Cavaleiros do Caos
10 IX - Desesperanças e ideias arriscadas.
Notas iniciais
Cavaleiros do Caos
Não podia acreditar no que seus olhos lhe mostravam, sempre pensara que aquele era o lugar mais segura de todos, foi criado exatamente para isso. Mas lá estava ele, com suas muralhas de pedra erguidas com seu tom preto e machada de vermelho, o vermelho que marcava as varias mortes que estavam espalhadas pelo chão. Eram magos e cavaleiros, todos eles, se lembrava, do mais alto nível de poder e habilidade, jaziam agora no chão como trapos velhos e esfarrapados. Alguns sem cabeça, outros partidos ao meio, alguns devorados, perfurados, quebrados... Não importava como, estavam jogados pelo chão em volta de um mar de sangue que escorria por todo o entorno do forte quadrangular que mesmo com toda sua potencia tinha sido fortemente danificado, tendo um pouco de suas paredes destruídas formando buracos salientes, contorcendo a realidade do forte, dando a aparência de fragilidade ao invés de poder, como deveria ser.
Maria arfou de surpresa enquanto os outros tampavam os narizes por causa do forte odor pútrido que emanava dos corpos sem vida e em estado de decomposição. Seus olhos estavam dilatados até não poder mais, surpresos pelo o que estava vendo. Silver estava no mesmo estado. Desde pequeno ouvira historias incríveis desse forte, e agora o via completamente destruído e arrasado, bem no momento que mais precisavam dele. Todas as esperanças tinham caído por terra e agora não lhes restava mais nada.
— Venham. – falou Maria em um tom quase morto, estalando os dedos para que o sangue escorresse para os lados, abrindo passagem para eles andar. A enorme porta de madeira reforçada e metal se abriu diante deles revelando uma completa ruína. Mesas e cadeiras tacadas para todos os lados, armas presas nas saliências das paredes, jogadas ao chão, marcas negras em todas as partes que deviam ser por causa dos feitiços lançados. Corpos também estavam espalhados pelo local, apesar de ser menos que no lado de fora. – Ficaremos aqui por um tempo.
Com um estalar de dedos Maria fez os corpos desaparecerem e as mesas voltarem para o lugar que estavam antes. Alguns colchões apareceram no chão junto com cobertas para que pudessem se acomodar. Maria se sentou em um deles, perto da parede e se deixou relaxar no mesmo. Shadow se sentou do lado dela enquanto os outros iam explorar o lugar. Silver não queria deixar a maga sozinha com o moreno, mas tinha que procurar sobreviventes para saber o que tinha acontecido e se dava para reverter a situação. Foi com Blaze para um lado enquanto Sonic e Amy iam para outro.
Com um suspiro a maga se deixou acomodar na parede que tinha a suas costas, fechando levemente os olhos e se deixando relaxar por um mero instante. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Todo seu plano estava indo ralo a baixo e agora tinha que formular outro para sair dessa encrenca. Droga! A quem queria enganar? Não conseguiria fazer mais nada! Tudo estava perdido, as trevas haviam ganhado dando um passo a frente deles, não tinha mais como ganhar. Levou as mãos até o rosto, tampando-o e se encolhendo, levando as pernas para mais perto do peito.
— A esperança é a ultima que morre garota. – falou o mercenário a seu lado parecendo dormir no colchão que tinha a seu lado. A posição dele estava despreocupada, as mãos atrás da cabeça, o corpo comodamente deitado no colchão meio esbranquiçado, as pernas cruzadas uma encima da outra e os olhos fechados tranquilamente. Voltou a se encostar na parede, dessa vez com o rosto virado para o lado do garoto, o mirando intensamente.
— Por que voltou? – perguntou desconcertada, vendo como ele abria os olhos e virava ligeiramente o rosto para vê-la. O analisou até mesmo quando se ajeitou se sentando no colchão escorando levemente na parede, de uma maneira que seus braços se roçassem levemente pela pouca distancia que tinham entre um e outro.
— Já falei. Não vai se livrar de mim assim tão fácil. – respondeu ele sem realmente responder a pergunta da garota. Ela franziu o cenho com a esquivada que ele tinha feito. Odiava não ser respondia, gostava de ser breve e clara, respondendo todas as perguntas com coerência e isso era o que exigia de todos os que estavam a sua volta.
— Por que voltou? – perguntou novamente, dessa vez colocando mais convicção nas palavras, as tornando fortes e profundas exigindo uma resposta exata. Viu um pequeno sorriso surgir no rosto dele enquanto fechava brevemente os olhos e os voltava a abrir revelando um brilho diferente naquelas orbes avermelhadas. Ele rapidamente levou uma mão até o queixo da garota e aproximou o rosto da mesma do seu.
