Cavalos Selvagens

10 10 "Não é um encontro"


Notas iniciais
Boa tarde, galera! Olha quem chegou! XD Vamos lá; agradeço a todos os favoritos e acompanhamentos e a todos que comentaram no capítulo passado: sapphirekings, Pattysouza, Dandi EverChaWeas, Deby Costa, Vallentine, ShalaNala, Angel Leto, Olive, RenatoAml, Gowther, gabismct, LilaMaxwellYui e nilla. Obrigada, 'cêis são demais e me ajudam muito com os comentários ♥ Então, esse capítulo tem até personagem novo, espero que gostem dele, mesmo sendo só uma ceninha, enfim, tem de tudo um pouco aqui. Boa leitura!

Capítulo 10 — Não é um encontro

Naquela manhã de sábado, o trio mais bonito de Santa Luz acordou com as galinhas e quase deixou os cabelos de Tulipa grisalhos iguais aos de Ivan. Eles corriam pela cozinha e quase derrubaram as coisas sobre a mesa ao puxarem a toalha.

— Pelo sangue de Cristo! — Tulipa exclamou, levando a mão ao peito de maneira dramática. — Essas crianças são ligadas na tomada! — Era a única explicação para aquela agitação toda.

Ivan concordava em gênero, número e grau com ela. Desejava ter uns vários anos a menos para conseguir acompanhá-los nas mais diversas brincadeiras e, por isso, deixava eles fazerem tudo o que queriam. Isso incluía quase derrubar a casa.

— São uns pestinhas. — Conseguiu laçar um dos netos pela cintura, impedindo que ele continuasse com a correria. — Você é o pior. — Acusou ao encarar o pequeno agitado que tinha nos braços.

— O pior é o Daniel. — Denver apontou para o irmão que fez uma carinha ofendida. — Ele é medroso e chora por tudo.

Daniel se avermelhou. Oras, como assim ele era medroso? Só não gostava de nada relacionado a mortes, sangue e almas do além. Contentou-se em mostrar a língua para o irmão mais metido e subiu em uma das cadeiras, pegando um pão doce sem milagrosamente derrubar alguma coisa.

— E você implica com o seu irmão mais velho. — Ivan apertou o neto. Segundo os meninos, havia uma hierarquia meio estranha entre eles, afinal, o mais novo, se intitulava o líder.

— A mãe disse que ele tem que ser mais homem, pra não ficar igual ao tio Victor.

Dilan bateu a mão na própria testa e Daniel quase escorregou na cadeira grande, constrangido com a fala do gêmeo.

Já Ivan, sentiu vontade de ligar para a filha mais velha e soltar os cachorros em cima ela. Cecília era casada e mãe, mas dizia umas coisas ofensivas e preconceituosas aos filhos que eram ainda muito pequenos para compreender o que era certo e errado. Não havia sido fácil para ele aceitar a orientação sexual do filho caçula, é verdade, mas Victor era de longe aquele que mais se importava, que ligava todos os dias e que demonstrava maior afeto. O filho mais novo gostar de homens invés de mulheres, não era nada comparado ao caráter dele. Se Cecília fosse um pouco como Victor, não estariam separados por um abismo.

— Seu irmão não é medroso ou chorão, Denver, ele só é um pouco mais sensível e isso não tem nada a ver com ser menos homem. — Explicou. Uma forte nostalgia o atingiu, levando-o para muitos anos atrás, quando mostrava aos filhos como deviam se portar para serem pessoas de bem.

— Mas homem não chora, vô. — Denver cruzou os braços. Não era a primeira vez que a mãe falava algo assim. Mães sabiam de tudo, certo?

— Choram sim! Eu já vi o pai chorar. — Daniel se defendeu.

— Viu nada! O pai não chora!

— Não vão começar a brigar. — Ivan acalmou os ânimos. Quando eles começavam a falar ao mesmo tempo, qualquer um ficava maluco. — Agora, prometa que não vai mais ofender o seu irmão. — Fez o neto genioso encará-lo.

