Catenae

1 Capítulo I: Tenebrae


Notas iniciais
Segunda parte da série de fanfics intitulada "Vinculis Magicis". É altamente recomendável que você comece a leitura da série pela primeira é a história, Vinculum Aeternum. Essa história terá momentos alternados entre a Storybrooke do presente e flashbacks do passado na Enchanted Forest e no Mundo Sem Magia. Os pontos de vista são variáveis. Vocês notarão que essa história terá flashbacks não lineares. Espero que não fique confuso, mas, qualquer dúvida, não hesitem em perguntar! As falas estarão entre aspas, e os pensamentos em itálico. Tenebrae significa escuridão.

As I wait for the time
My dream comes alive
Always out of sight
But never out of mind
And under waning moon
Still I long for you
Alone against the light
Solitude am I*

Rumpelstiltskin abriu as portas de seu castelo às pressas – embora fazendo o mínimo de barulho possível –, mas sabendo que estava demasiado atrasado para impedir seja lá o que tivesse acontecido ali em sua ausência.

O feiticeiro entrou no salão onde Belle costumava ler enquanto esperava que ele retornasse de suas viagens e Gwenaël estava dormindo. Para seu alívio, não encontrou quaisquer sinais de confronto no lugar, o que evidenciava o fato de que tudo estava normal, que fora um falso alarme de sua esposa. Certo?

Algo dentro de Rumpelstiltskin, entretanto, sabia que alguma coisa estava errada. Belle nunca o havia convocado antes usando a magia do cordão que ele lhe dera mais de dois anos antes, e ela não o teria feito se não estivesse certa de que corria algum perigo imediato com o qual não podia lidar. Algo definitivamente ocorrera ali.

Ele continuou a sua busca pelo castelo, abrindo todas as portas de todos os cômodos enquanto tentava escutar sinais de que alguém se encontrava ali. Rumpelstiltskin não podia conceber a ideia de que Belle deixaria que levassem o seu filho sem qualquer reação, e o feiticeiro sabia que ela era capaz de enfrentar qualquer um que tentasse fazê-lo – embora não estivesse muito certo de que ela seria capaz de derrotar qualquer um.

Rumpelstiltskin se perguntou se aquilo não seria obra dos tolos Conselheiros de Sir Maurice após a descoberta da existência de Gwenaël. As únicas pessoas que sabiam sobre o menino, entretanto, eram ele, Belle e a Blue Fairy. Portanto, a fada era a única pessoa que poderia ter contado à Avonlea acerca do nascimento, o que mesmo o feiticeiro – seu inimigo declarado – achava muito improvável: fadas tinham um código moral restrito e quebrar acordos não fazia o tipo delas.

Então, repentinamente, ele ouviu um soluço que o sobressaltou vindo de dentro da biblioteca. Lenta e cuidadosamente, Rumpelstiltskin entrou ali e percebeu, com um sentimento de alívio em uma proporção imensurável, que Gaël se encontrava sentado na cama que ele colocara tanto tempo antes ali, para Belle.

O rosto do menino foi do terror ao alívio em milésimos de segundo enquanto observava o feiticeiro caminhando até ele. Gwenaël estava tenso e tremia violentamente, mas se colocou de pé enquanto quebrava o silêncio reinante:

“Papai,” ele falou, com alguma incerteza, e correu para abraçar Rumpelstiltskin, as lágrimas encharcando o seu rosto.

“Gaël!” Perguntou Rumpelstiltskin, com urgência, se ajoelhando e abraçando o filho com carinho, enquanto sentia um enorme peso deixando o seu peito enquanto as dúvidas o preenchiam. “O que aconteceu? Onde está a sua mãe?”

O menino não escutou, ainda chorando contra o peito do pai. O feiticeiro se sentia feliz com a presença do pequeno corpo de Gwenaël contra o dele – eles não eram muito próximos, e demonstrações de carinho não eram muito comuns –, mas sabia que precisava se apressar. Quanto mais tempo demorasse a começar a sua busca por Belle, mais improvável seria que ele conseguisse encontrá-la.

“Gaël,” chamou Rumpelstiltskin novamente, afastando o filho com delicadeza para que pudesse encará-lo nos olhos. “Por favor, diga-me o que aconteceu. Quanto mais rápido você me contar, mais rápido a trarei de volta para você.”

