Notas iniciais
Ultimo capítulo, meio meloso, mas bem grande...

Sidney despertou com o continuo bater de sua cama sobre o chão de metal. Sem recobrar totalmente os sentidos, manteve seus olhos entreabertos enquanto tentava levantar um pouco seu pescoço do travesseiro fino. Seu corpo doía e estava incrivelmente gelado; Era como se acabasse de ser golpeada por um monte de blocos de gelo. Limitou-se apenas a olhar em volta.

O compartimento quadrado, que mal cabia aquela cama que deitava e um armário enferrujado, balançava terrivelmente, devido o aumento da maré. Tentou olhar a janela que havia acima de si, e percebeu que ficara escuro. As estrelas iluminavam o compartimento, junto a uma vela pequena e uma lâmpada fraca. De repente, Sidney ouve um gemido na outra cama de cima. Pela voz, supôs ser Fred, que aparentemente estava completamente inconsciente.

“ O que aconteceu?”, pensava, enquanto lutava contra a terrível dor de cabeça que insistia em deixá-la indefesa. Levantou uma de suas mãos até ela com muito esforço e tentou encontrar uma lembrança do que acontecera. Tudo o que obteve foi um leve flashback, no qual concluiu que estava em serviço e provavelmente sofrera algum acidente. Sentiu apreensão; Afinal, poderia achar que aquele navio que se encontrava era de seus companheiros de apoio, no entanto, por mais precário que fosse o trabalho deles, não dormiriam em um local precário como aquele.

Sidney esforçou-se em abaixar a cabeça e fitar seu corpo abaixo da coberta fina. Aquelas roupas não eram suas. Tratava-se de um tipo de macacão ou uniforme, que ela vira sendo usada por...

– Parece que acordou, Srta. Sidineiru...

A porta de metal abrira e Sidney moveu bruscamente seu pescoço em sua direção, aumentando a dor. Um homem jovem entrara no aposento, usando agasalhos pesados e uma touca encardida. Sua pele era amarelada e seus olhos mal eram riscos em seu rosto redondo. Como ele a saudara em japonês, Sidney tardou a entendê-lo.

Ele se agacha perto de sua cama e sorri. Seus dentes eram cavalados e amarelos.

– Desculpe se não entendeu, mas eu não falo estrangeiro. – ele olha para cima, pensando. – Do you speak japanese? É a única coisa que sei dizer...

– Hay... – Sidney logo relembrou a língua do estranho, e o olhou de cima abaixo. “Realmente, eles são todos iguais”.

– Ah, você fala japonês? Claro que eu deveria saber! Você falou com nosso capitão

, Não é?

– Aonde estou? – Sidney finalmente acha alguma força e levanta levemente a cabeça. Ela avista suas roupas, molhadas e ensanguentadas, acima do armário enferrujado. Percebeu logo o motivo de sua dor: ataduras, em toda a extensão de seu corpo, cobrindo eficientemente feridas profundas e recentes. O oriental franziu a testa:

– Você é realmente forte. Foi atropelada por nosso navio e mal fraturou o tórax!

– Atropelada? – ela o perfura com os olhos. – Afinal de contas o que ouve?

O jovem retirou o sorriso do rosto e a olhou cabisbaixo. Deveria contar realmente o que ouve? Ela o chamaria de assassino? Talvez, fosse melhor que saísse dali e não contasse? Ele olha para cima e avista Fred, desmaiado, acima da outra cama. Ela concluiria isso uma hora ou outra, então era melhor adiantar isso. Ele suspira.

– Meu nome é... Kentaro Himura. – ele fala seriamente. – e eu sou um arpoador, do navio baleeiro 3-A78, no qual você se encontra agora...

Sidney sentiu um calafrio. Relembrou-se, de seu bote sendo rapidamente esmagado pela proa daquele navio escuro de metal. Cada pedaço do navio de Fred ser levado pela maré. Ela gritando desesperadamente pelo rádio, e seus colegas deixando-a a deriva. Se não fosse as fraturas, ela teria pulado da cama em frenesi. A única coisa que pode fazer, foi uma pergunta ao estranho a sua frente.

