Cavalos Selvagens
4 4 "Beleza e melancolia demais para um dia só!"
Notas iniciais

Capítulo 4 — Beleza e melancolia demais para um dia só!
A semana passou voando e o sábado chegou quente e abafado. Até mesmo Jackie que estava acostumado ao tempo maluco de Santa Luz, tinha a impressão de estar cozinhando em banho-maria. O suor escorria pela testa e ele teve a certeza de que os miolos ferveriam se ele não estivesse de chapéu. Usou o lenço que estava no pescoço para secar o rosto e bebeu o restante da água que carregava no cantil. Mesmo que a estufa tivesse proteção e ele não estivesse literalmente com a cabeça no sol, ainda assim, a manhã estava insuportavelmente escaldante. Os olhos castanhos estavam apertados e atentos enquanto ele caminhava por entre as plantações, anotando tudo em uma caderneta. Parava algumas vezes para trocar algumas palavras com um dos colhedores ou chamar a atenção de um deles.
Como capataz, ele era o responsável por algumas funções dentro da fazenda; desde a estufa até o estábulo. Qualquer problema era passado primeiro a ele e Jackie sempre conseguia resolvê-los sem maiores preocupações. O caso é que agora teria que passá-los ao filho do patrão também.
Quando começou a trabalhar na fazenda, ele fazia pequenos trabalhos como selar os cavalos ou até mesmo levar água aos colhedores, mas como sempre foi muito enxerido e vivia especulando, começou a se meter na maneira como eram desenvolvidas as funções, opinando sobre o que deveria ou não mudar. Ivan viu no garoto alguém que tinha capacidade para comandar setores e logo o fez subir de cargo. O patrão via no cowboy alguém que tinha a garra e a competência que o filho mais velho não tinha. Ficaram tão próximos que Ivan o chamou para o casarão, já que Jackie vivia sozinho e acabava se descuidando das refeições e até mesmo de uma boa noite de sono. De início ele recusou, mas pensou bem e depois de uns dias estava de mudança para um quarto grande e aconchegante. Ele tinha a idade do filho mais velho de Ivan e o patrão não evitava as comparações. O único filho do qual se ouvia falar bem dentro do casarão, era do tal caçula.
O cowboy havia imaginado um rapaz que se parecia com o patrão; robusto, de olhos escuros e pele morena com barba por fazer. Só agora percebia o quanto a imaginação tinha passado bem longe.
Victor falava e parecia ter todo o vocabulário do mundo na ponta da língua. Ele movia as mãos e entortava a cabeça para o lado esquerdo quando não tinha certeza do que estava dizendo. As vezes mexia nos cabelos que, na opinião do cowboy, eram longos demais para um calor tão insuportável quanto aquele. Os olhos verdes as vezes se encontravam com os seus, mas logo se desviavam e o loiro voltava a falar feito uma matraca. Devia ser mal de gente da cidade grande. Tinham um extenso vocábulo e usavam palavras que ele nem mesmo tinha conhecimento do significado. Percebeu que ele ainda tinha água e tomou o cantil das mãos que se mexiam de maneira irritante e entregou-lhe a caderneta.
— Mudanças? — Perguntou ao abrir o cantil e despejar um pouco da água no rosto.
— Isso resume tudo o que eu disse. — O loiro o encarou com os olhos desconfiados. Acabou acompanhando uma gotinha que desceu para o pescoço e se perdeu na gola da camiseta de mangas curtas que o cowboy usava. — Você prestou atenção no que eu disse? Se disser que não eu vou repetir tudo—
— Não! É claro que eu prestei atenção. Ou acha que eu fiquei esse tempo todo aqui admirando a sua beleza? — Falou rabugento, mas quis se estapear ao perceber o que havia falado. Bem, mas aquilo não significava nada. Não era como se estivesse elogiando o loiro, até porque, homem nenhum era bonito e, por mais que Victor tivesse traços mais delicados que o recomendado para um homem, continuava sendo um. Ele apenas disse a primeira coisa que veio a cabeça.
— Certo... — Victor se sentiu levemente desconfortável, mas recuperou a compostura rapidamente, afinal, era Jackie ali, não dava para levar muita coisa a sério. — O que você acha?
