Cavalos Selvagens
6 6 "Sentimentos e irmãos, por que tão complicados?"
Notas iniciais

Capítulo 6 — Sentimentos e irmãos, por que tão complicados?
Sebastian estava debruçado sobre o murinho da área do casarão. Comia uma cenoura crua que um dos cavalos havia rejeitado. Geralmente estava trabalhando naquele horário, mas estava tão calor que ele resolveu parar para descansar. A camisa xadrez não tinha mangas e os cabelos lisos e negros estavam amarrados, deixando o rosto e pescoço livres na tentativa de refrescar a pele.
— Não devia 'tá trabalhando? — Uma voz grossa rompeu o silêncio e o moreno bufou, torcendo os lábios em uma careta de desgosto. Qual é? Será que não podia curtir o marasmo da fazenda sozinho?
— Eu me dei um descanso, cowboy. — Resmungou ao dar outra dentada na cenoura, sem sequer olhar para a figura alta e de chapéu que se achava no direito de interromper sua apreciação à paisagem rural. — Você quem deveria estar trabalhando. Anda! Xô! Vai procurar o que fazer! — Fez um aceno de dispensa com a mão e sorriu ao ser puxado pela cintura de encontro ao corpo maior.
— Minha presença te incomoda tanto assim? — O hálito quente com cheiro de hortelã arrepiou a pele do mais novo.
— Olha, doçura — Sebastian começou, virando-se no abraço do cowboy e mirando os olhos de um tom claro de mel. —, 'Tá muito calor pra ficar me agarrando e eu tô sem a mínima vontade de contato físico. — Dispensou, empurrando o maior pelos ombros.
— Sebby... — O homem murmurou. — Quando vai aceitar a minha proposta? — Cruzou os braços sobre o peito e encarou o descendente de índios.
— Você fez alguma proposta? — Sebastian perguntou, desinteressado enquanto subia no murinho.
— Várias vezes. E você sabe do que eu 'tô falando. — Nestor voltou a se aproximar e deixou a mão deslizar pela coxa do rapaz.
— E você sabe a minha resposta. — Falou sério e desviou os olhos, afastando-se também do toque do cowboy. — Que insistência, gatão.
Nestor era um dos peões de Flor de Ouro. Um homem jovem e trabalhador que não escondia os sentimentos que nutria pelo rapaz que cuidava dos cavalos. Não era segredo para ninguém que eles dormiam juntos e mantinham mais do que uma amizade, a coisa só não havia engatado, pois Sebastian colocava mil e um empecilhos sobre uma possível relação mais séria. Mesmo com as evasivas do mais novo, ele não desistia. Seu interesse por Sebastian só aumentava a cada dia.
— Pare de me olhar assim, bocó. — Sebastian implicou, chutando o braço de Nestor. — Eu sou irresistível, eu sei. — Modéstia não era uma palavra que ele conhecia. — Hoje não é o seu dia. — Falou com descaso, encarando as unhas curtas. — Hoje eu me enrosco com o filho do dono da farmácia. — Provocou.
— Sebastian… — Nestor falou entre dentes e puxou o atrevido pelo tornozelo, fazendo-o deitar sobre o murinho.
— Sabe que nunca te prometi fidelidade, gatão. Nosso relacionamento não é um namoro. — Ele havia deixado bem claro que o que tinham, era puramente físico, ao menos, de sua parte. Nunca havia dado esperanças a Nestor. Ele era o moleque esperançoso ali, e suas esperanças não tinham nada a ver com o cowboy bronzeado e sexy que insistia em namorá-lo. — Infelizmente no coração não se manda. — Murmurou melancólico.
— Eu disse que posso esperar. — Nestor encostou a cabeça no peito de Sebastian, encarando-o com os olhos bonitos e claros.
— Já faz tempo e, olha só pra mim. — Sebastian acariciou os cabelos castanhos e encaracolados do mais velho. — Acho que aquilo de “o primeiro amor a gente nunca esquece”, é totalmente verdadeiro. — E era bem inconveniente também. Os dedos foram instintivos para o pingente que carregava no pescoço, alisando a joia pequena e brilhante. Era um idiota por continuar nutrindo um sentimento velho que devia ser esquecido. Ele saía com várias pessoas, mas não conseguia manter um relacionamento sério com nenhuma delas e isso incluía Nestor. O cowboy era bonito, o tratava bem e estava no topo dos caras bom de cama com quem se relacionava, mas isso não o tornava especial a ponto de aceitar o pedido de namoro que ele havia lhe feito. No final, Nestor era só mais um e não podia dividir sua vida com ele. No final, o único com quem aceitaria dividir a vida e ter todas aquelas frescuras de um casal, não se importava com seus pensamentos ou vontades. E ele continuaria sendo um idiota se não arrancasse aquele sentimento forte que o consumia dia a dia.
