Catenae
2 Capítulo II: Foenestra
Notas iniciais
Windows open up to life
Put your worries all aside
Sacred silence closes doors
For opened eyes
Take the stairs to the stars
Wander alone, travel far
Someday
Always*
August chegara à cidade de Storybrooke havia duas semanas e ainda não estava certo do que faria em relação à Emma. Ela nunca fora alguém que acreditava em coisas que iam além de seus sentidos, o que dificultava a vida dele.
A quarta-feira da terceira semana de August na cidade amanheceu nublada. Ryan já havia saído – ele andava muito distante e misterioso desde que haviam chegado à cidade –, portanto, foi tomar o seu café da manhã no restaurante da Granny sozinho, onde permaneceu algum tempo bebericando seu café e pensando em quantas pessoas mais deveriam sofrer porque Emma se recusava a acreditar.
Estava saindo do restaurante para fazer sua caminhada diária quando encontrou Emma, o que o deixou feliz, pois ele andara mesmo querendo falar com ela a fim de marcar a bebida que lhe havia sido prometida anteriormente. Alguns dias em Storybrooke foram o bastante para ele finalmente encontrar o que andara procurando ali: uma fonte verdadeira de magia que não fosse negra.
O poço de desejos. Embora não fosse algo puramente mágico, em hipótese nenhuma uma evidência inquestionável da maldição, August não podia deixar de tentar levá-la até o lugar. Talvez, embora fosse muito incrédula, ela tivesse a capacidade de sentir a magia do lugar; talvez, o poço o ajudasse.
Foi um pouco difícil convencê-la de cumprir a sua promessa, pois Emma não confiava nem um pouco nele e em Ryan. Por fim, entretanto, ela concordou e os dois combinaram de se encontrar no restaurante da Granny no final da tarde, quando a loira saísse do trabalho dela. Então, ele lhe deu as costas, não se voltando para ver a reação que provocara.
Se fosse completamente honesto a respeito dos seus sentimentos, saberia que a maldição não era o único motivo pelo qual ansiava por aquele encontro. Mas August raramente era honesto com qualquer um – mesmo consigo mesmo – em relação aos próprios sentimentos: um mecanismo de defesa que criara para que sofresse menos.
Quando estava a meio caminho de volta à pousada, August encontrou Kathryn Nolan arrumando tudo para sair da cidade e se ofereceu para carregá-las. Ela parecia muito cansada física e emocionalmente, e permitiu que August a ajudasse. A mulher lhe contou que conseguira uma bolsa de estudos em Boston e, levando em conta que as coisas não estavam funcionando muito bem para ela em Storybrooke, estava esperando poder recomeçar em outro lugar.
August não estava muito certo de quem fora Kathryn Nolan no mundo de origem deles, mas sabia muito bem que naquele mundo ela era um peão de Regina, alguém que a Rainha estava usando para separar Snow White e James, garantindo que seu final feliz não acontecesse.
Ele compreendia a vontade de fugir quando tudo parecia estar errado e se sentia mal pela mulher, pois sabia que ela jamais seria capaz de sair daquela cidade amaldiçoada. Como Kathryn lhe pareceu uma boa pessoa, ele tentou dissuadi-la da ideia, mas a mulher estava convicta de suas decisões e não havia nada que August pudesse fazer a respeito. Afinal, não era como se ele pudesse dizer a ela que ninguém podia sair de Storybrooke devido a uma maldição lançada por uma Rainha Má.
Ela o agradeceu pela ajuda e partiu, enquanto August pensava que ainda ouviria falar da mulher: ninguém que estivesse amaldiçoado podia sair daquela cidade, e ele sabia que Regina jamais deixaria um peão poderoso como Kathryn Nolan se safar após ter se tornado inútil para ela.
Balançando a cabeça negativamente, o homem caminhou na direção oposta à do carro de Kathryn, a caminho da pousada, onde passou a tarde inteira restaurando o livro que roubara de Henry Mills, determinado a colocar seu plano em relação ao garoto em prática o mais rápido possível. Aquela maldição precisava ser quebrada antes que mais pessoas se machucassem e, embora não estivesse muito certo de quem era a pessoa que escrevera o livro e sua verdadeira finalidade, August sabia que aquela era uma peça fundamental naquele jogo.
Cerca de cinco horas da tarde, August rumou até o restaurante da Granny com o carro em que ele e Ryan haviam chegado à cidade para seu encontro com Emma. Ela já aguardava na porta, ao lado da dona do estabelecimento, e, com relutância, se sentou ao lado dele.
Aquela era mesmo uma cidade pequena, pois os dois a atravessaram de carro em apenas dez minutos e, após cerca de quinze minutos de caminhada, alcançaram o seu destino: um poço de desejos em meio às árvores, parecendo ter saído de um conto de fadas – o que, de fato, ocorrera.
Emma pareceu surpresa, mas satisfeita com a escolha de August. Ele podia sentir que a má vontade dela estava se esvaindo, dando lugar à pura curiosidade.
“Dizem que há algo especial nesse poço. Uma lenda conta que a água desse poço vem de um lago subterrâneo com propriedades mágicas: ele é capaz de trazer de volta aquilo que perdemos,” disse August, sabendo perfeitamente que Emma pensaria nos pais que nunca conhecera.
“Propriedades mágicas? Você está parecendo o Henry falando,” ela respondeu, com um sorriso genuíno em seus lábios, o que fez com que o coração de August perdesse o compasso.
“Garoto esperto,” ele sorriu, tentando esconder os sentimentos que o tomavam. Ele não podia se dar ao luxo de parecer um garotinho apaixonado agora, quando todos dependiam tanto dele!
“Você sabe bastante sobre a cidade para um estranho,” disse Emma, novamente desconfiada, e o sorriso de August cresceu diante da expressão no rosto dela – embora soubesse que aquela questão apenas evidenciava o que ele já sabia: seu trabalho não seria nada fácil. “Como você sabe sobre isso? Já veio até aqui antes?”
“Simples,” ele respondeu, lentamente. “Eu li a placa.”
Emma deu a volta no poço e, de fato, havia uma placa com a mesmíssima história que ele contara. O que não estava escrito ali era que aquele era o último resquício do lago Nostos, que possuía poderosas propriedades curativas no seu mundo de origem.
“Você acredita nisso?” Perguntou a loira, com certo grau de incredulidade no rosto.