— Mas eu nem ofendi. — Denver fez careta. — Eu só disse o que a mamãe falou.

— Cecília não falou sério, então, não repita isso por aí. — Apertou a bochecha fofa do neto quando ele consentiu. Ainda era bom naquilo, mesmo depois de décadas sem ter criança em casa. — Todos vocês são bonitos, valentes e espertos, por igual, mesmo chorando.

— Mas eu sou o mais bonito. — Daniel ergueu a mão, empinando o nariz de maneira ofendida. Era claramente o mais bonito ali, sem dúvidas. E isso acabou desencadeando uma nova discussão com Denver.

— O único que quase não fala é você. — Ivan alisou os cabelos loiros de Dilan, vendo com graça como ele voltava a arrumá-los no lugar. — Está tramando alguma coisa? — Perguntou desconfiado.

— É segredo. — O menino fez ar de mistério, bebendo do leite com chocolate. — Mas eu sou o mais inteligente. — Completou em tom implicante.

— Vocês são é fogo. — Tulipa sorriu. Era bonitinho ver como eles se tratavam. Irmãos sem implicância, não eram irmãos, mas ela era muito mais interessada no avô dos pirralhos do que em qualquer outra coisa ali. Se tivesse algum concurso de avô mais sexy, Ivan ganharia com todas as honras.

— Você é a nossa avó? — Daniel se virou para a única mulher no cômodo, fazendo Ivan se engasgar com o suco e Tulipa abrir um sorriso luminoso.

— Pra ela ser nossa avó, ela tem que casar com o nosso vô. — Dilan falou, cheio de certeza, somente aumentando o desconforto de Ivan.

— E velhos casam? — Denver soltou a pérola. Ele parecia muito curioso, até levar um tapa de Daniel sem entender o motivo.

— Não somos velhos, menino. — Tulipa colocou as mãos na cintura. — Somos—

— Usados? — Denver arriscou. Certo que não era inteligente como Dilan ou sensível como Daniel, mas nunca tinha visto um casal de velhinhos se casando. E o avô e a mulher com nome de flor, tinham muitos anos. Tantos que não dava nem pra contar.

— Nem velhos ou usados — Tulipa bufou, ofendida por não poder casar por ter mais de… De… Por ter alguns anos aí. — Somos experientes, bebê.

— Expe... O quê?

Dilan e Daniel perceberam que o irmão do meio era um caso perdido.

— De qualquer forma, eu faria muito gosto de ser a avó de vocês. — Tulipa sorriu, tocando o braço de Ivan de maneira sugestiva, quase se debruçando sobre ele.

— Ninguém aqui vai casar. — Ele fez questão de deixar claro ao afastar a cadeira. Aquela mulher ficava mais abusada a cada dia que passava e só faltava molestá-lo na cozinha. Em frente aos netos!

— Nem se eu aparecesse com uma aliança e pedisse a sua mão. — Tulipa queria esganar o patrão, mas se não havia desistido em todos aqueles anos, não desistiria mais. No entanto… — E eu estou… Em outra, como dizem por aí. — Chacoalhou os ombros. Nem acreditava que seguiria os conselhos de Sebastian. A que ponto havia chegado...

— E quem é o felizardo? — Ivan forçou a pergunta, já sabendo a resposta. Não que ele se importasse.

— O Bartô. — Ela fez questão de falar enquanto encarava Ivan, buscando por alguma expressão de desagrado, mas não encontrou nada.

— Ah, então você e o Bartholomew estão saindo?

Victor acabava de chegar junto ao cowboy, e já estava decepcionado, mas o pai era lerdo e… Certo, não podia falar do pai, lá estava quem ele havia puxado.

