Catch Me, If You Can
5 Sozinho
–Ah, é melhor você descansar... Teve um dia difícil e... – comecei tropeçando nas palavras, ele parecia uma figura de autoridade.
– É você quem está todo remendado, você teve um dia difícil. – ele riu uma risada de verdade, não as maliciosas que ele dera até agora. Sorri de canto. – Eu só estou um pouco cansado. Você deveria agradecer por aqueles caras apenas lhe quebrarem um pouco. Companheiros meus já morreram.
– Não lhe direi nenhum sinto muito vazio, por que sei que na verdade isso não ajuda. – fite os seus olhos azuis, ele sorriu de canto, de uma maneira convencida.
– Boa resposta pirralho. – disse ele tirando um maço de cigarros do bolso, e acendeu um. – Não se importa não é? – indagou soltando a fumaça.
– Não, eu não me importo, sua casa suas regras. – disse prontamente, na verdade eu me importo muito, mas não irei protestar.
– Você é realmente bem educado. – disse ele rindo, não entendia aquele cara. Por mais que estivesse cansado ainda conseguia rir. – Quando eu era adolescente também era assim. – ele suspirou como se estivesse tendo más lembranças. – Meu pai era um otário afinal.
– Eu nem tenho pai. – eu disse, nem mesmo mãe. Fui criado em um orfanato até Thalia me encontrar. Foi difícil, mas eu nunca ousei reclamar, sempre esforcei para não atrapalhar as pessoas. – Nem me lembro como é minha mãe.
– Hum, eu não lhe direi um sinto muito vazio. – eu sorri, ele não era uma pessoa ruíam afinal de contas. – Bem, vem que vou lhe mostrar seu quarto. – disse ao se levantar e alongar os braços. Que eram muito bem definidos, e ficava amostra na regata branca.
Ia demorar bastante até que eu pudesse alongar os braços novamente. O mais difícil foi tranqüilizar Thalia, ela já tinha ódio mortal por Piper, agora deve querer matá-la. Ela concordou que não iria vir para cá, a certifiquei de que estava bem. A essa altura ela estaria no cinema com minha mãe, parece que a loira nem se lembrava de mim, apenas ficou feliz em ver minha irmã, estranhou Luke. Sorri, queria poder vê-la, pelo menos uma vez. Por que talvez eu não sobrevivesse.
Meu suposto quarto parecia mais um quarto de hotel caro, era tão bem decorado, que eu me sentia mais caro só de estar nele. A cama era de casal, com lençóis vermelhos dourados e brancos, pilastras sustentavam os pés em forma de patas de leões. As paredes eram brancas e decoradas com quadros abstratos nos mesmas cores da cama. Haviam duas portas do lado esquerdo dele, as duas da mesma cor, chutei que era um banheiro ou um closet ou os dois. Havia também uma escrivaninha de madeira negra em um canto, assim como uma TV tela plana que pendia na parede de frente a cama. Isso tudo sem falar na outra pele de leão que servia de tapete no quarto, aquela já ficava melhor ali, deixava o lugar mais rústico.
– Eu geralmente uso esse quarto para quando meu pai me visita, mas sabe, ele não me visita muito. – o moreno riu tragando o cigarro, eu não suportava o cheiro da fumaça. – Fui eu quem decorou gostou?
– Ah, sim, ficou bem legal. – dei mais uma olhando e o vi se escorar no batente. – Vou ajeitar tudo sozinho, mas muito obrigado por tudo.
– Qualquer coisa chame, é Jason não é? – indagou ele sorrindo amarelo com o cigarro entre os dedos. Assenti. – Bem estou na cozinha fazendo nossos sanduíches, até.
Suspirei e me joguei na cama, eu sim estava cansado, apesar de não ter feito muito esforço, mesmo depois de um dia meu corpo ainda doía muito. E por incrível que pareça eu não quero me vingar de Piper. Estava tudo bem, eu só precisava de um banho, devia estar fedido, não tomo um desde que sai do hospital. Levantei-me e olhei para o braço engessado, como diabos se toma banho com isso? Bufei e fui até uma das portas, não era a da direita, esta era um closet como suspeitei. Tentei a outra e o banheiro era tão bonito quanto o quarto, havia nele uma banheira de hidromassagem, que era perfeita para meu braço. E sabe não entendo como um policial pode ter tanto dinheiro. Mesmo que ganhe bem não é tanto assim.