E sentiu-se ainda pior quando o celular vibrou e uma mensagem se destacou em meio a tantas outras, fazendo o coração disparar feito um cavalo selvagem dentro do peito.
Sentimentos, por que tão complicados?
* * *
Victor acordou cedo e saiu em busca de uma mercearia ao se deparar com a precariedade da despensa do irmão. Simon realmente tinha uma péssima alimentação e ele ao menos queria dar um café da manhã decente ao mais velho. Depois de esperar um pouco na fila e receber uma cantada ridícula do filho do dono do estabelecimento, ele voltou e não conteve a surpresa ao ver o cowboy se aventurando na cozinha.
— Deus, que cheiro bom! — O estômago deu sinais de vida e ele se sentiu levemente enciumado por Jackie ter chegado primeiro e dado início ao café. — Torradas francesas? Eu não fazia ideia de que você cozinhava. — Falou surpreso. As sacolas foram colocadas sobre a mesa e ele se debruçou no balcão.
— É bem simples. — Jackie comentou, fritando as fatias de pão numa frigideira. — É receita de mãe. E eu sei me virar bem na cozinha. Sozinho não passo fome.
— Eu só sei fazer pipoca... — Victor murchou. — Sou um desastre na cozinha. Nem ovo sei fritar.
— Eu imagino. — O cowboy riu da indignação do loiro. — É que é esperar muito você ser bom em tudo. Bom nos negócios, bom filho, bom irmão, bom amigo. — Foi enumerando as qualidades do mais novo, sem perceber exatamente o que fazia. — Se cozinhasse tão bem quanto é bonito, provavelmente seria um chefe renomado de algum restaurante importante.
Victor não sabia onde enfiar a cara, estava vermelho feito um morango e quis bater em Jackie por ele começar com aquela ideia absurda de elogiá-lo. Primeiro o homem era atraente como um daqueles galãs rústicos do cinema antigo, agora descobria que ele cozinhava. Homens que cozinhavam tornavam-se ainda mais atraentes aos olhos verdes do loiro. Um silêncio constrangedor se instalou entre eles, bem, constrangedor na opinião de Victor.
— Acabou de dizer que eu sou bonito… — Certo, que jeito idiota de quebrar o silêncio. Pensei que você fosse adulto, Victor.
Jackie o encarou por um momento, um sorrisinho divertido pairando sobre os lábios enquanto analisava o loiro. Não precisava ser nenhum estudioso da beleza para tomar consciência de que o filho caçula do patrão era mesmo muito bonito. Ele claramente havia percebido esse detalhe no momento em que Fumaça parou frente ao casarão e a senhorita loira o cumprimentou. E também não tinha problema algum em admitir em voz alta que o achava bonito. Claro, não havia problema depois de pensar sobre o assunto, durante boa parte da noite.
— Eu não saio por aí elogiando outros homens. — O cowboy tratou de esclarecer. — É só que, você sabe... — Deu de ombros e desligou o fogo.
Victor, ainda com o rosto pegando fogo, tratou de ajudá-lo, colocando o prato com as torradas sobre a mesa e ajeitando o café e as xícaras.
— Eu teria feito algo melhor, mas ricos parecem se esquecer de abastecer a despensa. — Jackie comentou em tom blasé, mas o loiro parecia meio perdido, encarando a xícara vazia. — Não vai dar chilique só por que eu te acho bonito, né? — Arqueou a sobrancelha. — Isso não quer dizer que eu 'tô dando em cima de você ou algo do tipo. Eu só falei porque você parece uma moça bonita e, vai que eu solto a língua em algum momento… — Estava evitando constrangimentos futuros ou o que quer que isso significasse.
— Eu entendi. — Victor torceu os lábios ao ouvir o “moça bonita”. Fazer o quê, a maioria dos elogios que recebia, vinham somente porque acreditavam que ele era mulher. — Você não é o único que me elogia.
— Quero os nomes desses tais aí que te elogiam na minha mesa, agora.
A voz de Simon irrompeu pela cozinha, assustando os dois homens. Embora a frase expressasse como o humor era péssimo às segundas de manhã, o mais velho parecia de certa maneira, renovado. Havia tirado a noite para pensar e finalmente chegado a uma decisão.
— Não preciso nem perguntar pra saber que estava cantando o meu irmão na cozinha. — O tom ácido retornou, mas ainda assim, ele não estava totalmente aborrecido.
— Ele fez o café! — Victor quase enfiou o prato com torradas nas fuças do irmão. Ele não havia sido cantado, não mesmo!
