférios da mesma alma.
— Se Cassiopéia quer guerra, encontrará muralha. E eu serei parte dela.
Lucius assentiu, breve.
— Então lute como aliado. Não como penitente.
La’Vern sorriu de lado.
— Hoje não busco absolvição, mon frère. Busco honra.
E avançou para a linha de frente, não como forasteiro — mas como escudo.
— Fiquem longe dele! — gritava Madalena, erguendo o espadim contra um lycan.
A energia lunar formava uma barreira translúcida que vibrava sob o impacto das criaturas. Subitamente, o ar esfriou de forma antinatural. Alguns Lycans congelaram em pleno salto; outros foram consumidos por chamas negras que ardiam de dentro para fora. La’Vern avançava como uma entidade elemental, escudo de gelo no braço esquerdo, espada flamejante no direito. Fogo e inverno obedeciam ao seu comando.
— Recuem! — bradou, desferindo um arco incandescente que varreu as feras.
Algumas tombaram. Outras ultrapassaram sua defesa. Madalena aproveitou a brecha e arrastou Gerson para longe da linha de ataque. Então, para surpresa geral, Lucius surgiu ao lado do francês, liberando raios psicocinéticos que rasgavam o ar como relâmpagos azulados. Desde o confronto no Cemitério da Consolação, evitara La’Vern. Agora lutavam ombro a ombro.
— Depois conversamos — disse Lucius, entre descargas. — Ainda não acabou.
E estava longe de acabar. Mais Lycans emergiam dos corredores, atacando funcionários e passageiros. Os que sobreviviam às mordidas transformavam-se em minutos, ossos estalando sob a metamorfose brutal. Um novo exército nascia ali mesmo, sob o teto de embarque. Lucius disparou energia contra o portão principal, selando-o com uma barreira psiônica. Precisavam de tempo. Precisavam respirar.
No hall central, Basco envolveu um Lycan em neblina densa, confundindo seus sentidos, enquanto Carcará investia com o facão. A lâmina cortou, mas não foi suficiente. Num movimento seco, o cearense puxou o revólver calibre 38 e disparou à queima-roupa. O estampido ecoou como sentença final. A criatura caiu.
— Agora caiu — rosnou, a respiração pesada.
Uma explosão luminosa interrompeu o combate. O clarão foi tão intenso que por um instante o mundo pareceu branco. Quando a luz se dissipou, Ivan e Lígia estavam no chão, desacordados. O choque atravessou a equipe. Madalena aproximou-se de La’Vern e sussurrou um plano urgente. Ele assentiu.
— Todos atrás de mim! AGORA! — ordenou ela.
— Ouçam a bela dona, oui! — reforçou o francês, posicionando-se de costas para a guerreira.
Formaram um círculo protetor. Basco e Lucius ampararam os feridos enquanto dezenas de Lycans os cercavam. Madalena ergueu o sabre e canalizou novamente a energia lunar. La’Vern respondeu com gelo e fogo. O poder liberado começou como redemoinho e expandiu-se em anéis devastadores, como ondas concêntricas sobre um lago invisível. Quando as ondas tocaram os Lycans, envolveram-nos em casulos de gelo que ardiam internamente com chamas infernais. O efeito foi brutal e implacável. Os poucos sobreviventes fugiram pelos esgotos, uivando em retirada.

O silêncio que se seguiu era quase sagrado. Apenas gemidos de feridos quebravam a quietude. Pelo comunicador, Gregory informava que ambulâncias já estavam a caminho. Então, aplausos ecoaram no saguão devastado. Cassiopéia aproximava-se, serena, como se contemplasse uma obra concluída.
— Cassi... sou eu! Oxente! Não está me reconhecendo? Eu achei que estivesse...
— Morta? — interrompeu ela, fria. — Não, querido. Estou mais viva do que nunca.
Carcará sentiu o peso de décadas cair sobre seus ombros. Cassiopéia revelou ter sido capturada pelo DOPS em 1977, transformada em cobaia, torturada, manipulada. Contou que seu noivo, Carlos, fora morto pelos próprios CelleXtys — ao menos era o que lhe mostraram.
— Não foi assim! — protestou Carcará, a voz embargada.
— Não minta para mim! — gritou ela, faíscas de luz cintilando nos punhos. — Eles me mostraram!
— Por favor, me deixe explicar!
— Chega de conversa fiada. Nosso embate termina agora!
A palma de suas mãos liberou um facho de luz quase solar. La’Vern tentou interceptar com sua espada de gelo, mas a lâmina estilhaçou-se como vidro diante do brilho esmagador.
— Não me faça perder o meu tempo, CelleXty!
O disparo lançou o francês contra a vidraça do saguão. Madalena saltou, absorvendo parte do impacto com o espadim e desviando o golpe fatal. Cassiopéia sorriu, satisfeita.
— Isso foi apenas um cumprimento. Da próxima vez, será a morte de vocês. Para todos, deixo apenas o nosso LEGADO.
Ela arremessou um pequeno frasco. Madalena o partiu no ar com um golpe preciso. Um último clarão cegou os presentes. Quando a visão retornou, a alcateia partia, levando consigo os recém-transformados. Cassiopéia desaparecera.
Carcará permaneceu imóvel por um instante, encarando o vazio. Sentia falta de Alex, de Folkhen, de Carmen — desaparecida desde 1984. Havia ainda esperança de redenção? Ou apenas mais guerra?
Enquanto os CelleXtys retornavam à EBX através do portal de Basco, a segunda fase do plano era executada. Dezenas de Lycans espalhados por São Paulo carregavam frascos idênticos. Reservatórios de água. Topos de edifícios. Ruas movimentadas. Shoppings. Universidades. Ao pôr do sol, em perfeita sincronia, todos os recipientes foram quebrados.
Nada era visível. Nenhum odor. Nenhuma cor.
Mas algo fora liberado.
E o destino de muitos acabava de ser selado.

Fale com o autor