Cavalos Selvagens
25 25 "Uma coisa pra te dar"
Notas iniciais

25 — Uma coisa pra te dar
Uma camiseta de algodão simples e uma calça leve foi o que Batholomew escolheu para descansar naquela noite. Havia demorado uns minutos a mais no banheiro, fazendo a barba por achar que andava aparentando ser mais velho do que realmente era – isso uns dias depois de ter sido confundido com o bom velhinho pelos netos de Ivan. Os cabelos foram penteados com um pente gasto e usou loção e um perfume leve.
Estava cansado da correria do dia-a-dia e agora só pensava em ver o jornal e ir se deitar. Enquanto uns se divertiam no jantarzão na cidade, ele ia para a cama cedo e ainda sem janta. Só de olhar para a pia com louça do almoço…
Um alívio quase verbal o tomou assim que as costas encontraram o apoio macio da poltrona de couro. Ela era moderna, daquelas que faziam massagem e se reclinavam toda. Tinha gastado um dinheirão com aquela preciosidade depois de ver um anúncio num famoso canal de compras por telefone na TV. Era a parte mais relaxante do dia, mas assim que buscou pelo jornal das nove e meia, três batidas na porta o tiraram da aura relaxante da programação que tinha escolhido para a noite.
Quem poderia ser?
Talvez fosse Martin, o garoto gostava de tagarelar. Talvez fosse Nestor com algum problema ou algum outro vizinho precisando de ajuda. Pensando nisso, ergueu-se de imediato. Sua casa era mais perto que a casa grande e fora Ivan e Jackie – que estavam na capital –, era um dos únicos com automóvel por ali, caso houvesse alguma emergência.
No entanto, assim que abriu a porta, já preocupado com alguma possibilidade de acontecimento ruim, deparou-se com uma garota que ele conhecia muito bem.
— Eu trouxe churros e chocolate quente. — Ela anunciou, exibindo um prato coberto por um guardanapo e uma garrafa térmica de plástico vermelho. Não era o tipo de visita que chegava de mãos abanando, mas era o tipo de visita que… — Que bagunça!
Tão logo subiu o degrau, mesmo que não tivesse recebido um convite para entrar, empurrou o dono da casa com os quadris e se colocou para dentro. Era uma casa modesta, de poucos móveis, mas, ainda assim, Bartholomew conseguia ser o mais desorganizado dos seres.
— A mulher da limpeza ficou doente essa semana. — O mais velho comentou, coçando a barba recém-feita e ponderando sobre a tal bagunça. Não estava tão bagunçado assim e Eva não devia estar ali.
— E vai quebrar as suas mãos se você recolher as roupas jogadas no sofá ou lavar a louça? — Eva retrucou, analisando a falta de cuidados de um homem solteiro para com a própria casa. Homens...
— Não faz nem uma hora que eu cheguei, eu estava descansando e assistindo ao telejornal. Tentando. — Precisava mesmo se explicar? — E a mocinha não devia estar aqui. — Cruzou os braços, duro e incisivo como sempre.
Mocinha… Evangeline suspirou ao colocar o prato e a garrafa sobre a mesa sem toalha. Apenas se dignou a dar de ombros e buscou por duas xícaras no armário, colocando-as sobre a superfície de madeira e retirando o guardanapo pintado a mão, revelando sua maior especialidade. Oras, eram melhores que os da Dona Florinda! Ela encarou com satisfação o olhar deleitado do mais velho e aproveitou para observar a maneira como a camiseta simples o deixava atraente, bem longe da seriedade habitual de camisa e jaqueta.
Bartholomew não negaria que sentiu o estômago roncar e a boca salivar com a visão da sobremesa, não havia comido nada durante a tarde e a noite e estava faminto, mas ainda sentia pouca disposição de preparar alguma coisa na cozinha.
— E então? — A morena chamou sua atenção pelo tom de voz sugestivo. — Você não quer provar?
Provar?
Ela usava um vestido simples com estampa de folhagens, um pouco largo, e quando apoiou as mãos sobre o tampo da mesa, uma das mangas deslizou pelo ombro de maneira sinuosa. Bartholomew chegou a engolir a seco ao se pegar admirando a pele morena de brilho dourado. Era por esse motivo que ela não devia estar ali!
— Provar os churros, velhote! — Ela riu ao acompanhar onde os olhos dele se mantinham, cheios de um interesse velado. Ora, ora…
— Devia era ter mais respeito. — O mais velho resmungou, buscando um pouco de juízo e sobriedade. — E não devia estar aqui. — Novamente, reforçou aquele detalhe. — Está tarde e pode preocupar a sua mãe.
