Cecília.

1 Pela estrada a fora, eu vou bem sozinha...


Notas iniciais
Início do ano dá uma vontade de voltar às origens, não?

E, por hora, acho que minhas origens são paródias infantis, então eis me aqui!

Tá bom que nem é tão início do ano mais... É nisso que dá ficar quebrando a cabeça com Peter Pan! Não dá para insistir no que não funciona...

Talvez outro dia.

Enfim, espero que goste!

Era uma vez uma bela garotinha voltando tranquilamente para casa depois de ir ao mercado. Ok, talvez “bela” não fosse bem a definição. Ela tinha cabelos oleosos, era baixinha demais, tinha espinhas e usava óculos fundo de garrafa, mas o que conta é a intenção, não? E a baixinha com certeza tinha atitude! E um senso de moda duvidoso... Mas vamos nos focar na atitude. Por enquanto.

Ela queria muito ir à uma festa (na verdade, ela só queria sair sozinha, mas a festa era o pretexto) e, no caminho para casa, ensaiou um milhão de vezes o discurso que faria para a mãe antes de pedir permissão. Era uma verdadeira obra de arte da dramaturgia: começava com ela ressaltando como havia se comportado ultimamente, como suas notas estavam boas, como ela gostaria de uma pausa para se divertir um pouquinho... Depois entrariam alguns argumentos de como é dever dos pais dar mais responsabilidades aos filhos e de como ela já era responsável e capaz de se virar. Por fim, viria o grande pedido: “Posso ir para a festa de aniversário da Cecília hoje sozinha?”

Seria a primeira vez que a garota tentaria ir para qualquer lugar desacompanhada dos pais e, por isso, ela estava receosa que sua mãe não lhe permitisse. Ela até elaborou um belo discurso digno de um prêmio da literatura, mas, infelizmente, se esqueceu de considerar um detalhe: o olhar paralisante de sua mãe.

A cena a seguir não é recomendada para adolescentes, pré-adolescentes ou jovens adultos com alma adolescente que tiveram algum pedido negado pelos pais recentemente por motivos de poder desencadear traumas. Ao persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado.

— Manhê... — A garota começou e sua mãe já a olhou com suspeita. Nunca era coisa boa quando a conversa começava com “manhê”.

— O que você quer? — Como podem ver, a mulher é um amor de pessoa.

— Nossa, mãe. Isso é jeito de falar com sua filhinha?

— É sim, quando ela está fazendo essa voz manhosa. Diz logo o que você quer. Não é dinheiro, né? Já gastou sua mesada e não vai ganhar mais.

— Puxa, mãe, você pensa isso de mim...? — A garota tentou jogar um pouquinho de charme e, quando foi recebida pelo olhar impaciente da matriarca, engoliu em seco. — É que vai ter a festa de aniversário da Cecília e—

— E nada. Você não vai. Ponto final.

— Ah, mãe! Por que não?!

— A Cecília? Sério? E você ainda pergunta?

De fato, Cecília não era uma pessoa muito popular na vila. Cecília, a secundária, como era chamada, servia única e exclusivamente para preencher espaços e arrumar pretextos. Ela não tinha personalidade o bastante para ser alguém interessante e ninguém nunca se importou com o que ela faz da vida. Afinal, todo mundo só liga para os protagonistas, quem se importa com a eterna secundária? Além do mais, o “eterno secundarismo” dela a fez ser mal vista pelas outras pessoas porque, bem, como confiar em um secundário? Nunca se sabe nada sobre eles. Enfim, acho que essa explicação já tomou tempo demais da sua vida. De volta ao diálogo:

— É, mãe, eu sei... Mas esse não é o ponto, é que eu quero ir sozinha! Você nunca me deixa ir sozinha pra lugar nenhum!

— Ora, isso não é verdade....

— O mercado não conta! Ele é quase ao lado da nossa casa!

— Hm... — A mulher parou para pensar um segundo. De certa forma, sua filha estava certa... Talvez fosse hora de dar um pouco mais de responsabilidade para ela. — Tudo bem, vamos fazer um teste. E se eu te deixar levar doces para a sua avó sozinha?

— Sério?! — A garota se animou. — Mas... Mãe, você vai mesmo me deixar ir para a casa da vovó sozinha, mas não para a festa da Cecília?