— Sério? — Jackie encarou Tulipa com desconfiança. — Mas eu achei que—

— Eu e ele estamos saindo, como vocês dizem. — Tulipa reforçou a mentira. Ivan tinha que ter uma fagulha de ciúmes naquele coração negro.

— Sorte aí pro relacionamento de vocês, então. — O cowboy se sentou na cadeira onde Daniel estava, pegando o garoto e colocando-o sobre o colo. — E essa pirralhada toda? Tão aprontando logo cedo?

— A gente acordou com aquele bicho que canta desafinado. — Denver comentou, mastigando um bolinho com dificuldade.

— Odeio aquele galo. — Jackie riu, começando a tomar o café e iniciando uma espécie de disputa com o sobrinho de estimação ao afastar a travessa de doces e impedir que ele pegasse um.

— Bom dia, povo!

A voz de Eva entrou primeiro na cozinha.

Aquela realmente era uma manhã cheia e animada.

— Bom dia, babá. — Jackie sorriu para a moça e recebeu um beijo na bochecha, fazendo certo alguém ao lado quase derrubar o café.

— Que animação! Parece até festa. — Eva sorriu e foi pegar o mais sério dos trigêmeos. Ela estava pronta para um passeio, usando um vestido fresco e um chapéu. Apesar do sorriso, o olhar que direcionou a Lipa não era dos melhores. E a maneira como a empurrou com os quadris, mostrava o quanto se desagradava da presença dela. — E então, meninos, prontos pra conhecerem o monstro do lago?

O trio gritou em concordância e logo correu para fora. A babá era legal, não era como as que tinham lá na capital, não precisariam aprontar com ela para que desistisse do emprego.

— Eva, espera um pouco. — Jackie se levantou, acompanhando a moça até a entrada do casarão.

Victor quis rolar os olhos ou bufar, mas se contentou em terminar o novo café em silêncio, sentindo-o amargo, enquanto o pai e Tulipa, discutiam sobre ciúmes e algo que ele não quis entender.

— Eu vou indo. — Limpou os lábios com um guardanapo e beijou a testa do pai e a bochecha de Tulipa. — Parem de brigar, vocês dois. — Eles precisavam de um Daniel para fazerem as pazes.

— Quem briga comigo é o seu pai, esse bronco. — Lipa acusou.

— Eu nem devia te dar atenção. — Ivan fez um gesto de desdém para a mulher, voltando-se ao filho. — Você sabe que precisamos conversar. — Reforçou para o caso de ele ter esquecido.

— Nós… Podemos ir juntos. — Victor deu a ideia, não querendo adiar aquela conversa para mais tarde. — Então, até a noite, Lipa.

Tulipa acenou para o loiro, mas para Ivan, ela o teria mandado catar coquinho, mas se contentou em mostrar a língua. Passar algum tempo com o trio, deixava qualquer um, um tiquinho mais infantil.

Jackie e Eva ainda estavam ali, parecendo compartilhar de alguma piada, como no dia em que Victor perguntou quem era a moça bonita tão grudada no cowboy. Não que ele se importasse, é claro.

— Eu preciso perguntar, afinal, você é meu filho e eu me preocupo com você. — Ivan o puxou para começarem a andar.

— Pai…

— Você e o Jackie parecem bem próximos. — Comentou, observando a expressão do filho que logo ficou vermelho. — Eu não estou insinuando nada, eu só quero saber o que você pensa.

— Sobre o Jackie? — Victor mordeu o lábio inferior, mas suspirou logo em seguida. Era seu pai ali. — Aquele abraço foi somente porque o Daniel pediu, não teve nada a ver com qualquer outro tipo de sentimento.

— Ryan e você não estão mais juntos, mesmo não tendo comentado nada comigo, provavelmente se estiver saindo com alguém, também não vai me contar.

Victor teria fugido do assunto se pudesse. Era péssimo em mentiras e se sentia ainda mais péssimo por mentir para a pessoa com quem mais se importava.

