Cece Blue

8 O Pedido


Notas iniciais
Demorou mas saiu u.u Não pretendo mais parar de escrever

O silêncio e a escuridão que a envolviam eram quase palpáveis. Ela sentiu que flutuava suavemente, como se estivesse imersa em um lago cálido em uma noite sem lua. Então ela viu uma luz muito suave, muito bonita. Ela não sabia se a luz vinha de dentro dela, ou de algum lugar no meio da escuridão, ou se ela, a escuridão e a luz eram uma coisa só…

Então ela foi tomada por uma emoção muito forte, uma mistura de raiva, tristeza e pesar, seguidos de um medo terrível. Um sentimento de compaixão aqueceu seu peito, seguido por um amor tão grande, tão forte, que doía. Doía tanto que parecia que seu coração ia explodir, mas quanto mais doía, mais lhe parecia que o seu coração crescia.

Em algum momento em meio à dor ela sentiu que não estava sozinha... Essa sensação aumentou, e ela olhou para escuridão, procurando. A luz brilhou mais forte e, no meio daquele breu, um vulto começou a se formar.

— Quem é você? – perguntou Cece, o corpo todo tremendo de emoção.

E uma voz diferente de todas as vozes humanas que ela já ouvira, mas ainda estranhamente familiar, respondeu:

— Quem é você?

— Cece!

Uma outra voz, também familiar, estava chamando. Enquanto ela ouvia o chamado, o vulto ia desaparecendo.

— Não, espere! – Gritou a garota.

— Cece!

A voz que chamava estava mais alta, mais urgente.

Cece tentou correr na direção em que o vulto estava, mas seus passos não diminuíram a distância até ele.

— Espere, espere! – Gritou a garota, estendendo as mãos para tocar a figura evanescente. – Não vá!

Mas era tarde. Tudo estava escuro outra vez, mas dessa vez era uma escuridão fria e desagradável. Cece sentiu a cabeça girar; sentiu que caía em um chão frio como gelo. Ela abraçou o próprio corpo, tentando respirar... Mas parecia que o frio invadia seus pulmões, e ela se afogava nele.

— Não me deixe!

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— Cece! Cece!

O senhor Stormfield chamava desesperadamente o nome da filha, o rosto quase tão branco quanto o dela.

Ele havia lutado para soltar o pequeno Leward dos braços rígidos da irmã, e, depois de verificar rapidamente que a criança não estava com nenhum machucado sério, voltara sua atenção para a filha que estava inconsciente.

— Barbara! – Gritou ele.

A babá de Leward já vinha descendo as escadas correndo, e parou horrorizada com a cena.

— Sr. Stormfield! O que aconteceu??

— Barbara, leve Leo com você e não tire os olhos dele, ele pode estar machucado.

— Machucado?! – Barbara arregalou os olhos – Mas como?

E então ela rompeu em lágrimas.

—Me p-perdoe Sr. Stormfield! É tu… tudo minha culpa! E-eu fui ao banheiro e qu-quando voltei…

— Barbara, você pode pedir desculpas depois – cortou o Sr. Stormfield. – Agora leve Leward com você e não tire os olhos dele!

Barbara assentiu, apreensiva, e pegou o pequeno Leward, que chorava e se debatia no colo do pai.

— Shhh, calma pequenino, vai ficar tudo bem… shh… – fez ela, para acalmá-lo.

Enquanto Bárbara subia as escadas, Meg aparecia no hall, atraída pelo choro do garoto.

— Mas o que houve aqui?

Então seus olhos bateram em Cece, caída no chão.

— Cece! Cece! O que…

Ela correu para garota, mas o Sr. Stormfield ergueu a mão para detê-la.

— Meg, preciso que você ligue agora mesmo para o Dr Isaac. Diga a ele que dois dos meus filhos sofreram um acidente e ele precisa vir imediatamente.

— Um acidente? –– perguntou Meg alarmada, voltando seus olhos para Cece mais uma vez. – Patrão, o que…

— Depois eu explico, Meg! Vá agora! – disse o senhor Stormfield energicamente.