— Eu sei, ele pediu pra usar a cozinha. — Simon afastou o prato, se serviu com café preto e pegou o jornal sobre o balcão. — Vou pra fazenda nesse final de semana. — Anunciou, bebericando do liquido quente e amargo e passando os olhos pelas notícias sem muito interesse.
Victor olhou para o mais velho como se ele tivesse sido abduzido e sofrido uma lavagem cerebral. Não era Simon ali. Se parecia com ele, mas falava coisas completamente diferentes. Somente o fato de ter deixado o cowboy usar a cozinha, já era algo bem suspeito...
— O quê? — O caçula balbuciou, nada convencido do que havia acabado de ouvir. — Você vai o quê? Quem é você e o que fez com o meu irmão?
— Eu vou pra fazenda no final de semana. — Simon repetiu, fingindo não entender todo aquele espanto. — Eu tenho um convite pra fazer pra família e amigos. Acredito que eu deva fazer isso pessoalmente. — Comentou despreocupado.
— Ah, então você vai somente com a intenção de fazer esse tal convite? Só isso? — Victor pareceu murchar um pouco.
— Já é alguma coisa. — Jackie tomou a palavra. Ele estava se fartando do café que havia preparado. — Seu Ivan vai ficar contente, mesmo pra uma visita com segundas intenções.
— Não é só isso. — Simon se defendeu. O único com segundas intenções ali, era aquele cowboy impertinente. — Unirei o útil ao agradável. Faço o convite e aproveito pra visitar a fazenda. Meu pai, a Tulipa, o Bart, as pessoas que vivem por lá. — Evasivo, não citou quem realmente importava.
— Qual foi o santo causador desse milagre? — Victor exclamou. — O pai vai ficar tão feliz! Se eu conseguir convencer a Cecília—
— Nem perca seu tempo. — Simon cortou. — Ela só vai se o estúpido do marido for também, e ele não é bem-vindo.
Victor encolheu os ombros e mordeu o lábio inferior. Não que fosse desistir de unir a família, mas convencer o pai e o irmão a receberem o marido de Cecília, seria uma tarefa muito trabalhosa.
— Eu não me importo se ele for também. Eles estão juntos há tanto tempo e eu entendo que ela se sinta excluída com o fato de o marido não ser aceito, afinal, foi o homem que ela escolheu e—
— Você está falando como a nossa mãe. — Simon bufou e afrouxou a gravata. Victor era muito parecido com a senhora Camille, além da aparência, na personalidade também. O caçula era daquelas pessoas que podiam sofrer o diabo, mas no fim, perdoariam o algoz. Patético! — Ela ficou do lado daquele homem! Por Deus, você era só um menino, como raios ia se—
— Simon! — Victor chamou extrangulado, lançando um olhar apreensivo ao irmão. Hello! Temos visitas! Aquele assunto não era algo que o agradava, mesmo depois de anos. E obviamente ele não queria compartilhar com o cowboy.
— Olha, não se preocupem comigo. Eu 'tô só tomando o meu café, sossegado. — Jackie murmurou, comendo como se não houvesse amanhã, apesar de estar bem atento a conversa dos dois irmãos. Não que ele fosse curioso, longe disso...
Simon respirou fundo e passou a mão pelo rosto. Havia se exaltado, mas não queria retomar o assunto. Enfiou um pedaço de torrada na boca e mastigou com calma, recuperando a placidez. Claro, se não pensasse no estúpido do Jean Laguirre.
— Eu não me importo, de verdade. — Victor ressaltou. — De qualquer forma, eu vou lá pegar as crianças. O pai viu os netos quando eles eram bebês. — O que era um absurdo. E Ivan os tinha visto somente porque visitou a filha no hospital.
— Eles passaram uns dias aqui. — Simon estava mais controlado e até sorriu ao pensar nos sobrinhos. — Me enganavam a todo momento com essa coisa de trocar os nomes. São umas pestes. — Rodou os olhos. — Adoro os garotos, mas a mãe e o pai…
— A mãe é nossa irmã, não se esqueça desse importante detalhe.
— Que seja. Só acho que o motorista podia trazer as crianças aqui e te poupar de uma conversa desagradável com a sua irmã desagradável. — Simon abanou a mão com descaso.
— Eu prefiro vê-la. Se você não se preocupa, eu me preocupo e muito com o bem-estar dela. — Poxa, parecia a única pessoa da família que queria ver todos bem.
— Você quem sabe. Não vou insistir. — Simon se resignou a deixar as implicâncias de lado, ao menos naquele momento. — Até que o pai fez bem em mandar esse caipira com você. — Foi o que disse depois de um momento de silêncio e, como anteriormente, a frase ríspida não tinha real intenção de provocar ou incitar uma nova discussão. — Mesmo assim, eu ainda não gosto de você.