“Eu sou um escritor,” respondeu August, enquanto puxava o balde d’água de dentro do poço. “Preciso ter mente aberta, certo?”
“Certo,” ela disse, embora não parecesse muito convencida. “Mas acreditar em magia?”
“Água é uma coisa muito poderosa, várias culturas a adoram! Ela conecta todos os continentes no mundo. Se algo possui propriedades mágicas, é a água.”
“Isso é demais para se acreditar,” disse Emma, se aproximando novamente de August enquanto ele recolhia um pouco da água que havia dentro do balde. “Você não acha?”
“Se você precisar de provas para tudo na sua vida, Emma,” disse August lentamente, sabendo que aquele era um tópico importante e que não podia deixar transparecê-lo. “Você ficará presa no mesmo lugar por muito tempo.”
“Talvez,” ela disse, com um sorriso que deixou August sem palavras por dois segundos. “Ou talvez eu encontre as respostas antes de todos.”
Ele abriu ainda mais o sorriso, tentando deixar de lado os sentimentos que se misturavam dentro dele – a emoção de estar ali, Emma sorrindo para ele, e o medo que as palavras dela lhe causavam.
“Muito bem, senhorita cética,” ele disse, entregando uma caneca cheia d’água para ela enquanto observava o sorriso dela crescer a cada palavra dele. “Mas há algo que posso dizer a respeito que não requer qualquer quantidade de fé.”
“O que?” Perguntou Emma, quando August parou para tomar um gole.
“Essa água é muito boa,” respondeu ele.
Eles brindaram e beberam, e, a despeito daquele encontro ter apenas feito revelar o quanto seria difícil a tarefa diante dele, August não conseguiu conter o sorriso bobo que o assombraria durante o resto do dia e faria com que Ryan risse dele.
~~//~~
Há pouco tempo atrás, Gwenaël se orgulhava de ser corajoso – como a minha mãe –, afinal, era o que seu avô sempre o havia dito, e ele confiava nele.
Assim que deixou a segurança de seu lar de origem, entretanto, o menino descobriu pouco a pouco que não era tão corajoso quanto pensara anteriormente. De fato, quando se deitava durante a noite junto com as outras crianças e as lágrimas o tomavam por completo, Gwenaël se sentia muito covarde.
O que mamãe pensará de mim quando eu a encontrar? Ele se perguntava toda noite em uma tentativa de se acalmar. Mas após algumas noites, essa motivação acabou por se desvanecer quando ele deu por si que estava sozinho em um mundo desconhecido, totalmente desprovido de suas defesas mágicas: a chance de reencontrar a mãe – ou mesmo o pai e o avô – lhe pareciam muito remotas.
A atmosfera do lugar onde se encontrava não ajudava a melhorar o seu humor. Pelo que entendera, aquele era um lugar onde as pessoas jogavam as crianças indesejadas; um lugar, portanto, muito sombrio e repleto de um negativismo que Gwenaël nunca antes havia sentido.
Gwenaël precisava permanecer ali, entretanto, enquanto não tinha entendimento maior daquele mundo tão diferente do seu.
“Siga as normas do mundo deles enquanto você não o entende,” dissera seu pai, durante aquela conversa que mudara tudo. “Apenas as quebre quando souber o bastante para ser capaz de se virar por conta própria.”
O menino, entretanto, não estava sequer perto de compreender aquele mundo tão diferente do seu. Um mundo em que as pessoas indefesas eram jogadas em um lugar qualquer como se não fossem nada? Como poderia um dia compreender algo tão cruel?
As coisas começaram mudar para Gwenaël quando duas novas crianças chegaram no lugar onde ele estava morando: um menino alguns anos mais velho do que ele e um bebê muito pequeno. O menino dizia se chamar Pinocchio, o que fazia com que as outras crianças rissem e fizessem piadas incompreensíveis a respeito do nariz dele. Os adultos não acreditaram nele, tampouco, e passaram a chamá-lo de August em homenagem ao nome do mês em que ele chegara ao lugar.
Mesmo depois da mudança, as outras crianças continuavam fazendo brincadeiras com o menino, e ele constantemente era visto sozinho ou com o bebê com quem chegara, uma menina chamada Emma. Diversas vezes, Gwenaël pegara Pinocchio – ou August, ele nunca sabia qual nome utilizar – conversando com o bebê e fazendo brincadeiras para lhe acalmar. Seriam os dois irmãos? Queria poder ajudá-lo, mas tenho muitos problemas e jamais seria capaz de enfrentar todos os outros sem a minha magia.
Aqueles pensamentos o faziam se sentir ainda mais covarde e envergonhado, mas isso não era o bastante para estimulá-lo a agir. Afinal, estava sozinho naquele mundo e não havia ninguém ali para julgá-lo!
Uma vez por semana, as crianças eram levadas até a biblioteca mais próxima, onde possuíam meia hora para escolher um livro ou dois para levarem para leitura posterior, e depois ainda havia uma sessão de contação de histórias com a jovem bibliotecária.
Aqueles eram, sem favor, os momentos que Gwenaël mais gostava durante a semana. Aquela biblioteca não se comparava com a que havia no castelo de seu avô, mas ele sempre se sentira seguro em meio aos livros. A bibliotecária era jovem, bonita e inteligente, e possuidora de uma voz muito doce que fazia com que o menino se lembrasse da mãe.
Algumas semanas após a chegada de Pinocchio, quando Gwenaël estava pensando que seus ânimos não poderiam estar mais baixos, ele se viu na sessão infantil da biblioteca em dúvida a respeito de quais livros levaria. Tinham que ser grandes e muito bons, para que pudesse esquecer por algumas horas os sentimentos negativos que o tomavam. A bibliotecária, então, se aproximou por trás do menino sem que ele percebesse e o assustou quando perguntou a respeito do que ele pretendia levar naquele dia.
O menino tentou responder com a voz mais inalterada possível que não havia se decidido, ao que a bibliotecária sorriu e escolheu um livro que estava alto demais na prateleira para ele alcançar. A capa era muito bonita, azul com detalhes e letras prateados, estas diziam:
“Contos de fada,” disse a bibliotecária estendendo o livro para Gwenaël. “Eles são importantes e toda criança deveria conhecê-los, pois são o que nos ensina a ter esperança.”