— Eu não queria que se preocupasse. — Confidenciou em um murmúrio, envergonhado por mentir. — A sua saúde, o senhor sabe.

— Porque eu, com certeza, caço aquele cretino até no inferno quando descobrir o que ele te fez. — Ivan retorquiu, não contendo a raiva e dando razão sobre o filho ter mentido.

— Viu? Por isso eu preferi não contar. — Victor o abraçou pelos ombros. — Mas não houve nada grave, senhor Green, esquece esse assunto.

— Ele parecia sério quando conversou comigo, até entrou na sua frente quando eu… — Ivan parou ao lembrar da cena patética de bater no rosto do filho. Se arrependimento matasse... — Jackie é um bom rapaz. — Mudou de assunto. — Mas eu não acho que ele, sabe, que retribua.

Victor também não achava que o cowboy nutrisse algum tipo de interesse por sua pessoa, mas, mesmo com o pé atrás, não parecia que Jackie era totalmente indiferente no final das contas.

— Não tem o que retribuir, pai. — Falou depois de um momento. Momento que usou para relembrar algumas coisas. — Somos colegas de trabalho. Aquele homem é um debochado. Não fica colocando coisa na cabeça, ninguém aqui tem interesse em relacionamento amoroso ou algo do tipo.

Ivan não acreditava em uma única palavra, mas deixou assim por hora. Não queria encher o filho, mas a preocupação sempre falava mais alto. Ainda mais sabendo como o caçula era sensível em relação a certos assuntos.

— Eu estou em um relacionamento sério com o trabalho. — Victor sorriu, acreditando que era exatamente isso mesmo. — Agora, vamos falar sobre o senhor e a Lipa.

— Ah! — Ivan o empurrou de maneira implicante pelos ombros. — Você não tem que assinar alguns papéis lá no escritório?

— Claro, mas eu me preocupo com o senhor. E então, quando se casarem, vai usar um smoking e gravata borboleta?

* * *

Sebastian estava com os cavalos, que eram de longe os melhores ouvintes daquela fazenda. Os bichos não cobravam e nem julgavam seus problemas, por isso ele desabafava com os amigos de quatro patas.

— Você não acha, Maria Antonieta? — Perguntou a égua branca a qual escovava o pelo. — Eu concordo sobre ser burro, mas o que você faria se o homem que você desgraçadamente ainda sente uma coisinha, uma coisinha bem lá no fundo, te chamasse pra conversar?

Era esse o dilema. Havia combinado com Victor que aceitaria conversar com certo loiro dos diabos se o amigo se abrisse para o amor. E depois daquele combinado estúpido, cedeu às mensagens do loiro e aceitou a tal conversa.

— Se abrir para o amor. — Acabou rindo. — Ele tem é que se abrir de muitos outros jeitos.

— Quem é que precisa se abrir?

Sebastian quase infartou ao ouvir aquela voz. Como assim a égua falava? Meu Deus! Ele ganharia milhões com aquela descoberta! Espera, Maria Antonieta tinha uma voz muito grossa para uma dama. Devia ser parente de Victor, no final das contas.

— É muito esquisito isso de conversar com os animais, Sebby. — Martin quis rir da expressão de Sebastian, mas só fez desviar da escova que voou em sua direção. — Que recepção, ein.

— 'Tá fazendo o quê aqui, ô encosto? — Sebastian era a delicadeza em pessoa, principalmente com as pessoas próximas.

Martin era muito parecido com ele, e mais se assemelhavam a irmãos que os primos que eram. O mais novo tinha os cabelos um pouco mais longos, amarrados em um rabo de cavalo e era um pouco mais baixo. Havia chegado na noite passada, com a ideia de passar as férias junto a avó e o primo, mas já se arrependia de ter cogitado ficar todos aqueles dias naquela cidade esquecida por Deus.