— Por causa disso. – falou um pouco antes de selar seus lábios com os dela, de uma maneira suave e delicada. Novamente a garota perdeu a linha de pensamento retribuindo o beijo da mesma forma, passando os braços pelo pescoço do garoto enquanto ele mantinha uma mão em seu rosto e a outra passava por sua cintura. Separaram-se apenas por falta de ar, mas mesmo assim permaneceram abraçados. – Alias, não nos apresentamos. Meu nome é Shadow.
— Maria. – sussurrou ela só para depois tomar novamente os lábios do garoto em mais um beijo, esse mais profundo que o anterior. A garota se apertava mais contra o corpo do mercenário, sentindo como seu pequeno corpo desaprecia nos braços dele. Não se importava em ser bem menor que ele, agora isso só lhe dava uma sensação de segurança e proteção. E por mais que soubesse que Valiant o buscaria por causa disso, não mais podia se separar do garoto. Não conseguiria.
Subiram até a parte mais alta do forte, desviando dos corpos que se encontravam no caminho e verificando se tinha alguém vivo. Para o desespero dos dois, todos que encontravam estavam mortos, não tinha nenhuma exceção. Se acomodaram na enorme janela que tinha no cômodo que entraram. Sonic a abraçava pela cintura, acomodando sua cabeça no peito do garoto e praticamente a protegendo com aquele doce abraço. Olhavam o céu azul claro se tornar levemente alaranjado enquanto nuvens e mais nuvens bailavam nos céus mudando levemente de cor por causa da claridade.
— O que vai acontecer agora? – perguntou a princesa mirando todo seu reino, algumas partes completamente dominadas pelas trevas, outras ainda resistindo, mas não estariam assim por muito tempo. A esperança tinha terminado e agora tudo parecia ter caído na mais terrível escuridão.
— Não sei. – falou o garoto, mas logo sentiu a princesa se encolhendo em seus braços, percebendo que ela havia ficado com medo que tinha perdido a confiança na vitoria. – Ei. Eu te falei aquela vez que ia garantir nossa vitoria. E é isso mesmo que vou fazer. Não precisa se preocupar, vamos ganhar essa guerra.
A garota levantou levemente a cabeça, o mirando com um pouco de duvida. Com um sorriso no rosto Sonic lhe deu um ligeiro beijo que transmitiu toda a confiança que a garota precisava. Ela se acomodou um pouco mais no peito do garoto e voltou a olhar para seu reino. Por sua culpa tudo isso estava acontecendo, queria se livrar logo desse seu poder e assim livrar a todos desse sofrimento.
— É melhor descermos e descansarmos. – falou o garoto enquanto ela apenas assentia e se levantava indo até a escada, apertando ligeiramente a mão do garoto. Tinha um mal pressentimento, e não gostava quando isso acontecia...
Chutou uma cadeira que estava por ali. Não tinha ninguém vivo por ali, tudo estava em ruínas e havia indícios de que fora aquelas criaturas. Estava frustrado, irritado, se sentindo um completo idiota por acreditar que tudo aqui estaria inteiro quando chegassem. Vira com seus próprios olhos a força das trevas e mesmo assim acreditava que tudo estaria as mil maravilhas ali?! Como era ingênuo!! Agora entendia o que falavam sobre as batalhas e as guerras. Nunca tinham um final feliz, não existiam heróis.
— Silver, se acalma. – pediu a garota atrás de si, mas mesmo assim não conseguia. Lançou com seus poderes uma das mesas que tinha por ali na direção da parede de pedra, fazendo a mesma se espatifar. Sua fúria era incontrolável, seu corpo não mais respondia e agora tudo o que queria era descontar sua raiva em alguma coisa.
— Como quer que eu me acalme se tudo pelo qual lutamos esta acabado?! – gritou sem se virar para vê-la. A raiva ainda o dominava, jogava tudo o que tinha a seu alcance para as paredes, fazendo as pobres peças de madeira se romperem com o brusco contato com a parede de pedra. Ia lançar mais uma mesa quando a garota de cabelos lilases se colocou na sua frente dele com um olhar penetrante o que vez o garoto acordar e deixar sua raiva de lado.
— Senta. – mandou ela apontando para uma das únicas cadeiras que tinham sobrado no lugar. Ele a mirou um pouco hesitante, mas, com o olhar perigoso que ela tinha, não duvidou mais em fazer o que ela mandava, sentando rapidamente na cadeira. Viu como ela andava a sua volta ficando atrás de si em um certo momento. – Agora relaxe.