O menino engoliu seco enquanto se esforçava para parar de chorar. Ainda entre alguns soluços, ele contou ao pai como sentira pessoas más se aproximando e tentando entrar no castelo – embora fosse incapaz de entender como fizera aquilo –, e sua mãe o escutara e fora conferir o que estava acontecendo, mandando que ficasse escondido ali. Gwenaël, então, olhou para o pai como quem pedisse respostas a respeito do que ocorrera a seguir.

Rumpelstiltskin sacudiu negativamente a cabeça, e o olhar dele se transformou em pura tristeza. O feiticeiro abraçou novamente o filho, acariciando os cabelos castanhos dele enquanto tentava se decidir a respeito do que fazer: o menino não podia ficar sozinho no castelo enquanto ele procurava por Belle. Por fim, ele descobriu que não havia alternativa senão levá-lo até o avô.

“Gaël, eu não posso te deixar sozinho no castelo e não posso te levar comigo, é muito perigoso,” disse Rumpelstiltskin. “Então, vou te apresentar a uma pessoa que vai protegê-lo enquanto eu estiver fora: o seu avô.”

O menino o encarou, curioso – provido de um olhar idêntico ao de Belle –, e Rumpelstiltskin se deu conta de que ele nunca havia ouvido aquela palavra antes.

“O pai de sua mãe, menino. Ele vai cuidar de você enquanto eu estiver fora,” disse o feiticeiro com um sorriso. “Agora, eu vou fazer uma mágica para que a sua pele fique igual à da sua mãe. Não se assuste.”

Trêmulo, o menino fechou os olhos enquanto o feiticeiro enunciava a última frase, e, então, Rumpelstiltskin tocou delicadamente a ponta do nariz do filho da maneira como costumava fazer com Baelfire quando ele era pequeno. Gwenaël relaxou imediatamente e deixou escapar uma risadinha ao sentir o toque – tão parecido com seu filho mais velho que chegava a doer em Rumpelstiltskin –, e foi nesse momento em que a sua pele começou a mudar gradualmente até atingir a tonalidade da de Belle.

“Abra os olhos,” disse o feiticeiro, e o menino obedeceu prontamente. “Veja!”

Parecendo um pouco hesitante e temeroso, Gwenaël estendeu as mãos diante dos olhos e as encarou com uma expressão de espanto que fez com que Rumpelstiltskin sorrisse. Ele bagunçou os cabelos do filho e os dois se encararam por alguns segundos, sorrindo, ambos cientes de que aquele provavelmente era o primeiro momento que eles possuíam apenas para si.

“Venha,” disse Rumpelstiltskin, por fim, com um suspiro. “Vou levá-lo até o seu avô agora. Preciso encontrar a sua mãe.”

Gwenaël assentiu lentamente, observando o pai com seriedade e certa admiração. Rumpelstiltskin segurou o filho em seus braços e se transportou para o castelo de Sir Maurice.

~~//~~

Moe French não se considerava um homem de negócios, embora fosse dono de uma das únicas floriculturas de Storybrooke. Ele não sabia muito bem como se organizar para atrair mais clientes e era péssimo em finanças: o resultado disso era que estava sempre em débito.

Estava feliz, portanto, por contar com a ajuda do homem mais rico e poderoso da cidade, embora não soubesse ao certo a razão pela qual Mr. Gold lhe era tão condescendente quando tratava todos os demais moradores da cidade com tanto rigor e tanta frieza.

Certo dia, Gold apareceu na floricultura parecendo extremamente perturbado. Eles conversaram longamente enquanto o florista lhe servia um chá quente. O homem lhe contou que, um dia, tivera uma família, mas que estavam todos perdidos para ele e, naquele momento, estava se dando conta do quanto era solitário.

Moe não sabia ao certo a razão pela qual o poderoso Mr. Gold o havia procurado para contar isso, mas, lembrando-se que o homem diante de si sempre fora bom com ele, o florista decidiu que não havia absolutamente nenhum problema em escutá-lo.

Quando Gold terminou de contar a história de como abandonara a esposa e os dois filhos em sua busca pelo poder, Moe lhe contou um pouco sobre sua maravilhosa filha que um dia saíra de casa sem nenhum aviso.

Inteligente, perspicaz e extremamente bondosa: ela era amada por todos que a cercavam. Quando desaparecera, Moe achara a princípio que havia sido seqüestrada – embora não estivesse muito certo do motivo pelo qual alguém faria isso com ela –, mas acabou por encontrar uma carta da jovem dizendo que havia coisas que precisava fazer sozinha. Estranho.