O menino assentiu com seriedade e pegou o livro com carinho. Ele sentiu uma curiosidade crescente a respeito daquelas histórias, e não apenas porque estava mesmo precisando sentir mais esperança, mas também porque ansiava por descobrir o que as pessoas daquele mundo sem magia tinham a dizer a respeito das fadas. Não deveria ser tão diferente do que costumavam dizer no mundo de origem dele, se tinha relação com esperança.
Ansioso para chegar até o seu quarto para que pudesse ler o livro em paz, Gwenaël não prestou muita atenção à história que a bibliotecária começou a contar naquele dia a respeito de um menino chamado Cat que foi estudar magia no castelo de um poderoso feiticeiro** – algo que ele teria achado engraçado, tamanha a semelhança com alguns aspectos de sua vida.
Quando estavam saindo, trinta minutos após o começo da leitura, Gwenaël se despediu da bibliotecária com um aceno de mão e ela lhe lançou um sorriso carinhoso. A caminhada da biblioteca até sua nova casa pareceu mais longa do que realmente era e, quando finalmente chegou lá, o menino rumou direto até o quarto onde dormia e abriu o livro no índice sobre a sua cama.
Para sua surpresa, ele encontrou vários nomes conhecidos ali: Snow White – que ouvira falar ser uma bondosa rainha no mundo deles –, Cinderella – uma menina que ouvira seu pai chamando de ingênua – e – ele foi forçado a se contar para não deixar escapar qualquer som de sua garganta – Rumpelstiltskin.
Gwenaël procurou a história cujo título era o nome de seu pai e a leu rapidamente: dizia respeito à filha de um moleiro que foi forçada a transformar palha em ouro para um rei e contou com a ajuda de um anãozinho de aspecto estranho chamado Rumpelstiltskin que estava desenhado no livro sentado em um tear.
Embora relutante em comparar seu pai com aquela figura esquisita, o menino foi forçado a admitir que havia verdade naquelas histórias. Primeiramente, o anãozinho pedira o primeiro filho da filha do moleiro em troca de seus serviços, e o pai de Gwenaël também sempre cobrava caro por seus serviços, pois toda magia tinha um preço. E ambos eram capazes fiar palha, transformando-a em ouro, algo muito fora do comum.
Ele se perguntou quem contara a respeito de seu pai ao autor do livro e, mais importante, como o fizera. Viajar para mundos sem magia, Gwenaël sabia, era algo extremamente difícil, seu pai passara muitos anos procurando uma maneira.
Curioso a respeito dos demais contos, ele retornou ao índice e passou os olhos pelos títulos que ainda não havia lido. Então, ele leu mais um nome muitíssimo familiar, mas agora um daquele mundo: Pinocchio.
O menino procurou a página indicada no índice e leu a história de um boneco de madeira que ganhou vida graças ao pedido de seu criador, Gepetto, a uma fada benevolente. Ao terminar sua leitura, Gwenaël compreendeu as brincadeiras bobas das crianças a respeito do nariz de Pinocchio, pois sempre que a criança da história contava uma mentira, seu nariz crescia.
O menino se perguntou se havia algum aspecto verdadeiro naquela história, como ocorrera na de seu pai, e o que tudo aquilo quereria dizer. Enquanto pensava nisso, a porta se abriu e, para a surpresa de Gwenaël, Pinocchio entrou no quarto parecendo apressado.
Ele tentou fechar o livro antes que o outro menino o visse, mas fora demasiado lento.
“Esse é o meu nome!?” O menino pareceu incerto e se aproximou, pegando o livro e virando as páginas rapidamente enquanto ignorava o olhar desaprovador de Gwenaël. “Você leu? O que diz aí? Conte-me, por favor!”
Por um momento, Gwenaël pensou em mandar o outro menino ler, a preguiça das crianças daquele mundo em fazê-lo criava um sentimento de impaciência nele. Então, ele se lembrou do tom de pergunta de Pinocchio a respeito do nome dele estar escrito ali e percebeu que o outro não sabia ler.
“É a história de um homem que sempre quis ser pai, então, ele construiu um boneco de madeira e pediu à estrela azul que o transformasse em…”
“Menino de verdade!” Exclamou Pinocchio, com os olhos arregalados e a respiração rápida e pesada. “É a minha história! Como eles sabem sobre isso? Quem escreveu isso?”
Gwenaël balançou a cabeça negativamente, incapaz de encontrar uma resposta para as perguntas que também o assombravam. Talvez, no livro tivesse alguma informação sobre o autor – às vezes, naquele mundo, isso acontecia.
“Espere um momento,” exclamou August muito subitamente, sobressaltando Gwenaël. “Você devia ter me chamado de louco ou dito que eu estava mentindo, como os outros. Por que você não fez isso?”
Ele falava muito rapidamente e Gwenaël não tinha tempo para pensar em qualquer resposta, mas, mesmo quando o outro menino parou de falar, esperando que ele falasse alguma coisa, ele não soube o que dizer.
“Você é de lá, não é?” Perguntou Pinocchio lentamente, mas visivelmente ansioso. “Você veio do mesmo mundo que eu, não veio?”
Gwenaël encarou o outro menino, incapaz de pensar em uma resposta. Seu pai lhe instruíra não confiar em ninguém, principalmente se a pessoa fosse do mundo deles. Afinal, Rumpelstiltskin possuía muitos inimigos.
Antes que pudesse pensar em alguma coisa ou fosse novamente interrompido por Pinocchio, uma das mulheres que cuidavam deles naquele lugar apareceu à porta repreendendo os dois por não terem decido para jantar.
Enquanto ela os acompanhava até a sala, Gwenaël não pôde deixar de se sentir muito aliviado.
~~//~~
August estava tomando um café da manhã com Ryan quando Mary Margaret Blanchard entrou no restaurante convidando a todos para ajudar as freiras a arrecadar fundos para o Dia do Mineiro vendendo velas.
Desde que fora descoberto que Mary Margaret mantivera um relacionamento com David Nolan durante o casamento dele com Kathryn, a mulher fora taxada como prostituta e socialmente descartada. Ninguém queria se ver associado à ela, e participar de obras de caridade, embora algo típico da rainha que um dia August conhecera, era uma medida muito desesperada para atrair alguma atenção positiva para si.