— É recíproco. — Jackie atacou, mas também sem o intento de discussões.
— Certo. Então é isso. — Victor sorriu, satisfeito com a quase amizade daqueles dois. — Você vai pra fazenda no fim de semana e eu vou levar os meninos. Da Cecília eu cuido depois. — Esperava conseguir acalmar os ânimos entre as duas famílias.
Depois do café, o loiro e o cowboy terminaram de se arrumar. Os dois estavam no banheiro, Jackie estava mais observando o Victor do que realmente preocupado em cuidar dos cabelos ou de qualquer higiene.
— É a Eva, não é? — Perguntou de repente, de braços cruzados e escorado no batente da porta, encarando o loiro através do espelho.
— O que é que tem a sua amiguinha? — Victor se recriminou pelo tom ter saído mais áspero do que gostaria. — Quer dizer, o que tem a Eva?
— Você disse que o seu irmão não tem somente que se acertar com o seu Ivan, disse que tem mais alguém lá na fazenda. — Jackie ignorou a fala do loiro. Evangeline era uma ótima pessoa, obrigado.
— É, eu disse algo assim. — O loiro amarrou os cabelos em um rabo de cavalo alto, fingindo não dar importância a conversa. Aquele não era seu assunto, logo, não poderia discuti-lo com ninguém.
— E então? É a Eva? — Jackie insitiu, enfiando-se entre o loiro e a pia. Certo, ele era muito curioso e, mesmo que a curiosidade não fosse uma virtude, ele simplesmente não conseguia controlá-la. — Ela me disse uma vez que tinha um namorado aqui pra essas bandas.
Victor ficou levemente atordoado com a proximidade e custou a entender onde Jackie queria chegar com aquele papo. Eva e Simon? Acabou rindo. Era tão improvável...
— Ora, ora, temos um Sherlock Holmes, aqui. — O loiro o tocou no ombro. — Você errou feio, moreno, esses dois não têm nada a ver um com o outro. Eu nem sei se eles se conhecem.
— Tem outra pessoa que também deixou o coração aqui na capital, mas seria praticamente impossível existir algo entre eles. — Jackie comentou, consternado por ter errado.
Victor estreitou os olhos para o cowboy. Oras, que homem intrometido! Intrometido e esperto…
— Nada a ver, eu nem sei ao certo quem é essa tal pessoa. — Fez um gesto de desdém com a mão. — E o Simon tem uma noiva, não se esqueça. Você já está pronto? — Deu uma analisada no mais velho. — Olha, você seguiu a minha dica. — Sorriu ao ver os cabelos escuros moldados por gel.
— Só porque estamos na cidade e é estranho ficar desfilando por aí de chapéu, não fique se achando por isso. — Ele espantou a mão do loiro.
— Me poupem dessas ceninhas! Sumam logo da minha casa! — Simon gritou ao passar pelo corredor.
— Imagina se eu fosse seu namorado… — Jackie suspirou, caminhando para fora do banheiro.
— Acredite, seria uma dúzia de vezes pior do que foi.
* * *
A mansão dos Laguirre – a família de Cecília – era ainda mais extravagante do que a de Simon, em um tom pêssego e com um enorme portão branco; tinha uma piscina exagerada, coqueiros e cadeiras de praia na entrada, era rodeada por muros altos decorados por treliças e um jardim composto por lavandas e salvias, perfumava o local e coloria com o roxo das flores.
— As coisas que eu não faço pelo meu pai... — Victor murmurou, encarando a porta ampla e branca, parecendo receoso. Havia perdido parte do nervosismo durante o pequeno passeio de carro, tagarelando com o cowboy sobre o brinquedo de uma famosa franquia de hambúrgueres que faltava em sua coleção.
— É tão ruim assim? — Jackie franziu o cenho, dando uma boa olhada em volta e achando tudo muito excêntrico.
— Eu espero que não seja. — Suspirou.
Foram atendidos por uma das empregadas, uma moça baixinha e de sorriso simpático que os guiou para dentro, para a sala ampla e de móveis claros. Um quadro enorme pairava sobre a lareira; Cecília e o marido, segurando três coisinhas rechonchudas e sorrindo feito as famílias de comercial de margarina. Tudo estava bem quieto por ali e logo a mocinha trouxe refrescos para os visitantes, acomodando-os. A dona da casa ainda não havia descido e as crianças estavam na área de lazer, brincando feito verdadeiros anjinhos.
— Cheiro de queimado, 'tá sentindo? — Jackie “farejou” o ar, franzindo o cenho ao constatar que era mesmo o cheiro de algo queimando.