Ele voltou mais uma vez sua atenção para filha. Sua pele estava tão pálida que parecia ser feita de porcelana. Ele tomou seu pulso, apenas para ter certeza de que seu sangue estava correndo. Segurou uma das mãos pálidas entre as suas e beijou-a.

— Cece? – Chamou, suavemente.

Não houve resposta.

— Cece? – Chamou ele outra vez, a voz falha de medo.

Também não houve resposta, mas lágrimas começaram a brotar do olhos fechados da garota. O sr Stormfield se assustou ao perceber como a mão da filha estava fria. Ele tocou seu rosto e viu que estava frio como gelo. Em pânico, ele puxou o corpo da filha para si, esfregando vigorosamente seus braços, tentando aquecê-la.

— Cece! Cece! – chamou ele, as lágrimas aflorando.

Então ele ouviu uma voz fraquinha vinda da filha.

— Não me deixe…

O Sr. Stormfield abraçou a filha com mais força.

— Não vou deixar – disse ele, beijando-lhe a fronte. – Não vou deixar.


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— Mas tem que haver alguma coisa que possa fazer!

O Dr. Isaac suspirou antes de responder:

— Celia, é como já cansei de repetir: não há nada para tratar! Fisicamente ela está saudável como um touro!

— Então por que ela não acorda? – Perguntou a Sra. Stormfield pela milésima vez.

O Dr. Isaac inspirou pesadamente, exasperado. Ele olhou para aquela mulher, que não lhe dera um momento de paz desde que ele chegara naquela manhã.

Celia Stormfield estava usando uma camisola simples, embora já passasse muito da hora do almoço. Seus cabelos, normalmente impecáveis, pendiam soltos e emaranhados. Ela estava pálida, tensa, e tinha bolsas sob os olhos, vermelhos de tanto chorar.

Sua irritação foi substituída por uma terrível pena. Ele correu os dedos pelos cabelos e respondeu:

— É como eu havia explicado a vocês… o impacto causado pela queda nem de longe justifica a inconsciência da sua filha. Não houve nenhuma injúria séria derivada do acidente. Ela não tem nem mesmo um galo na cabeça. Fiz todos os exames possíveis, usando todas as técnicas que conheço. Me consultei com os melhores médicos do reino. Nenhum deles foi capaz de explicar o estado da sua filha. Eu não sei por que razão ela não acorda, mas…

Ele parou de falar. Aquilo era extremamente frustrante. Ele era um médico renomado, um dos melhores do reino inteiro, e gozava da confiança absoluta das maiores famílias nobres da região. Mesmo assim, não conseguia explicar para seus melhores pacientes por que a filhinha deles não acordava.

— Talvez não seja físico – disse uma voz rouca.

O Sr. Stormfield finalmente falara. Estivera sentado à cabeceira da filha o dia todo, sem dizer uma palavra.

— Ah, Edmund, o que você quer dizer? – Perguntou a aflita Sra. Stormfield.

— Talvez… talvez seja outra coisa. Algo que a medicina tradicional não poderia explicar – sugeriu o Sr. Stormfield, quase sussurrando.

— Você está se referindo a… mas por que você pensaria isso? – O Dr. Isaac estreitou os olhos com desconfiança – Há alguma coisa sobre esse acidente que você “esqueceu” de mencionar, Edmund?

— Bom…

O Sr. Stormfield desviou os olhos para o rosto da filha, bem a tempo de vê-la piscar.

— Ela piscou! – Anunciou ele em voz alta.

Os outros dois acorreram à cama.

— Cece, querida, é o papai. Se puder me ouvir , por favor abra os olhos – disse Edmund suavemente, próximo à cabeça da filha.

Cece abriu os olhos lentamente, mas suas pálpebras ainda estavam pesadas. Ela piscou várias vezes até conseguir manter os olhos abertos. Erguendo o tronco, ela deu um enorme bocejo.

— Mamãe? Papai? – Chamou, esfregando os olhos. – E… Dr. Isaac? O que houve?

Todos suspiraram aliviados. A Sra. Stormfield atirou-se sobre a filha e abraçou-a, soluçando.

