Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Sujeito: Basco Khassan Markel (Nevoeiro), Alex Aleff, Ivan (Tornado), Lucius (Inquisidor), Isabelle (Rosa Vermelha), Testament, Brahma e Jihad

Codinome: Neblina / Filho do Nevoeiro

Status: Atividade mutante confirmada em território brasileiro. Tendência ao isolamento. Potencial para liderança sob circunstâncias extremas.

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O Brasil da segunda metade dos anos 1990 não era apenas um território — era um campo de tensão permanente. O colapso econômico provocado pelo confisco financeiro mergulhara milhões na miséria e, como sempre acontece em tempos de crise, o medo buscou um inimigo visível. Quando um mutante tentou assassinar o presidente acusado de corrupção e abuso de poder, a situação tornou-se insustentável.

Ordens federais passaram a circular de maneira não oficial: qualquer manifestação pública de mutação deveria ser contida. Prisões arbitrárias, denúncias anônimas e grupos autointitulados “vigilantes patriotas” passaram a atuar nas periferias e nos centros urbanos. A comunidade mutante brasileira, já discreta por necessidade, foi empurrada novamente para a clandestinidade. Nesse cenário, figuras como Testament e sua Gangue Fantasma apenas reforçavam o estigma, confundindo resistência com terror.

Após o confronto no Mascarade, Basco sentia-se mais deslocado do que nunca. A solidão o acompanhava como uma sombra constante. Sentia falta da convivência com os Novos Mutantes, das discussões acaloradas, das estratégias improvisadas, até mesmo das tensões sob a liderança severa de Magneto. No Brasil, porém, ele não passava de um jovem tentando sobreviver. Treinava de madrugada no Parque do Ibirapuera, manipulando massas de nevoeiro e testando seus limites atmosféricos longe de câmeras e curiosos.

Ainda assim, nenhuma rotina preenchia o vazio que crescia em seu interior.

Em outros momentos, afastava-se ainda mais, buscando áreas isoladas onde pudesse experimentar sem risco de exposição.

— Você está forçando demais — disse uma voz inesperada, interrompendo um desses treinos.

Basco imediatamente condensou a névoa ao seu redor, assumindo forma sólida com rapidez.

— Quem está aí?

Um jovem ruivo emergiu das sombras com uma expressão tranquila, como se aquela situação fosse completamente normal.

— Alguém que está tentando evitar que você se destrua antes de aprender a usar isso direito — respondeu.

Basco manteve a postura defensiva.

— Você tem cinco segundos pra explicar.

O outro levantou as mãos, sem perder a calma.

— Ivan. Mas pode me chamar de Tornado — disse, com um leve sorriso. — E você é mais fácil de encontrar do que imagina.

O encontro não evoluiu imediatamente para confiança, mas estabeleceu um ponto de contato que Basco não podia simplesmente ignorar. Tornado não parecia interessado em confronto, e sua presença sugeria algo mais estruturado do que encontros aleatórios entre mutantes.

— Você não está sozinho — afirmou Ivan, observando o ambiente ao redor. — E continuar agindo como se estivesse só vai te colocar em uma posição que não tem volta.

Basco cruzou os braços, analisando cada palavra.

— Eu já estive em lugares onde disseram a mesma coisa — respondeu. — E, no final, sempre havia um preço.

Ivan assentiu levemente, como se esperasse aquela reação.

— Aqui também tem — disse, sem tentar suavizar. — A diferença é que você escolhe pagar… ou não.

...

O silêncio da biblioteca do Mosteiro de São Bento não era vazio, mas preenchido por uma calma que parecia existir independentemente das pessoas que transitavam por ali. Basco caminhava entre as estantes com passos lentos, observando os títulos sem realmente se prender a nenhum, mais interessado na atmosfera do que no conteúdo. Havia algo naquele lugar que o desacelerava, como se o mundo lá fora perdesse intensidade ao cruzar aquelas paredes.

— Você não veio aqui pelos livros — disse Lucius, sem levantar os olhos do volume que organizava.

Basco parou por um instante, considerando a observação antes de responder.

— E você não está lendo — retrucou, apoiando-se levemente na estante.

Lucius fechou o livro com cuidado, como se marcasse um ponto invisível na conversa.

— Eu trabalho aqui — disse, finalmente erguendo o olhar. — Mas também observo quem entra.

— E o que você viu? — perguntou Basco.

Lucius o analisou por alguns segundos, não de forma invasiva, mas precisa.

— Alguém que não consegue ficar muito tempo no mesmo lugar… mas continua voltando — respondeu.

Basco desviou o olhar, incomodado não pela afirmação, mas pela precisão dela.

— Talvez eu só goste do silêncio.

Lucius inclinou levemente a cabeça.

— Ou talvez você tenha medo do que acontece quando ele acaba.

O comentário não foi acusatório, mas também não era neutro. Basco soltou um breve suspiro, como se decidisse até onde estava disposto a permitir aquela leitura.

— E você? — perguntou. — Veio pra cá pra fugir de quê?

Lucius não respondeu imediatamente, e, pela primeira vez, houve hesitação.

