Catarse.

5 Nós não somos um casal.


Desviou o olhar tentando prestar atenção a mais uma das lorotas de Seiya. O jovem estagiário adorava contar vantagem. Shura atribuía isso a juventude e necessidade de auto afirmação. Quem nunca foi jovem? Pensava condescendente com as asneiras do garoto. Porém, naquele momento, qualquer mentira contada pelo rapaz era melhor do que sustentar os olhares de Máscara da Morte. Conseguia sentir o peso daqueles olhos avermelhados em sua nuca e não queria lidar com ele. Já havia decretado o fim daquele… caso, bom não sabia ao certo como chamar. Na medida em que era possível dentro do ambiente de trabalho, estava evitando Mu e Aldebaran desde o dia da última festividade. As coisas haviam crescido de tal forma, que já não podia culpar apenas o Italiano pela insensatez das atitudes. Ao bem da verdade, nunca pôde, mas sua consciência ficava mais tranquila quando assim procedia. Ouviu o barulho característico de mensagem chegando e olhou o celular de relance, enquanto Seiya descrevia as curvas da garota com quem andava saindo.

Outra mensagem dele. Suspirou e olhou na direção do homem que parecia ter entrado em sua vida com o único objetivo de bagunçar tudo. Não respondeu a mensagem, sequer visualizou. Não pretendia recomeçar.

— Seiya… depois você termina de me contar essa história. Preciso terminar de formatar o EIA ainda hoje.

— Caralho, Shura, você tá fudido! — O garoto gargalhou dando um tapinha no ombro do mais velho.

Caminhava para sua sala quando foi abordado por uma pálida June.

— Shura, senhor Shion está te chamando na sala dele.

— Problema?

— Parece que sim…

Fez o caminho até a sala do gerente, respirou fundo e antes de entrar passou a mão pelos cabelos e ajeitou a roupa. Deu um toque na porta, aguardou a afirmativa e entrou.

— Boa tarde, Shion.

— Não tão boa quanto eu gostaria… a proposta foi extraviada. — Falou sem rodeios.

Shura permanecia de pé, em frente a mesa, e franziu o cenho.

— Impossível. A entrega foi feita pelo motoboy da empresa.

— Exato! E de alguma forma eles perderem tudo que o garoto entregou e agora estão alegando que não cumprimos o prazo.

Largou-se na cadeira que ficava em frente a mesa de Shion e seus ombros caíram. Era a própria face da derrota.

— Mas… como pode isso? Eu tive tanto trabalho… — Sua voz em um fio.

— Eu sei… — Shion apertou as têmporas com dois dedos, como se fizesse uma massagem. — Mas nem tudo está perdido. Consegui um adiantamento de prazo.

— Para quando? — Perguntou inseguro.

— Amanhã.

— Shion… São seiscentas páginas de impressão, mais encadernação, capa dos CDs, documentação, proposta financeira… Não consigo fazer tudo isso até amanhã junto com a formatação do EIA… — Olhou para o relógio de pulso — Já são 19:30.

— Vou passar o EIA para o Mu, já o comuniquei. Os arquivos já estão prontos na sua máquina, você só vai precisar montar tudo de novo.

— Mesmo assim… o senhor sabe que a impressora e os computadores vivem dando defeito. Mesmo que eu fique à noite toda aqui, se alguma coisa der errado, vai ser em vão.

— Por isso que vou passar a noite contigo, Espanhol.

Shura sentiu os pêlos do corpo eriçarem ao ouvir a voz de Máscara da Morte e sentir a ambiguidade da frase. Shion pareceu ignorar seu rosto surpreso e o sorriso malicioso do Italiano.

— Exatamente. Ângelo vai ficar aqui com você. Ele vai te ajudar no que for necessário e amanhã logo cedo, vocês pegam o carro da empresa e entregam tudo. O prazo é até às oito da manhã.