— Ela disse que os garotos estão na área de lazer. — Victor também sentiu o cheiro de fumaça, mas logo uma voz alterada e feminina soou, gritando algo como: Apaguem isso! E uma explosão de risadas infantis surgiu.
E tudo estava explicado.
— São moleques ou são terroristas? — O cowboy se preocupou. O que diabos ele encontraria ali?
— Quer uma resposta sincera? — Victor deu um risinho nervoso. Os sobrinhos eram verdadeiras pestes, mas eram umas gracinhas que animavam a qualquer um. Não tinha tempo ruim com o trio de ouro.
— É sério, eu 'tô meio assustado aqui.
— São só garotinhos, relaxa, cowboy. — Deu um tapinha amigável no ombro do moreno, mas fez careta e começou a piscar. — Acho que caiu um cisco no meu olho. — Victor resmungou, coçando um dos olhos.
— Não falta nada mesmo pra você ganhar o Oscar de atrapalhado do ano. — Jackie comentou em deboche. — Deixa eu ver. — Ele se aproximou, levando as mãos ao rosto do loiro e encarando o olho de um verde oliva irritado, levemente vermelho. — É um cílio.
— Assopra. — O loiro segurou os ombros largos do cowboy. — Ou quer que eu perca o olho?
— Nossa, que drama. — O moreno deu um risinho sarcástico. — Acho que 'tá rolando um clima, seu olho ruim 'tá me seduzindo, assim, piscando desse jeitinho. — Ia continuar provocando, mas acabou assoprando logo o tal do cisco. Até porque, não era muito aconselhável ficar encarando aqueles olhos bonitos tão de perto.
— Eu não usaria os meus olhos pra te seduzir. — Victor cantarolou, entrando no joguinho de Jackie e até continuaria se...
— ECA!
O casal foi obrigado a se separar ao ouvir a exclamação em uníssono de três figurinhas que haviam chegado a sala e presenciado a cena adulta demais para seus olhinhos inocentes.
— Meninos! — Victor deu um sorriso amarelo ao encontrar os sobrinhos que não tinham a melhor das expressões. Sentiu o rosto pegar fogo, mas bem, não estavam fazendo nada de errado.
— Vocês iam se beijar, que nojo! — Um dos garotos fez careta e cruzou os braços sobre o peito, encarando o tio e o grandalhão desconhecido com os olhos estreitos.
— É o seu namorado? — Outro perguntou, parecendo um pouco confuso, mas caminhou até o tio, pedindo por colo.
— É claro que não! O tio Victor não tem namorado! Não é?
— Calma. — Victor pediu, eram três contra ele. — Primeiro se cumprimenta. — Apontou para Jackie. — Esse é um amigo, ele trabalha comigo e com o vovô, o nome dele é Jackie. — Fez questão de ressaltar o amigo. Que história era aquela de beijo e namorado? — Jackie, esses são: Daniel, Denver e Dilan.
Era como se houvessem dado control+c em um mesmo rosto e distribuído entre os três garotos, mas ao menos os cortes de cabelo eram diferentes, para o alívio de Jackie que aprenderia os nomes sem muita dificuldade. Daniel, tinha os cabelos dourados cortados no melhor estilo tigela, deixando-o com a aparência ainda mais infantil do que os irmãos. Denver, tinha os fios arrepiados e o semblante mais traquinas que o cowboy já havia visto. Por último, vinha Dilan, com os cabelos quase raspados e um mau humor que não combinava com alguém tão pequeno.
— Oi, tio Jackie! — O trio cumprimentou, embrora somente um deles estivesse realmente animado com a apresentação.
— Não são uns anjinhos? — Victor perguntou, animado e orgulhoso como o tio coruja que era. Puxou os dois fujões para um abraço e fez o que eles odiavam; apertou as bochechas gorduchas de Denver e Dilan.
— Parecem um pouco com você. — Jackie comentou, olhando dos garotos, para Victor. — Mas anjos? — Aí já era exagero.
— Delicado... — Victor rodou os olhos.
— Quando é que a gente vai? Eu não quero mais ficar aqui. — Dilan cruzou os braços, com uma expressão emburrada no rosto infantil, atraindo a atenção de todos. — Ela bebeu de novo e brigou com a gente.
— Dilan! — Daniel repreendeu o irmão com uma careta que não era menos que fofa. — A mamãe só tá cansada! E aquilo era refrigerante. — Tinha cheiro de bebida álcoolica e se parecia com uma, mas era refrigerante.
— Era vinho... — Denver comentou, um pouco alheio, preocupado em cutucar um besouro que tinha em um pote de vidro. — A mamãe diz que o papai tem uma amante nova. — Fez careta ao dizer a última palavra. — O que é uma amante? — Encarou os dois adultos com uma curiosidade genuína nos olhinhos azuis.