Infelizmente, não dera certo. Todos a olharam com desdém enquanto Mary Margaret falava para logo em seguida virar as costas e fingir que ela não estava presente. Leroy, que um dia fora um dos anões que faziam parte do Conselho da rainha Snow, se aproximou, mas se limitou a insultá-la e sair do estabelecimento, deixando Mary Margaret ainda mais infeliz.
Ela deixou escapar um suspiro, evidentemente lutando contra as lágrimas, e se virou para sair do restaurante quando, para a surpresa de August, Ryan se levantou e a chamou.
“Talvez, se tiver um tempo para se sentar conosco e explicar o que é esse Dia do Mineiro, eu e meu amigo aqui possamos nos alistar para ajudá-las,” disse Ryan com um sorriso. “Há algum tempo atrás, uma freira nos ajudou a sair de uma situação difícil, talvez possamos retribuir o favor ajudando outra.”
August deixou escapar um suspiro. Ele sabia perfeitamente que as freiras de Storybrooke haviam sido fadas em seu mundo original, e Ryan tinha um fraco por fadas, pois a líder delas, a Blue Fairy, salvara a vida dele e de sua mãe quando ele nasceu, e fora ela quem o enviara para aquele mundo.
August também devia muito à Blue Fairy, pois fora ela quem lhe dera vida e o transformara em menino de verdade. Ele sabia, entretanto, que a fada não lhe agradeceria por se desviar as suas atenções de sua missão inicial: fazer Emma acreditar.
Ele tentou lançar um discreto olhar de advertência a Ryan enquanto Mary Margaret os explicava o que era o Dia do Mineiro, mas o mais novo o ignorou por completo e, quando a mulher parou de falar, ele apenas sorriu para ela e disse que os dois ficariam felizes em participar.
“Você está falando sério?” Perguntou Mary Margaret, encarando August com um olhar tão esperançoso que ele teve pena de dizer que estava ocupado.
“Claro,” disse, com um suspiro. “Será divertido.”
Mary Margaret lhe lançou um grande sorriso – que August se esforçou para retribuir – e se despediu dos dois, dizendo que a encontrassem após o café, no convento. Quando ela saiu do restaurante, entretanto, August encarou o amigo com irritação.
“Eu tenho mais o que fazer, você tem mais o que fazer, portanto, espero que me esclareça: por que se dispôs a fazer algo tão inútil?”
“Eu quero me aproximar delas para saber se tem alguma memória de minha mãe,” disse Ryan, com seriedade. “Você sabe que a Blue Fairy foi uma das poucas amigas dela no nosso mundo, talvez saiba de alguma coisa.”
“Sei que você ainda acha que está cedo para recorrer ao seu pai, mas por que não vai até o seu avô para isso? Se alguém tem alguma memória da sua mãe nessa cidade, esse alguém seria ele.”
“Meu pai está de olho no meu avô por minha mãe,” disse Ryan, com a expressão preocupada. “Ele saberá se eu for vê-lo e vai querer conhecer os meus motivos. Não estou certo se ele sabe quem eu sou ou se confia em mim.”
“Certo, então, você precisa conversar com a Blue Fairy! E por que eu precisaria ir também?” Perguntou August, enquanto buscava o dinheiro para pagar seu café e suas panquecas na carteira. “Não há nada que as fadas possam dizer para me ajudar.”
“Ora, talvez você possa conseguir uma dica delas de como fazer as pessoas acreditarem,” disse Ryan com o sorriso que o fazia se parecer com o pai dele. “Afinal, elas são freiras nesse mundo e fadas no outro: são experientes nesse assunto.”
Os dois, então, se levantaram, fizeram sua caminhada matutina habitual e rumaram até o convento, onde encontraram a Madre Superiora – que um dia fora a Blue Fairy –, algumas outras freiras, Mary Margaret e, para a surpresa de August, Leroy.
Os dois se aproximaram de Mary Margaret, com quem cada um deles pegou uma caixa de velas, e foram instruídos de tentar vendê-las em uma barraca durante o festival.
Infelizmente, os dois maiores párias da cidade – Mary Margaret e Leroy – jamais seriam capazes de fazer uma grande quantidade de vendas. Ryan e August não atrapalhavam exatamente, mas também não eram de grande ajuda, pois eram novos ali e não eram considerados parte daquela comunidade.
Em meados do dia, Mary Margaret e Leroy saíram juntos – cada um carregando uma caixa de velas – para bater na porta de cada casa na região tentando vendê-las. As vendas melhoraram um pouco depois disso: um homem que August vira chamarem de Archie comprou meia dúzia, Granny comprou duas e, por volta do final da tarde, o avô de Ryan apareceu na barraca e pediu duas.
August se surpreendeu ao observar Ryan e Moe French se cumprimentando como se fossem velhos conhecidos, com um amigável aperto de mão e muitos sorrisos. Ele se perguntou se French se lembraria, mas descartou a idéia: aquela provavelmente não era uma pessoa que Regina deixaria manter as memórias.
“De onde você o conhece?” Perguntou August quando percebeu que French se afastara o bastante para não ouvi-los conversando.
Ryan balançou a cabeça negativamente e lhe lançou um sorriso misterioso, como que o desafiando a adivinhar o que, de fato, ocorrera. August, entretanto, estava cansado e muito arrependido de ter aceitado fazer aquilo e não lhe deu muita atenção.
No final, a venda acabou por ser um sucesso absoluto, pois a luz acabou misteriosamente durante o festival e as pessoas foram forçadas a comprar as velas para enxergar o caminho de volta para casa.
A Blue Fairy – Madre Superiora, ele se lembrou–se aproximou para recolher o dinheiro quando todos se afastavam a caminho de suas casas. Ela lançou um sorriso de agradecimento a August e Ryan, que permaneceu inquieto diante da freira.
Apenas quando ela já estava se afastando, o mais novo a chamou de volta, parecendo um pouco nervoso.
“Sim?” Ela perguntou, com uma ponta de curiosidade na voz.
Ryan retirou um desenho que fizera se baseando na imagem que vira no livro de Henry – ele não sabia se era fiel e August sabia que isso o atormentava mais do que o mais novo expressava, mas era tudo o que tinha. Ele entregou o desenho para a freira, que o encarou com curiosidade.
“Essa mulher, eu a tenho procurado há algum tempo e, bom, ela era uma pessoa boa e se pode dizer que era devota,” disse Ryan com a voz trêmula – era a primeira vez em muitos anos que falava abertamente de sua mãe com alguém que não era August. “Achei que, talvez, você pudesse conhecê-la.”