O lugar era de azulejos vermelhos e brancos, parecia um tabuleiro de xadrez que desaparecia à medida que se aproximava do teto. Um espelho circular e um trono ao invés de uma privada e sorri sozinho, vai ser uma boa estadia. Suspirei e sai dali e também do quarto indo em direção a cozinha onde ele preparava... Ele comia um sanduíche, me indicou o outro com a cabeça, sorri e me sentei na bancada para comer com ele. Os olhos azuis elétricos me fitavam, parecia um tanto interessados, era desconfortável até.
– Ah, será que eu poderia tomar um banho? – indaguei chamando a atenção dele, que assentiu sorrindo. – Será que não teria algum plástico para colocar no gesso?
– Tenho sim, eu te ajudo quando você terminar. – disse ele que já terminara o seu e agora lavava algumas coisas. – Você ainda vai à faculdade? – indagou ele ainda de costas para mim.
– Vou, mas o médico disse no mínimo uma semana para a dor muscular passar. – disse dando mais uma mordida no sanduíche, a regata era bem pequena para ele, então eu podia ver alguns traços de uma tatuagem eu deveria cobrir parte de suas costas. – Qual o desenho?
– Como?
– Você tem uma tatuagem nas costas não é? – indaguei o vendo parar o que estava fazendo. – Perguntei qual o desenho.
– Ah, isso. É uma tribal, um leão. – ele sorriu por cima do ombro. – Antes que pergunte eu gosto sim, gosto muito de leões.
– Da pra ver. – afirmei e ele riu, eu não tinha um animal preferido, talvez o falcão. Sim, gosto de falcões. — Acho que tatuaria um falcão. – murmurei.
– O que você... Ah sim, enfaixar seu braço. – ele disse enquanto secava as mãos em uma pano – Tem uma banheira lá, por só não fica com o braço do lado de fora?
– Melhor prevenir, vai que me esqueço do gesso. – ele sorriu enquanto colocava o plástico no gesso, era um tanto mais alto que eu, e a cores dos olhos era idênticas aos meus. – Por que Hércules?
Ele deu uma risada sem parar o que estava fazendo.
– Eu não sei, meu pai era um idiota. – falou ao sair de perto de mim e pegar fita adesiva em uma gaveta. – Eu até gosto de ser Hércules, é mais interessante que...
– Nomes comuns? – indaguei rindo após. – Tem razão, ah e o garoto, o ruivo...
– Foi pra casa, eu acho. – disse ele e olhou para a sala. – Não ligue pra ele, as vezes aparece sem avisar.
– Ele é seu... – comecei com receio em perguntar.
– Namorado? – ele riu. – Não, diria mais um amante, mas não temos nada serio.
– Legal. – ele riu mais enquanto eu ficava na dúvida entre rir junto ou pedir perdão.
– Não se preocupe, ainda sou homem. – falou mais para si mesmo, ele terminou o que fazia no meu braço engessado. – E você está engessado por ser heterossexual não é?
Revirei os olhos.
– Talvez.
– Não é nem talvez, cara mulher só arranja problema. – disse ele ao encostar a pia apoiado com as mãos, exibindo o peito musculoso escondido na regata. – Já quase morri por algumas...
“Ai decidiu que homens não davam problema?” indaguei mentalmente me levantando.
– Vou pro banho, muito obrigado por tudo Hércules... Acho que nunca vou me acostumar com esse nome. – ele sorriu amarelo e recebeu o meu em troca. – Você vai dormir?
– Vou sim, boa noite. – respondeu ele rapidamente.
– Boa noite.