— Não sei se seria uma boa ideia. — Ajeitou o chapéu ao falar. — Estamos acostumados a trabalhar dessa maneira. Mudanças vão causar estranhamento e já aviso que nem todos vão concordar.
Victor ponderou e balançou a cabeça. Voltaram a caminhar e ele sentiu que o tecido da camisa grudava na pele de maneira incômoda.
— Mas as mudanças serão implantadas aos poucos, justamente pelo fato de não estarem acostumados. Serão bem sutis de início. Pense nisso como uma experiência.
— E quanto essa experiência vai custar? — Jackie arqueou a sobrancelha e coçou a barba. — Temos que sentar, fazer os cálculos e ver se vai valer a pena.
O loiro sorriu e devolveu a caderneta ao cowboy, quase tropeçando em um dos colhedores no processo. Do bolso da calça jeans, ele retirou um papel e o desdobrou.
— Eu já fiz o orçamento. — Mostrou os números rabiscados no papel. — Temos mais a ganhar do que a perder.
Jackie não escondeu a surpresa ao ver o quão empenhado Victor era. O patrão não exagerava quando dizia que o caçula era bom em tudo o que fazia.
— Você é bom.
— Prefiro eficiente. — Sorriu e guardou o papel de volta no bolso.
No dia seguinte completaria uma semana que Victor tinha ido para a fazenda. Ele tinha criado uma rotina; se levantava cedo e ia para o escritório, cavalgava no fim da tarde e jantava com o pai.
Infelizmente Jackie e ele também haviam criado uma rotina; brigas de manhã, brigas à tarde e brigas à noite. Era incrível que não estivessem brigando naquele momento. Discutiam pelas coisas mais banais possíveis, desde uma camisa que o loiro considerava brega até um enfeite que Victor colocava sobre a mesa. Discordavam de quase tudo, mas não podiam negar que estavam próximos naqueles poucos dias de convivência.
— Ainda é só um rascunho, mas eu espero tirar isso do papel em breve. — Comentou sorridente.
— Agora, será que eu posso trabalhar em paz? — Jackie forçou uma expressão sofrida. Estava quase implorando para que Victor parasse de falar.
— Tão sútil quanto um coice de mula. — O loiro rodou os olhos, mas concordou. — Vou voltar pro escritório.
Fumaça estava amarrado próximo dali e Victor caminhou até ele, enfiando o pé no estribo e cavalgando de volta pela estrada de terra.
Jackie deixou um sorrisinho estúpido surgir no rosto e voltou a se dedicar as plantações.
* * *
Longe da pacata Santa Luz e completamente diferente, a capital era um lugar que não parava nunca. O trânsito era um completo caos e os congestionamentos eram comuns. Simon Green estava preso naquele inferno tempestuoso de buzinas. Ele mesmo já havia desistido de gritar ou buzinar. Isso nunca adiantava e não o faria chegar mais rápido em casa. A gravata azul-marinho estava folgada no pescoço e o paletó esquecido no banco de trás.
Nessa última semana ele havia pensado em dar um tempo nos afazeres e mudar de ares. Tinha carta branca para voltar para a fazenda no momento em que sentisse vontade, mas sempre que ponderava sobre a oferta, lembrava-se de um empecilho que o impedia de visitar o pai. Bem, havia também a falta de demonstração de carinho com a família, os desentendimentos com o pai e a pouca vontade de viver em um lugar onde não teria luxos e nem diversão. Não tinha coragem de abandonar tudo como o irmão caçula havia feito. Mesmo que o pai não estivesse bem de saúde. É claro que se preocupava, não era assim tão insensível, mas Sair da cidade grande para ir se enfiar nos negócios de Ivan era algo que se passava vagamente pela cabeça, uma vontade fugaz. Não queria se tornar um caipira e viver com o que o campo lhe dava.
Ali, na cidade, ele era o responsável pela empresa que pertencia a família da mãe. Algo mais lucrativo e digno de um executivo como ele. Achava uma bobagem sem fim o pai insistir em algo tão retrógrado quanto uma fazenda. Todos tinham direito aos lucros da empresa, mas somente ele e a irmã desfrutavam dos benefícios e regalias.