A Madre Superiora encarou o papel com atenção, e August percebeu que ela tentava se lembrar com afinco da pessoa desenhada. Por fim, entretanto, ela ergueu os olhos e balançou negativamente a cabeça.
“Não me lembro de ninguém com essa aparência,” disse a Madre Superiora, e sua voz aparentava tristeza. “Sinto muito não poder ajudá-lo. Ela viveu em Storybrooke?”
“Sim,” disse Ryan lentamente. “Acredito que ainda more aqui, mas não é uma pessoa muito conhecida, e é um pouco discreta.”
“Entendo,” disse a freira, deixando escapar um suspiro. “Talvez, se você espalhasse a notícia de que a está procurando, ela viesse até você.”
Ryan assentiu brevemente, e August soube que ele estava arrasado. A Madre Superiora o encarou com atenção, balançou negativamente a cabeça e saiu, pedindo desculpas novamente por não ser capaz de ajudá-lo.
August colocou a mão no ombro do amigo, em um gesto de apoio.
“Não se preocupe,” disse, com mais convicção do que, de fato, sentia. “Você a encontrará. Alguém deve ter memória dela nesse lugar.”
Ryan assentiu novamente, levantou a cabeça lentamente e lançou um sorriso fraco para o amigo.
“Vou encontrá-la. Preciso encontrá-la.”
~~//~~
O dia que se seguiu à descoberta a respeito de Pinocchio se passou muito lentamente enquanto Gwenaël tentava se decidir a respeito de como prosseguir: se deveria contar a verdade ou não para o outro. Era fato que ansiava por ter alguém com quem conversar e dividir o peso de estar naquele mundo estranho e desconhecido, mas também temia que Pinocchio fosse um dos inimigos de seu pai.
Gwenaël se lembrava da conversa que havia mudado a vida dele, na qual seu pai lhe contara que era uma pessoa poderosa naquele mundo que fora muito má por muito tempo antes que a mãe dele, Lady Belle de Avonlea, aparecesse na vida dele e começasse a fazer ele se sentir mal pelo que andara fazendo.
De todo modo, ele fora mal por um tempo demasiado longo e tinha muitos inimigos que fariam qualquer coisa para controlá-lo de alguma forma – e era por esse motivo que Gwenaël precisava ser tão protegido, para começo de conversa. Portanto, o menino não deveria confiar em qualquer pessoa do mundo deles antes de estar muito certo das intenções dela.
Gwenaël, entretanto, se sentia muito solitário e sequer sabia se um dia reencontraria o pai. Além disso, Pinocchio era apenas uma criança alguns anos mais velha do que ele e nada poderia fazer com o menino – que era esperto o bastante para não ficar vulnerável –, muito menos com o seu pai.
Com isso em mente, ele resolveu que não podia fazer qualquer mal contar a Pinocchio a respeito de si mesmo e, embora posteriormente tenha julgado aquela decisão muito imprudente, nunca se arrependeu de fato.
Gwenaël esperou que o outro menino se aproximasse novamente dele, o que ocorreu apenas após as aulas, quando as crianças eram levadas até o parque próximo da escola para brincar por cerca de duas horas. Gwenaël se sentiu aliviado diante daquilo, pois o espaço que Pinocchio dera entre a primeira conversa e a segunda lhe dera tempo para pensar no que diria, ao que ele resolvera ser completamente honesto.
“Você é de lá, não é?” Perguntou August, sentando-se ao lado dele. “Não adianta mentir, você realmente parece um pouco apavorado e deslocado por aqui.”
O menino xingou o pai mentalmente por mentir para ele a respeito de sua capacidade de esconder seus sentimentos. Ou talvez o pai estivesse certo, mas nunca o vira em uma situação tão desesperadora.
“Eu não falei que não era,” disse Gwenaël, observando as crianças que faziam fila para brincar no único balanço do parque que não estava quebrado. “Sou Gwenaël, herdeiro do governante de Avonlea.”
“Eu já sabia que você era nobre, apenas eles ensinam as crianças a ler,” disse, com um sorriso. “Você já sabe quem eu sou, então nem vou me apresentar!”
Gwenaël assentiu incerto a respeito do que dizer. Nunca soubera que crianças que não eram nobres não aprendiam a ler e achou aquilo muito triste. Quando eu governar Avonelea, vou criar escolas onde todas as crianças vão aprender a ler e minha mãe vai se orgulhar de mim mesmo que eu não seja corajoso! O pensamento negativista desaparecendo como que por mágica de sua cabeça.
“Como você veio parar aqui?” Perguntou Gwenaël, com curiosidade. “Meu pai me contou que viagens entre mundo são muito raras, principalmente para mundos sem magia, como esse.”
August encarou por um tempo as outras crianças que brincavam despreocupadamente no parque sem realmente vê-las, e Gwenaël achou que o mais velho estava perdido em suas memórias.
“Meu pai construiu um armário com a última árvore encantada do nosso mundo a pedido da Blue Fairy para transportar a filha da rainha Snow White e do rei James até esse mundo,” ele disse, por fim, ainda parecendo um pouco alheio. “O preço dele foi que eu fosse a pessoa a acompanhá-la. Ele tinha medo que ser transportado através da maldição fizesse com que eu voltasse a ser um boneco de madeira inanimado.”
“Eu vim através de um armário também!” Exclamou Gwenaël, espantado. “A Blue Fairy era amiga da minha mãe, e ela e meu pai entraram em um acordo para me proteger, pois eles não queriam que eu caísse nas mãos da rainha Regina quando ela lançasse a maldição.”
“Então, vocês sabiam sobre a maldição! Eu achei que aquele era um assunto secreto, porque nós fomos proibidos de falar a respeito para que as pessoas normais não ficassem desesperadas,” disse Pinocchio, com espanto.
“Meu pai sempre soube,” disse Gwenaël. “Anos antes de a rainha lançar a maldição ele já estava procurando uma maneira de me trazer para cá.”
“Para que Regina não conseguisse colocar as mãos em você?” Pinocchio perguntou, e Gwenaël assentiu brevemente. “Por que ela se preocuparia com você? Quero dizer, você é só uma criança, e Avonlea é apenas um país pequeno.”