Gold parecia um pouco espantado diante daquela revelação, e Moe não o culpou: não havia muita gente na cidade que sabia que ele possuía uma filha.

Após aquele dia, eles passaram a se encontrar esporadicamente e, um mês e meio depois, embora ainda não conseguisse chamá-lo de amigo, o florista sabia que podia confiar em Gold: um sentimento estranho levando em conta que o prestamista aterrorizava todas as pessoas daquela cidade, e as únicas que não pareciam temê-lo – além de Moe – eram Emma Swan, que era nova ali, e Regina Mills, que era a prefeita e uma mulher muito poderosa.

Certa manhã, no dia anterior ao dia dos namorados – o único dia do ano em que recebia muitos clientes –, um jovem cliente que ele nunca havia visto em sua loja, mas parecia estranhamente familiar, apareceu de modo muito repentino e aparentando grande nervosismo, o que despertou certa curiosidade no florista.

“Boa tarde,” disso o jovem, olhando em volta e procurando algo que lhe chamasse a atenção. “Eu gostaria de enviar flores no dia dos namorados e soube que esse é o lugar certo para comprá-las nessa cidade!”

Moe sorriu brevemente, era um pouco cedo para comprar flores pelo dia dos namorados – em geral, as pessoas esperavam até o dia para que elas estivessem em sua melhor aparência –, mas aquele garoto estava evidentemente ansioso para satisfazer a pessoa que ele amava.

“Muito bem, eu não sei quem indicou essa loja, mas farei com que essa pessoa não se arrependa de suas palavras,” disse Moe, por fim, observando o rapaz procurando analisando cada planta de perto. “Como posso ajudá-lo?”

“Bom, na verdade, eu quero dar flores a duas pessoas, e nenhuma delas é minha namorada,” disse o rapaz, sorrindo – um sorriso muito familiar, embora o florista não se recordasse muito bem de onde já o havia visto – para um pequeno cacto que decorava a vitrine da loja, e Moe se perguntou se ele estava evitando encará-lo deliberadamente e o motivo para tal comportamento. “Isso é estranho? O fato é que eu sei que são pessoas solitárias, que nunca recebem nada em datas como essa e vão gostar de um presente. Mesmo que seja de um amigo.”

“Bom, é o dia dos namorados, mas creio que não seja tão estranho receber um presente nessas circunstâncias,” disse Moe, incerto. “Tudo depende da flor que você escolher, eu acho.”

“Certo,” disse o rapaz, com um suspiro. Novamente, ele olhou em volta, como se esperasse que a flor certa saltasse diante de si. “É nesse departamento que vou precisar de algum auxílio. Você pode me ajudar?”

Moe assentiu e guiou o seu jovem cliente pela loja, mostrando diversas flores que não possuíam qualquer relação com declarações românticas, enquanto o rapaz escutava, analisando cuidadosamente cada planta sem encará-lo – e Moe estava cada vez mais certo de que ele o estava evitando.

Por fim, optou por um arranjo de girassóis e o pequeno cacto que havia lhe chamado a atenção anteriormente. Ele segurou a segunda planta com um sorriso travesso nos lábios – onde Moe já teria visto esse sorriso? –, como quem ria de uma piada feita mentalmente.

“Uma das pessoas que vou presentear pode ser bastante espinhosa quando quer, e tem senso de humor e inteligência o bastante para gostar bastante desse presente,” disse, sem tirar os olhos do cacto.

“E o girassol?” Perguntou Moe, curioso, e se arrependeu instantaneamente: não era bom para os negócios fazer perguntas pessoais. É por esse motivo que esse lugar está sempre vazio!

O rapaz ficou em silêncio por algum tempo, parecendo considerar a melhor maneira de colocar a resposta em palavras, e o florista compreendeu que aquela não era uma pessoa que o rapaz pudesse traduzir tão facilmente quanto a outra.

“Certa vez, essa pessoa me disse que possuía dois grandes sóis em sua vida, mas acabou perdendo-os,” disse, sua voz soando triste. “Isso é como uma promessa de que ele os terá de volta. Um dia.”

Instantaneamente, a imagem da sua doce Rose surgiu em sua mente da maneira como o florista se lembrava dela – bela, jovem e alegre, com seus olhos azul celestes e sorriso contagiante –, e Moe percebeu que podia descrevê-la perfeitamente como o seu sol.