Quando finalmente os carros avançaram e a chuva de buzinas deu lugar ao ronco dos motores, ele acelerou e antes que a noite caísse conseguiu chegar em casa. O casarão não era nada perto da mansão que ele tinha ali no centro da cidade.
Victor sempre lhe dizia que não adiantava de nada ter tanto luxo e viver sempre sozinho. Viver remoendo o passado.
— Passado... — Murmurou quando passou pela porta que estava aberta. Seria perturbado em uma noite que exigia apenas descanso.
Ouviu um barulho vindo da cozinha e foi se jogar no sofá de maneira preguiçosa. Os sapatos foram lançados para um lugar qualquer e ele não teve ânimo nem mesmo para ir até a geladeira e pegar uma cerveja. Até porque estava adiando um pouco do encontro que seria inevitável.
— Amor!
A voz fina de Pâmela atacou os ouvidos do loiro assim que a mulher adentrou a sala. Era uma jovem indiscutivelmente bonita, mas que sabia como azedar o pouco humor de Simon. Pâmela Carson tinha vinte e um anos e cursava teatro, era a filha única de um magnata dono de uma das maiores empresas de eventos do país. Alguém muito conveniente para se ter como sogro.
— Não avisou que viria. — O loiro se ajeitou na almofada e tentou ignorar a presença da namorada.
— Queria te fazer uma surpresa, bebê. — Murmurou com ressentimento na voz e se jogou no colo do loiro, roubando um beijo rápido dos lábios do namorado. Os cabelos longos e negros estavam trançados e ela usava um vestido vermelho que combinava com o batom.
— Andou mexendo na decoração? — Simon perguntou, evitando iniciar uma discussão, mas a futura atriz parecia fazer questão de vê-lo mal humorado. Ainda mais com um perfume tão enjoativo que insistia em usar.
— Odeio a falta de objetos nesses cômodos enormes. — Ela foi logo justificando e sorriu ao observar pela trigésima vez o belo trabalho que havia feito naquela sala. — Agora sim, essa casa tem um toque feminino. E é melhor se acostumar! Afinal, vamos nos casar.
— Você deve estar fazendo o curso errado. — Simon resmungou e empurrou a morena para o lado, ignorando a parte sobre o casamento. — Preciso de uma cerveja. — E que você saia da minha casa, completou em pensamento.
E não precisava dizer mais nada para que a mulher corresse para a cozinha e fosse atrás de sua cerveja. Na verdade, Pâmela lamberia seus sapatos se o loiro pedisse. Abanaria o rabinho e serviria de tapete. Patética...
Simon sentia falta de implicâncias, briguinhas bobas que terminavam na cama e de um passado que parecia muito distante.
O passado tinha olhos escuros, cabelos de mesma cor e pele morena. O passado tinha nome e sobrenome e uma língua bem afiada. Retirou a gravata e abriu os primeiros botões da camisa social. A mão subiu para tocar o pequeno pingente em forma de pena que carregava no pescoço. Para dar sorte, ele havia lhe dito. Nunca havia pensado em se desfazer da pequena joia.
Estava mais nostálgico do que gostaria naquele sábado a noite. A decoração era algo que queimava as retinas devido à intensidade das cores dos quadros, cortinas e enfeites. Apreciava as cores sóbrias e gostava de espaço. Ele provavelmente odiaria aquela sala espalhafatosa.
Quando Pâmela voltou com o sorriso de sempre e sua cerveja nas mãos, foi impossível não pensar que procurou na morena, um meio de esquecer o passado que parecia lhe atormentar de uma maneira ainda mais persistente naquela noite.
Se fosse um pouco sincero, Simon admitiria que o passado era uma infinidade de vezes mais agradável do que o presente.
Talvez decidisse fazer uma visita ao pai em um final de semana qualquer. Poderia ser algo bem interessante.
Claro, se o passado estivesse ali para lhe atormentar.
* * *
— Ele ainda está com ela?
A voz de Sebastian chegou calma aos ouvidos de Victor, mas o loiro sabia que não era assim que o amigo se sentia.