Gwenaël pensou naquela pergunta por algum tempo, encarando as outras crianças. Pensando, de fato, no assunto, ele chegou à conclusão que não sabia realmente o motivo pelo qual a rainha feiticeira estava tão interessada nele. Ele já se fizera aquela pergunta algumas vezes e, uma vez, perguntara ao pai, que disse que ele era muito jovem para compreender.
“O meu pai tem muitos inimigos,” disse Gwenaël, usando a única resposta que foi capaz de encontrar. “Eles pegaram a minha mãe quando eu era pequeno só para ter poder sobre ele.”
“Seu pai? O governante de Avonlea?” Perguntou o mais velho.
O menino começou a ficar irritado diante do descaso dele em relação ao reino que um dia seria de Gwenaël. Precisou utilizar todo o controle que aprendera com o pai para não deixar transparecerem os seus sentimentos.
“Meu avô é o governante de Avonlea,” falou, tentando soar inexpressivo. “Meu pai nunca desejou o título de nobre, porque ele é muito mais poderoso do que isso. O nome dele é Rumpelstiltskin, e tenho certeza que você já o ouviu.”
Gwenaël sentiu certa satisfação – e alguma tristeza – ao perceber o rosto pálido e aterrorizado de Pinocchio quando ele anunciou o nome de seu pai.
“E-ele é seu pai?” Perguntou, com a voz trêmula. “M-mas, ele n-não é humano!”
“Homem ou não,” disse Gwenaël, já incapaz de conter a fúria em sua voz, “ele sempre foi um bom pai para mim.”
Pinocchio se levantou rapidamente e saiu correndo na direção das outras crianças, e Gwenaël se sentiu mal o observando partir: devia ter abordado aquele assunto com mais cuidado. Bom, pelo menos isso responde a minha pergunta, Pinocchio é realmente inimigo do meu pai.
~~//~~
August se esforçou para não prestar atenção enquanto Ruby e sua avó brigavam por causa de uma conversa que ele estava tendo com ela. Mas, quando as vozes se ergueram, ele observou com tristeza enquanto a jovem saia do estabelecimento de Granny com raiva, demitindo-se.
Ele sabia pelo que lera no livro de Henry algo do que aquelas duas passaram juntas, as aventuras e desventuras que viveram como avó e neta, fazendo a coisa certa e ajudando algumas das melhores pessoas que August já conhecera.
Nunca conhecera Red, que sempre estivera focada na proteção do castelo e na investigação a respeito dos planos da Rainha, mas Granny às vezes se aproximava dele e lhe deva doces, tentando puxar assunto enquanto pai de August trabalhava na árvore mágica.
Portanto, não pôde deixar de se sentir mal quando observou a velha senhora tentando não parecer arrasada enquanto recolhia o seu prato.
“Sinto muito,” ele disse, e realmente sentia. “Eu não queria provocar aquela briga.”
“Não é sua culpa,” disse Granny, tentando disfarçar o pesar com um tom de raiva. “Ruby é teimosa e gosta de fazer barulho, em breve retornará.”
August assentiu e saiu do lugar, se sentindo tão mal quanto antes – as palavras de Granny não o haviam convencido nem um pouco. Quando estava a caminho da pousada, ele viu Ruby conversando com Mary Margaret e Emma, e percebeu que ela ficaria bem por aquela noite, o que o tranqüilizou um pouco.
No dia seguinte, ficou sabendo que a jovem fora contratada por Emma como assistente quando a própria se gabou disso para a avó, enquanto buscava um almoço para Emma. A velha balançou a cabeça negativamente enquanto Ruby saía e, para a surpresa de August, sorriu – como quem sabia que a neta em breve retornaria.
August sorriu para seu prato, se a velha senhora estava tranqüila a respeito da neta, ele acreditava que também não precisava se preocupar. E a leveza de Granny sobre o assunto se provou válida quando, no dia posterior, enquanto ele e Ryan tomavam o seu café-da-manhã no restaurante, Ruby voltou parecendo um pouco abalada, mas determinada em retornar para o serviço com a sua avó.
“Estou orgulhosa de você,” disse a avó, após voltar as costas para Ruby, e August soube que ela dizia aquilo de coração.
“O que você disse?” Disse a jovem, com um sorriso travesso nos lábios.
“Você me escutou!” Falou Granny, com um sorriso idêntico, entrando na cozinha.
Depois, Ruby viu que August estava presente e se voltou para conversar com ele. Ela pediu desculpas por seu comportamento, e disse que aquilo não tinha nada a ver com ele ou com a conversa que eles haviam tido dois dias antes. August apenas sorriu e assentiu, falando que ela não precisava se preocupar, ele já tivera aquela conversa com Granny.
Ryan permaneceu calado durante a conversa dos dois, e August soube que ele estava espantado, pois não contara a ele a respeito da conversa que tivera com Ruby, dois dias antes, que acabou dando um impulso inicial para a briga entre ela e a avó. O mais novo andava realmente ocupado, perambulando pela cidade, e August sabia que Ryan riria dele se contasse.
Percebendo a troca de olhares entre os dois, Ruby se voltou para Ryan com um sorriso que morreu em seus lábios instantaneamente. August percebeu a reação dela, mas não soube como perguntar o que houvera, Ryan pareceu igualmente incapaz de reagir à mudança de humor da jovem.
Os três ficaram em silêncio por quase um minuto completo enquanto Ruby parecia lutar contra sentimentos que August não pôde definir.
“Não sei como nunca percebi,” disse a jovem, por fim, com a voz rouca. “Você, garoto, se parece com alguém que eu conheci há muito tempo!”
Ryan olhou para Ruby, atônito, e August observou o rosto do amigo enrubescer suavemente, enquanto ele lutava, tentando decidir como se sentia, o que pensava a respeito disso.
“Sim, você me faz lembrar ela,” disse Ruby, parecendo alheia ao efeito do que dizia em Ryan. “Há muito tempo eu não pensava em Rose French. É claro que nunca fomos amigas, mas não se pode crescer em Storybrooke junto com outra pessoa sem sequer conhecê-la.”
“Rose French, você diz, a filha do florista?” disse Ryan, e August percebeu que ele trajava a máscara que era aquele sorriso leve e despretensioso que aprendera com o pai.