De certa forma, era um bom questionamento. Afinal, a casa da avó ficava do outro lado da floresta, enquanto a de Cecília ficava na vila perfeitamente segura. Sua mãe realmente a deixaria ir passar por uma floresta sem supervisão alguma, mas não ir para uma festa de aniversário?

— Eu não confio naquela menina...

— Ah, tudo bem então. — A garota deu de ombros, ela não era realmente muito chegada à Cecília. — Ninguém nunca vai para as festas dela mesmo. Quando eu posso sair?

— Agora mesmo, deixa só eu preparar a cesta de doces.

— Tá bem.

Enquanto a mãe arrumava a cesta, a garota foi se arrumar. Afinal, para visitar a querida avó, ela queria estar com sua melhor roupa, não com o vestidinho sem graça com o qual foi ao mercado!

Aliás, acho que devia comentar, a garota é conhecida como “Chapeuzinho Vermelho”. Já está ficando irritante eu me referir a ela apenas como “a garota”, não? Afinal, ela é a protagonista. Diferente da Cecília, aquela sem graça...

Enfim, Chapeuzinho Vermelho colocou sua roupa favorita: uma camiseta com estampa de emoji, uma calça jeans boca de sino, uma alpargata listrada, os sempre presentes óculos fundo de garrafa, uma capa vermelha de super-herói e, para combinar, sua peça essencial, uma cartola vermelha.

Ela se olhou no espelho satisfeita. Aquilo era muito melhor que o vestidinho sem graça de ir ao mercado! Por ela, ela iria ao mercado com sua cartola vermelha e capa, mas sua mãe a proibiu porque as pessoas do mercado ficavam olhando estranho para ela... Mas, para passar pela floresta, que problema teria? Não é como se alguém pudesse vê-la e julgá-la silenciosamente lá.

Quando Chapeuzinho era menor e foi escolher roupas sozinha pela primeira vez, sua mãe tentou convencê-la a levar a capa com capuz vermelho no lugar, mas ela rejeitou a ideia porque achava “Capuzinho Vermelho” um apelido ridículo e, além do mais, já tinha se apegado à cartola... Sua mãe argumentou que ela poderia ser chamada de “Chapeuzinho Vermelho” e ainda usar um capuz, mas Chapeuzinho Vermelho apenas disse que aquilo não faria sentido nenhum e ficou com a cartola. Afinal, a cartola dava um ar mais imponente... Mas ela gostou bastante da capa que vinha junto com o capuz, então decidiu levar uma capa vermelha também, como as de super-heróis.

Depois desse dia, sua mãe aceitou que ela tinha zero senso de moda. Ou senso de ridículo. Ou bom senso.

Enfim, de volta à história:

A mãe de Chapeuzinho, ao ver o “visual” da filha, apenas revirou os olhos, já conformada, e entregou a cesta à ela.

— Tchau, mãe!

— Espera aí! Onde você pensa que vai? Não vai sair antes de ouvir todas as instruções!

— ... Tá bom, mãe... — Chapeuzinho só aceitou, desejando que houvesse um botão “li e aceito os termos de uso” na vida real, assim ela poderia sair logo dali.

— Muito bem: não coma nenhum doce, são da sua avó! Não fale com estranhos. Não se desvie do caminho. E é pra pegar aquele que passa pela vila, viu? Não quero você se embrenhando sozinha no mato.

— Tá bem, mãe, entendi. — Chapeuzinho revirou os olhos. “Não faça isso”, “não faça aquilo”, “não vá por lá”, “vá por ali”.

*

Chapeuzinho andou alegremente até a floresta. Era tão emocionante! A primeira vez que ela ia passear sozinha! Ela estava se sentindo tão adulta... Isso é, até que ela viu a placa na entrada da floresta. Depois disso, a animação desvaneceu um pouco.

A placa indicava as trilhas existentes para passar pela floresta. A primeira, que sua mãe recomendou, passava sempre pelas margens da floresta, nunca entrando realmente, e tinha a previsão de 2 horas de caminhada. 2 horas! 4 no total, se contar ida e volta... Quem tinha tempo e disposição para uma caminhar 4 horas?!

A segunda passava por dentro da floresta, fazendo algumas curvas aqui e ali, e tinha o tempo previsto de 1 hora e 15 minutos de caminhada. Bem mais aceitável...