O sol tingia a tarde em tons de dourado e azul intenso num horizonte montanhoso com toques de verde. A vista dos fundos do casarão era uma das mais bonitas da fazenda. E naquele fim de tarde, os dois estavam ali, desfrutando da paisagem e do vento fresco que bagunçava os cabelos de ambos.
— Está. — Foi o que respondeu depois de pensar por uns momentos. Havia recebido uma ligação e ela implicava, na maioria, em descobrir se Sebastian estava bem. — Depois do que aconteceu, sabe… — Os pés se agitaram na terra e sujaram a pele branca.
— E mesmo assim ele perguntou de mim? — Sebastian não queria dar real importância àquele assunto, mas infelizmente a presença de Victor lhe fazia pensar em tudo o que havia acontecido.
— Um pouco antes de desligar o telefone. Ele queria saber se você estava bem e se, bem, se estava saindo com alguém. — Victor resumiu. Havia mais algumas perguntas, mas ele preferia que Simon as fizesse pessoalmente.
Sebastian estava escorado sobre a madeira da cerca, mas decidiu se abaixar e sentar ao lado do loiro. Sempre que assistia ao pôr do sol, um ar melancólico o atingia e as lembranças invadiam a mente.
— E o que muda se eu estiver saindo com alguém? — Perguntou em tom amargo. Ele bem queria estar com alguém, mas era bem difícil encontrar uma companhia em uma cidade tão pequena como Santa Luz. Claro que existiam os paqueras, mas nada tão sério a ponto de ele se apegar e iniciar uma relação. — Ele largaria aquela garota e viria correndo pra mim? — Debochou. Nem mesmo ele queria que Simon deixasse sua vida, suas coisas na cidade grande para se enfiar no meio do mato e tentar fazê-lo feliz. — Olha, eu ainda penso bastante nele — Confidenciou e levou a mão instintivamente até o pequeno pingente em forma de ferradura que carregava no pescoço. Para dar sorte, ele havia lhe dito. Ainda se recriminava por não conseguir se desfazer da pequena joia. —, mas não existe a possibilidade de ficarmos juntos. É igual você e o Ryan… — Mas logo se arrependeu por ter falado demais. Aquele era um assunto ainda mais proibido que sua relação com Simon. — Desculpe.
— Tudo bem. Eu nem deveria ter citado que Simon perguntou sobre você. Acho que meu lado irmão, falou mais alto. — Victor deu de ombros e desviou os olhos do espetáculo poente quando certo cowboy entrou em seu campo de visão.
Sebastian também desviou os olhos da paisagem e os colocou sobre o loiro, sorrindo de maneira sugestiva. Felizmente a melancolia não durava por muito tempo.
— Qual a sua opinião sobre nosso cowboy? — O moreno perguntou, recebendo um olhar confuso. — Vamos lá, Victor. Somos amigos…
Victor novamente encarou Jackie que conversava com Bartholomew sobre um assunto que parecia, no mínimo, muito animado.
Ele deveria ter uma opinião sobre aquele homem?
— Ele trabalha muito bem. — Somente isso bastava, não precisava saber ou ver mais nada a respeito de Jackie. — Mas é um idiota! — Terminou, sem conseguir se conter. — Te contei que ele me confundiu com uma mulher quando cheguei aqui?
Sebastian arqueou as sobrancelhas e riu de maneira escandalosa, recebendo um tapa na nuca e parando para xingar o loiro.
— Ah, Victor! Quantas vezes isso já te aconteceu? — Sebastian ironizou na pergunta. Confundir Victor com uma mulher era tão normal quanto Jackie usar um chapéu.
— Ele pegou na minha cintura e disse que sou uma senhorita bonita. — O loiro bufou. O pior foi que sentiu as bochechas pinicarem ao compartilhar aquele episódio com o amigo.
— Uh, isso muda as coisas. Que moço abusado, não é mesmo? — Sebastian continuou debochando.
— Diz isso porque não é você. — Victor resmungou. Os olhos verdes se voltaram ao cowboy, mas logo se desviaram. Que coisa feia ficar encarando…
— Se fosse, eu teria socado as fuças dele, sabe, sou bem seletivo com quem me toca. — Sebastian deu de ombros. — Embora goste muito de contato. Ainda mais se fosse com um homem gostoso igual ao Jackie.