Victor e Jackie trocaram olhares um pouco desesperados. Como explicar problemas adultos a crianças de seis anos? Será que eles não vinham com um manual? Os três pares de olhos se pregaram no cowboy, pois o tio não parecia saber sobre o assunto.
— Eles não vão dizer! — Dilan tomou a palavra, afinal, era o líder. — Adultos são cúmplices. — Acusou e olhou para Denver que sabia exatamente o que fazer.
O garoto de cabelos espetados abandonou o besouro e, determinado foi até o cowboy, direcionando-lhe um sorriso banguelo antes de chutar-lhe a canela com toda força que sua pouca idade permitia.
Jackie quis agarrar o pirralho atrevido pela gola da camisa, mas se contentou em fuzilá-lo com os olhos e xingá-lo mentalmente. Que moleque dos diabos! Anjinhos... Estavam mais para diabinhos, isso sim!
— Denver! — Victor o advertiu. — O Jackie é um amigo. Não é pra chutar. — Apesar de tudo, queria rir, afinal a expressão do cowboy que alisava a canela, era impagável. — Não façam nada de estranho com ele. Eu vou ver a mãe de vocês. — Avisou e jogou Daniel nos braços de Jackie, rumando para as escadas.
Jackie ficou seriamente preocupado sobre a parte: Não façam nada de estranho com ele, pois, tinha ali, três pequenos demônios sorridentes.
Definitivamente, ele não se dava bem com crianças.
Victor bateu as costas da mão contra a porta de madeira branca, suavemente, atento a qualquer barulho que viesse do quarto da irmã. Quando conversaram, dias atrás, Cecília não havia citado a parte em que voltara a beber, o que era, no mínimo, preocupante já que a mais velha havia tido problemas com a bebida no passado.
— Ceci, eu vou entrar. — Avisou e girou a maçaneta dourada, recebendo a claridade que entrava pela janela grande e sem cortinas. Observou em volta, encontrando tudo perfeitamente arrumado, achou que não encontraria a irmã ali, mas ouviu um barulho vindo do banheiro, sentindo-se subitamente aliviado.
— Devia ter me esperado lá embaixo. — Uma mulher alta e de cabelos longos e encaracolados surgiu. Cecília era uma mulher muito bonita, mas amargurada e a simpatia de antes, havia se perdido com o rumo que o casamento levava. — Tudo isso é ansiedade pra ver a sua irmã? — Desdenhou, sorrindo de canto e passando pelo caçula como se não fossem nada além de conhecidos.
— Eu sei que você não acredita, mas eu sinto saudades e, estou preocupado. — Victor encolheu os ombros e lançou um olhar magoado a irmã. — As crianças disseram que você andou bebendo. — Jogou, demonstrando a preocupação que o assunto lhe causava.
— São crianças, gostam de inventar, você sabe. — Cecília devolveu a preocupação com a fala ríspida e um aceno de mão.
— Eles não são de inventar. Disseram que você e o—
— Nós não brigamos. — Ela interrompeu. Estava em frente ao espelho, ajeitando os últimos detalhes da aparência com um batom incrivelmente vermelho que se destacava na pele branca. — Estamos muito bem se isso te interessa, mas vamos direto ao que você veio fazer aqui. Veio levar os meus filhos para uma belissíma temporada na fazenda. — Desdenhou e seguiu para a varanda, fazendo um barulho irritante com os sapatos de salto.
— Nosso pai vai ficar feliz. Ele adora os netos, você sabe. — Victor seguiu também para a varanda e encostou-se a grade, observando a irmã acender um cigarro. — Você podia ligar com mais frequência, isso também anima ele.
— Eu faço o que posso, mas você também não veio aqui pra dizer como devo me comportar com o nosso pai. — Ela deu de ombros e assoprou a fumaça, jogando o cigarro no chão e apagando-o com o salto fino. — Sabe que ele só se importa de verdade com o filhinho perfeito, bem, nem tão perfeito assim... — Olhou de maneira jocosa para o irmão.
— É uma das maiores mentiras que eu já ouvi. — Victor rodou os olhos e suspirou, evitando se focar na última parte. Não queria discutir, tampouco brigar, mas Cecília tinha o temperamento difícil e era irredutível quanto a certos assuntos. — O pai não faz distinção, não tem favoritos, eu sou apenas o que está mais próximo a ele, é normal que—
— Eu dispenso as suas desculpas, maninho. — Ela voltou a cortar. Não era nenhuma novidade que Ivan preferia Victor aos filhos mais velhos e, depois de tantos anos, eles já estavam acostumados com aquela preferência. — Mas e então? Como anda a sua vida no interior? — Pouco parecia interessada, mas era de boa educação perguntar.