O florista sentiu vontade de perguntar mais sobre a perda que o amigo do rapaz sofrera, mas se lembrou de que não devia se meter em assuntos dos clientes e apenas perguntou o modo como ele pagaria.

Naquele momento, talvez por um lapso de atenção do rapaz, ele ergueu os olhos e encarou o florista, que pôde ver apenas uma imensidão azul sem fim. Eles se encaram – e Moe se perguntou a respeito desses olhos, que ele seria capaz de reconhecer em qualquer rosto – até que, finalmente, o rapaz desviou o olhar e lhe entregou um cartão de crédito.

Após o pagamento, segurando as duas plantas – tão diferentes – que comprara, o rapaz se despediu e saiu da loja. Aquele olhar, tão parecido com o de Rose e, simultaneamente, carregado de sentimentos tão diferentes os quais a sua filha normalmente irradiava.

Intrigado, Moe se voltou para as contas que estava fazendo antes da chegada do jovem, sabendo que seria incapaz de se concentrar novamente. Ele era mesmo um péssimo administrador!

~~//~~

Rumpelstiltskin observou a mesmíssima sala em que pedira a mão de Belle a Sir Maurice mais de dois anos antes surgindo diante de seus olhos. Gwenaël arfou em seus braços e se segurou ao pai com força, e o feiticeiro se recordou – tarde demais – que Belle também não reagira bem à viagem.

“Respire com calma, menino,” disse Rumpelstiltskin e se voltou para os demais presentes na sala, o governante e três de seus Conselheiros. “Solicito audiência particular com Sir Maurice de Avonlea nesse momento.”

Estupefatos, os Conselheiros não se moveram, embora o feiticeiro tenha usado um tom de comando dotado de urgência. Eles acham que sou aliado deles porque permitiram meu casamento com a herdeira deles, por isso não me temem como deveriam.

“Receio estar correndo contra o tempo, portanto, sugiro que se apressem! Ou serei forçado a retirá-los contra a vontade de vocês?” Disse, agora com hostilidade enquanto erguia a mão que não estava usando para segurar Gwenaël.

Os homens ainda olharam para Sir Maurice antes de fazer qualquer movimento – e, embora não gostasse deles, Rumepelstiltskin julgou o ato como de admirável lealdade –, o governante se limitou a assentir sem cessar de observar o feiticeiro e Gwenaël atentamente e seus três Conselheiros abandonaram o salão.

“Então, esse é o meu neto,” disse Sir Maurice, quebrando o silêncio que se instalara. “O Conselho andava mesmo se perguntando se vocês andavam escondendo uma criança.”

“Bom, vocês nos colocaram em uma situação complicada. Veja bem, separar uma mãe de seu primeiro filho, principalmente ambos tiveram uma experiência de quase morte durante o nascimento. Algo nada fácil, nada fácil,” disse Rumpelstiltskin, com azedume, e ele observou Sir Maurice empalidecendo. “Além disso, é muito arriscado lhe entregar o meu filho. Tendo sido por algum tempo um daqueles que me odiou, Maurice de Avonlea, estou certo de que sabe o valor que o filho amado do Senhor das Trevas com a mulher que ele verdadeiramente ama possui.”

O governante permaneceu calado por um momento, e Rumpelstiltskin reparou que ele compreendia e não os culpava por esconder a criança. Ele não podia, entretanto, enunciar isso, pois era traição contra o seu povo.

Enquanto os dois homens se encaravam, o feiticeiro ouviu Gwenaël deixando escapar um soluço e percebeu – demasiado tardiamente – que o menino compreendera o que ele havia dito. Rumpelstiltskin se repreendeu mentalmente pela falta de tato, mas entendeu que não havia nada que pudesse fazer naquele momento para consertar o seu erro.

“Meus inimigos são o motivo pelo qual venho até aqui no dia de hoje,” disse o feiticeiro, enquanto apertava o filho contra o seu peito em uma tentativa silenciosa de confortá-lo. “Aparentemente, um deles teve a ousadia de invadir o meu castelo e seqüestrar a minha esposa, e definitivamente preciso ensiná-los a não fazer isso.”

“Belle,” interrompeu Sir Maurice fechando os olhos, e o feiticeiro notou que ele estava muito preocupado. “O que você faz aqui? Você deve ir. Você precisa encontrá-la, agora!”