Victor olhou para o amigo com o queixo caído. Como assim Jackie era gostoso? A imagem do cowboy sem roupas veio repentina em sua mente e o fez querer matar Sebastian por dizer coisas tão cretinas.
— Vocês dois—
— Não, loirinho, por Deus! — O moreno o encarou de volta. — Somos amigos. Tipo eu e você. Não é porque sou gay que vou pros braços do primeiro cowboy sarado que me der bom dia. Sabe bem do que estou falando. Seria até mais fácil se meus problemas mal resolvidos fossem com o Jackie. Pelo menos ele não é um babaca… — Suspirou. — Bem, o que importa é que vocês vão se enfiar dentro de um carro e rodar por algumas horas até a cidade grande.
— Nem me lembre. — Victor queria mais era esquecer que teria de fazer aquela viagem com alguém tão folgado quanto o cowboy. — O que eu não faço pelo meu pai…
Sebastian ia comentar alguma coisa sugestiva sobre carros, estrada e sexo casual, mas a inserção de uma presença feminina na cena fez seus pensamentos se desviarem. A garota abraçou o pescoço do cowboy e começou a rir de alguma coisa que ele falava.
— Quem é ela? — Victor se lembrava de tê-la visto junto a Jackie, mas não quis parecer curioso ou intrometido ao perguntar sobre a garota.
— É a Evangeline. Eva. A moça da limpeza.
O loiro lembrava-se de Jackie ter feito algo muito constrangedor acreditando que ele era a tal Eva. Olhando bem, a garota era magra e um pouco alta, mas não era loira, tinha os cabelos castanhos e curtos.
— São namorados? — Por que diabos aquilo importava? É claro que não importava!
— Não, loiro. Você não tem a Eva como sua inimiga. — Sebastian riu do constrangimento do amigo. — Eles são bem próximos, mas até onde eu sei, nunca se pagaram.
— E como é que você sabe? Fica espiando as pessoas da fazenda? — Victor quis saber. Ele era bem próximo de Sebastian e não ficava de gracinhas com o moreno. Gracinhas do tipo abraçá-lo daquela maneira ou rir daquele jeito abobalhado enquanto, provavelmente, Jackie fazia alguma piada sem graça.
— Nem amigos de foda eles são, o caminho 'tá livre. — Sebastian piscou. — Eu sei de todo mundo. É normal quando se vive em um lugar tão pequeno. Por exemplo; eu sei que a Tulipa é louca pra pular na cama do seu pai. — Recebeu outro tapa, mas continuou, afinal, era mesmo verdade. — E sei que o Bart é louco pra que a Tulipa pule para a cama dele. Conclusão: a Tulipa é mais disputada do que nós dois juntos.
Victor não sabia sobre a última informação. Pobre Bart, mas preferia que Lipa ficasse com Ivan.
— Você é um fofoqueiro, isso sim. — O loiro riu e se levantou. A noite havia caído e ele queria descansar. Passou as mãos para espantar a terra das calças e calçou os chinelos.
— Vai ficar aí? — Perguntou ao se afastar. Saber sobre quem queria pular na cama de quem, não era algo que o interessava muito.
Sebastian se levantou com certa dificuldade e acompanhou o loiro, subindo os poucos degraus e entrando pelos fundos do casarão.
— Estão sujando o meu chão! — Tulipa os acusou e reprovou o estado imundo daqueles dois. — Estavam brincando na terra?
— Na verdade, estávamos nos pegando lá fora, aí as coisas esquentaram e acabamos rolando na terra. — Sebastian era um desbocado por natureza e falava sempre o que lhe vinha a cabeça, mas isso não o impedia de levar alguns cascudos.
— Tão bonitinho, mas quando abre a boca… — Tulipa reprovou, balançando negativamente a cabeça.
— Infelizmente o Vic não faz o meu tipo. Se fizesse, ele estaria literalmente ferrado. — O sorriso de lado tomou conta dos lábios, mas logo se desfez ao receber um soco no braço.— Ei! Onde foi que aprendeu a socar assim?
— A gente aprende a se defender na cidade grande. — O loiro riu e piscou um dos olhos verdes.
