Caçador

30 Eu tenho uma sorte dos diabos... Ou melhor, nem o diabo tem tanto azar!


Notas iniciais
Maus a demora. Tenho uns 7 capítulos prontos, só que não tive tempo de postar. Muita correria no colégio.

— Está pensativo demais. O que foi agora? — Megan pergunta no caminho para o hotel.

Balanço a cabeça, sem tirar os olhos da estrada. Começou a chover, e chover em Forks? É o mesmo que dizer que o sol está brilhando em Pheonix. Mas de qualquer modo, uma leve garoa faz com que a estrada fique molhada. E detesto dirigir em estrada molhada.

— Nada de importante para o caso só... Bom, eu sabia que John tinha uma filha, só não sabia quem era. Ela é quase uma irmã minha, sabe? Passei uns dois anos direto com John, e mais tempo ainda antes de dar no pé de Washington e me virar por conta própria. — Dou os ombros. — É só uma ironia John querer afastar tanto o sobrenatural da família, mas ser inútil.

Megan apenas acena com a cabeça e fita a estrada.

— Vai até o hotel ou vai parar na biblioteca?

Hesito por um momento, antes de virar e me dirigir para o centro, para a biblioteca.

— É melhor. Vou procurar alguma coisa na internet, nos registros da policia, mas talvez consigamos alguma coisa em jornais velhos.

Megan concorda. Em alguns minutos chegamos até a biblioteca. A chuva aumentou um pouco, ficando mais forte, mas não dou bola. Sempre gostei de chuva.

Lá dentro a bibliotecária, uma mulher de meia idade com ar maternal, nos olha com um sorriso simpático, com certeza imaginando que as roupas molhadas são por não estar acostumados com a chuva constante. Quando ela nos pergunta em que pode ajudar, eu peço para ver os jornais antigos. Quando pergunta o motivo, eu desconverso e mudo de assunto.

Passamos umas quatro horas folheando jornais velhos e empoeirados, sem achar nada. Já estou quase desistindo quando Megan faz sinal para mim. Curioso, vou até onde ela está. Ela me mostra um jornal, do mês passado por sinal. Olho para a noticia da capa.

— Humpf! — Bufo, relanceando os olhos pelo jornal. — Se matou depois de levar chifres, e bem na estrada onde então desaparecendo os garotos. Parece que o corpo está enterrado no cemitério local. Beleza, é só salgar e queimar os ossos.

Megan ergue uma sobrancelha.

— Desde quando algum caso nosso é fácil?

Dou um cascudo de brincadeira na cabeça dela. Agradecemos a bibliotecária e saímos, indo procurar algum lugar para almoçar. Está bem, as seis da tarde é quase uma janta, mas estou acostumado a não ter padrões específicos durante um caso.

Megan come um hambúrguer e eu ataco um prato de bife com fritas. Ficamos fazendo tempo no restaurante até estar perto da hora da delegacia fechar. Então saímos indo para lá. Conseguimos pegar John no exato momento em que está fechando a delegacia e começa a entrar no carro.

— Ei, está a fim de desenterrar alguns cadáveres? — Pergunto, abrindo a janela e diminuindo o volume de Dirty Deeds Done Dirt Cheap.

John me olha de esguela, então olha em volta. Mas a rua está completamente vazia. Ele parece hesitar, então vem até o Dodge.

— Tudo bem, vou junto. Mas vai precisar me dar uma carona, não seria bom se vissem o carro do chefe de policia no cemitério enquanto desenterram um corpo.

Não posso evitar um muxoxo.

— Por favor, quando eu fui pego desenterrando algum corpo?

— Quer a ordem cronológica ou alfabética? — Megan pergunta inocentemente. Fuzilo ela com o olhar e deixo John entrar. Então aumento o volume da música e acelero até o cemitério.

Felizmente parou de chover, mas nem quero pensar quanta lama vamos ter que tirar nos túmulos quando chegarmos lá. Tiro duas pás da mala, atirando uma para John. Megan pega o sal e o álcool.