“Meu castelo não é lugar para uma criança permanecer sozinha enquanto eu rastreio os seqüestradores de sua mãe,” disse Rumpelstiltskin. “Vou encobrir o seu castelo com feitiços protetores. Você dirá a todos que eu deixei meu filho aqui porque estava farto dele, não o queria: uma forma de protegê-lo. Mas, por precaução, deve encarregar uma ou duas pessoas de confiança de permanecer sempre ao lado dele, meu filho não deve ficar sozinho com ninguém.”

“Você sabe que a mentira se tornará evidente quando você e Belle retornarem para buscar o menino,” disse o governante, lentamente e com seriedade. “E que não poderemos devolvê-lo a vocês, pois ele é o meu herdeiro por direito.”

“Estou ciente de que vocês tentarão mantê-lo,” disse o feiticeiro, com impaciência. “Essa é uma questão que debateremos na presença de sua filha, mas saiba com antecedência que o menino é mais parecido comigo do que aparenta. Ele possui magia e deve aprender a usá-la.”

Rumpelstiltskin, então, colocou Gwenaël delicadamente no chão e agachou para encará-lo nos olhos, ignorando o olhar suspeito de Sir Maurice sobre si. O feiticeiro sabia que o haviam machucado e que não dispunha de tempo para explicar todo o conjunto de normas sociais que haviam forçado ele e Belle a prometer o primeiro filho como herdeiro de seu avô.

“Eu vou salvar a sua mãe e nós voltaremos para buscá-lo,” disse Rumpelstiltskin, tentando transmitir calma ao filho. “Vou estar de volta o mais rápido possível, mas, até lá, o seu avô o protegerá.”

Gwenaël olhou nos olhos do pai por um momento e Rumpelstiltskin viu a mágoa que causara, e, embora aquilo lhe doesse profundamente, achou que seria covardia desviar o olhar. O menino, então, se voltou lentamente para o homem que não conhecia com o olhar meticuloso de quem examina os mínimos detalhes. Por fim, ele sorriu, parecendo muito satisfeito com o que vira.

“É um prazer conhecê-lo, avô,” disse o menino com certa formalidade, mas também com um sorriso amistoso brincando nos lábios. “Sou Gwenaël, filho de Rumpelstiltskin, mas a minha mãe gosta quando me chamam de Gaël.”

“É um prazer conhecê-lo, Gwenaël, filho de Rumpelstiltskin e Belle,” falou Sir Maurice, aproximando-se. “Sua mãe o chama de Gaël, mas como você gostaria de ser chamado?”

Gwenaël foi pego de surpresa com aquela pergunta e precisou pensar por algum tempo antes de finalmente responder:

“Gaël está bem, para mim.”

Eles sorriram um para o outro com cumplicidade enquanto Rumpelstiltskin tentava não deixar escapar uma risada: aquelemenino sabia como conquistar as pessoas, como a sua Belle.

~~//~~

Moe French não se considerava um homem especialmente esperto, embora acreditasse que não fosse um completo estúpido. Quando ele tentou com afinco se lembrar de onde conhecera o rapaz que comprara o girassol em sua própria loja apenas para enviar ao próprio florista no dia seguinte, entretanto, foi incapaz de encontrar uma memória sequer que correspondesse a ele.

Ryan Greenley era o nome que constava no cartão de crédito que o jovem usara para pagá-lo, mas mesmo aquele nome não pertencia a ninguém que ele se lembrasse ter conhecido.Apenas os olhos eram familiares, muito parecidos com os de Rose, embora irradiassem uma série de emoções muito distintas – e igualmente familiares, embora Moe não conseguisse identificar de onde as conhecia.

Passou pela sua cabeça que, onde quer que Rose estivesse, talvez houvesse tido um filho, mas o rapaz não aparentava menos de vinte anos, e Moe estava certo que a filha não estivera desaparecida por tanto tempo! Certo? Repentinamente, o florista percebeu que não conseguia dizer há quanto tempo a filha desaparecera, o que lhe parecia absurdo levando em conta o fato de que cada dia sem ela lhe doía no coração.

Ele se lembrava do jovem lhe dizendo que aquele presente – o girassol – era para uma pessoa que perdera o seu próprio sol, representando uma promessa de que ela o teria de volta. Moe recordava de ter se lembrado de Rose no momento em que Greenley lhe falara aquilo.