— Está tudo indo muito bem. Eu tenho um bom trabalho, amigos e, a vida no campo é bem interessante. — Falou com sinceridade.
— E aquele rapaz? Aquele bonitinho que você andou beijando? — Cecília gesticulou com as mãos, não se importando com o aparente mal estar que pairou sobre as feições do irmão.
— Nós terminamos. Não deu certo. — Desconversou, desviando os olhos para o jardim colorido.
— Que pena. E você está saindo com alguém? — Sondou. Repentinamente parecia muito interessada pela vida amorosa do caçula.
— Eu não tenho tempo para essas coisas. Bem, como você disse, eu vim aqui para levar os meninos. — Era melhor pôr um fim naquele assunto, antes que Cecília inventasse de ofendê-lo.
— Claro, vamos lá pra baixo. — Ela sorriu, mas nada contente. Seguiu para fora do quarto. — O que...? — Balbuciou quando alcançaram o último degrau, encarando a cena com perplexidade.
Tinha um homem amarrado na sua sala de estar e os três filhos estavam tocando o terror com um cara desconhecido, agindo como se ele fosse um prisioneiro de guerra. Aquilo na mão de Dilan era um isqueiro?!
— Jackie? — Victor arqueou uma das sobrancelhas, acreditando que o cowboy havia se juntado a brincadeira de bom grado.
Jackie deu de ombros, tinha um lenço em volta da boca e as mãos estavam amarradas as costas em uma cadeira. Tudo muito normal, afinal, aqueles garotos não eram simples criancinhas e o atacaram assim que Victor subiu as escadas.
* * *
— Eu já disse várias vezes que vocês não podem amarrar as visitas. — Cecília encarou os três filhos que agora pareciam verdadeiros anjinhos, mas o tom era bem desinteressado, ela estava mais preocupada em ler os e-mails no celular.
— Mas ele aceitou! — Denver exclamou, fazendo um bico chateado pelo súbito término da brincadeira. Poxa, eles ainda tinham que salvar o grandalhão e derrotar o vingativo fora da lei, vulgo, Dilan.
— Não importa! Eu tenho certeza de que a ideia foi sua. — Apontou para Dilan que apenas virou o rosto para o lado, sem se importar com a bronca da mãe. — Peçam desculpas ao moço. — Obrigou, fazendo um gesto de desdém com as mãos. Não poderia perder o controle com os filhos na frente de um estranho e do querido irmão caçula.
O trio se encarou, trocando olhares significativos e, resignados, abaixaram a cabeça e soltaram em conjunto:
— Desculpa, tio.
— Tudo bem. — Jackie bagunçou os cabelos do que estava mais perto, Daniel. Quem diria, em menos de uma hora, havia ganhado três sobrinhos. — Foi divertido. — Piscou para os garotos, recebendo três sorrisos banguelos como resposta. — Vocês não iam tocar fogo em mim de verdade, iam? — Rolava uma séria dúvida quanto as intenções daqueles nanicos.
— Não dê corda. Eles são impossíveis. — Cecília sorriu, reparando melhor no homem interessante que chegou com o irmão. — Vocês dois...
— Não. — Victor se apressou em responder, entendendo o objetivo da irmã. — Somos só amigos.
— Que pena, achei que eu finalmente ganharia um cunhado. — Encarou os dois de maneira divertida, embora estivesse torcendo mesmo para que Victor tivesse alguém. — Mas eu sei, Victor tem um irmão nervosinho que adora espantar namorados. — Rodou os olhos e riu. O caçula era tratado feito uma princesa...
— Ele disse que eu não faço o tipo do Victor. — Jackie tomou a palavra antes que Victor dissesse algo, sorrindo dos olhos enormes do loiro.
— Vocês 'tão namorando ou não? 'Tô confuso. — Daniel coçou a cabeça, intrometendo-se na conversa dos adultos. Porque era muito importante saber se o grandalhão entraria para a família.
— Docinho, continue comendo o bolo. — Cecília sorriu de maneira maternal e voltou os olhos para Jackie. — É só ciúme de irmão mais velho. Você faz e muito o tipo desse meu irmãozinho aqui. — Bateu nas costas de Victor, fazendo-o quase engasgar com o suco. — E ele já está solteiro há algum tempo, deve estar quase subindo pelas paredes.
— Cecília! — Victor exclamou, indignado com as palavras da irmã. Sentiu as orelhas e o rosto esquentarem e quis bater na loira.
— Não disse nada de mais. — Ela se fez de inocente e levou a xícara até os lábios vermelhos. — Só acho que você deveria curtir um pouco, não é todo dia que a gente tem vinte e dois anos. Ajude o meu irmão caçula a se divertir. — Piscou para Jackie, parecendo mais simpática do que realmente era.