Trabalhamos duramente, e sujamente, para cavar a cova depois de achar a lápide certa. Ainda não pesquisei um feitiço para abrir covas, infelizmente

A lápide é bem simples. Nada além de uma cruz de madeira enfiada no solo com o nome dela entalhado na tábua horizontal.

O caixão é fácil de abrir. John recua imediatamente. Merda. Vivo esquecendo desse detalhe. Ela morreu faz um mês. Não está em condições de concorrer no Miss Universo.

Ignorando o estado do corpo, estendo a mão para Megan. Ele me entrega a garrafa de álcool. Enxáguo bem o corpo, me concentrando no cheiro do álcool. Depois disso, entrego a garrafa de novo e despejo o sal, cobrindo o corpo todo. Então pulo para fora do tumulo.

Risco um fósforo e largo no buraco. O corpo pega fogo imediatamente. Ficamos observando até o fogo se extinguir, não deixando nada além de cinzas. Então tapamos o buraco e voltamos para o Dodge.

Já estamos a meio caminho da delegacia quando me lembro de uma coisa e praguejo alto. Megan ergue uma sobrancelha. Normalmente, quando praguejo em alto e bom som, e não um murmúrio ou resmungo, é porque a coisa é séria.

— Lembra a foto que vimos no jornal? — Eu pergunto para eles, a guisa de explicação. Megan assente, enquanto John faz uma careta de quem não entendeu nada. — Você não viu John, mas... Você se lembra se ela estava usando uma pulseira, Megan?

Megan franze a testa, então balança a cabeça.

— Não. Dava para ver o braço dela? Me concentrei no rosto.

— Sim, dava. Usaram uma foto antiga dela, e não uma dela morta. Aparece ela tirando o cabelo do rosto, e no braço esquerdo está uma pulseira de prata com o pingente de uma cruz. E sabe onde mais vimos esse pingente?

Megan balança a cabeça incrédula.

— Como você presta atenção nessas coisas? Nem precisa continuar. Você imagina que o pingente vai ter um resquício da alma dela?

— Talvez. Dei uma pesquisada no que conseguia achar, e me deparei com a página dela no Facebook e no Twitter. Todas as fotos que eu achei que mostravam o braço, tinham aquele pingente. Não estava procurando pelo pingente, mas... Vi em todas. E sabe em quem eu vi muito recentemente esse mesmo pingente? — Megan balança a cabeça. Olho pelo retrovisor. John está curioso, esperando a resposta. Me pergunto como vai reagir... — Na Jene. — John dá um pulo. — Eu acho que o fantasma ainda não sumiu por completo, é só um palpite. Um instinto, sei lá. Considere um aviso das minhas... Habilidades especiais.

Megan não responde. John não sabe que eu sou necromante, e acho melhor não dizer. E ele nem notou a última parte por causa da história da Jene.

— Mas como ela pode ter o pingente? — John pergunta, nervoso e ansioso e sai lá mais o que.

Penso rapidamente.

— Elas eram amigas... Tenho certeza disso. Não é muito difícil de imaginar que a mãe da garota iria querer se desfazer de algo que lembrasse sua filha. As vezes as lembranças são dolorosas demais. Jene era amiga... Ficou com uma lembrança da falecida. — Reflito por mais um momento, então acelero o carro, não dando atenção à chuva leve que começou de novo. — Jene disse que o Charlie era traíra, não é difícil de imaginar que tenha saído com a falecida. E acho que vi em uma ou duas fotos ele junto dela. Sinceramente, a internet ajuda muito na nossa profissão. Bom, continuando... Ele conquista a garota, mas não fala que está namorando. Ou mesmo estava saindo escondido com ela antes, mas começa a namorar Jene ou ela descobre. Se mata de desgosto, e se torna uma Mulher de Branco. Mulheres de Branco só podem matar quem é infiel, mas... Sempre sentem raiva de quem as traiu. Charlie já foi, mas ela considerava Jene uma amiga. Se descobriu que estava errada... Uma Mulher de Branco ainda é um espírito vingativo.

