Catarse.
3 Uma hora precisamos parar.
Retirou os óculos de leitura e apertou a junção entre os olhos. Com um suspiro cansado constatou que odiava aquele emprego.
Os prazos curtos, a pressão e a ausência de horários pré definidos, o estava deixando louco. Passou a mão no rosto de maneira nervosa e olhou para o monitor verificando na barra do Word o número de páginas que ainda precisava ler, aproximadamente trezentos e oitenta e sete.
Odiava aquele emprego!
Mas a vida adulta tinha dessas coisas e ele precisava pagar as contas, além do financiamento da casa que dividia com o namorado.
Olhou o porta retrato em cima da mesa e sorriu.
Era feliz naquele relacionamento e finalmente tinha seu próprio lar, então, aguentaria mais um pouco naquele inferno de planilhas e textos enfadonhos.
Por hora, um café poderia ajudar a recobrar seu humor. Desligou o monitor e pegou uma caneca de porcelana em sua gaveta.
Saiu da sala apagando a luz e fechando a porta, encaminhou-se até a copa. Cumprimentou os colegas que encontrou pela caminho e constatou que já passavam das onze da manhã. Encheu a caneca quase até a borda. Aspirou o aroma do café, que mesmo não sendo da melhor qualidade, era suficiente para trazer de volta um pouco da disposição que ia perdendo no decorrer do dia. Mantinha-se entretido sorvendo aos poucos a bebida e pensando na forma mais eficaz de terminar aquele trabalho, sem a necessidade de hora extra, quando sentiu uma mão em sua cintura e alguém se recostando atrás de si.
Virou confuso e só teve tempo de vislumbrar levemente um par de olhos que podia jurar serem vermelhos, antes de ter seus lábios capturados. Permaneceu estático por breves segundos, tentando organizar os pensamentos e entender o que acontecia, quando sentiu uma mordida em seu lábio inferior e entregou-se ao beijo.
Colocou uma das mãos no rosto másculo e muitas vezes carrancudo do homem à sua frente, entreabriu os lábios e deu espaço a língua ávida que se esfregava a sua. Suspirou ao sentir um apertão em seu traseiro.
Ainda segurava a caneca de café, quando percebeu que estava sendo prensado na pia e que estava de frente para a porta da copa. Qualquer pessoa poderia passar ali, e tal constatação o deixou preocupado e excitado. Racionalmente sabia que deveria parar aquele beijo, mas não era sensato o suficiente para deixar de sentir aquele corpo musculoso de encontro ao seu. Já estava quase derramando a o líquido da caneca quando ouviu o som de passos, vozes e empurrou o homem que sorria maliciosamente enquanto passava o dedo indicador pelos lábios.
— Bom dia, Shura! — Mu analisou o amigo — Aconteceu alguma coisa? — Perguntou preocupado.
— Não, nada. Por quê?
— Você está vermelho… e suado… está com febre? — Colocou uma das mãos na testa de Shura.
— Não, Mu. Só um pouco cansado. O ar do minha sala também não está muito bom… — Falou sem jeito afastando delicadamente a mão do colega.
— Pois aproveita que esse carcamano está aqui e manda ele pedir pra equipe dele arrumar isso. — Mu falou sorrindo apontando para Máscara da Morte.
Recebeu em troca um gesto obsceno e um sorriso de escárnio. Mu saiu rindo do local após encher um copo descartável de café e pegar alguns biscoitos que ficavam a disposição dos funcionários
Shura se acalmou, bebendo um gole da bebida em sua caneca, percebendo tarde demais que ela já estava frio. Fez uma careta e ouviu a risada de Máscara da Morte que o olhava encostado de braços cruzados no batente da porta. Esvaziou o caneca na pia, falando em seguida:
— Uma hora a gente precisa parar com isso. — O Espanhol falou sério e ligeiramente mal humorado enchendo novamente a caneca com café.
— Precisamos? — Aproximou-se de Shura. — Quer dizer que vou ter que parar de tomar meu café? — Olhou sugestivo para os lábios do outro.
— Quer dizer que você não pode me beijar no trabalho. E se alguém pega a gente? — Falou ligeiramente irritado.
— Entendi.
Máscara pegou um copo descartável e encheu de café. Deu uma última olhada em Shura e sorriu passando a língua nos lábios.
— O café tem um gosto muito melhor quando vem acompanhado de você, Espanhol.
Shura mordeu os lábios para conter um comentário e ouviu a risada debochada do colega enquanto ele se afastava. Passou a mão no rosto e bebeu o conteúdo da caneca em um único gole.
Maldito Italiano gostoso!
Respirou fundo e voltou para sua sala. Não levantou da cadeira durante o restante do dia e quando findou o expediente deu uma olhada discreta em direção a sala de Máscara da Morte, ele não estava lá. Conteve o desânimo que sentiu e pegando o elevador desceu para a entrada do prédio.
Educadamente se despediu do porteiro e já estava virando a esquina quando sentiu seu braço ser puxado e se viu enlaçado pelo Italiano com pinta de mafioso.
— Máscara o que?
— Você disse que não posso te beijar na empresa, não falou nada sobre a rua. — Sorriu de lado.
Shura balançou a cabeça negativamente e passando os braços ao redor do pescoço de dele iniciou o beijo. Eles precisavam parar com aquilo, ele só não sabia dizer quando.
Continua.
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