— Ai! Mamãe! Mamãe, por que você está chorando? – Perguntou a garota, surpresa.

Lágrimas silenciosas corriam pelo rosto de Edmund. Ele pegou a mão da filha entre as suas e levou-a até o rosto, onde beijou-a com carinho e, apoiando a testa na mãozinha branca, ele fechou os olhos e agradeceu silenciosamente.

— Celia, deixe a minha paciente respirar! – Brincou o Dr. Isaac.

A Sra. Stormfield beijou várias vezes o rosto da filha antes de se levantar da cama.

— Celia, Edmund, sei que estão muito felizes por Cece ter acordado, mas devo pedir que se afastem um pouco para que eu possa examiná-la. É apenas um procedimento padrão – tranquilizou ele –, tenho certeza de que ela está muito bem.

Celia assentiu e foi se juntar ao marido, que se levantara e estava parado a poucos passos da cama. O Sr. Stormfield abraçou a mulher, que se aninhou em seu peito, mas olhava tenso para o Dr. Isaac, que se inclinara para Cece e começava a examiná-la.

— Muito bem, Cece, agora diga “Aaaah” – pediu o médico, estendendo um abaixador de língua.

A garota obedeceu, um pouco confusa.

— Anh… Dr. Isaac? – Disse timidamente,enquanto ele tomava seu pulso. – Por que o senhor está me examinando?

— Ora, então você não se lembra?

Cece sacudiu a cabeça em negativa.

— Bom, você sofreu um acidente há quatro dias – disse ele calmamente. – E está dormindo desde então.

— Quê? Sério???

— Estávamos tão preocupados, querida – fungou a Sra. Stormfield.

— Mas, o que aconteceu? – Perguntou a menina, olhando para os pais.

— Seu pai disse que você salvou seu irmão de uma queda enorme – a Sra. Stormfield sorriu com carinho. – Você é uma heroína!

— Salvei… o meu irmão?

— Eu soube que sim – Respondeu o Dr. Isaac, sorrindo. – Você lembra de alguma coisa daquele dia?

Cece fechou os olhos, tentando se concentrar… ela estivera cavalgando pelo clube… conhecera alguém… estava realmente animada com alguma coisa… chegou em casa e então… Leward estava caindo… ela nunca chegaria a tempo de pegá-lo… um flash de luz azul… ela sentiu o peso de Leward em seus braços e depois…

— Eu… – começou a garota.

Pelo canto do olho, ela viu seu pai acenar discretamente com a cabeça. A menina franziu o cenho. Seu pai não queria que ela falasse com o Dr. Isaac?

Ela sacudiu a cabeça.

— Desculpe, mas não lembro de nada – disse, por fim.

O Dr. Isaac estreitou os olhos novamente. Olhou de relance para o Sr. Stormfield, mas este estava impassível. Por fim, deu um sorriso penoso.

— É uma pena Cece. Isso poderia nos ajudar a entender o que realmente houve com você.

— Sinto muito – disse a garota, abaixando os olhos e encarando as próprias mãos.

O Dr. Isaac deu uma risada seca.

— Ora, mas não é sua culpa, é? – Perguntou sorrindo, porém com os olhos faiscando de desconfiança. – Até onde eu posso dizer, você está ótima. No entanto, devo pedir que procure repousar nos próximos dias. Seus pais ficarão de olho em você por mim.

O médico se levantou e dirigiu-se à escrivaninha de Cece, onde deixara sua maleta, chapéu e casaco. Recolhendo-os, ele se dirigiu ao casal que continuava parado a poucos passos da cama da filha.

— Edmund, Celia – Disse, estendendo a mão para o Sr. Stormfield – Não exitem em me chamar caso algo mais ocorra. – Ele curvou-se levemente para a Sra. Stormfield. – Edmund, faria a gentileza de me acompanhar até a porta?

O Sr. Stormfield engoliu em seco, mas respondeu da forma mais leve que conseguiu.

— Mas é claro.