“Sim, você conhece o velho Moe?” Perguntou Ruby, com um sorriso. “Talvez vocês sejam parentes, seus olhos são exatamente iguais aos dela, e eu juro que nunca vi nenhuma outra pessoa com olhos como os de vocês dois!”
“Você disse que não pensa nela há ano. O que aconteceu com ela?” Perguntou o rapaz, com um sorriso que August sabia não demonstrar o quão interessado ele estava.
“Ela desapareceu,” disse Ruby. “Exatamente como aconteceu com Kathryn Nolan.”
O sorriso-máscara de Ryan desapareceu de seu rosto, mas isso não comprometeu a encenação do mais novo, pois o de Ruby também havia desaparecido, dando lugar a uma expressão muito perturbada.
“O pai dela não mandou procurá-la?” August admirou a firmeza na voz do amigo, quando ele fez aquela pergunta.
Ruby balançou a cabeça afirmativamente enquanto tentava se recompor. Por algum motivo que August desconhecia, o desaparecimento de Kathryn Nolan a perturbava profundamente. Ele se perguntou se a jovem sabia de alguma coisa, mas decidiu que não era o momento para se preocupar com aquilo.
“Ele chamou Graham e os dois procuraram por todos os cantos,” disse Ruby. “Mas, uns dias depois, Moe encontrou uma carta de Rose debaixo do travesseiro dela.”
“O que dizia a carta?” Perguntou Ryan.
“Eu não sei,” disse Ruby, pensativa. “Como eu disse, não éramos amigas. Só sei a respeito porque eu me lembro que a prefeita fez um escândalo na época, dizendo que a força policial da cidade tinha mais o que fazer.”
Ryan assentiu, e August se perguntou o que o mais novo estaria sentindo naquele momento. Quando Ruby se levantou, pedindo licença, e saiu para ajudar a avó, ele se voltou para o amigo, que sorria.
“Um nome,” ele disse. “Se Regina se preocupou em dar um nome e uma história, ela deve estar em algum lugar e ser útil à Rainha.”
August sorriu, diante da felicidade do amigo.
“E você vai encontrá-la,” disse August.
“Eu vou!” Respondeu o amigo, com determinação.
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Nas semanas que se passaram, Gwenaël fez o que pôde para ignorar o modo aterrorizado como August se comportava quando estava perto dele, evitando a todo custo permanecer sozinho com ele em algum lugar e chegara até mesmo a pedir para mudar de quarto. O menino não pôde deixar de se sentir chateado, entretanto: por cerca de um dia, ele tivera a esperança – embora vã – de conseguir um amigo.
Gwenaël, entretanto, tinha muito que fazer e se esforçou para não pensar em August enquanto lia o livro que havia pegado emprestado na biblioteca e tentava adquirir informações acerca de seus muitos autores.
O menino percebeu que faltava detalhes em todas as histórias que ele conhecia. A de Snow White, por exemplo, terminava com um final feliz logo após ela ser acordada com um beijo de amor verdadeiro por seu príncipe – cujo nome sequer é mencionado. O livro não falava nada acerca da maldição ou da filha de Snow White.
Gwenaël tentava entender aquilo, mas não fazia muito sentido, pois descobrira que as pessoas que escreveram aquilo haviam morrido muito tempo antes – muito antes que quase todas as histórias, de fato, tivessem acontecido. Será que eles vêem o futuro, como o meu pai? Mas isso não explicava como não sabiam a respeito do final daquela história.
Nas semanas seguintes, ele pegou emprestados outros livros com a mesma temática na biblioteca. Havia um, inclusive, que contava a história de uma mulher chamada Belle – como a minha mãe! – que se apaixonou por uma criatura monstruosa, mas não mencionava Gwenaël em momento algum, o que o menino achou um pouquinho decepcionante.
Os assim chamados contos de fada repetidos muitas vezes possuíam várias versões. Havia uma, por exemplo, em que Snow White não fora acordada com um beijo de amor verdadeiro, mas porque seu príncipe havia tropeçado e a socado acidentalmente na barriga, fazendo com que ela cuspisse a maçã envenenada. Ainda que Gwenaël tivesse rido até ficar sem ar daquilo, as mudanças só fizeram confundi-lo ainda mais.
Embora tivesse muito que fazer e tentasse com muito empenho se distrair, entretanto, não podia deixar de sentir um misto de uma crescente irritação e tristeza diante o modo como Pinocchio estava se comportando.
Ele sabia que Pinocchio provavelmente não tinha nenhum motivo concreto para odiar seu pai, porque Rumpelstiltskin não fazia acordos com crianças, mas, talvez fosse um ódio familiar, um ódio que Gepetto sentia e passara para o filho.
Embora estivesse incomodado com o comportamento do mais velho, ele se lembrava de como a perspectiva de um amigo repentinamente tornara a sua vida mais leve e o ambiente menos opressor. Não pela primeira vez na vida, mas certamente pela primeira vez em anos, Gwenaël se sentiu chateado com o pai por tornar a vida dele tão difícil.
Não era apenas a situação com Pinocchio que o estava afetando negativamente, entretanto, mas a atmosfera depressiva e negativista sob a qual estava vivendo.
Ele observava a si mesmo se tornando tal qual muitas das crianças com as quais estava vivendo, infeliz, irritável e muito defensivo. Sabia que, se havia algo do qual seus pais não se orgulhariam, era o modo como andava se comportando, com o mais profundo desejo de espalhar a própria infelicidade. Se eu não posso ser feliz, ninguém pode!
Certa manhã, algumas semanas após a briga com Pinocchio, Gwenaël se encontrava sentado em sua cama, lendo o último livro sobre os assim chamados contos de fada que pegara emprestado na biblioteca quando ouviu risadas se aproximando. Isso surpreendeu o menino, pois naquele horário a maior parte das crianças estava nos jardins, brincando e conversando entre si.
No último minuto antes da porta ser aberta, Gwenaël decidiu que seria melhor não ser visto: era a primeira vez que via outras crianças no quarto antes do jantar, e não pôde deixar de pensar que, talvez, eles não gostassem de vê-lo ali e começassem a implicar com ele. Por isso, o menino se escondeu debaixo da cama.
“Vocês não podem me machucar,” dizia uma voz que Gwenaël conhecia muito bem quando a porta foi aberta. “Eles vão ver que estou machucado e vão querer saber o que aconteceu e vão descobrir!”