— Resolvi sair um pouco. Férias são pra isso. — Ele deu de ombros. Não era a primeira vez que ia ali, mas já fazia algum tempo desde a última vez. — E de quem você falava com esse cavalo aí?

— É uma égua, uma senhorita. — Sebastian corrigiu, e assim como Maria Antonieta, pareceu ofendido com a confusão de gênero. — E não importa. O que eu sei, é que você também precisa se abrir pro amor, nenê.

— Eu vou abrir a mão nas suas fuças, isso sim. — Martin torceu os lábios. Qual é? Havia levado o maior fora do século de uma garota da sala de aula e ainda não estava preparado para esse monstro chamado amor.

— Deixa de ser mal humorado, menino. — Era um passatempo tirar o primo do sério. — Quer ir no parquinho hoje a noite?

— Parquinho? — E Martin lá era criança para ir em algo que se falava no diminutivo? Devia mesmo era ter ficado em sua casa, mas sentia saudades da avó que, no final, era uma cópia feminina e envelhecida de Sebastian.

— O Sebby vai ir comigo.

E dessa vez, foi Martin quem se assustou. De qual dos círculos do inferno aquele homem havia saído?

— Que diacho! — Sebastian exclamou, empurrando o cowboy quando ele tentou roubar um beijo seu. — Sai pra lá, seu animal.

— Quanto amor. — Nestor resmungou ao ser repelido, mas conseguiu na terceira aproximação roubar o que queria.

— Não respeitam nem os menores. — Martin rolou os olhos para aquela pouca vergonha, sentindo o rosto queimar de constrangimento.

— Ah, oi, criança. — Nestor bagunçou os cabelos do adolescente, sendo quase fuzilado pelos olhos negros e puxados.

— Como consegue ficar com esse cara? — Peguntou ao primo, torcendo os lábios ao ajeitar os cabelos.

— Ele é gostoso. — Sebastian deu de ombros, sem se preocupar com o constrangimento do primo. — Veio aqui só pra me chamar pra sair? — Perguntou ao cowboy, menos irritado e com muita vontade de ser agarrado.

— Eu não vim aqui só pra isso, mas a criança 'tá aqui, né. — Nestor só não o agarrava porque tinham plateia e ainda possuía algum bom senso para não protagonizar cenas picantes na frente de um menor.

— Deixa de ser implicante. Resolvemos isso mais tarde. — Sebastian, sem nenhum tato ou vergonha na cara, apertou a bunda do cowboy, dando ênfase nas palavras. — Agora sumam daqui, eu ainda tenho que escovar e dar banho nessa turma toda.

— Que sutil… — Martin foi o primeiro a se afastar, afinal, não queria presenciar nenhuma outra cena comprometedora. Não tinha nenhum preconceito quanto a orientação sexual do primo, mas aceitar era uma coisa, ver era outra bem diferente.

— Espera, criança! — Nestor alcançou o garoto nervosinho depois de roubar mais alguns beijos de Sebastian.

— Cara chato. — Martin resmungou, praguejando o fato de ser lerdo e ter se deixado alcançar.

— A gente é quase primo. — O cowboy o segurou pelos ombros, subindo o caminho de terra batida. — Devia me tratar melhor. Respeito aos mais velhos, lembra? Não ensinam isso lá de onde você veio?

Martin quase riu. Quase primos uma ova! Sebastian só enrolava aquele inconveniente e não precisava conhecer o primo e aquela relação sem sal para perceber isso.

— Segue seu caminho e volta bonitinho pra abanar o rabo pro Sebby, seu velho. — Sorriu de maneira implicante, seguindo para o lado oposto, mais precisamente, de volta para a casa da avó. Aquele homem implicava consigo desde que era menor, e Martin o achava muito sem graça e nada atraente. Não que gostasse de homens, mas se sentisse atração pelo mesmo sexo, não se enroscaria naquele cowboy feioso.