Havia ainda uma terceira, com o caminho praticamente reto, com o tempo previsto de 50 minutos. Mas essa era só para profissionais, pois passava por alguns lugares bem desagradáveis... Não era apenas uma caminhada comum, envolvia escalada, obstáculos e outras coisas desaconselháveis para amadores. Tinha até uma caveira e um ponto de exclamação perto dessa trilha!

Chapeuzinho Vermelho ponderou por alguns instantes. A primeira trilha parecia um tédio e levava 2 horas inteiras! Mas ela não era louca o bastante para a terceira e não tinha tendência suicidas, obrigado por perguntar. Por isso, decidiu ficar com a segunda. Qual é o problema em entrar um pouquinho na floresta? Ainda era apenas uma caminhada. E uma mais curta!

A garota entrou na floresta tranquilamente, saltitando por aí com suas alpargatas, carregando a cestinha e ouvindo música em seu MP3 Player (com fones de ouvido, claro). Afinal, ela que não ia pagar o mico de sair por aí cantando “pela estrada a fora, eu vou bem sozinha levar esses doces para a vovozinha”. Quem em sã consciência sai por aí anunciando que está sozinha no meio de uma floresta e para onde está indo?

Infelizmente, saltitar no meio de uma floresta enquanto está com fones de ouvido não é uma boa ideia porque, bem, distrações e caminhadas na floresta não combinam... Chapeuzinho Vermelho tropeçou numa raiz e caiu de cara no chão.

Sim, doeu.

A garota, no chão, teve como o primeiro impulso pegar sua cartola de volta, limpá-la e coloca-la sobre a cabeça (cada um com as suas prioridades...), depois pegou de volta a cestinha que, por sorte, não estragou na queda e só então deu por falta dos óculos. Isso explicava por que o mundo estava tão borrado naquele momento! Chapeuzinho, no começo, pensou que tinha batido a cabeça e isso era efeito da tontura. Perder os óculos fazia mais sentido...

Por sorte, ela os achou. Por azar, eles haviam batido em pedras e caído numa poça de lama. Estavam sujos, com as lentes rachadas e arruinados de modo geral... Chapeuzinho pensou em suas opções: voltar para casa e admitir para sua mãe que não conseguiu nem ir para a casa da avó sozinha (e provavelmente ouvir um “eu te avisei”) ou insistir em ir para a casa da avó mesmo sem os óculos.

Ela decidiu que a última opção era a mais sensata. O que poderia dar errado? Pelo menos ela manteria o orgulho intacto!

Afinal, não seria algo tão simples como 12 graus de miopia, 9 graus de astigmatismo e 11,5 graus de hipermetropia que ficariam entre ela e o sonho de ir para algum lugar sozinha.

Enquanto ela andava, destemida, para completar sua jornada, ela foi abordada por alguém. Era difícil dizer quem porque, do ponto de vista dela, era apenas um grande borrão que se movia e falava.

— Olá, garotinha. — O grande borrão cumprimentou.

— Ah... Oi. — Tecnicamente, ela pensou, sua mãe a proibiu de falar com estranhos, não de responder estranhos que falavam com ela...

— Onde você vai, garotinha?

— Chapeuzinho Vermelho.

— ...Quê?

— Me chama de “Chapeuzinho Vermelho”, não de “garotinha”. Eu não sou uma garotinha! Já posso até ir para a casa da vovó sozinha!

— Oh, que interessante... E sua avozinha mora muito longe? Não gostaria que eu te acompanhasse?

— Tá doido? Eu nem sei quem você é!

— Eu sou o Sr. Lobo. Prazer. — Ele estendeu a mão e ela o cumprimentou.

— Ah, que legal... Mas a resposta ainda é não, obrigada! Eu consigo chegar na casa da minha avó do outro lado da floresta completamente isolada do resto da vila sem a sua ajuda!

— Aham... Isso foi bem... Específico. Obrigado.

— Disponha! Espera aí... Você não é um lobo de verdade, é? — Chapeuzinho perguntou para o borrão falante.

— Quem? Eu? Imagina...

— Ah, tá bom então. Tchau!

— Tchau, Chapeuzinho. Foi um prazer te encontrar aqui...

