O clima na sala estava carregado, e o incessante ir e vir da mulher apenas intensificava a tensão. Ela estava demasiado nervosa para articular claramente o que pensava sobre os recentes tremores. Toda a dimensão mágica estava em tumulto, e todos os reinos, até mesmo os mais distantes, sentiram o abalo originado da Dimensão Ômega.

— Faragonda, acalme-se — disse Saladin com serenidade, o único ali a manter alguma racionalidade. — Essa ansiedade não contribuirá em nada.

— Saladin, você tem noção do quão grave é um tremor vindo da maior prisão mágica do mundo? Alguém poderoso pode ter escapado, precisamos descobrir quem — respondeu Faragonda com ansiedade, enquanto recebia a atenção dos reis e rainhas que haviam participado da Companhia da Luz no passado.

— Onde está a guardiã da Dimensão? — perguntou Radius aos reis de Andros. A entrada da Dimensão Ômega estava em seu reino, e eram as sereias que a protegiam.

— As sereias não viram nada, Radius — disse Niobe, rainha de Andros. Seu marido, Teredor, era o rei e irmão de Netuno, o rei dos mares. A família real de Andros tinha profundas conexões com o mundo sereiano. Andros ainda era o único reino que abrigava as sereias.

— Aliás, a entrada em Andros está muito bem lacrada, não houve nenhum vórtice mágico saindo de lá — completou Teredor, seguro do que dizia. De fato, ele estava correto, pois antes mesmo de serem convocados à reunião, haviam se encontrado com as sereias e esclarecido o que ocorria na Dimensão Ômega.

Todos os olhares se voltaram para Amália, que estava com os olhos fechados, os braços parcialmente cruzados, a expressão cansada e uma das mãos repousada na têmpora. Sua mente estava em profunda conexão com a de Sasha há horas. A guardiã estava adormecida, após a dor ter cessado, e desde então Amália tentava decifrar o turbilhão de informações que havia passado pela mente da esverdeada.

— Amália — chamou Faragonda, mas ela não respondeu, ainda concentrada no fluxo.

Sua mente girava em um turbilhão de informações, tornando impossível ouvir o mundo exterior. No entanto, a mão fria de Alice tocando seu braço fez com que ela abrisse os olhos, assustada, enquanto suas íris brilhavam com um arco-íris.

— Está tudo bem — sussurrou Alice, acenando na direção dos outros.

Amália suspirou e assentiu, voltando-se para aqueles que esperavam uma resposta. Mas qual era a pergunta mesmo? Se é que havia sido feita alguma.

— Desculpe, do que precisam? — perguntou ela, cansada, piscando algumas vezes para certificar-se de que seus olhos haviam retornado ao normal e que seus poderes estavam sob controle.

— Está tudo bem, querida? — perguntou Luna cordialmente, e Amália assentiu com um sorriso fraco. — Uma de vocês é a guardiã da Dimensão Ômega. Ela sabe dizer de onde veio o tremor?

Amália permaneceu em silêncio por um momento, avaliando o rosto de Luna. Aquela mulher era tão gentil, e a loira tinha certeza de que a outra estava genuinamente preocupada com seu mundo. Aliás, era essa a preocupação de todas as escolhidas: com seu mundo, não aquele em que estavam, mas aquele de onde nunca deveriam ter saído.

— A Dimensão Ômega possui duas entradas. Uma está em Andros, a parte mais superficial, onde vocês aprisionam seus renegados, e a outra estava em Atlantis.

— Estava? — Marion parecia confusa. Na verdade, todos estavam. Se Amália citou o passado, então não deveria mais existir, certo? Errado. Mesmo assim, a loira confirmou com um aceno.

— A entrada na parte profunda da dimensão pertencia a Atlantis, e a família de Sasha era a guardiã dela. Mas essa entrada não deveria existir mais.

— Aparentemente, ela existe e alguém escapuliu de lá. — Radius exasperou-se, fazendo Amália resmungar. A irritação constante daquele homem era um mistério para ela. Não entendia como Stella e Luna conseguiam suportá-lo.