— Vê se coloca uma roupa bonitinha pra sair a noite com os adultos, criança! — Nestor fez questão de gritar. Aquele moleque era um folgado.

Abanar o rabo. Quem ali abanava o rabo?

* * *

— Ô, Jackie, você 'tá me ouvindo? — Bartholomew balançou a mão frente ao rosto do cowboy, esperando por alguma reação. Estava há uma meia hora falando para as paredes...

Estavam no refeitório, um cômodo contíguo ao galpão, um lugar de tamanho médio e confortável onde os trabalhadores faziam as refeições, cochilavam com os chapéus nos rostos ou jogavam conversa fora. Era horário de almoço, então, o local estava cheio e barulhento. Jackie estava em uma mesa próxima a entrada, compartilhando um banco com o administrador da fazenda, mas a atenção estava toda do outro lado do salão, mais especificamente em uma pessoa.

— Eu ouvi. — Voltou os olhos para o mais velho, encontrando-o com uma expressão de poucos amigos. — Sobre as máquinas. Eu já sei. Anotei tudo. — Voltou a espiar o que se desenrolava do outro lado, exalando desgosto por toda aquela babação de ovo para cima do loiro. Aquele povo todo queria o quê? Ganhar uma promoção?

— O que deu em você hoje, rapaz? — Bart perguntou, buscando pelo foco de atenção do cowboy, encontrando algo bem curioso. — Ah, então é isso. — Não conseguiu não sorrir, fazendo mil e uma suposições a respeito do olhar insistente de Jackie. Não era bobo e muito menos lerdo e já havia notado umas coisinhas aqui e acolá entre aqueles dois.

— Vê se não fala do que não sabe. — O cowboy retrucou, deixando a prancheta sobre a mesa e buscando por um cigarro. — Não tem nada a ver. — Bartholomew jurava que tinha uma veia furiosa pulsando no pescoço dele.

— Eu te conheço desde que você tinha a idade dos netos de Ivan, acha mesmo que consegue esconder alguma coisa desse velho aqui? — Lançou um sorriso divertido ao capataz, desafiando-o a contestá-lo. — Vai, desembucha. Eu sou um ótimo conselheiro amoroso. — Ergueu o rosto e fez a melhor pose convencida que conseguia.

— Desde quando? — Jackie arqueou as sobrancelhas, perdendo parte do mau humor.

— Desde sempre. Tenho experiência nesse assunto muito antes de você nascer. Agora desenrola.

— Eu só achei que do outro lado é mais interessante. — Jackie deu de ombros, desistindo da ideia de fumar. — Parece divertido.

— E deve ser. Olha só como ele ri.

Jackie se perguntou se ele queria ajudar ou contribuir para seu mau humor voltar e nunca mais ir embora, mas conhecia aquele homem. Bartholomew o provocaria até que assumisse alguma coisa. O que obviamente não ia acontecer, afinal, não havia nada para assumir ali.

— Mas fala aí, você e a Lipa, eu 'tô sabendo. — O sorriso malicioso tomou conta dos lábios do cowboy, mas ele não obteve resposta.

— Olha só, ele 'tá vindo pra cá. Disfarça. — O administrador falou como se fosse um adolescente de algum colégio, fazendo o cowboy entortar uma careta e achá-lo debochado a níveis elevados.

— A comida de vocês estava boa? — Victor perguntou ao se sentar frente aos dois homens, sorrindo pelas conversas e risadas anteriores na outra mesa. Os trabalhadores eram muito simpáticos e o tratavam muito bem.

— Talvez não melhor do que a sua. — Jackie respondeu, parecendo mais que estava alfinetando o loiro. E estava mesmo!

— A minha estava ótima. — Bart também sorriu. — Mas olha só, deu a minha hora. — Se levantou, inventando uma desculpa qualquer para deixar o “casal” a sós. — Nos falamos depois.

— Você 'tava rindo feito uma hiena lá do outro lado.