Eva revirou os olhos com aquela fala. Ela era uma mulher adulta e decidida, podia muito bem sair à noite e visitar um conhecido e, mesmo assim, deixar a mãe ciente do que estava fazendo. Não havia problema algum em estar ali, levando doces a um homem que sequer tinha jantado. Não havia nada de ruim em querer estar com ele e conversar, aproveitar o resto da noite ao lado de quem gostava. Mas era frustrante que, apesar de deixar claro o quanto gostava dele, recebia somente evasivas e um tratamento digno de um pai para a filha. E sabia que o homem não era completamente indiferente a sua presença, mas vivia comparando a diferença de idade entre eles.
Algo que para ela não tinha importância alguma.
— Deixa de ser grosseiro e vem comer. — Puxou a cadeira e se sentou, importando-se pouco com o olhar de reprovação que a acompanhou naquele gesto. — Conhecendo você, ficou trabalhando o dia todo e esqueceu de se alimentar. Eu sei que é somente doce, mas é melhor que ir dormir de bucho vazio.
Contra fatos não havia argumentos. Cansado daquela discussão que somente servia para que a moça se aproximasse mais, e cansado do dia exaustivo de trabalho, ele caminhou até a mesa, sentando-se ao lado dela, mas somente porque ficava mais perto da guloseima. Antes que se servisse, Eva distribuiu o líquido escuro e perfumado nas duas xícaras, mas parecia um pouco menos animada agora.
Certo…
— Perdão. Não quis ser grosseiro. — Arrumou os cabelos grisalhos em um gesto desconsertante. — Obrigado pela gentileza. — Agradeceu com sinceridade e pegou um dos churros, mordendo-o e sorrindo com satisfação. — Delicioso. — Divino, para dizer o mínimo.
Eva considerou o pedido de desculpas e o elogio, admirando a expressão do homem mais velho. Ela se sentia como Tulipa as vezes, observando o cara que gostava de longe. Desde que se lembrava. E desde então, quando cresceu e se tornou mulher, quis que ele o visse da mesma forma, mas Bartholomew tinha a odiosa mania de dizer que ela estava apenas deslumbrada com o fato de ter um homem mais velho interessado nela, logo isso ia passar e ela arranjaria um jovem bom e se casaria.
O interesse não passou. Ela não casou, embora tivesse namorado com alguns rapazes ao longo de seus vinte e sete anos de idade. E admitia, ainda que nada orgulhosa, que desejava ter Bartholomew enciumado ou qualquer outro sentimento que demonstrasse que ele retribuía ao seu interesse.
O homem mais velho era muito comedido, respeitoso, tratando-a como uma menina, não permitindo que ela se aproximasse e que mostrasse que ele estava enganado. Não era um interesse passageiro, era algo profundo e maior.
— A Tulipa 'tava tão feliz por ir ao lado do seu Ivan naquele jantar de gente fina. — Comentou de maneira despretensiosa, observando as reações do administrador da fazenda. — Ela ama o patrão. Não vai te dar bola nunca. — Alfinetou, bebericando do chocolate.
De novo aquele assunto...
— E veio aqui pra me dizer o óbvio? — Batholomew engoliu o doce com certa dificuldade, sentindo desgosto ao ouvir aquilo.
— Não… — Novamente ela suspirou. Os dedos magros afastaram as mechas castanhas e encaracoladas para trás das orelhas de brincos de argola. Não tinha direito de falar assim, mas parecia uma forma de fazê-lo desencantar de Tulipa. — Eu queria te ver.
A sinceridade dela, muitas vezes o colocava em situações difíceis de sair, mas era algo que apreciava, além de outros traços de personalidade. Mas ela era tão jovenzinha… Uma jovenzinha um tanto deslumbrada.
— Está me vendo agora. — Ele também estava falando coisas óbvias, mas era o que conseguia pensar naquele tipo de situação.
— Mas sabe que eu não queria apenas ver. — Eva resmungou, e embora o tom de chateação estivesse ali, ela ergueu a mão para tocá-lo no rosto. Ele era um homem tão charmoso, como a mãe dizia dos galãs das novelas. O polegar deslizou pela maçã e desceu para sentir a textura da barba recém-aparada. — Ficou melhor assim, mas eu também gosto de como estava antes.
Tão ousada. Bartholomew afastou a mão com cheiro de canela do rosto e pegou outro dos churros, degustando da iguaria antes de dizer qualquer coisa.
— Então eu vou deixar o rosto liso da próxima vez. — Implicou, recebendo um olhar estreito dos olhos amendoados.
— Vai rejuvenescer.
— Pensei que gostasse de homens mais velhos. — E ouvir aquilo, não era como se fosse deixá-lo mais seguro em relação ao que ela dizia sentir.
Eva bebeu mais da xícara já quase vazia e apoiou os cotovelos sobre a mesa, aproximando-se a ponto de sentir o perfume suave da pele dele. Céus, não era “homens mais velhos”, era só com ele, mas talvez precisasse fazê-lo entender.