Sentiu as mãos da garota passando por seu ombro, dando leves apertos que relaxavam seus músculos e fazia toda a tensão que sentia desaparecer como se fosse mágica. Não pode evitar soltar um suspiro e relaxar seu corpo na cadeira, nem percebendo o leve sorriso que a garota tinha no rosto. Por alguma razão seus olhos se viraram para a janela que tinha bem a sua frente e dava vista para um lugar além dos limites do reino, alem das terras que o rodeavam. Bem no local onde estavam as Terras Esquecidas.
Quase deu um salto ao ver o enorme redemoinho de nuvens negras no céu. Viu também uma enorme faixa de luz arroxeada indo do chão até o centro daquele enorme redemoinho, e como se fosse um quebra-cabeça seu cérebro juntou todas as peças em uma velocidade incrível. Sabia agora que lá era onde se encontrava o chefe de tudo o que estava acontecendo e sabia que ele podia utilizar da magia pela faixa de luz que tinha por lá.
Saltou da cadeira com a cabeça cheia de idéias, podiam ser arriscadas, mas já não tinham mais nada a perder. Blaze ainda estava confundida, mas mesmo assim seguiu o garoto até o local onde Maria estava, chegando até mesmo antes de Sonic e Amy que havia saído antes. Por uns instantes o garoto ficou desconcertado pela cena que viu. Aquele maldito mercenário abraçando de maneira um tanto possessiva a pequena maga que parecia muito bem acomodada no peito do garoto.
Pigarreou um pouco chamando a atenção dos dois. O garoto apenas abriu levemente uma braça do olho mirando o cavaleiro prateado com um pouco de atenção, enquanto a garota corava quase até o ultimo fio de cabelo não sabendo como falar ao ser pega daquela maneira. Sabia como Silver era super-protetor e que não confiava em Shadow, e lá estava ela abraçada a ele com todo aquele carinho. Onde podia enfiar a cara agora?
— O que houve garoto? – perguntou despreocupadamente o moreno mirando o cavaleiro sem muita importância. Tinha em mente o ódio que ele tinha por sua pessoa, mas não podia evitar provocá-lo. Tinha que aprender que agora ele estava junto com a maga, e não poderia fazer nada para impedir isso.
— Poderia soltá-la, por favor? – perguntou entre dentes se segurando para não pular no garoto e matá-lo naquele exato instante. Maria era sua pequena irmãzinha e não deixaria que um mercenário idiota fizesse algo a ela.
— E por que deveria? – rebateu o mercenário sorrindo ligeiramente e abraçando ainda mais a garota que continuava a corar, tendo seu rosto agora mais vermelho que um tomate. Silver rangeu os dentes e agora Maria sabia que se não fizesse alguma coisa algo ruim sairia disso.
— Shadow. – sussurrou fazendo o garoto estremecer levemente. Era a primeira vez que ela falava seu nome e parecia tão bem saindo daqueles lábios... Tirou as mãos da cintura da garota e as levantou em um sinal de rendição, mas continuavam com aquele pequeno sorriso no rosto. Maria se ajeitou se sentando de maneira correta e mirou a Silver que tinha que ser segurado por Blaze para não pular na direção do moreno. – O que aconteceu Silver?
— Sei onde esta o líder disso tudo e talvez possamos usar uma de suas magias de selo para prendê-lo e assim acabar com tudo isso. – falou ainda com os olhos fixos no mercenário que não deixava de lado o sorriso presunçoso que tinha no rosto. Logo se voltou para Maria que o mirava atentamente compreendendo o que ele queria. – Pode ser arriscado, mas não temos outra opção. O único problema é que fica nas Terras Esquecidas e duvido que consigamos passar por lá livremente como fazemos aqui.
Logo se ouviu um pigarreio e todos voltaram a ver o mercenário que parecia um pouco ofendido. Foi só então que Maria percebeu o que ele tinha a dizer. Como poderia ter esquecido daquela informação?! Talvez por passar tanto tempo com ele e perceber que ele não era igual as pessoas que viviam lá seu cérebro se esquecera da origem dele. Ia abrir a boca quando ele falou.
— Sou o melhor mercenário dessa área. Passos vocês rapidinho por lá sem termos muita confusão. – falou ele de maneira despreocupada, mas Silver ainda não se sentia muito confortável ao saber que ele seria o guia deles em um lugar completamente desconhecido. Maria o mirou com cara de “se não deixar ta morto” e não pode mais discutir. Sabia que agora ela ficaria sempre do lado dele e não queria acabar tendo uma nuvem carregada chovendo em sua cabeça por dias a fio sem parar. Uma vez já era o bastante.
— Então deixaremos Amy na aldeia de Sonic e iremos até lá acabar com quem seja que esteja causando toda essa confusão. – a fala foi finalizada, mas alguém não parecia muito contente com o que havia sido decidido.
