Catálogo De Mundo

1 Algo sobre o pensamento


Pessoas estranhas existem em todos os lugares. Histórias longas ninguém lê. A não ser que alguém tenha indicado. Curiosidade é uma coisa boa. E a precisão do mundo é saber o que queremos. A partir daí, tudo começa.

Tem gente que decide o que vai fazer aos 9 anos. Tem gente que decide o que vai fazer porque conseguiu fazer e vai ver, era aquilo mesmo que tinha de ser feito. Tem gente, como eu, que nunca talvez vai saber o que fazer.

É claro que nada disso tecnicamente aconteceu comigo. Mas pense na saudade do que ainda está para acontecer. Ou pelo menos, faça de conta que você acredita na possibilidade remota disso acontecer.

Desde que conheci, sempre gostei da suposição. Então vamos supor que essa história, narrada em primeira pessoa, tenha realmente acontecido; com outra pessoa claro.

E vamos fingir, que essa pessoa tenha me contado tudo e eu esteja aqui, reescrevendo suas palavras. Porque talvez, essa pessoa possa já ter morrido.

Seria algo, obviamente, que eu não poderia deixar passar.

Essa pessoa é uma daquelas que nunca vai saber o que fazer.

Era. Bem, foi assim que tudo começou entre nós. Um bem em comum: a indecisão. Era óbvio que esse tipo de coisa nos uniria. É quase por isso que pessoas tão diferentes são amigas, o que as junta geralmente não é o que elas gostam em comum, e sim o que elas odeiam em comum; o que incomoda as duas.

Pleonasmo, que seja, mas, foi só pra ressaltar.

Difícil se ter amizade com meninas quando se é estranha, porque: a maioria das meninas não são estranhas. Quando são, isso é sinônimo de serem lésbicas, bissexuais, ou simplesmente são estranhas porque são irritantes e as pessoas ignoram. É raro você achar alguém estranha, estranha, com a, porque é exclusivamente para meninas, simplesmente porque a pessoa é estranha ou gosta de coisas estranhas ou usa drogas que seja mas enfim, algo que fuja de ser sapatão, lésbica blá blá blá.

Foi um dos poucos milagres que aconteceu na minha vida, e que fez toda a diferença. Vou poupar palavras sobre tudo quando nos conhecemos e sobre tudo o que passamos juntas, e com outras pessoas juntas também. Afinal o que importa aqui é a história dela.

Alguém que eu admirava porque, apesar da indecisão geral, as poucas certezas que ela tinha, ela realmente tinha. E que fosse uma certeza desde os 11 anos mas era uma certeza para a vida toda. Suas certezas eram pra vida toda. Todas. Poucas que fossem.

Não era uma viciada em drogas, e também não apreciava todas as drogas. Maconha era besteira, coisa daqueles meninos tontos que adoram qualquer coisa em qualquer lugar, que não fazem questão de nada e enfim, pode ser uma coincidência mas todo mundo que ela conhecia que fumava maconha.. Bem, eram meninos e eram todos iguais. Falavam sobre as mesmas coisas, agiam da mesma forma, pensavam do mesmo jeito. E as meninas, também. As poucas que tinha ouvido falar, tinha ouvido falar as mesmas coisas (lembrando que não tinha muito contato com meninas.)

Talvez fosse alguém que eu admirasse, talvez fosse alguém que eu só sentisse dó. LSD era outra coisa de tonto, nem tinha vontade, sentia dó também de quem brincava assim. E eu entendia: pensava quase da mesma forma; tontos com LSD e ecstasy eram tão estúpidos e burros quanto idiotas que vão no cinema assistir filmes de terror — eles não têm histórias e as pessoas pagam pra somente levar sustos na cadeira e eventualmente ainda derrubarem pipocas e refrigerantes nas roupas — besteira, burrice. Ridículo. Partilho disso. Céus.

E assim ia descartando todas as drogas, até que chegou na euforia do seu viver.. Cocaína.

Não era uma viciada e não usava toda semana.

Mas fazia questão: de vez em quando dava uma escapada, só para sentir a alegria de sentir seu coração batendo rápido, e ficar olhando pra cima, para o céu, de noite. E sempre sozinha, claro. Para desfrutar sem ninguém enchendo o saco ou perguntando se estava passando mal. Se alguém perguntasse, ela passava. Era até engraçado, porque uma vez eu perguntei.

E não foi engraçado.

Bom, talvez o viciado de verdade não seja aquele que usa tudo todos os dias, todas as horas, que sofre de abstinência porque dependia daquilo até para acordar, e sim aquele que fica horas, dias, até meses, sem usar, para sentir o prazer inigualável da droga depois de todo aquele tempo...

E assim era ela. Conhecia tudo o que podia: seu corpo, enfim. Nunca passou muito mal porque nunca passou da quantidade. Sabia o quanto era suficiente. Não passava disso. Ninguém sabia, claro. Somente eu sabia, mas sabia porque a apertei e enfim..

Era tão inteligente. Como alguém poderia ser tão controlada e perfeita ?