— Eu gosto. — Deixou claro. — Mas não é no plural, seu turrão, é só você. — Mais claro, seria impossível.
Mas sabia que, mesmo se declarando e deixando exposto qualquer sentimento, ainda tinha que fazer o mais velho enxergá-la como uma mulher crescida.
* * *
Os olhos puxados acompanhavam todas a bandejas nas mãos dos garçons perfeitamente engravatados, na verdade, era mais como se estivessem embalados à vácuo naquelas roupas desconfortáveis, mas se parasse para pensar, ele se assemelhava muito ao que via desfilar pelo suntuoso salão. Não que se orgulhasse de tal fato.
As comidas não eram tão atraentes quantos os ricos faziam parecer, mas ele estava com fome e gente de grana parecia esperar até o último momento para servir aquilo que realmente importava. Onde é que estava a sustância? Como conseguiam parar em pé comendo tão pouquinho? Era algo que se questionava enquanto olhava para as migalhas de nomes embonecados.
— Eu prefiro a minha comida…
Sebastian tinha que concordar com Tulipa, mas até mesmo a comida de sua mãe era mais interessante que croissants de queijo sem sabor, molhos com nomes rebuscados e que também não tinham sabor, cogumelos, profiteroles e cassoulet, e ainda que fossem ruins e de gosto duvidoso, vinham em quantidades absurdas de pequenas. Era tão melhor se estivesse em um rodízio de pizza com borda recheada e que o deixasse com o botão da calça a ponto de explodir…
Aquele era um sonho distante, mas ainda convenceria o loiro a ir numa pizzaria ou comer cachorro quente ou hambúrguer bem gordo, comprar um kit festa para os dois também parecia ser uma ideia mais que agradável. Possibilidades saborosas e infinitas, mas, no momento, a realidade era bem insossa.
— Será que o prato principal vai conseguir matar esse buraco negro no meu estômago? — Murmurou pensativo e quase sem esperanças. Diziam que ele comia demais, mas ele trabalhava muito e estava claramente em fase de crescimento, sua maior desculpa quando apontavam sua gula.
— Não é tão ruim quanto parece. — Veronika comentou. Estava sentada junto a família do chefe e apreciando os aperitivos e as conversas amenas com os recém-conhecidos. Ela os achava umas figuras, gente simples e divertida. Dava facilmente para perceber que tinham um coração grande e uma felicidade genuína em cada fala e gesto. Estar com eles pareceu muito mais saudável do que ficar com os colegas de trabalho. — Esse aqui é de queijo de cabra temperado.
— Ah… — Sebastian cutucou o tomate cereja com certa desconfiança antes de colocá-lo inteiro na boca. — Sem graça. — Resmungou ao engolir. A comida era ruim, mas a bebida era divina e borbulhante. E bebeu um pouco mais, apreciando as cócegas na garganta. Poderia mergulhar em uma piscina daquele champanhe. Isso, claro, se não ficasse bêbado com tanta facilidade. Algo preocupante, já que costumava dar vexame ainda no terceiro copo de bebida.
E longe de si ser o show principal do jantar naquela noite! Dançar em cima daquela mesa, no entanto, parecia uma ideia muito agradável.
Veronika tinha aprovado o namorado do chefinho. Bem, ela não sabia se eles usavam aquela palavra para definir o relacionamento que haviam acabado de retomar, mas achava que tal palavra combinava muito bem com eles. Tão bonitos e apaixonados. Bonitos, sem nenhuma dúvida! Aquela mistura que dava cor a pele dele, os olhos puxados e a jovialidade dos traços e da personalidade, eram um conjunto realmente atraente. Chefinho de sorte.
E não deixou de notar que o cowboy bonitão e o irmão caçula de Simon, também estavam juntos. Bem, até o seu Ivan e a mulher bonita ao lado dele, pareciam de rolo. Ela era uma alma solteirona em meio a muitos casais, foi o que deu para concluir. E era algo que não poderia resolver tão facilmente assim… Só andavam aparecendo homens que não valiam a pena.
O olhar castanho, então, recaiu sobre uma moça bonita que se aproximava do cowboy que agora sabia se chamar Jackie.
— O seu amigo saiu e tem uma mulher linda com o bonitão ali. — Comentou, fazendo um gesto com a cabeça, indicando a cena.
Sebastian franziu o cenho assim que pousou os olhos no amigo e na dama desconhecida, não que estivesse imaginando algum tipo de aproximação entre aqueles dois, Jackie não era esse tipo de homem e, se fosse, ele faria questão de quebrar um ou dois dedos do cowboy. Não era alguém violento, longe disso, mas Victor já tinha sofrido uma vez com algo parecido no passado, ele merecia somente a felicidade agora e, em todo caso, a mocinha ali não representava nenhum perigo.