Jackie chegou também na cozinha e foi logo recebendo uma bronca devido as botas sujas de terra. Tulipa ainda ficaria louca com aqueles três.
— Anda! Sumam logo daqui! O jantar ainda não está pronto! — A mulher baixinha demandou, sacudindo o avental para dar mais ênfase de que os queria longe de suas panelas.
O trio correu para a sala de jantar antes que Tulipa cumprisse com a ameaça de acertá-los com a colher de pau. Sebastian viu quando Jackie se aproximou de Victor, não fazia ideia sobre o que falavam, mas achava a aproximação muito boa. Não que estivesse torcendo para que ficassem juntos, era cedo demais para qualquer idealização romântica, mas o loiro precisava de um homem daqueles para esquecer um ex idiota que havia apenas brincado com seus sentimentos. E ele podia muito bem dar um empurrãozinho para que algo mais do que uma amizade surgisse entre aqueles dois. Com um sorrisinho descarado, ele seguiu caminho, não querendo atrapalhar o que quer que aqueles dois estivessem conversando.
— Joguei a sua ideia revolucionária pro Bart. — Jackie comentou ao se escorar no peitoril da janela grande. As cortinas finas esvoaçavam com o vento fresco, intrometendo-se entre os dois. — Ele disse que, se a ideia é sua, deve ser coisa boa.
Victor sorriu de maneira presunçosa. Concordava com Bartholomew, a ideia era realmente boa. Debruçou-se ali também e enrugou o nariz ao ter o tecido da cortina lhe tocando.
— Mudando de assunto. Pensei bem e, não preciso da sua companhia para ir até a capital. — Não queria parecer rude, mas não precisava mesmo. — Posso ir de ônibus – dois ônibus bem lotados, vale ressaltar— e chegar lá em segurança, já que sou ótimo dirigindo um carro... — Debochou. O que recebeu foi a fumaça do cigarro que Jackie havia acabado de acender. E recebeu com a melhor cara de indignação, acabando por se engasgar. — Vira essa porcaria pra lá! Que nojo!
Jackie não deu atenção. Voltou a assoprar a fumaça nas fuças do loiro. Não era um viciado, mas costumava fumar ao menos um cigarro no início da noite. A nicotina conseguia lhe acalmar. Não que estivesse estressado ou nervoso, mas a cara de Victor em contato com a fumaça, era muito impagável.
— Já falou disso com o patrão? — Perguntou com as sobrancelhas erguidas. — Por mim tudo bem se Ivan permitir, mas não tenho problemas em dirigir por algumas horas. Mesmo que a companhia não seja assim tão agradável. — Implicou, mas guardou o sorrisinho debochado, dando mais seriedade as palavras.
Victor torceu os lábios, mas ao tentar responder, teve um acesso de tosse e foi amparado por Jackie, que lhe deu uns tapas amigáveis nas costas ao apagar o cigarro e jogá-lo pela janela.
— Melhor? — Provocou, recebendo os olhos de pura indignação do loiro.
— Companhia desagradável, você, com certeza é. — Retrucou, recuperando a compostura. — Até por isso cogitei a possibilidade de ir de ônibus. Só para não ver essa sua cara ou ter que me estressar com essas piadinhas ridículas e sem graça.
— Não faço piadinhas, senhorita. Não tenho culpa se esse teu mau humor te impede de se divertir. — Jackie alfinetou e deu de ombros. — Dispenso seus chiliques.
— NÃO SÃO... Não são chiliques! — O loiro abaixou o tom e logo depois suspirou. Aquilo era patético. — Somos dois homens adultos e estamos brigando feito meus sobrinhos...
— São quantos pirralhos mesmo? — O cowboy se aprumou, concordando que deviam agir feito dois adultos, embora fosse realmente difícil em certas situações.
— Não gosta de crianças, cowboy? — Victor implicou. — São três: Daniel, Denver e Dilan.
— Wow! Quanta criatividade. — Jackie debochou, mas lembrou-se de deixar as implicâncias para mais tarde. A ideia de ter três pirralhos iguais correndo pela fazenda era muito assustadora. — Um dia, certo?
— Um dia. — Victor confirmou. — É por uma boa causa.