O que a Chapeuzinho, ao ir embora, não imaginava, é que o Lobo tinha preferências culinárias peculiares: avós isoladas e netinhas míopes. Ela também não contava que o Lobo era um excelente atleta, um escalador de primeira e experiente em trilhas. Ele, portanto, conseguia ir pelo caminho mais curto e perigoso (aquele com a caveira e o ponto de exclamação) e chegar à casa da vovó antes dela!

Mas quais são as chances de ele decidir fazer isso, não é mesmo?

Aparentemente, eram chances muito altas.

*

O Lobo correu feito um maratonista condenado e chegou com muito tempo de sobra. Aliás, ele chegou com tanto tempo de sobra que, antes de bater à porta da casa da vovó, ele parou para recuperar o fôlego, bebeu uns goles d’água, fez um alongamento, tomou um banho para tirar o suor do corpo, se secou e, só então, foi bater à porta.

Enquanto isso, Chapeuzinho Vermelho avançava lentamente pela outra trilha. Ela até queria ir mais rápido, mas sempre tropeçava em algo no caminho, então achou mais sensato andar devagar e com cuidado.

De volta ao Lobo e à vovó:

Toc toc.

— Quem é?

— Sou eu, Chapeuzinho Vermelho, sua netinha. — O Lobo fez a voz mais fina que conseguia.

— Eu sou velha, mas não sou burra. Quem é?

— Uh... Testemunha de Jeová para espalhar a palavra do Senhor?

— Boa tentativa, mas eles sempre vêm em dupla. Quem é?

— Vendedor ambulante?

— Não estou interessada.

— Ah! Abre essa maldita porta logo! — O Lobo deu um soco na porta e essa se abriu com facilidade. — Espera aí, a porta estava aberta esse tempo todo?

— Ora, porta fechada não é porta trancada. Mas quem é você afinal? Não me parece um vendedor.

— Ora, minha querida, eu sou o Sr. Lobo. — Ele sorriu e a abocanhou.

*

Depois de quase 3 horas, Chapeuzinho Vermelho chegou à casa da vovó.

Seria melhor ter ido pelo caminho mais longo...

Ela bateu à porta e foi prontamente respondida:

— Pode entrar, minha netinha. — Disse o lobo com uma voz fina forçada.

— Uh... Vovó? Sua voz está estranha.

— É que eu peguei uma gripe e estou rouca, minha netinha.

— Ah, tá bom então. — Ela sorriu e entrou, avistando logo um borrão deitado na cama com uma parte rosa no borrão que, provavelmente, era a camisola favorita de sua avó.

— Como é bom te ver, minha netinha.

— É, é bom te ver também vovó. — Ela mentiu. Sua avó não precisava saber que ela era quase cega sem os óculos... Talvez 12 graus de miopia, 9 graus de astigmatismo e 11,5 graus de hipermetropia fossem o bastante para impedir que ela saísse de casa... Mas Chapeuzinho nunca teve muito bom senso mesmo. — Eu ia te trazer doces, mas, sabe como é, passei três horas andando e fiquei com fome... Eu sinto muito mesmo!

— Não se preocupe, netinha, eu já jantei... — O Lobo sorriu malicioso, não que a garota pudesse ver.

— Ah, que bom! — Chapeuzinho chegou mais perto e acabou notando, vagamente, os olhos arregalados e famintos. — Vovó, mas que olhos grandes você tem!

— Ah, é pra te ver melhor, minha netinha...

— Ah tá. Mas que orelhas grandes você tem...

— É pra te ouvir melhor, minha netinha.

— Eh... Aproveitando que estamos falando disso, que dentes grandes você tem, vovó!

— É para te c.... — O Lobo se conteve. Não seria bom fazer um escândalo quando ele podia simplesmente atacar a garota pelas costas. — Digo, é minha nova dentadura modelo Plus 2.000 Super X 37. Nova edição.

— Ah, faz sentido... Mas como você é peluda, vovó.

— Ah, netinha, é que eu sou feminista e não acredito em depilação. — O Lobo explicou entredentes, já perdendo a paciência com aquela garotinha tonta.

— Oh... Mas, vovó, como você é musculosa! Parece até uma maratonista, excelente atleta, escaladora profissional e experiente em trilhas, e não uma velhinha.

O Lobo respirou fundo e, com toda a calma que possuía, rasgou a camisola em milhões de pedacinhos e pulou na direção de Chapeuzinho com os dentes arreganhados.