— Vou colocar na minha lista de coisas pra fazer antes dos trinta. — Jackie devolveu a piscadela.
Bem, Cecília era diferente de Simon, ao menos não o havia tratado mal e tinha até mesmo sorrido. O sorriso dela, Jackie notou, era muito parecido com o de Victor e... Era só o que faltava, ficar reparando em sorrisinhos, agora. Sentá lá, Jackie, você 'tá mais idiota que o normal. Apesar dessa diferença, ele percebeu também que havia alguma tensão entre os dois irmãos. O caçula parecia se dar melhor com o Simon, mesmo o loiro mais velho sendo um babaca.
— Melhor vocês dois pararem ou as crianças vão ficar confusas. — Victor quebrou o silêncio, tentando evitar certo constrangimento.
Cecília ia protestar, mas uma figura alta e de cabelos castanhos enfeitados por alguns fios grisalhos, apareceu na cozinha.
Jean pareceu momentaneamente sem graça frente as visitas e foi imposível disfarçar o desconforto. Ajeitou os óculos que desciam para a ponta do nariz e prendeu o ar nos pulmões.
— Vem cumprimentar a visita, amor. — Cecília chamou, exibindo um sorrisinho cínico.
— Eu… Esqueci uns papéis. — Justificou a presença fora de hora e se aproximou da mesa. — Bom dia. — Olhou para os dois, demorando-se um pouco em Victor.
— Sem beijos? — A loira desdenhou, passando os dedos longos pelas mechas mais claras do cabelo. — Assim não tem graça! Ele não é o seu preferido?
— Cecília… — Jean levou uma das mãos a têmpora. Aquele era um péssimo dia para ter esquecido documentos referentes a empresa, em casa.
Jackie, que no momento implicava com os três garotos – parecendo tão ou mais criança do que eles – parou quando ouviu a frase da loira. Como assim? Ela realmente esperava que o marido e o irmão se beijassem? No rosto, certo? Mesmo assim, era bem estranho… E que história de preferido era aquela?
— Foi só uma brincadeira, amor. Não precisa ficar constrangido. — Cecília alargou o sorrisinho. — A não ser que você realmente queira—
— Chega! — Jean saiu bufando da cozinha, mas a esposa foi atrás, deixando claro que a conversa não havia terminado.
— É assim o tempo todo. — Denver comentou, estava com o rosto sujo por ter se melado com o bolo de chocolate, seria engraçado se o rostinho não carregasse uma expressão triste de dar dó. — Eu prefiro morar com o tio Simon ou com o vovô.
Daniel e Dilan concordaram com o irmão. O pai e a mãe brigavam feito cão e gato e mal davam atenção aos filhos. Agora nas férias, estava um verdadeiro inferno.
— Hey, tudo bem? — Jackie cutucou Victor com o pé, notando que o loiro estava com o olhar perdido.
— Eu só estou morrendo de vergonha. — Murmurou, desconfortável pela situação e magoado também. — Vamos embora.
Os meninos logo se levantaram e foram correndo pegar as mochilas. Daniel não parecia tão animado assim, embora quisesse ter umas férias em um ambiente diferente, a briga dos pais o afetava mais visivelmente que aos outros.
Um dos empregados ajudou com as cadeirinhas no carro e Cecília veio ao menos se despedir dos filhos ao passo que Jean fazia o mesmo. Pareciam bem melhores, mas isso não apagava os modos da irmã e nem a frase implicante e maldosa que remetia ao passado.
Victor se jogou no banco do passageiro, desejando sumir dali. Parecia impossível conseguir conversar amigavelmente com a irmã. Cecília ainda parecia culpá-lo por algo que ele, definitivamente não tinha culpa. Ou talvez tivesse, mas preferia esquecer tudo que envolvia aquela situação desagradável.
— Se me der um sorriso, eu te levo no McDonald's pra pegar um daqueles brinquedos sem graça que faltam na sua coleção. — Jackie encarou o loiro com um risinho de canto de boca, tentando animá-lo.
— McDonald's?! — Denver exclamou e quase se jogou no banco da frente. — Eu quero um lanche feliz!
— Eu também! — Daniel ergueu os bracinhos. — A mamãe não gosta e não deixa a gente comer.
— Então vai ser um segredinho nosso. — O cowboy piscou para as crianças que se agitaram com a notícia.
— Obrigado. — Victor sorriu e agradeceu, deixando a melancolia um pouco de lado. Primeiro, Jackie o elogiava e agora, lembrava-se de algo que ele queria, mesmo que fosse um brinquedinho que vinha com um lanche.
Estavam avançando naquela relação…
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