— De nada — disse, por fim.

Basco sorriu de lado.

— Então você está no lugar errado.

...

O inverno de 1997 trouxe um frio incomum a São Paulo, mas nem isso afastou Khassan das visitas ao mosteiro. O silêncio das paredes antigas oferecia uma paz que ele não encontrava em nenhum outro lugar. Entretanto, a calmaria foi brutalmente rompida em uma tarde ensolarada no Shopping Osasco Plaza. A explosão em um restaurante rasgou o prédio como um trovão subterrâneo. Vidraças estilhaçaram-se, vigas cederam e uma nuvem espessa de poeira transformou corredores iluminados em um cenário apocalíptico. Em meio aos gritos e à correria, uma gargalhada ecoou pelos escombros. Basco reconheceu aquela presença antes mesmo de vê-la: Testament retornara.

Movendo-se com frieza calculada, a mutante utilizou seus poderes de sugestão e feromônios para dominar dois vigilantes armados, lançando-os contra Basco. Os disparos foram rápidos e implacáveis. Dois projéteis atingiram seu corpo antes que pudesse reagir, arremessando-o contra um pilar de mármore que se tingiu de vermelho. A dor foi imediata, cortante, quase paralisante.

Testament aproximava-se para finalizar o serviço quando um feixe vermelho-rubro atravessou a fumaça e quase a atingiu no peito. Em seguida, correntes envoltas em chamas psíquicas serpentearam pelo ar, prendendo-lhe o pulso e arrancando-lhe um grito agudo de dor. A vilã conseguiu se libertar e, percebendo que perdera o elemento surpresa, fugiu misturando-se ao pânico coletivo. Antes que a inconsciência o consumisse, Basco sentiu-se amparado por alguém que o arrastava para longe do caos.

Quando Basco recuperou a consciência, não estava mais no shopping.

O ambiente era fechado, silencioso e tecnicamente estruturado de forma que não lembrava nenhum hospital convencional. Equipamentos médicos estavam posicionados com precisão, e a sensação de profundidade era evidente, como se estivesse muito abaixo da superfície.

— Finalmente acordou — disse Ivan, encostado na parede.

Basco tentou se sentar, sentindo o corpo responder com dificuldade.

— Onde eu estou?

— Seguro — respondeu outra voz.

Isabelle.

— Isso aqui é a EBX — continuou ela. — Escola Brasil X.

Basco olhou ao redor, absorvendo a informação.

— Nunca ouvi falar.

Lucius aproximou-se, mantendo uma expressão mais contida do que o habitual.

— Esse é o ponto — disse. — Você não deveria mesmo.

A revelação foi tão desconcertante para Basco quanto para Lucius, que jamais imaginara encontrar o amigo literário naquela condição. A terceira integrante do grupo, Isabelle — ou Rosa Vermelha — explicou que utilizara seus poderes telepáticos para implantar nas testemunhas a memória de um simples vazamento de gás, evitando qualquer menção a mutantes.

...

O quarto subterrâneo ainda carregava o cheiro metálico do sangue recente, misturado ao aroma esterilizado dos equipamentos médicos. Basco estava sentado na beira da cama, ainda tentando alinhar o que lembrava com o que havia acontecido, quando a porta se abriu lentamente. Lucius entrou sem pressa, fechando atrás de si com cuidado, como se evitasse quebrar algo mais do que o silêncio.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

— Você podia ter me contado — disse Basco, sem olhar diretamente para ele.

Lucius permaneceu imóvel, absorvendo o peso da frase antes de responder.

— Você também podia.

Basco soltou um breve riso sem humor.

— Eu não sabia o que eu era.

— Eu sabia — respondeu Lucius. — E é exatamente por isso que não disse.

Agora Basco levantou o olhar, encarando-o com mais intensidade.

— Isso faz ainda menos sentido.

Lucius aproximou-se alguns passos, mantendo a voz baixa, mas firme.

— Faz todo sentido quando você vive em um lugar onde saber demais pode te matar — disse. — Ou pior… pode fazer alguém vir atrás de você.

O silêncio voltou, mas dessa vez carregado de tensão.

— Então você decidiu sozinho o que eu devia ou não saber? — questionou Basco.

— Eu decidi não te arrastar pra algo que você ainda não estava pronto pra enfrentar — respondeu Lucius, sem recuar.

A resposta não era defensiva. Era honesta.

Basco sustentou o olhar por alguns segundos antes de desviar, passando a mão pelo rosto.

— Engraçado… — murmurou. — Porque eu sinto que todo mundo sempre decide isso por mim.

Lucius hesitou.

— Talvez porque você ainda não tenha decidido por si mesmo — disse.

A frase ficou no ar, mais pesada do que qualquer confronto direto.

...

A explicação veio em partes, não como exposição direta, mas como reconstrução gradual de algo que já existia antes mesmo de Basco entrar naquele cenário. A EBX não era apenas um refúgio, mas uma estrutura organizada para proteger, treinar e, acima de tudo, ocultar mutantes brasileiros em um país onde a visibilidade poderia significar sentença.