– Por quê?

– Para ser sincero, eu não sei. – ele responde. – Foi mais um impulso, suponho. Não a deixaria morrer ali...

– Mas, nós...

– É, mas entenda a situação. – ele levanta e suspira fundo. Ronda pelo quarto. – Existe lá em cima um bando de marmanjos furiosos, que estão louquinhos para enfiar um arpão daquele bem no meio de sua cabeça, e vê-la explodir, como foi com aquela baleia. Eu não sou contra, eu estou realmente puto, pois não vou receber essa temporada. Mas você não é uma baleia. Dar-te para os tubarões não vai ressarcir meu salário nem trazer o navio grandão de volta...

– ...Você não se parece com eles...

– É porque não sou iqual a eles. – Kentaro pega as roupas de Sidney e as leva até ela. A moça fica surpresa com o que vê: uma enorme mancha avermelhada e vários rasgos. O jovem volta a sentar e sorri. – Desculpe, mas parte desse sangue não é seu. Nós te pegamos pelo alçapão, sabe?
Sidney senta sobre a cama, dolorida, e segura suas roupas:

– Você me trocou?

– P-por que quer saber? – a reação momentânea de Kentaro a fez rir, mas logo ficou séria. Tinha algo a mais a perguntar:

– Por escolheu isso?

–...Sou o que em nosso país se chama de fracassado. – ele responde. – Eu não fui esforçado e, bem, eu pescava com papai. Eles precisavam de mais um e tive que aceitar. Para ser sincero, eu não queria me sujar nisso, mas, se eu não...

Ele para. Sua pele amarela fica mais pálida e fria. Sidney não pode fazer outra coisa além de tocar seu ombro. Um pingo insignificante cai sobre o chão.

– Me desculpe, mesmo. Eu não tinha chance, a universidade não me aceitaria, e se eu não o fizesse, nós iríamos...

– Eu desculpo, não é sua culpa.

Ambos se olham. Kentaro fica surpreso com aquela afirmação. Sidney ri em solidariedade e cutuca seu travesseiro.

– Eu também não tinha escolha, minha função não é valorizada e eu queria defender essa causa. É difícil, não querem nos apoiar e recebemos poucas doações. Aquele era um dos nossos últimos navios. – ela olha pela janela atrás de si e avista a escuridão do mar. Uma lanterna do navio rasga o horizonte. – Talvez, alguém venha e nos ajude, mas... No fim, não estamos na pior, não?

Kentaro enxuga os olhos e levanta da cadeira, abismado. Fingiu ouvir um grito acima do convés.

– Ah, eles devem estar me esperando lá em cima. – ele abre a porta. – Vamos chegar à Nova Zelândia amanha, e mandamos um sinal para seus amigos “piratas”...

O jovem percebeu o deslize e hesitou.

– Não me importo que me chame assim. – Sidney diz. – Desejo que não o veja ano que vem...

–...Eu também...

Kentaro fecha a porta e sobe para o convés. Estava terrivelmente frio, e seus colegas se encolhiam do lado de fora, pois não queriam se juntar aos piratas. Hiroki estava enchendo a cara de saque, e o capitão estava na cabine, movimentando o navio ainda em choque.

Sidney toca a mão de Fred e ele resmunga. Parecia não querer ser acordado. Do lado de fora, ela ouvira um som. Uma melodia melancólica e sinfônica, fina e harmoniosa, a qual logo percebera de quem era...

“Obrigado...”, ela pensa antes de cair novamente no sono.

No próximo ano, no mesmo local, na mesma situação e nos mesmos navios, Sidney e Kentaro se viriam outra vez, só que em um olhar diferente.

A Baleia-fin tornou a cantar.

Notas finais
Obrigado a quem leu essa história até o fim :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!