— Quer saber? Dane-se isso! Dane-se você! Dane-se esse disfarce! Eu sou o Sr. Lobo e eu vou te devorar!

A garota então, com toda a sua compostura, começou a correr às cegas e gritar por sua vida.

Foi nesse momento que, do nada, um homem invadiu a casa com um grande machado.

— Não se preocupe, garotinha, eu te salvarei!

— Tá, mas... Quem diabos é você?

— Eu sou o lenhador, ora! Estava passando por perto e te ouvi gritar e—

— Tá bom, não pedi a história da sua vida, só dá um jeito nisso! — Ela gritou enquanto ainda corria do Lobo.

— Tá bom, tá bom. — Ele foi atrás do Lobo com seu grande machado e o Lobo, instintivamente, esqueceu a garotinha para fugir. Afinal, ele já tinha jantado a vovó e não era louco ou suicida o bastante para se arriscar com um machado por uma mera sobremesa!

Infelizmente, o caçador não ia deixar isso tão fácil.

— Aonde pensa que vai, besta? Ainda tenho que tirar a pobre vovó de dentro de você!

— Eu hein cara... A velhinha já era, foi digerida! Você não pode mudar isso!

— É o que veremos! — O caçador se preparou para abrir a barriga do Lobo.

E então um apito agudo e ensurdecedor foi ouvido.

Prrrrrrriiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!

— Parados aí! — Um policial, aparentemente surgido do nada (não que ele seja o primeiro... O caçador já fez esse truque antes) pôs um fim à balbúrdia e mandou todo mundo ajoelhar no chão. — Todo mundo vai comigo para a delegacia!

— Mas, seu guarda... — Todos disseram ao mesmo tempo.

— Sem “mas”! Todo mundo vai comigo! Agora!

—.... Tá bom então.

No fim, todos foram julgados por um tribunal competente e sentenciados conforme a lei achou melhor.

O Lobo foi sentenciado por homicídio, roubo de identidade e invasão a propriedade privada. Mas, como ele era uma espécie ameaçada e tinha o atenuante de ter matado a vovó por estar com fome, já que, com o progresso da cidade sobre a floresta, todas as suas presas habituais foram espantadas, sua sentença foi mais leve. Em vez de pegar prisão perpétua num canil sem direito a atenuação por bom comportamento, ele foi apenas mandado para um santuário de lobos em outro país. O Lobo não gostou muito da ideia de ser obrigado a conviver com lobos comuns que sequer podiam falar ou andar sobre duas patas ou recitar Shakespeare, mas, diante das outras opções, aceitou de bom grado.

O caçador foi sentenciado por invasão de propriedade privada, porte de arma branca e crime ambiental (o Lobo era uma espécie ameaçada afinal...). Ele tentou argumentar que o Lobo, uma vez que possuía consciência, falava e distinguia o certo do errado, não devia ser tratado como um mero animal. Assim, ele deveria ser indiciado apenas por autodefesa, pois tentou matar o Lobo para se proteger e proteger os outros de uma ameaça potencialmente mortal. Seu apelo foi negado porque o mundo é injusto e ele acabou passando algum tempo na prisão, além de fazer serviço comunitário.

Chapeuzinho Vermelho ainda era menor de idade, então sua mãe respondeu por abandono de incapaz e perdeu a guarda da filha. Chapeuzinho Vermelho passou a morar com o pai que, até o momento, não foi citado na história.

Nada disso teria acontecido se Chapeuzinho Vermelho tivesse simplesmente ido para a festa da Cecília...

Fim.

Moral aceitável 1: Se você é avô ou avó, evite morar no meio do mato e isolado de toda a civilização. É seu direito morar onde bem entender, mas pode não ser a melhor escolha...

Moral aceitável 2: Preste atenção às aulas de literatura. Nunca se sabe quando se pode usar esse conhecimento para turbinar seus pedidos e transformá-los em obras de arte dramatúrgicas (com maiores chances de aprovação).

Moral aceitável 3: Se você ignorar a Moral Aceitável 1, pelo menos se lembre de fechar a porta.

Moral aceitável 4: Policiais podem surgir do nada, então cuidado com o que você anda fazendo!

Moral aceitável 5: Ninguém liga pra Cecília... Não, não é uma moral, eu só queria lembrar isso mesmo...

Agora sim. Fim.

Notas finais
Bye
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!