Jackie concordou. Ivan precisava do carinho da família e os netos, com certeza, lhe fariam um bem danado. Ele pôde reparar, pela proximidade, o tom exato dos olhos de Victor. Não que ele fosse de se apegar nesses detalhes, cores não importavam muito, mas verde era sua cor favorita e, talvez, só talvez, o tom verde-oliva dos olhos do loiro, fosse exatamente o seu favorito.
Não havia nada demais em ficar perto de alguém, aproveitando a companhia e o silêncio um do outro, mas Victor se sentiu incomodado por ser encarado daquela maneira e mostrou o incômodo através de um pigarrear e de um entrelace de dedos nos cabelos longos.
— Tudo bem...? — Resolveu usar a pergunta em forma de disfarce para o súbito constrangimento que se concentrou visivelmente em suas bochechas.
— Só estava pensando no domingo passado. — Jackie se pronunciou, freando a língua para não inventar de falar sobre olhos verdes e cores favoritas. Definitivamente ele não gostava de verde, não, ele gostava de azul. Isso! Azul era uma cor para se ter como favorita.
— Foi a recepção mais inesperada. — Victor comentou. — Provavelmente se eu fosse mesmo uma senhorita, você seria uma infinidade de vezes mais abusado. — Que bom que ele não era uma mocinha.
— Provavelmente sim. — Jackie lançou um sorrisinho faceiro para o loiro. Não que houvesse muita coisa que diferenciasse o filho do patrão de uma mulher, ao menos vestido. Ainda mais com uma senhorita tão bonita. Ponderou sobre aquele pensamento. Porque se havia achado Victor bonita quando pensou que ele era uma mulher, quer dizer que continuava o achando bonito, mesmo ele sendo homem. Não! Afastou aqueles pensamentos estranhos e retirou o chapéu, deixando os fios castanhos escorregarem para a testa. O sol tinha cozinhado seus miolos. Onde estava todo aquele papo de que homem nenhum era bonito? —, mas não sou desse tipo. — Resolveu justificar. — Quer dizer, eu respeitaria sua irmã.
— Cecília é uma senhora casada. — Victor alertou em tom divertido. Jackie, com certeza, não gostaria de provocar sua irmã. A mais velha não era nada simpática e muito menos permitia a aproximação de pessoas mais simples. — Felizmente não ficaremos na casa dela, seria algo insuportável... Como é só por um dia, meu irmão não se importa em ceder a modesta casa. — Ironizou. Fazia tempo que não via o irmão, aproveitaria para matar um pouco da saudade. Embora não tivessem tanto contato quanto gostaria, amava ambos os irmãos, mesmo com todos os problemas de família. — Então, como insiste em me acompanhar, sairemos cedo amanhã. — Decretou. Não conseguiria se livrar do cowboy.
— Sim senhor! — Jackie brincou e bateu continência, sorrindo daquela maneira debochada. O que ele não esperava era que as mãos de Victor se precipitassem para seus cabelos e começassem a “ajeitar” seus fios que insistiam em cair para a testa.
— Se usar um pouco de gel vai ficar muito mais — Victor se freou ao perceber que usaria a palavra bonito, pois achou que soaria estranho aos ouvidos do cowboy. Se bem que, Jackie era realmente bonito. — ... apresentável. — Os dedos passaram por entre os fios escuros e memorizaram a textura agradável.
— Por isso eu uso o chapéu. — Jackie ironizou. Ele lá tinha tempo pra cuidar do cabelo? Tocou os pulsos do loiro e afastou aquelas mãos magrelas de seus cabelos. Mãos magrelas e suaves de uma maneira que o deixou levemente incomodado. Era coisa demais para um dia só. — Vou tentar seguir o seu conselho. Tudo certo pra amanhã, então, boa noite.
Victor observou o cowboy sair apressado para subir as escadas e só depois percebeu que tocava o pulso no exato lugar onde Jackie havia segurado. Mãos fortes... Certo, estava pensando demais e sabia exatamente a quem culpar por tais pensamentos. Sebastian tinha que aprender a não ser tão inconveniente e desbocado.
Mas era impressão sua ou a noite não estava assim mais tão fresca?
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