Ela fazia tudo o que queria e não era descoberta. Mas sobre as coisas importantes, realmente importantes, ela não fazia a mínima ideia do que queria... Deve sofrer uma depressão ainda quando alguém pergunta o que ela quer, lá no céu. Ou no inferno. Lembro de suas reclamações na época de escola, primeiro e segundo colegial, quando chegava em casa e falava de seus professores que perguntavam inocentemente o que ela pretendia na faculdade...

Ficou com quem quis, como quis. Ninguém nunca descobriu nada. Nunca traiu o amor da sua vida. Que ainda está por aqui. Do jeito que é, deve estar vagando pelas ruas, caçando uma vagabunda que queira dar pra ele, porém, coitado: desde que a linda morreu, nunca mais ninguém o quis. Talvez se fosse pra cadeia, nem os caras o comeriam.

Um dia simplesmente chegou para mim e disse que contaria uma pretensão, mas não gostaria de ouvir minha opinião, apenas a promessa de que não contaria para absolutamente ninguém e nem ficaria ao menos falando sobre isso sozinha na minha cabeça julgando ela e o que poderia acontecer com ela. Contou que iria viajar o mundo para desfrutar da cocaína de cada canto do mundo. Ia fazer um diário e catalogar a droga das principais cidades do mundo. Contou que não era doença e sim um porquê de viver, já que seu pai havia morrido há poucos anos e sua mãe vivia para sua irmã. Seu namorado era um lixo e ela não conseguia viver sem ele porém, talvez se viajasse com um propósito e passasse o resto da vida viajando, não fosse sentir falta dele.

Claro que isso não foi no ensino médio. Foi no fim da faculdade.

No ensino médio foi quem sempre admirei.

Depois disso não tive tempo de admirá-la pois sumiu. Tudo isso fiquei sabendo quando voltou, mal deu tempo d'eu julgá-la e faleceu.

Ninguém sabe onde se meteu o diário do catálogo do mundo mas as palavras que lembro são as que gravo aqui.

A primeira cidade foi Paris. Sabia falar francês. Não exatamente aquele francês de quem nasce em Paris e estuda gramática a vida toda, talvez nem mesmo aquele francês do padeiro da esquina mas, falava francês.

Disse que não foi tão fácil conseguir a cocaína lá. Levou alguns dias e algumas pessoas. Disse que era boa. Talvez não tivesse achado tão boa pois havia acostumado com a química pura das favelas de São Paulo.

Mas lá parecia ser química também, talvez até mais do que aqui. Disse que incomodava muito na hora porque grudava um pouco, virava uma pasta, como virava a pasta nos dentes em São Paulo, mas que não passou mal como aqui. Não teve de ler milhões de livros durante a noite enquanto não dormia, para não entrar em desespero; e principalmente não achou que ia morrer.

Não valeria a pena morar em Paris.

Nem pelo padeiro.

A segunda cidade, uma cidade no interior da Inglaterra, bem longe de Londres. Não lembrava o nome: era melhor do que Paris, não incomodava e a deixou voando por mais tempo olhando para o céu(que aliás lá, ressaltou ser bem diferente, parecia nem ser o mesmo céu) do que o "normal". Não exatamente normal, e sim utilizando como parâmetro a cidade natal: capital de SP.

Disse que passou um pouco pior do que Paris mas não como São Paulo. Não ardeu mas não era suficiente ainda. Não moraria lá.

A cocaína de Londres não mudou. Mesma situação que o interior. Talvez "exportassem" da capital para o interior, pensou.

Quer dizer, não foi bem ela que pensou na ideia da exportação, mas concordou comigo quando falei. De lá foi um pouco mais longe: Holanda.

A verdade é que na Holanda a especialidade são fumos e coisas que te relaxam para dormir. Mas ela não ficava relaxada com fumos e nem nada do tipo. Ela relaxava no que queria, apenas.

Se não me engano foi para Amsterdam que viajou, talvez uma cidade vizinha mas foi por aí. Perto da capital, porque nesta hora contou que depois do erro de Londres, não viajara mais para o "TÃO" interior. Apenas cidades vizinhas das capitais. Disse que lá haviam muitas prostitutas. Em todas as esquinas, e em todas as janelas. Disse que os homens do Brasil não poderiam jamais conhecer aquilo pois é bem provável que Holanda passasse a ser a nova China do mundo: seria responsável agora por um terço da população mundial e no Brasil restariam apenas as mulheres.

De lá foi para a Espanha: nem teve trabalho para conseguir pois em qualquer balcão de qualquer bar, haviam pessoas que falavam qualquer língua e vendiam e até destribuiam qualquer tipo de droga. Foi simples e foi incrível, era mais pura do que São Paulo. "Talvez lá os aviõezinhos eram mais honestos." E deu risada. E dei risada. Disse que era quase perfeita, não passou mal, nada de pânico, não foi como o baque de Paris, e muito menos os de São Paulo. Até aí tinha se passado meio ano. A verdade é que duvido que tenha sido apenas uma vez em cada cidade mas, isso não saberei jamais, a menos que eu encontre o catálogo-diário.

Itália não fugiu muito da Espanha. Bem assim disse. Acreditei: estão de mãos dadas mesmo.