Será que o presente era uma promessa de que ele encontraria Rose para ele? Mas como aquele jovem saberia a respeito da filha de Moe quando tão poucos conheciam a história? Definitivamente, aquilo não era algo que ele pudesse ter escutado na rua. Além disso, por que ajudar um velho florista?

Mais de uma vez, Moe se perguntou quem seria a pessoa que recebera o cacto. Talvez, a pessoa que o recebera tivesse as respostas para aquelas perguntas, mas também era provável que ela estivesse tão confusa quanto o próprio florista e tudo o que pudessem fazer se um dia conversassem fosse ficar confusos juntos.

Dois dias após o dia dos namorados, Moe ainda se fazia todas aquelas perguntas – sem quaisquer perspectivas de conseguir respondê-las, ainda assim incapaz de retirá-las da própria cabeça – quando Gold entrou em sua loja aparentando estar muito perturbado.

“Mr. French,” disse o prestamista com certa hesitação – e Moe se perguntou se alguém já vira o imperturbável Gold tão inquieto e receoso. “Você passou bem os últimos dias, eu espero.”

“Sim, sim. Perfeitamente,” disse o florista, perguntando-se o que teria feito com que Gold ficasse tão inquieto. “Você?”

Gold hesitou levemente antes de responder que também passara bem. Os dois permaneceram, então, em silêncio enquanto o prestamista parecia tentar encontrar as palavras certas para aquilo que viera dizer a Moe, para começo de conversa – pois o florista não acreditara por um momento sequer, desde que Gold entrara em sua loja, que aquela era uma visita casual.

“Mr. French, ontem eu recebi um presente um tanto inusitado que provavelmente foi comprado em sua loja,” disse Gold, após um breve momento de hesitação. “Pergunto-me se você poderia me ajudar a descobrir quem foi a pessoa que me enviou isso e o que a motivou.”

Era política do florista nunca revelar o remetente de flores mandadas anonimamente, mas, para a sorte de Gold – ou assim o florista acreditava –, Moe não era um vendedor tão bom assim e estava muitíssimo curioso acerca da pessoa que mandara flores para o homem mais temido da cidade no dia dos namorados.

“Muito bem, posso tentar ajudá-lo, Gold,” Perguntou Moe, esforçando-se para ocultar sua ansiedade. “Você pode me descrever o que recebeu?”

Para a surpresa de Moe, Gold descreveu exatamente o mesmo cacto que Greenley comprara em sua loja. Repentinamente, o florista se viu incapaz de responder o outro homem. Teria o jovem alguma relação com o motivo pelo qual o prestamista era tão indulgente com Moe?

“Mr. French, você está prestando atenção?” Perguntou Gold com um tom impaciente, e o florista se sobressaltou.

“Sim, sim,” disse Moe, ainda incerto se diria ao outro homem que o mesmo rapaz que dera o cacto ao prestamista também dera a ele um arranjo de girassóis. “Ryan Greenley é o nome do rapaz.”

Gold o encarou com um olhar estranho, e o florista suspeitou que ele já sabia aquilo e estava esperando que ele desse mais detalhes. Moe suspirou, resignado, e lhe falou tudo a respeito da estranha compra de Ryan, finalizando o seu relato contando como ficara surpreso ao receber os girassóis no dia seguinte.

“Não sei quem é o garoto, eu nunca o vi em Storybrooke antes,” disse Moe, franzindo a testa enquanto tentava – novamente – se lembrar de onde conhecia aquele rapaz. “Não creio que o conheça, embora ele pareça me conhecer.”

Gold sorriu como alguém que sabia muito mais do que estava dizendo, o que intensificou a sensação de Moe de que havia uma conexão entre Ryan Greenley e o motivo pelo qual Gold o tratava tão bem. O florista se perguntou o que o prestamista estaria escondendo a respeito daquele jovem.

Algo importante – embora singelo –, entretanto, clicou dentro de sua mente antes que Moe pudesse expressar em palavras a sua dúvida, enquanto observava os lábios de Gold se moverem levemente para cima: ele vira um sorriso idêntico em outro rosto. Gold não apenas conhecia aquele rapaz, ele era pai dele!

Não, não. Era certo que eles eram aparentados, mas não necessariamente pai e filho, certo? Talvez fossem tio e sobrinho, primos. Afinal, não eram tão parecidos assim. Entretanto, entretanto. Não, Moe estava certo que Gold era pai o rapaz, embora não soubesse qual era o motivo de tanta convicção.