— Atlantis se perdeu no oceano infinito, aquela entrada não existe mais — Amália replicou, assustando Radius o suficiente para fazê-lo recuar um pouco.

Ela fechou os olhos e respirou fundo. Sentia-se culpada por sua brusquidão, mas a situação era excepcionalmente perturbadora. Quando Atlantis foi destruída e se perdeu no oceano infinito, tudo que existia nela foi obliterado. Não havia mais nada, e jamais poderia ser utilizado. Mas ali estavam eles, lidando com um fugitivo enquanto duvidavam de toda a história que tinham.

Amália suspirou, sentindo a mão de Alice tocar seu ombro esquerdo, e apenas assentiu. Precisava relaxar, precisava descansar. Havia passado muito tempo no fluxo, e isso estava começando a afetá-la.

— Excedi-me. Perdoe-me, Rei Radius — suspirou, e o homem apenas assentiu, compreendendo que todos estavam estressados e que a situação precisava ser tratada com calma.

— Vocês conseguem dizer quem escapou? — perguntou Erendor, o rei de Eraklyon.

— Infelizmente, não. As visões da guardiã da Dimensão Ômega ainda são confusas, e não consigo encontrar uma ordem no fluxo. Só há magia e destruição, algo de grande magnitude — Amália expressou sua frustração, um sentimento compartilhado por todos. O mal estava à espreita, e eles mal sabiam o que enfrentariam.

A mulher se remexeu na cama, seus olhos se abriram em um verde brilhante. Enquanto o garoto a encarava assustado, ela segurava a mão dele, que estava com um pano úmido, usando-o para abaixar a febre repentina dela.

— Sasha, sou eu, Philipe — disse o loiro, fazendo-a piscar e assentir, soltando o braço dele lentamente.

Ela ainda estava assustada, não pela presença dele, mas pelo que acabara de ver. Olhando de um lado para o outro, procurou alguma de suas amigas, mas não havia nenhuma delas ali, apenas Philipe.

— Precisa avisar a elas — murmurou Sasha, sua voz fraca e cansada.

— Avisar o quê? — Philipe perguntou, colocando o pano na testa dela enquanto a via relaxar, exausta demais para permanecer acordada.

— Eles estão vindo, mas... não é o pior de tudo — Sasha engoliu com dificuldade. A porta se abriu, mas a mulher não abriu os olhos para ver quem era. — Ogron está com eles. Precisam tirar o Dean daqui.

Philipe olhou para Kimmie, que tinha os olhos ardendo de raiva. A mulher deixou imediatamente o quarto e correu até a sala de Faragonda. Tinha sorte de ser no mesmo andar, e não demorou a encontrar e adentrar o recinto, atraindo a atenção de todos para ela.

— Senhorita Kimberly — repreendeu-a Griselda, ultrajada.

O olhar de Kimmie se conectou ao de Amália, e elas não precisaram trocar palavras. A outra já sabia, havia acabado de ver o que Sasha viu, e a presença de Kimmie apenas confirmou que o fluxo estava correto.

— O que há? — perguntou Oritel, observando-as.

— Sabemos quem escapuliu da Dimensão Ômega — suspirou Amália, cansada.

Novamente, todos na sala olharam de uma para a outra, esperando que elas finalmente se pronunciassem e encerrassem aquele suspense. Elas hesitaram, mas precisavam falar. Agora estavam todos do mesmo lado.

— Lord Darkar — recitou Amália, fazendo os olhos de todos se arregalarem. Era uma reação unânime. Todos conheciam bem a fama de Darkar e seu histórico com a família de Andros. — Valtor — o maior problema da família real de Domino, a própria Daphne havia pago por isso.

— E Ogron — surpreendentemente, essa informação não veio de nenhuma delas, mas de Jared, que acabara de aparecer na porta, trazendo os outros três atrás de si. — Dean o sentiu, e logo teremos os Bruxos do Círculo Negro de volta.

Era muito para processar, muito para considerar. Ter esses seres de volta em seu mundo era como assistir à destruição de suas espécies. Mas desta vez seria diferente. Precisava ser. Por isso estavam ali, não era? Para vingar seus entes queridos, para reconstruir seu mundo, para alcançar sua glória.