— Xavier esteve aqui — disse Ivan, cruzando os braços. — Não oficialmente… mas o suficiente pra deixar isso funcionando.

Basco manteve o olhar fixo nele.

— E Magneto nunca mencionou.

Lucius respondeu dessa vez.

— Porque nem todo mundo joga o mesmo jogo — disse. — E nem todo jogo precisa ser público.

O silêncio que se seguiu não era de dúvida, mas de processamento.

Aos poucos, Basco compreendeu a dimensão do que estava diante dele. Encontrava-se a mais de duzentos metros abaixo das linhas do metrô paulistano, em uma instalação clandestina conhecida como EBX — Escola Brasil X. Segundo Tornado, a estrutura fora idealizada anos antes com auxílio discreto do Professor Charles Xavier, que visitara o Brasil secretamente e ajudara a estruturar o projeto. Diferente da Escola para Jovens Superdotados nos Estados Unidos, a EBX operava nas sombras, protegendo jovens mutantes brasileiros antes que o governo ou grupos radicais os encontrassem. Ali havia dormitórios, laboratórios, áreas médicas e até uma sala de treinamento inspirada na antiga Sala de Perigo, ironicamente apelidada de “Caverna do Perigo”.

Os corredores da EBX eram mais estreitos do que Basco esperava, mas carregavam uma sensação de propósito que contrastava com a precariedade aparente. Enquanto caminhava ao lado de Lucius, ele observava as paredes, os detalhes, as pessoas que cruzavam seu caminho, tentando entender até onde aquele lugar era abrigo… e até onde era esconderijo.

— Você ainda vai embora — disse Lucius, quebrando o silêncio.

Basco não se virou.

— E você já decidiu isso também?

— Não — respondeu ele. — Mas você ainda não confia o suficiente pra ficar.

Basco soltou um leve suspiro.

— Confiança não é exatamente algo que eu distribuo fácil.

Lucius assentiu.

— Nem deveria ser.

Basco parou de andar, finalmente se voltando para ele.

— Então por que você confia em mim?

A pergunta não era simples, e Lucius levou alguns segundos antes de responder.

— Porque você ainda se preocupa — disse. — Mesmo depois de tudo.

Basco franziu a testa.

— Você nem me conhece.

— Conheço o suficiente — retrucou Lucius. — Pessoas que já passaram do ponto não fazem o que você fez hoje.

Basco sustentou o olhar.

— E o que foi que eu fiz?

Lucius não hesitou dessa vez.

— Você poderia ter matado todo mundo naquele shopping — disse. — E não matou.

O silêncio que se seguiu foi diferente.

Mais estável.

— Eu não sei se isso me torna melhor — respondeu Basco.

Lucius deu um leve passo à frente.

— Não torna — disse. — Mas significa que você ainda tem escolha.

Basco caminhou pelos corredores da instalação, observando cada detalhe com atenção, tentando entender se aquilo era realmente um novo começo ou apenas mais uma variação do mesmo ciclo. Havia dormitórios, áreas de treinamento, laboratórios e espaços que sugeriam permanência, não apenas passagem.

— Você não confia — disse Isabelle, aproximando-se.

— Eu aprendi a não confiar rápido — respondeu ele.

Ela assentiu.

— Então fica — disse, com naturalidade. — Não pra confiar. Mas pra ver.

Basco a encarou por alguns segundos.

— E se eu não gostar do que ver?

Isabelle deu um leve sorriso.

— Então você vai embora — respondeu. — Mas, pelo menos, vai saber o que deixou pra trás.

O fato de Lucius ter ocultado sua identidade durante tanto tempo feria sua confiança, embora reconhecesse que ele próprio fizera o mesmo. Em um país onde ser mutante significava viver sob risco constante, talvez o segredo fosse apenas uma forma de sobrevivência.

Mais tarde, já distante da movimentação principal da base, Basco encontrou Lucius novamente, encostado em uma das paredes, observando algo que não estava visível para mais ninguém. Havia uma quietude nele que não era apenas calma, mas contenção.

— Você nunca desliga, né? — comentou Basco, aproximando-se.

Lucius sorriu de leve.

— Nem você.

Basco ficou ao lado dele, em silêncio por alguns segundos.

— Você acredita mesmo em tudo aquilo que lê lá no mosteiro? — perguntou.

Lucius pensou antes de responder.

— Eu acredito que o mundo é maior do que a gente entende — disse. — E que algumas coisas… não são coincidência.

Basco assentiu lentamente.

— Eu já vi coisas demais pra discordar disso.

O silêncio voltou, mas agora sem tensão.

— Sabe qual é a diferença entre a gente? — perguntou Lucius.

Basco olhou de lado.

— Qual?

— Você tenta fugir do que é — disse ele. — Eu tentei dar sentido.

Basco refletiu por alguns segundos antes de responder.

— E qual dos dois está certo?

Lucius deu um leve sorriso.

— Acho que nenhum — disse. — Mas talvez a gente descubra juntos.

Basco não respondeu imediatamente.

Mas, pela primeira vez em muito tempo…

Ele não quis ir embora.

E começou a parecer… uma possibilidade.