Pinocchio! A voz dele estava um pouco trêmula, mas, pelo número de pares de pé que viu de onde estava escondido, Gwenaël admirou a coragem dele.
“Mas você não vai contar a verdade quando eles perguntarem, então não tem problema,” falou uma voz que Gwenaël reconheceu como sendo de um menino chamado Charles, que viu os pais sendo assassinados antes de ser jogado naquele lugar.
Ele viu três pares de pé se aproximando lentamente do par que pertencia ao companheiro da Enchanted Forest e, agindo sem pensar, Gwenaël saiu de debaixo da cama rapidamente e se colocou entre os três meninos e Pinocchio.
“Vocês não deviam machucar ele,” disse Gwenaël, enquanto pensava que estava sendo realmente burro. “Alguém pode ficar sabendo e vocês vão se encrencar.”
A reação que desejava que causasse era que os meninos recuassem ao vê-lo e desistissem de seu objetivo. O que ocorreu, de fato, passou muito longe disso: eles começaram a rir e se aproximaram ainda mais, com um olhar ameaçador que fez com que Gwenaël se sentisse ainda mais burro.
Então, repentinamente, teve uma ideia.
“Depois não digam que eu não avisei,” disse, forçando um sorriso que aprendera brincando de imitar as expressões engraçadas do pai. “Ou será que vocês não sabem que mandaram instalar câmeras de segurança nos corredores?”
“E daí?” Perguntou prontamente Jack, um menino que fora deixado na porta daquele lugar ainda bebê e cujos pais nunca conhecera. “Nós não estamos nos corredores, eles não vão nos ver.”
“Bom, eles vão ver vocês entrando com ele sem nenhum machucado e saindo machucado,” o menino falou, lentamente, sem deixar que seu sorriso morresse. “E vão ver vocês entrando e saindo sem machucados. Acho que vão deduzir o que aconteceu.”
“Você usa palavras grandes e difíceis para um pirralho,” disse Charles por entre os dentes. Ele deu mais um passo em direção a Gwenaël, que teve que se esforçar para não recuar como reflexo.
“Machuque-nos aqui, e todos saberão,” retrucou, abrindo ainda mais o sorriso.
Os meninos encararam Gwenaël por um momento demasiado longo enquanto o mais novo se esforçava para não demonstrar qualquer fraqueza ou hesitação. Então, finalmente, os três grunhiram, recuaram e saíram do quarto, prometendo que isso não ficaria assim.
Quando eles bateram a porta do quarto atrás de si, Gwenaël se deixou cair na cama, suas pernas completamente trêmulas. Ele não encarou Pinocchio, pois estava com medo que o outro o achasse esquisito e perigoso e se afastasse de novo. Seu pai sempre havia lhe dito que palavras eram mais poderosas do que magia, e agora Gwenaël quase acreditava nele.
“Não instalaram nenhuma câmera de segurança, não é?” Perguntou Pinocchio, fazendo com que o mais novo levantasse a cabeça por alguns segundos para encará-lo e balançasse negativamente a cabeça, se deixando cair novamente na cama em seguida. “Eles acreditaram bem rápido. Contaram-me que seu pai era realmente bom com as palavras, e parece que você herdou dele.”
“Não é uma herança,” disse Gwenaël, surpreso que sua voz não tenha saído trêmula. “Meu pai e meu avô passaram a minha vida inteira me ensinando coisas que me ajudariam a sobreviver sozinho por aqui.”
Pinocchio demorou alguns segundos antes de assentir, como quem entendesse, e os dois caíram novamente em um silêncio incômodo. Gwenaël não sabia ao certo o que dizer ao outro menino, pois temia uma nova rejeição por parte dele. Já voltara a ser covarde.
“Obrigado por me salvar,” disse Pinocchio bruscamente, e, ao encará-lo, Gwenaël percebeu que ele corara violentamente. “Eu não merecia depois de tudo o que fiz, você foi muito corajoso.”
O mais novo compreendeu que aquele era o modo desajeitado de Pinocchio pedir desculpas a ele, e achou que seria mais fácil se ele tivesse simplesmente pedido, mas mesmo assim assentiu, aceitando-as.
“Não foi nada, os brutos não são muito inteligentes,” disse o menino, feliz que o mais velho estivesse arrependido. “Ou, pelo menos, foi o que meu pai me ensinou: só usa a força física quem não tem nenhuma outra arma.”
Pinocchio sorriu e se sentou ao lado de Gwenaël, parecendo disposto a dar uma chance para conhecê-lo e ser amigo dele, tudo porque ele fora corajoso.
“Eu não sou corajoso,” falou o mais novo, sem tentar esconder a tristeza em sua voz. “Meu avô dizia o tempo todo que eu era corajoso como a minha mãe, mas não era verdade, porque eu não tinha motivos para ser corajoso. E agora, quando tenho, eu passo o tempo todo com medo. Eu não sou corajoso!”
O mais velho se deitou na cama e olhou para o teto por algum tempo, pensando no que Gwenaël havia dito e, quando ele achou que não o responderia, Pinocchio se sentou de repente, sobressaltando-o.
“Quando o meu pai estava construindo o armário, tinha uma velha senhora que se sentava comigo e me dava doces,” disse, sorrindo com a lembrança. “Eu estava tão apavorado com essa história de viajar e cuidar de Emma e todo mundo dependendo de mim, e eu não podia contar a ninguém, porque isso era segredo entre o meu pai e a Blue Fairy. Mas ela percebeu que estava com medo e me disse que ser corajoso não é não ter medo, é não deixar o medo governar.”
Gwenaël precisou de algum tempo para absorver o que o outro dissera. Não tinha muita certeza se seu avô concordava com aquilo, mas a definição o fazia se sentir muito melhor a respeito de si mesmo.
Então, ele se lembrou de algo que ouvira muito tempo antes, talvez, no mesmo dia em que a mãe fora levada: “tenha uma atitude corajosa, e a bravura seguirá.”
Gwenaël sorriu. Talvez , não fosse tão covarde, afinal!
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*”Janelas abertas para a vida/Colocam seus temores de lado/O silêncio sagrado fecha portas/Para os olhos abertos/Pegue as escadas para as estrelas/Peregrine sozinho, viaje para longe/Algum dia/Sempre” (Música: Linger – Epica)
**Referência à história do livro “Vida Encantada”, de Diana Wynne Jones.
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