John fica pálido.

— Você quer dizer...

— Não, não necessariamente. — Eu interrompo ele, com a voz tranquilizadora. — Elas normalmente seguem as regras. Mas não sei o que pode acontecer. De qualquer jeito, é fácil. É apenas destruir o colar. E... — Faço uma pausa para dar entonação na voz. — Contar para ela o porquê. Está na hora de sua família saber o que você é.

Os ombros de John caem, e ele responde com a voz fraca e envergonhada.

— Apenas quis protegê-las disso tudo. E também não sei como vão reagir. Vão pensar que estou louco e...

Interrompo ele impaciente, quase chegando até a delegacia.

— É impossível fugir disso. — Falo com um pouco de cansaço na voz. — Uma vez Caçador, sempre Caçador. Sua mulher eu não sei, e ela realmente não precisa saber. Mas Jene tem o direito de saber. E vai conseguir reagir bem. Acho que vendo ela apenas uma vez já conheço sua filha melhor que você, velhote. — Dou um sorriso. — Afinal, ela é como uma meia-irmã minha.

John balança a cabeça divertido. Ele me conhece bem demais. E essa parte do meia-irmã parece tê-lo agradado. Não sei por quê.

— Vamos, saiam do carro vocês dois.

— Os dois? — Megan estranha, abrindo a porta e saindo na chuva. É possível ver o contorno do carro de John na bruma da noite.

— Sim, os dois. É melhor que você vá junto com ele Megan, para ir explicando para ela. Encontro vocês lá.

— E por que não vai junto?

— Quero passar no hotel e pegar as nossas coisas. Destruindo o pingente, é negócio cumprido. E, sem ofensas para você John, já estou de saco cheio de Forks. Dessa vez vou para Manhattan ou Vegas, não quero nem saber.

Os dois assentem e vão para o carro de John. Fecho as janelas e coloco Somebody Told Me do The Killer para tocar. Acelero em direção ao hotel, com o pensamento longe.

Quando faço uma curva, me dou conta de uma coisa e praguejo. Dois azares.

Primeiro: Nunca enfrentei uma Mulher de Branco nesses anos todos em que estava solteiro. Mas depois que começo a namorar Megan, o primeiro caso que pego é logo...

Segunda: A curva que virei dá exatamente no ponto da estrada em que a Mulher de Branco está matando os garotos.

Certo, certo, não sou infiel. Mas isso não deu muito certo para o Sam Winchester. Se o fantasma quer, dá um jeito de tu se tornar infiel na marra mesmo.

Então é compreensível que eu pragueje ainda mais e acelere quando vejo uma mulher com um vestido branco na beira da estrada pedindo carona as três da madrugada de uma terça-feira e ainda mais chovendo baldes do lado de fora. Imagino que não seja ninguém que se perdeu depois de uma festa.

E é claro, ninguém pode reclamar de que, quando vou ajeitar o espelho retrovisor para ver se ela sumiu lá atrás, dou um pulo imenso quando vejo que ela está sentada no banco de trás.

O Dodge é lacrado contra demônios, mas vou ter que acrescentar o sistema de segurança anti-fantasmas. Cara, por que eu nunca encontro nada como o Gasparzinho ou um fantasma na geladeira? Ia adorar algo assim.

Mas em vez disso, é claro, eu só encontro espíritos psicóticos que querem arrancar minha cabeça ou meu coração de um jeito muuuuito doloroso.

E os padres ainda dizem que devemos agradecer a Deus por estarmos vivos. Vai ver é por isso que virei ateu.

Quem sabe. Agora tenho que me virar com o fantasma ali atrás, e depois ficar lamentando minha sorte menor que a de uma raposa atropelada na Rota 66.

Notas finais
E agora, ao combate!