Catarse.
13 O último suspiro antes do mergulho.
No geral demorava um pouco mais de uma hora no deslocamento do trabalho para casa, mas naquele dia o universo parecia ter conspirado a seu favor e em quarenta minutos já estava na varanda de casa. Assim que abriu a porta notou as luzes acesas e com isso registrou a presença do esposo.
Respirou fundo tirando os sapatos e deixando-os ao lado da porta, colocou a mochila em cima de um dos sofás da sala e seguiu em direção a cozinha, onde sabia que encontraria o Rubio.
Ao chegar ao cômodo, Shaka jazia sentado em um dos bancos altos que margeavam a bancada da cozinha. Os longos fios loiros presos em um rabo de cavalo alto e as elegantes roupas de linho que ele costumava usar. Suspirou, buscando forças no sorriso luminoso que tinha visto no rosto de Ângelo quando o ouviu dizer que: Não o deixaria esperando mais tempo.
— Boa noite Rubio. — Cumprimentou aproximando-se de Shaka. Tencionou dar um beijo no topo da cabeça do esposo, mas deteve-se. Por algum motivo aquele movimento não lhe parecia mais correto.
— Boa noite… — Shaka apertou levemente os olhos mediante a atitude de Shura. Mas manteve-se em silêncio. Não estava em condições de exigir manifestações de afeto. — Aceita um pouco de chá?
— Não, obrigado. Vou pegar água mesmo. — Caminhou até o bebedouro da cozinha enchendo um copo e sentando-se ao lado do esposo.
O loiro assistiu aos movimentos de Shura com nítido interesse, como se memorizasse cada um deles. Em contrapartida, o Espanhol apresentava um semblante mais fechado do que seu habitual e não se furtou de analisar o rosto de Shaka milimetricamente, como se tentasse captar a menor das expressões. Nenhum dos dois disse nada por um tempo que pareceu interminável. O silêncio, algo que nunca os incomodou, pairou no ar de uma forma estranha, atípica, mas ao mesmo tempo trazendo à tona aquilo que suspeitavam.
Shaka bebeu o último gole do chá e Shura de sua água, sorriram discretamente e suspiraram ao mesmo tempo.
O último suspiro antes do mergulho.
A sensação de que algo estava se orquestrando entre eles era palpável, todavia, não sabiam muito bem quem daria o primeiro passo. Sendo assim, depois de abrir e fechar a boca umas duas vezes Shura foi o primeiro a falar.
— Shaka… — Suspirou. — Realmente não sei a melhor maneira de iniciar essa conversa.
— No geral, eu diria que do começo, mas esse não me parece o melhor momento para que eu comece a empreender uma aura piadista. — Colocou a xícara sobre a bancada. — De todo modo, parece que no meio das nossas desventuras, ambos decidimos ter uma conversa no mesmo dia. Sem combinar, sem programar…
— Talvez ainda exista um pouco da nossa conexão. — Shura falou dando um sorriso triste.
Percebeu que aparentemente não estava sozinho, ao menos não naquele momento, não na constatação de que algo estava errado entre eles, mas sabia que ficaria no instante em que contasse ao Rubio que além de estar apaixonado por outro homem, andava dormindo com ele por pelo menos três meses. Sinceramente preferia omitir essa parte, mas estava cansado de mentir, enganar, sempre era tempo para reparar seus erros, ou ao menos mitigar o que já havia feito.
— Ela ainda existe em muitos aspectos Shura. Acho que provamos isso no casamento do Aiolos e depois dele. — O Espanhol balançou a cabeça de forma afirmativa e como se tomasse fôlego continuou.
— Você... foi feliz? — Shura perguntou com a voz entrecortada.
— Não acredito em ser feliz, afinal felicidade é algo variável. Oscila de acordo com a ocasião, o tempo… Enfim, sazonal, mas sem querer ser um pseudo filósofo chato, sim eu tive uma grande cota de felicidade com você Shura. Quanto a isso não existe dúvida. Mas, tenho a sensação que em algum momento nos perdemos.
Shaka analisou o rosto do ainda esposo e o que pôde ler ali o deixou apreensivo. Tinha ciência que a situação deles não era das melhores, ambos inconscientemente, acabaram movimentando-se de maneira a criar um distanciamento entre eles.
Mesmo que Shura continuasse sendo compreensivo e atencioso, sentia um quê de obrigação em suas atitudes. E de sua parte, começou a questionar todo pequeno sinal dissonante que conseguia captar nas ações do Espanhol.
— Sim… E acredito que eu fui o culpado por isso. Rubio… Shaka… — Começou a estalar os dedos. — Realmente não existe uma maneira fácil ou branda de dizer isso...
— Shura… Não acho que devemos procurar culpados. — Shaka o interrompeu. — Nada tão cristão. Apenas vamos...
— Eu cometi um erro. — Suspirou fechando brevemente os olhos.
— E quem não comete? — Shaka perguntou disfarçando a insegurança.
Por algum motivo as atitudes de Shura lhe causavam estranheza. Estava claro que pretendiam terminar aquele relacionamento. Sentia-se desconfortável por ter compreendido tarde demais que gostava de Camus. Inclusive, cogitou manter-se afastado do ruivo após o término para que sua mente não o julgasse tão seriamente. Todavia, alguma coisa parecia incomodar o Espanhol. Será? — Shaka pensou arregalando os olhos. — Será que ele percebeu? — Engoliu em seco.
— Em certa medida você tem razão… — Shura murmurou para si mesmo retomando o tom mais alto em seguida. — Só que isso não muda o fato de que eu enganei nós dois. Eu jamais deveria ter te chamado pra morar comigo…
O pesar na voz de Shura era tanto que o loiro sentia que poderia capturar o sentimento caso estendesse as mãos em sua direção e mesmo assim, por algum motivo que não sabia precisar, tinha a clara impressão que jamais sentiria vontade de tocar aquele homem.
— Arrependido da impulsividade? — Empinou o nariz assim que pronunciou a frase. Mesmo que concordasse com aquela afirmação, a angústia que notava na voz de Shura o afetava de sobremaneira.
— Não por isso. — Passou as mãos nervosamente pelos fios escuros — Não me arrependeria se a decisão tivesse sido tomada pelos motivos certos. Eu queria a sua companhia para me ajudar a manter minhas certezas, mesmo que no fundo eu soubesse que já estava tudo perdido. — Suspirou em seguida olhando aflito para Shaka.
— Shura, me considero um homem muito inteligente, como você bem sabe, sendo assim, interpretação de texto é algo no qual sou bom, mas estou com certa dificuldade de compreender todas as entrelinhas do seu discurso, mesmo que parte dele pareça com algo que eu já estava esperando. Acredito que ambos concordamos que algo se perdeu em nossa relação e que o ideal seria… terminarmos. Mas… parece que você tem algo a mais para dizer e… — Franziu a testa ao perceber que estava perdido nas próprias palavras. — O que afinal de contas você quer me dizer? Seja direto.
Por mais que mantivesse o rosto calmo e a voz serena de sempre, Shura sabia que o Rubio estava abalado. Era bom em ler os sinais que vinham daquele homem. Apertou a junção entre os olhos em claro sinal de cansaço, encarou o par de olhos ciano que tanto o encantaram em momento anterior, e que ainda lhe causavam admiração, nada mudava o fato daquele homem ser irritantemente bonito. E antes que ele dissesse algo, formulou a frase que mesclava culpa e alívio.
— Eu traí você.
Continua.
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