O banho foi relaxante molhei os cabelos, na expectativa de tirar aquele cheiro de hospital. Eu odiava hospitais, tipo muito. Eu não havia notado antes, mas havia um espelho no teto, logo acima da banheira. Me encarei, pude ver as partes roxas em meu peito e pernas, também no braço. Meu rosto não estava muito melhor, ao menos só tinha alguns cortes e um olho roxo. “Ele está meio machucado não é?” A frase do ruivo voltou a minha mente. Praguejei. Maldita seja Piper, tomara que arda no inferno, desgraçada. Passei a mão sem o gesso pelos cabelos encharcados, precisava dormir.
Na manha seguinte acordei com os olhos azuis me encarando, ele estava de pé ao lado da cama. Eu não me assustei... Tanto.
– Ah, você vai pro colégio ou algo assim? – ela indagou. – Por que me pediram para te levar e...
– Eu até iria, mas... Eu estou meio quebrado. – sorri ao me levantar parcialmente.
– Ah, okay, vou preparar o café da manha, vou sair hoje, meu turno começa às 15h da tarde, então se precisar de algo me ligue. Então espero que não se importe com minha comida. – disse e desapareceu porta afora.
Perguntava-me por quanto tempo eu teria de ficar ali. Ele saiu depois do café e fiquei na casa dele, sozinho, e sem absolutamente nada para fazer.
A casa era grande, eu não era a pessoa mais santa do mundo, e pensando bem isso seria apenas um reconhecimento de território. Sim, exatamente isso. Mesmo com um braço engessado eu ainda conseguia bisbilhotar. Segui pelo corredor, havia algumas portas, duas das quais eu já sabia o destino. Entrei na quarta, era um quarto muito pequeno, e vazio, a não ser por um arquivo no canto dele. Decide não olhar o que era, ou o que poderia haver ali.
Mais duas portas, uma no final do corredor e a outra na parede esquerda. Segui direto para a no final do corredor, parecia bem mais interessante. E bem, eu estava errado, não era nada impressionante, chato até. A porta dava para um quintal, o jardim era até bonito e bem cuidado, mas nada de mais. Olhei para os lados e vi um balanço estofado. Era confortável, mas rangia muito e me dava certo medo de que eu o quebrasse.
Não estava nem um pouco a fim de ficar em casa mofando, e nem minha casa era. Se bem que eu mal ficava na minha própria casa, colégio. Já seriam dois dias, que raios! Mesmo que eu estivesse um pouco dolorido ainda poderia pegar um ônibus, talvez até pudesse escrever com o braço engessado. Eu havia quebrado o braço com sete anos, mas nem mesmo me lembro como é. Provavelmente não seria um problema escrever, mas estava um pouco tarde, os ônibus talvez estivessem cheios. Continuei olhando para o jardim, bem no canto pude perceber um cercado com grades baixas.
Ele não disse que tinha cachorro, me levantei e fui até lá.
Na verdade, não havia nenhum cachorro, mas havia uma corrente e uma casinha de cachorro, até mesmo tigelas. Talvez o cachorro estivesse no pet shop, ou até mesmo na casa de outra pessoa. Na casinha havia seu nome escrito, Scar. Legal. Voltei para minha cadeira-balanço, fiquei lá por algum tempo, muito tempo. Não costumo ficar tão parado, geralmente preciso fazer algo, mas acabei por dormir naquele balanço. Só acordando poucas horas depois, quando o sol incomodava meus olhos. Por causa do gesso eu não estava com meu relógio de pulso, então não fazia idéia do horário.
A posição que dormi não era muito boa, minha coluna doía um pouco, voltei para dentro da casa, ainda estava vazia, e escura. Queria sair, mas não tinha para onde ir, não tinha ninguém ali e nada para fazer. Na estante da televisão havia algumas fotografias, na maior parte aparecia ele. E algumas mulheres, alguns garotos, e até um cachorro, um Rottweiler enorme. Nunca tive um cachorro, me pergunto onde estaria ele, ou onde estaria Hércules e por que estou esperando aqui, fazendo nada. Bufei.
Nunca estive tão entediado, queria poder ao menos sair. Tudo isso por causa de Piper, mas que merda. Como diabos eu fui namorar aquela garota mesmo? Nem mesmo me lembro. Se não me engano ela era amiga de Leo e... Nossa, não me lembro disso, estranho.
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