— O que? – todos se viraram e viram como Amy tinha acabado de chegar. Os olhos arregalados e tristonhos da garota mostravam que ela não estava de acordo com aquilo. Maria abriu a boca para falar e acalmar a garota, mas ela passou a frente. – Não. Não vão fazer isso. Não vou permitir que vocês se arrisquem tanto por mim. Quero ajudar! Eu vou com vocês.
— Amy, entenda que é você que eles querem. – falou Silver sorrindo ligeiramente para a garota tentando passar confiança e fazer ela entender a situação. Mas com o negar da cabeça dela sabia que isso não seria fácil. – Se você for conosco seria como entregar tudo de bandeja de prata. Temos que te manter em segurança.
— Mas e vocês?! Vão entrar no covil do inimigo, arriscando suas vidas... E eu sentada esperando, rezando para que vocês fiquem bem?! – gritou ela desconcertada e deixando algumas lagrimas escorrerem pelo rosto. – Mas é claro que não vou permitir isso!
— Amy... – sussurrou Sonic tentando fazer a garota se acalmar, mas ela se mexeu com brutalidade o afastando enquanto mirava a todos com lagrimas escorrendo pelos olhos. A dor que tinha neles era incalculável.
— Não posso perder nenhum de vocês três. São a única família que me sobrou! – falou ela abraçando a se mesma, como se o simples pensamento lhe causasse um frio tão grande que nem mesmo se abraçando poderia manter o calor do corpo. –Se eu perdesse um de vocês eu... Eu... Não sei o que faria.
A garota se deixou cair de joelhos no chão enquanto tampava seu rosto com as mãos enquanto as lágrimas saiam livremente. Sonic se ajoelhou do lado dela e a abraçou levemente sussurrando que tudo iria ficar bem. Silver e Maria se entreolharam e suspiraram levemente, sabendo que a discussão teria que ficar para outra hora.
— Melhor descansarmos. Amanhã iremos voltar para a vila de Sonic e veremos o que faremos. – disse Maria se acomodando no colchão e fechando levemente os olhos. Todos fizeram o mesmo, mas Amy demorara um pouco mais para dormir e não gostara nada do que sonhara.
Não sabia onde estava exatamente. Tudo parecia estar escuro e a única coisa que podia ver eram dois olhos completamente arroxeados reluzindo na escuridão enquanto um enorme vulto se mexia de um lado para o outro. Se encolheu no local que estava e apenas observou como outro vulto aparecia. Esse conseguia reconhecer, era Valiant o mago que os estava perseguindo.
- Meu senhor. – disse o mago fazendo uma pequena reverencia. Prendeu a respiração, sabendo que agora se encontrava na presença daquele que tanto queria seu poder.
— Estou ficando impaciente, Valiant. Onde esta a princesa? – perguntou a criatura com uma voz que parecia ser duplicada retumbando por todo o local fazendo Amy estremecer de medo.
— Esta no forte, meu senhor. Mas não se preocupe, logo a pegaremos. – disse o mago com uma voz firme, até mesmo astuta. Ele planejava alguma coisa, sabia disso.
— Sabe Valiant. Os deuses deram esse poder a uma garota muito escorregadia, mas tudo tem suas reviravoltas. – comentou aquela enorme sombra se locomovendo pelo local que estavam, seja ele qual for. – Como ela é uma humana não poderá ficar a vida inteira com esse poder que esta preso em seu coração. Quando ela sentir que esta presa alguém esse poder será dessa pessoa, como se fosse um presente dado por ela.
- E no que isso pode nos ajudar meu senhor? – perguntou o mago confuso, mirando aquela enorme criatura com um tom de duvida e desconcerto.
— Quer dizer meu caro mago das trevas, que se caso esse amor que ela sente for partido o poder será liberado e qualquer um poderá tomá-lo para si. – respondeu a criatura enquanto uma sombra de um sorriso aparecia em seu rosto. – Eles já devem ter percebido que não vão poder ter ajuda com pessoas experientes e recorrerão aos meios que tem a mão. Eles virão aqui e com isso, matarei aquele que possui o coração da princesa libertando assim aquele belo poder e recuperando meu corpo!
— Sonic... – sussurrou sem perceber e por incrível que pareça chamou a atenção dos dois que estavam ali. Rapidamente fechou os olhos e pediu para voltar, para estar junto de seus amigos novamente.
Abriu os olhos rapidamente se sentando no colchão enquanto sua respiração continuava acelerada. De repente sentiu como uma mão segurava seu ombro, o que a fez virar rapidamente para trás e ver quem era, contendo a vontade de soltar um alto grito. Viu na escuridão dois olhos azuis compreensivos.
— Os planos mudaram. – sussurrou Maria com um semblante triste no rosto. Ela tinha visto também, tinha visto aquele sonho que tinha tido. – Manhã, nos separaremos dos outros e resolveremos isso sozinhas.
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