Aquele menino não se parecia tanto com Gold, ele era incrivelmente parecido com…

Como…

Quando…

Onde ela está? Ele se perguntou. Quem? Respondeu automaticamente, e Moe considerou a pergunta, por um momento incapaz de nomear sua própria filha, dois nomes brigando entre si dentro de sua cabeça.

Ele fechou os olhos por um momento e deixou escapar um longo suspiro enquanto tentava organizar seus pensamentos.

Belle!

~~//~~

Há algum tempo, Rumpelstiltskin perdera a contagem das semanas que passara procurando incansavelmente por Belle. Vez ou outra, ele verificava como estava o seu filho em Avonlea – se estava feliz, seguro e bem cuidado –, mas todo o restante de seu tempo era usando na busca por sua esposa e por um meio de transportar ela e Gwenaël para o Mundo Sem Magia antes que Regina lançasse a maldição.

Ele não estava certo se Belle aprovaria a sua decisão de deixar o filho e ir procurá-la, mas, sabendo que o menino estava seguro e sendo bem cuidado, a consciência de Rumpelstiltskin não pesou muito. Quando encontrasse Belle, explicaria tudo e, com sorte, ela compreenderia.

O feiticeiro começava a temer, entretanto, que não fosse capaz de encontrar a esposa antes que a maldição fosse lançada. Recentemente, Snow White fora acordada por seu príncipe do sono encantado ao qual Regina a submetera, e ambos se preparavam para atacar a Rainha. Em breve, ele sabia, eles a baniriam e se casariam: ele tinha, portanto, no máximo dois anos para encontrar Belle e um meio para mandá-la junto de Gwenaël para o mundo sem magia. A situação começava a se tornar um tanto desesperadora, porque não havia qualquer pista a respeito de nenhum de seus objetivos.

Tarde da noite, em meados do verão, enquanto descansava em uma taverna, um Rumpelstiltskin disfarçado usando a sua aparência mais humana ouviu um boato de que um feijão mágico fora recentemente encontrado por um comerciante e que estava sendo vendido a um preço exorbitante no reino governado por Midas.

O feiticeiro sabia por experiência que aquele tipo de rumor acerca de itens mágicos era muito comum e raramente verdadeiro – as pessoas sempre gostavam de inventar histórias bobas acerca deles –, mas a urgência da situação em que se encontrava o forçou a investir naquela informação.

Portanto, ainda sob a sua aparência humana, Rumpelstiltskin se transportou até a cidade mais rica do reino de Midas e alugou um quarto na melhor taverna do lugar, objetivando descobrir através das conversas dos clientes quem estava vendendo o feijão. Ele sabia que o modo mais fácil de fazê-lo era através de perguntas diretas, mas também sabia que aquilo atrairia a atenção das pessoas para si, algo que não desejava.

Rumpelstiltskin passou os dois dias seguintes tentando escutar qualquer rumor sobre o feijão mágico, mas, para a sua surpresa, não ouviu absolutamente nada a respeito e começou a se perguntar se não era, de fato, um boato falso.

Então, no terceiro – e último – dia naquela cidade, enquanto encarava a bebida que pedira mais cedo, uma voz rude e desconhecida o chamou pelo nome e, quando ele se voltou para o dono dela, encarou um anão de aparência muito carrancuda.

“Rumpelstiltskin, a Blue Fairy solicita a sua presença. Ela tem assuntos a discutir com você,” disse o anão quando o feiticeiro perguntou o que ele queria.

“Não,” disse Rumpelstiltskin sem sequer pensar no assunto. Eu não tenho tempo para lidar com aquela mariposa azul. “Diga a ela que eu não estou disposto a barganhar com ela no momento, independentemente do que ela quer.”

“Ela achou que você diria isso,” retrucou o anão, com um sorriso irônico. “Mandou que eu falasse que ela encontrou um portal seguro para mundos sem magia.”

Rumpelstiltskin encarou o anão por alguns segundos, tentando determinar se ele dizia a verdade. Seus instintos diziam que sim, ele estava, mas também lhe diziam que aquele encontro não terminaria da melhor maneira para ele.

“Onde ela está, anão?” Eu sou capaz de lidar com anões e mesmo fadas se eles tentarem me enganar!

“Ela virá até você quando você a chamar usando a maneira usual,” disse o anão com impaciência. “Você sabe, desejando a presença dela.”

Rumpelstiltskin assentiu e se levantou, colocando uma moeda de ouro sobre a mesa para recompensar o anão pela informação. Antes de se encaminhar até a porta, entretanto, ele encarou o anão nos olhos.