Não importa a data em que isso ocorreu mas bem: nessa época não era vantagem visitar os Estados Unidos. Mas foi mesmo assim. Era época fria, nevava e era tudo o que ela queria. Disse que nos Estados Unidos, nitidamente era barato e ruim. Como as coisas aqui do Brás, no centro de São Paulo. Ardia, doía, e incomodou durante um bom tempo depois. Passaram-se muitas horas e seu nariz continuava incomodando ela.

Demorava para dormir porque tinha insônia, normalmente, e como de costume, seu desvio de septo passou a piorar nessa época. Quase não dormia: não respirava!

Foi o que mais ouvi nas entrelinhas da conversa, sobre o maldito nariz entopido que piorava a situação noturna.

E tecnicamente é disso que lembro. Passou pela Escócia, em Edimburgo, claro. Até na Rússia passou, obviamente que a viagem não ocorreu nesta ordem, mas é humanamente impossível lembrar todos os lugares, quem dirá a ordem de tais. Reclamou que na Escócia foi difícil encontrar e na Rússia também. Na escócia havia heroína em cada esquina. Não perdeu essa oportunidade, afinal era uma das únicas coisas que São Paulo não oferecia facilmente e nem era viavelmente. A verdade é que nessa situação, até eu me aproveitaria. Na Rússia haviam umas drogas que nunca foram vistas antes e apesar de ser uma grande oportunidade, sentiu que não deveria, e não foi. Viu que as drogas eram fortes e para tontos, coisas desnecessárias. Como o crack. Desnecessárias.

Disse que em todos os países sempre via pessoas tentando se aparecer com isso. Não faziam o que queriam, faziam o que podiam, e era estranho.

Não explicou como se comunicou em todos os países, quais línguas, ou quais gestos, mas imagino que não tenha tido muita diversidade afinal não sabia muitas línguas e era ruim em se expressar, diria que era a pior se eu não existisse. Mas não importa.

O que lembro: o último lugar foi A América Latina, ao lado do Brasil, Bolívia, Uruguai e Paraguai. Não quis ir para a Argentina. Sentiu que não dava mais.

Sempre seguiu o que sentia e por isso nunca teve problemas. Sempre. Nunca.

Ressaltou que foi na vizinhança que achou a melhor cocaína. E também os maiores traiçoeiros do mundo. Disse que era a coisa mais fácil do mundo, todo mundo usava qualquer coisa e em qualquer lugar, viu até policiais em meio à bagunça. Comparou com a Holanda e com alguns locais dos Estados Unidos.

E no fim, quase no fim, do dia, do primeiro dia, do dia que ela chegou lá, foi que teve o encontro com o que tanto esperava. As outras, por ter conhecido de todo o mundo, ela via que eram falsas, que eram química. Então não perdia tempo, nem dinheiro, nem coração...

Tinha um problema no coração. Mas nada muito sério. De qualquer forma, não levaria isso a sério, mesmo se fosse sério. Imagine não sendo.

E depois deste encontro, sentiu que deveria vir embora. Este encontro foi na Bolívia. Sentiu que iria morrer se continuasse. Fez o que queria, sentiu que era hora de ir embora. Queria descansar, mesmo não tendo mais nada para fazer.

Trabalhou durante toda a faculdade mas nunca gastou um tostão pensando em um dia fazer uma loucura. Exatamente como fez.

Chegou aqui e me ligou.

Nos encontramos e me contou. Cansada como sempre e feliz como nunca!

Passados dois dias, o ex-namorado dela; o lixo que ela largou aqui, me ligou... Disse que ela havia tido um ataque cardíaco durante a noite anterior, ele estava na casa dela pedindo desculpas, supostamente, pois é outra coisa que jamais saberei a verdade, com diário ou não; e ia dormir com ela naquela noite, mas com o imprevisto, levou-a para o hospital e não houve reanimação.

O enterro seria naquele dia, durante a noite. E ele pediu que eu fosse.

Não comentarei sobre o enterro.

Após o enterro, voltei ao hospital para cuidar de alguns papéis, para evitar o contato da mãe ou da irmã. Ainda creio que seria do interesse dela que eu cuidasse dos papéis.. E então os médicos me deram um bilhete que havia dentro das roupas dela, me agradecendo por tudo e dizendo que naquele momento era a pessoa mais feliz do mundo. Escrito que ficou bem com o ex e que estava feliz de estar em casa. Escrito que eu deveria sempre acreditar em mim e que seguir tudo o que sinto que devo fazer. Disse que não era para jamais interferir no destino dela, nem eu e nem ninguém. Se um dia morresse, ninguém deveria tentar mudar isso.

E foi assim que se despediu de mim. Já sabia que iria morrer. Sempre soube de tudo pelo coração, talvez fosse uma espécie de espírito que enxerga por cima o próprio destino... Tudo o que queria: ocorria. Era incrível, nem era preciso fazer muito, simplesmente acontecia o que ela queria.

Talvez tenha morrido com mais algumas incertezas sobre o percurso da vida, mas no fim das contas, descobriu que o que queria era simplesmente morrer feliz.

E por isso morreu. Feliz. Porque era isso que queria.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!