Ambos desceram as escadas em silêncio. Ao chegarem ao hall, o médico olhou para os lados e parou, puxando o Sr. Stormfield levemente pelo braço.

— Edmund, eu não sei o que houve com a sua filha, mas não foi algo natural.

O Sr. Stormfield enrijeceu, mas permaneceu calado.

— Se você sabe de algo que não está me contando… bom, isso poderia complicar as coisas para você e sua família.

— Eu disse a você tudo o que sei. – Respondeu Edmund, inflexível.

— Talvez… talvez você tenha deixado passar alguma coisa, algo que não pareceu importante ou que não fez sentido…

— Isaac, eu sei que o caso da minha filha foi… incomum. Mas eu realmente dei todas as informações que tinha. As coisas aconteceram muito rápido, e, como eu disse, ela bateu a cabeça com força no chão. Tenho certeza de que todo o resto foi derivado disso.

O Dr. Isaac fitou o outro por alguns instantes, procurando por algum sinal de fraqueza. Por fim, bufou e disse friamente:

— Entendo… bom, acho que há coisas que a medicina não pode explicar.

O Sr. Stormfield deu um sorriso tenso.

— Acho que sim. Isaac, se não se incomoda, eu preciso voltar para cima. Esses dias foram muito difíceis para a minha família, e quero ficar junto deles agora.

— Claro, Edmund, claro… se me der licença…

Apesar do que dissera, Edmund se deixou ficar no hall depois que o médico se fora. Por ora, estava aliviado por tudo ter acabado. Estivera a ponto de revelar o que vira no dia em que Leward caíra do primeiro andar. Será que fiz a coisa certa? Se eles soubessem… se desconfiassem… o que fariam com ela?

Ele subiu as escadas, rezando para que o Dr. Isaac mantivesse suas desconfianças para si.


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Passava muito da meia noite mas Edmund ainda não conseguira ir se deitar. Estava feliz por que sua filha estava bem, mas não conseguia deixar de se preocupar com o que viria a seguir. Você está se preocupando à toa. Nada aconteceu ainda… talvez nada aconteça. Mas ele não conseguia tirar a conversa com o médico da cabeça. Ele com certeza desconfia de algo. Mas o que ele faria? Seriam suas suspeitas sérias o bastante para que ele as reportasse? Ou ele deixaria para lá? Afinal, tudo o que ele tem é uma garota que bateu a cabeça e desmaiou. Isso poderia acontecer, não poderia?

O Sr. Stormfield se espreguiçou em seu cadeirão. Não adiantava nada ficar se preocupando. Talvez nada acontecesse. Ele precisava se recompor e agir com naturalidade, ou só atrairia mais suspeitas. Ele respirou fundo. Era melhor ir se deitar.

Ele deixou o escritório, fechando a porta atrás de si. Passou pela sala de estar, atravessou o hall e começou a subir as escadas em direção ao seu quarto, onde esperava encontrar a esposa adormecida. Mas ele não chegara a subir três degraus quando ouviu uma batida à porta.

Edmund sentiu o sangue gelar. Quem poderia ser àquela hora? Ele respirou pesadamente, tentando se acalmar. Talvez fosse melhor ignorar e ir se deitar. Como se tivesse lido seus pensamentos, a pessoa à porta bateu mais uma vez, dessa vez mais alto. O Sr. Stormfield desceu imediatamente e abriu a porta. Do outro lado estava William Buster. Ele sorriu quando Edmund abriu a porta.

— William! – Exclamou o Sr. Stormfield, ligeiramente surpreso.

— Olá Edmund. Que bom encontrar você acordado.

— A que devo o prazer desta visita tão tardia? – Edmund tentou soar despreocupado, a despeito do frio que sentia na espinha.

— Infelizmente não venho como visita hoje, Edmund. Estou aqui como mensageiro.

— Mensageiro de quem? – Perguntou o Sr. Stormfield, tenso.

— Do exército, meu amigo. O Marechal Stormhold me enviou em pessoa para fazer lhe fazer um pedido. E então, posso entrar?

Engolindo em seco, Edmund se afastou para dar passagem ao General.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.