— Vocês da cidade são bem deslumbrados com gente do campo. — Falou divertido e implicante, afinal, tinha sido claramente cantado pela morena ao lado.
— É que vocês do campo são assim… — Ela fez um gesto que demonstrava algo em grande escala. — Eu não sei explicar, mas é um algo a mais.
Bem, Sebastian concordava que, ao menos ele, era mesmo alguém com coisas maiores por ali, mas deixou aquela informação silenciada, não porque se sentia constrangido, mas por uma figura que chamou sua atenção no momento em que desviou o olhar.
Algo estalou em sua mente. Não podia ser quem estava pensando.
— Qual é o nome daquele homem…? — Perguntou a Veronika, sem desviar os olhos do homem que caminhava de volta para a mesa. Percebeu que ele era conhecido da mulher que tinha se aproximado de Jackie uns momentos antes.
O olhar da secretária recaiu sobre a mesa a frente e ela notou certa semelhança entre o recém-contratado da empresa e a moça bonita ao lado dele. Não tinha tido tempo de conversar com ele a ponto de conhecer a família.
— O nome dele é Ryan. — Contou. Era normal ficar curioso e Ryan era um homem muito bonito e chamava a atenção. — Foi contratado como mestre de obras, não faz nem um mês.
E enquanto entrava em uma espécie de fofoca sobre o moço de cabelos quase ruivos e óculos arredondados, Sebastian pareceu mais preocupado em olhar ao redor e, agora, ela quem estava curiosa para saber os motivos daquele silencioso alarde, mas antes que pudesse perguntar, o viu se erguer em um rompante e caminhar em direção a mesa de Ryan, atraindo também a atenção de Simon que, mesmo junto da imprensa, não deixou de notar a forma como o viu se levantar.
Os passos duros e determinados de Sebastian, logo o levaram até o outro rapaz que ergueu os olhos e o encarou sem entender, talvez esperando que ele dissesse o motivo de estar ali, sendo que não era um garçom e nunca o tinha visto antes.
Ryan não o tinha visto, mas Sebastian o conhecia de fotos enviadas pelo próprio Victor na época em que o loiro namorava, e se antes o tinha achado conhecido de algum lugar, agora tinha a certeza que era mesmo aquele infeliz.
E não precisava ser um Sherlock Holmes para entender que a demora de Victor no banheiro, se devia ao fato de o melhor amigo ter se deparado com aquele mau caráter. Ah, seus dedos estavam coçando. Lembrava-se claramente do quanto o loiro tinha sofrido por culpa dele e da forma como ele fez as coisas, sendo um verdadeiro filho da puta sem coração.
Não teve que pensar muito, estava com raiva, sentindo a adrenalina correr nas veias e a ira cegar seu bom juízo.
Certo, qual juízo?
— É Ryan Clarck, não é? — Perguntou, somente para uma confirmação mais precisa, embora tudo confirmasse o óbvio. E infelizmente, lembrava-se até mesmo do sobrenome do infeliz.
O olhar castanho desviou para o rosto da mulher ao lado e retornou ao seu, ainda de cenho franzido e parecendo curioso quanto as suas intenções.
— Eu não me lembro de você. — A resposta veio confusa, enquanto ele parecia buscar na memória por aquele rosto.
— Você não me conhece, mas eu tenho uma coisa pra te dar. — Havia guardado aquela coisinha por anos, desde que ouviu o quanto Victor se sentia ruim após o término.
Ryan estranhou aquele fato ainda mais e pensou que o rapaz o havia confundido com outra pessoa. Além disso, ele não segurava nada nas mãos, indicando que a fala estava equivocada. Ia responder exatamente isso, quando foi agarrado pelo colarinho e recebeu um punho pesado no rosto.
Foi um estalo seco de encontro ao nariz do homem de terno preto e cabelos em um rabo de cavalo. O impacto, além de trazer expressões de choque aos rostos dos convidados, fez com que o corpo atingindo cambaleasse por sobre a mesa de talheres e comidas caras.
Sebastian havia guardado aquele soco especialmente para um momento assim. Não poupou força ao acertar o nariz do mais velho e sentiu uma satisfação grandiosa ao vê-lo sangrar. Não, não era uma pessoa violenta, mas não era hipócrita a ponto de dizer ou pensar que canalhas como aquele não mereciam ao menos um soco como uma leve punição. Era um soco para um grande estrago que ele tinha feito ao se portar feito um babaca.
A comoção tomou o ambiente no instante em que o homem de óculos foi puxado para cima.
Todos boquiabertos tentando entender o que havia desencadeado aquele gesto selvagem, já que nenhuma exaltação pôde ser ouvida antes que o punho estalasse no rosto do mestre de obras.
O jantar simplesmente parou.
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