Catholic System - Volume 1: O Herege

3 Capítulo 3 - O Cordeiro e o Pastor


As luzes de Tech Tokyo brilhavam como estrelas artificiais.

Prédios gigantescos cortavam o céu noturno.

Pontes suspensas cruzavam avenidas iluminadas.

Tudo parecia avançado demais.

Grande demais.

Perfeito demais.

Sentado no banco do passageiro, Shin observava a cidade através da janela.

Arthur dirigia em silêncio.

O veículo avançava pelas vias elevadas da metrópole.

Após alguns minutos, Shin finalmente decidiu quebrar o silêncio.


- Então... o que exatamente é a Crist?


Arthur manteve os olhos na estrada.


- A maior organização do planeta.


- Isso não responde muita coisa.


- Eu sei.


Shin suspirou.

Arthur continuou.


- Oficialmente, a Crist existe para proteger a humanidade.


- Oficialmente?


Arthur sorriu.


- Você aprende rápido.


Aquelas palavras não soaram reconfortantes.

Pelo contrário.

Soaram preocupantes.


- E a versão não oficial?


- A Crist guarda a verdade.


Shin permaneceu em silêncio.

Arthur continuou.


- Ou pelo menos parte dela.


- Parte?


- Nem mesmo nós sabemos tudo.


A resposta chamou a atenção de Shin.

Durante alguns segundos ele apenas observou o movimento das luzes refletidas no vidro.

Então fez outra pergunta.


- Foi a Crist que apagou meu artigo?


- Sim.


Arthur respondeu sem hesitar.


- Por quê?


- Porque você chegou perto demais.


O coração de Shin acelerou.


- Então eu estava certo?


- Em algumas coisas.


- E errado em outras?


- Muito errado em outras.


A resposta não ajudava.

Mas apenas confirmava uma coisa.

Seu artigo realmente havia incomodado alguém.

Alguns minutos depois.

O veículo começou a desacelerar.

Ao longe.

Uma estrutura gigantesca surgia entre os arranha-céus.

Era impossível ignorá-la.

Parecia uma fortaleza.

Uma cidade inteira escondida dentro de outra cidade.

Muros metálicos.

Torres de vigilância.

Centenas de luzes.

Plataformas elevadas.

E uma gigantesca cruz branca iluminada no topo da construção.

Shin observou aquilo em silêncio.


- Aquilo é a Crist?


- Sim.


- Parece uma cidade.


- Porque praticamente é.


O portão principal começou a se abrir.

Lentamente.

Pesadamente.

Como as portas de uma catedral.

O veículo atravessou a entrada.

Após estacionarem.

Arthur começou a caminhar pelos corredores internos.

Shin o acompanhava.

Ou pelo menos tentava.

O local era enorme.

Mais parecia um labirinto.

Funcionários caminhavam de um lado para o outro.

Militares.

Pesquisadores.

Técnicos.

Pilotos.

Todos pareciam ocupados.

Todos pareciam carregar algum segredo.

Enquanto caminhavam.

Arthur voltou a falar.


- Existe alguém que você provavelmente ouvirá falar muito daqui para frente.


- Quem?


- Lilith Ayamina.


O nome era estranho.

Mas familiar.

Como se escondesse algum significado.


- Quem é ela?


- A melhor piloto da Crist.


- Sério?


- Sim.


Arthur permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois continuou.


- Ela pilota Azazel.


- Azazel?


- Um Arcanjo.


Shin arqueou uma sobrancelha.


- Arcanjo?


- Um dos mechas mais poderosos já construídos.


- E quantos anos ela tem?


Arthur demorou para responder.


- Quatorze.


Shin quase tropeçou.


- Quatorze?!


- Sim.


- Você está me dizendo que uma garota de quatorze anos pilota um dos mechas mais fortes da humanidade?


- Estou.


Shin ficou alguns segundos sem palavras.

Pouco depois.

Arthur precisou responder uma ligação.

Foi apenas por alguns segundos.

Mas quando voltou a olhar para frente...

Shin havia desaparecido.


- Ah, não.


Enquanto isso.

Shin caminhava pelos corredores da Crist.

Curioso.

Observador.

Como sempre.

Até que encontrou alguém.

Uma garota.

Sozinha.

Parada diante de uma janela.

Observando a cidade iluminada.

Ela parecia distante.

Silenciosa.

Quase imóvel.

Os cabelos azul com roxo acinzentados refletiam a luz do corredor.

Por algum motivo.

Ela parecia triste.

Shin aproximou-se.


- Ei.


A garota virou levemente o rosto.

Olhos vermelhos.

Expressão neutra.


- Sim?


A voz era calma.

Quase vazia.


- Você está perdida?


- Não.


- Filha de algum pesquisador?


- Não.


A resposta veio tão rápida que arrancou uma risada de Shin.


- Certo.


Silêncio.


- Você fala pouco, né?


- Sim.


Shin sorriu.


- Entendi.


Por algum motivo.

Ela lembrava uma criança tentando parecer adulta.

Aquilo era quase engraçado.

Então.

Sem pensar.

Ele bagunçou levemente o cabelo dela.


- Você deveria sorrir mais.


Erro.

Erro crítico.

Erro fatal.

A garota congelou.

Completamente.

Seus olhos se arregalaram levemente.

Ela não se moveu.

Não falou.

Não reagiu.

Apenas ficou parada.

Processando.

O rosto começou a adquirir uma leve coloração avermelhada.

Mas ela mesma não parecia perceber.


- Hm?


Shin inclinou a cabeça.


- Tá tudo bem?


- ...


- Ei?


- ...


- Você travou?


- SHIN!


Uma voz ecoou pelo corredor.

Arthur apareceu correndo.

Desesperado.

Quando viu a cena.

Seu rosto perdeu completamente a cor.


- NÃO.


Shin virou.


- O quê?


Arthur apontou para a garota.


- Você sabe quem ela é?!


- Não?


- ESSA É LILITH AYAMINA!


Silêncio.

Absoluto silêncio.


- ...


- ...


- ...


Shin piscou.

Uma vez.

Duas vezes.

Três vezes.

Então olhou para a garota.

Depois para Arthur.

Depois novamente para a garota.


- Ela?


- SIM!


- A piloto do Azazel?


- SIM!


- A lendária?


- SIM!


- A garota que pilota um Arcanjo?


- SIM!


Shin ficou em silêncio.

Olhou novamente para Lilith.

Ela continuava parada.

Ainda levemente corada.

Ainda confusa.

Ainda tentando entender o que havia acabado de acontecer.


- Ah.


Pausa.


- Então... desculpa.


Arthur agarrou o braço de Shin.


- Vamos embora.


- Tá bom.


- AGORA.


- Tá bom!


Os dois desapareceram corredor adentro.

O silêncio voltou.

Lilith permaneceu parada diante da janela.

Sozinha.

Como sempre.

Mas algo estava diferente.

Lentamente.

Ela ergueu a mão.

E ajeitou os próprios cabelos.

Os mesmos cabelos que alguém havia bagunçado poucos minutos antes.

Seu rosto voltou a ficar levemente vermelho.


- ...


Ela olhou para o reflexo da janela.

Depois para o corredor vazio.

E pela primeira vez em muito tempo...

Não conseguia entender os próprios pensamentos.


Continua...