“Se você estiver mentindo, anão, o preço será muito superior a isso,” disse por entre os dentes e deu as costas para o outro, saindo da taverna sem olhar para trás.

Rumpelstiltskin retornou ao seu quarto, onde se sentou na única cadeira do lugar e desejou a presença da fada – ele já fizera aquilo algumas vezes e nunca cessava de achar um modo um tanto estúpido de ser convocado. O feiticeiro não confiava na Blue Fairy, mas sabia que era ainda mais provável que ela tivesse o portal do que um mercador qualquer.

Repentinamente, uma luz azul ofuscou todo o quarto e, quando o feiticeiro deu por si, a Blue Fairy se encontrava ao seu lado em sua forma mais diminuída.

“Já me perguntava se você havia desistido, Rumpelstiltskin,” ela disse, com um sorriso.

“Não descansarei até que Belle e Gaël estejam em segurança no Mundo Sem Magia,” disse o feiticeiro com agressividade. “O anão disse que você tem um portal, espero que vocês não tenham me feito perder tempo.”

A Blue Fairy sorriu, encarando Rumpelstiltskin como uma pessoa idosa encara uma criança, o que o irritou profundamente. Ele permaneceu em silêncio, entretanto, esperando que a fada o respondesse.

“Um armário feito com a última arvora encantada desse mundo transportará a filha de Snow White e James que você previu que quebrará a maldição,” disse a fada, e seu rosto ficou repentinamente sério. “Seu filho deverá ir também dessa maneira para que fique longe da influência de Regina.”

“E em relação à Belle? Eu não posso permitir que a usem contra mim, fada! Ela deve ficar em segurança, não pode ser amaldiçoada,” respondeu Rumpelstiltskin, prontamente. Belle já sofreu muito por minha culpa, ela deve ficar em segurança com nosso filho, de modo que possam proteger um ao outro.

“Eles já o estão fazendo, Rumpelstiltskin,” disse a fada, com severidade. “Enquanto você viaja pelo mundo procurando por ela, o seu filho está com o avô, protegido de seus inimigos, sim, mas incapaz de compreender a magia que cresce todo dia dentro dele. Gwenaël já é um perigo para si mesmo.”

“Meu filho ainda não possui dois anos de idade,” disse Rumpelstiltskin, com azedume, o feiticeiro definitivamente não gostava do tom que a fada usava, como se ele fosse uma criança. “A magia nunca desperta tão cedo.”

“E você acredita mesmo que o filho do último Senhor das Trevas, bisneto de uma fada e produto do amor verdadeiro realmente se adapta a uma regra como essa?” Disse a Blue Fairy com certa ironia.

Rumpelstiltskin, entretanto, pela primeira vez em séculos não se importou com o tom da fada. Ele a encarou embasbacado, tentando entender exatamente o sentido do que ela dissera a respeito da bisavó de seu filho. Que bisavó?

“Você deve ensiná-lo o mais rápido possível, Belle não desejaria que as coisas ocorressem de outra maneira,” disse a fada, balançando negativamente a cabeça. “Quando chegar o momento da maldição, eu irei até você.”

Então, em um clarão de luz azul, a fada desapareceu, deixando um Rumpelstiltskin um tanto confuso.

_______

* "Enquanto eu espero o momento/Do meu sonho ganhar vida/Sempre fora da vista/Mas nunca fora da mente/E sob a lua minguante/Ainda assim eu espero por você/Sozinho contra a luz/Solidão sou eu" (Música: My Selene – Sonata Arctica)

Notas finais
Mil desculpas pela demora! Sei que esse capítulo ficou menor do que o habitual, mas prometo não fazer disso um hábito, é só que eu não consegui colocar a história do Moe em três partes. De todo modo, aí está a história. Quem está se perguntando sobre a Belle, não se preocupe, essa pergunta será respondida em primeira mão e é por esse motivo que os flashbacks são não-lineares! O Moe acordar da maldição é uma coisa que não estava nos meus planos, mas eu gostei quando a ideia me veio e mantive porque achei simbólico (já que a primeira parte começou com o Gold acordando), ainda não estou certa do que vou fazer com isso, entretanto. Enfim. Espero que tenham gostado. Não deixem de comentar dizendo o que acharam, críticas e sugestões sempre muito bem vindas!! Obrigada por lerem! :)