Victor voltou os olhos para os castanhos escuros de Jackie, após se despedir de Bartholomew, franzindo o cenho ao ouvir a comparação. Tudo bem que a risada não era das melhores, mas daí a ser comparado com uma hiena? Lembrava-se muito bem como elas riam em O Rei Leão e havia odiado aquela comparação ridícula.

— Eu estava me divertindo. — Deu de ombros. — É melhor do que ficar emburrado. Você devia tentar e tirar essa expressão de limão azedo da cara.

— Eu não 'tô com essa expressão. — Jackie se defendeu. — Estou trabalhando e não gargalhando feito um vilão de desenho animado. — Atacou, mostrando os papéis e a caneta.

— Não me chamou de senhorita e fica aí me ofendendo… Que bicho te mordeu? — Victor estreitou os olhos e contornou a mesa, sentando-se ao lado do cowboy e pegando os papéis para começar a assinar as folhas. — Isso parece ciúmes… — E como aquelas palavras escaparam da boca? Nem mesmo ele sabia, só sabia que devia estar mais vermelho que um peru.

— Pode ser.

Errar a própria assinatura, Victor conseguiu essa proeza ao ouvir a resposta descabida do homem ao lado, mas, mesmo assim, não retirou os olhos do documento, consertando o nome como podia.

— Eu estava brincando. — Falou constrangido. — Só não precisa descontar o mau humor em mim. — Sorriu amarelo, pensando que seria melhor ter ficado na outra mesa. O cowboy o deixava nervoso

Jackie nem se recriminou pela resposta. Não era uma verdade, mas também não era nenhuma mentira. Era metade de cada uma. Porque parecia bem óbvio que se incomodar com o fato de Victor ficar de risinhos com outras pessoas, só podia ser ciúmes, sim. Mas o loiro estava certo, não tinha que ficar de birrinha e descontando o mau humor em cima dele, até porque, o relacionamento entre eles estava bem melhor depois do abraço e de ter exaltado as qualidades do filho do patrão.

— Quer sair comigo essa noite?

Dessa vez, Victor não errou a assinatura, mas olhou para o cowboy como se ele tivesse quatro olhos. Não que nutrisse algum preconceito por quem possuía mais de dois olhos, mas ouvir aquela proposta era tão irreal quanto olhos quádruplos.

— Sa-Sair? — E lá ia ele e as palavras que novamente fugiam para o Himalaia, de mala e tudo. — Sair como? Por quê? Onde?

— Sair. — Jackie acabou rindo de todo o nervosismo que chegava a exalar dos poros do loiro. E pensou se ele era assim, tímido para tudo. Ele não queria, mas acabou imaginando um Victor todo corado entre os lençóis e teve que usar o chapéu para abanar um pouco do calor que subiu pelo corpo. — É o aniversário da cidade. Sempre rola uma festa pra população. Pensei que seria legal a gente ir.

Victor mordeu o lábio inferior em um velho tique e colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha em outro tique de nervosismo. Ele era sim, lento e quase parando, mas não era só sua impressão que Jackie o estava chamando para sair. Sair do tipo um encontro. Foi impossível não sentir o estômago se revolver em ansiedade. Um encontro depois de tanto tempo e… E se ele estragasse tudo? Era atrapalhado, tímido e tinha uma maturidade sexual lastimosa. E se Jackie tentasse beijá-lo e percebesse que não era nada daquilo de beijo mágico e… E se?

— Não.

— Não o quê? — O cowboy estranhou a fala repentina. Victor parecia ter entrado em transe. Por todos os anjos no céu! Aquele loiro não ajudava em nada o afastamento dos pensamentos repletos de perversão que andava tendo ultimamente.

Na verdade, desde o tal abraço e o banho frio, era impossível negar, ao menos para si mesmo, que Victor tinha lá uns encantos naquele corpo magrelo.

— Ah… — As bochechas estavam mais quentes que o fogo do inferno. E ele nem precisava ir até lá para saber. — Eu estou cansado. Acho melhor… Convide outra pessoa. A Eva, por exemplo.

— Olha, se quer me dar o fora, não precisa ficar me recomendando outra pessoa pra ir comigo, não. — Jackie não quis ser ríspido, mas Victor era complicado. — Aliás, por que sempre fala da Eva?

— Porque… Vocês se dão tão bem e… E ela é muito bonita. — Era uma justificativa bem ridícula, mas era o que tinha para o momento. — Você sempre fala dela, corre atrás dela, também.

Isso parece ciúmes. — O cowboy implicou, vendo com gosto quando os olhos se desviaram e ele pareceu mais atrapalhado que de costume. E de onde ele tirava aqueles absurdos?

— Mas não é. — felizmente Victor não gaguejou. — Você me convida pra sair, mas eu tenho que te lembrar que eu não sou uma mulher, claro, porque parece que você não entendeu ainda. — Essa era a questão do milênio. E era daí que partia toda sua insegurança e era também o que o fazia afastar qualquer um que tentasse se aproximar. — Eu não sou uma senhorita, mas você insiste em me chamar assim e… e…

— É sério que você não é mulher? — Jackie fez a melhor expressão de surpresa que conseguia, fazendo uma pausa dramática em seguida. Aquela era a revelação do milênio. — Não acredito. Posso ver?

Dessa vez foi Victor quem se surpreendeu. Depois que combinaram de pararem com as brigas sem sentido, Jackie havia se tornado ainda mais folgado e abusado. E ele não quis, ele não quis mesmo pensar naquelas mãos deslizando por seu corpo.

— Eu mostro os meus documentos. — Falou por fim. — Neles está claramente marcado que sou do sexo masculino.

— Deixa de ser paranoico, loiro. — Jackie o empurrou pelos ombros. — Se estou te chamando pra sair, é com tudo o que vem no pacote. É um passeio, não 'tô te chamando pra minha cama. — Ao menos, não ainda.

Era impossível não sentir o rosto pegar fogo depois de ouvir aquele disparate. Victor poderia se afogar na própria vergonha se isso não o deixasse ainda mais patético as vistas do cowboy. E ele nem queria mais imaginar algo relacionado a última parte. E na tentativa de disfarçar a tonelada de constrangimento, roubou o chapéu do cowboy que estava sobre a mesa, colocando-o na cabeça.

— Não vai sair comigo? — Jackie pareceu horrorizado com esse pensamento, mas estava se divertindo. — 'Tá perdendo um partidaço, já aviso.

— Que presunção. — Victor acabou sorrindo. — Aonde vai me levar?

— Em um restaurante para um jantar romântico. — Jackie provocou com um sorrisinho matreiro, achando-o ainda mais bonito com seu chapéu. — Relaxa, não é um encontro. Eu 'tô só brincando.

— Eu não pensei que seria um encontro. — Imagina, um encontro… Quase murchou e escorregou pelo banco, mas era melhor mesmo que não criasse expectativas, evitava sofrimentos futuros. — Então, estamos combinados. — Se levantou, e devolveu o chapéu ao cowboy, espreguiçando-se e caminhando para fora do refeitório, recebendo o sol do início de tarde e franzindo o cenho para a claridade.

— É mentira. — Jackie o alcançou, parando as costas do loiro e se debruçando para sussurrar no ouvido dele. — É um encontro sim.

Notas finais
Victor nem se arrepiou com essa ceninha final... XD O legal é que aqui tem que ser tudo bem explicadinho pros lerdos entenderem, mds, tá na cara que é um encontro com tudo o que tem direito, mas um certo loiro não entende se não desenhar aheuheu Gostaram? Espero que sim! O que acharam do Martin? Amo fazer adolescentes e crianças ♥ Vou responder os comentários ainda, não me joguem pedras XD Bjuss e até o próximo!