Shura ainda ficou alguns segundos olhando para o chefe e organizando o que tinha ouvido. Ele não tem noção da trabalheira que isso vai dar… eu odeio esse trabalho! Pensava em um misto de desespero e irritação, quando sentiu uma mão em seu ombro e olhou pra cima, engolindo seco ao mirar os olhos que vinha evitando há alguns dias.

— Vamos Espanhol! Temos trabalho a fazer.

Balançou a cabeça positivamente e como se ao exemplo de Atlas, sustentasse o céu nas costas, levantou-se devagar.

— Ângelo! — Shion chamou.

— Já disse que não gosto que me chamem assim. Custa o senhor me chamar de Máscara da Morte?

— Custa. Isso aqui é uma empresa de engenharia ambiental, não a máfia italiana. Inclusive sua Nonna ficaria muito chateada por você não gostar do nome que ela escolheu.

— Tá… tá… diga logo.

Máscara da Morte corou levemente o que não passou despercebido por Shura que sorriu ao ver o rosto sempre carrancudo e malicioso completamente desconcertado.

— Nós precisamos desse projeto. Ouviu?

— Entendi. Não se preocupe.

Caminharam calados até a sala de um angustiado Shura que sem saber ao certo qual seria a reação do outro homem, estalava os dedos das mãos em nítido sinal de nervosismo. Entraram na sala e a porta parecia ter se tornado algum tipo de obra arte, visto que passou a ser objeto de observação do Espanhol por breves segundos.

— Vou verificar os níveis dos cartuchos. Acho melhor utilizarmos as três máquinas que você tem aqui. Assim cada uma imprime um dos relatórios. A documentação a June já está providenciando. — Máscara havia ligado uma das impressoras e mexia no painel.

— Concordo… Vou mandar uma mensagem pra casa avisando que vou ter que ficar aqui hoje e já começo a te ajudar .

— Uhrum… Faça isso.

— Você já avisou? — Questionou falhando em simular desinteresse.

— Eu não sou casado. Não preciso dar esse tipo de satisfação. Não tem ninguém me esperando em casa.

— Mas tem alguém esperando por você.

— Não em casa.

— Mas…

— Espanhol… — Olhou irritado para Shura — Faz logo a sua ligação, manda sua mensagem, ou seja lá o que você vai fazer e venha me ajudar. Você ouviu o Shion, precisamos desse projeto.

— Eu ouvi, Ângelo. — Riu debochado. — Só estava conversando.

— Não pareceu que você queria conversar, mas sim começar uma DR. Admite logo que você sente a minha falta e para com essa palhaçada.

— Nós não somos um casal para ter uma DR. Eu só queria…

— Você queria que eu sentasse no seu pau, isso que você queria. Agora faz logo a porra da sua ligação.

Contrariado Shura saiu da sala e ligou para o namorado. Explicou a situação e desejou que ele se cuidasse. Quando entrou na sala encontrou o Italiano inclinado, apoiado na bancada dos computadores mexendo em uma das máquinas. Avaliou o corpo musculoso metido naquelas roupas sociais, a bunda redonda que se destacava mediante a posição, o rosto sério e másculo, os cabelos sempre em desalinho e os olhos que jamais conseguiria definir a cor com precisão. Suspirou.

Era mesmo um fraco!

Caminhou até o homem, se encaixando atrás dele, uma mão de cada lado dos quadris. Sentiu o outro se inclinar mais, deliberadamente se esfregando nele, virando o rosto e brindando Shura com o sorriso safado que ele tanto apreciava.

— Você faz de propósito não é? — Questionou mordendo os lábios.

— Talvez sim… Talvez não…

— Vamos passar a noite aqui…

— Sim Espanhol…. você vai ver como o trabalho pode ser muito recompensador.

Máscara da Morte se endireitou enlaçando a cintura de Shura e o puxando para um beijo recheado de desejo e saudade. Mais uma vez se entregou, a culpa e desejo pautavam suas atitudes.

A sala ficava no final do corredor sem outras por perto, havia trancado a porta e sabia que não seriam incomodados por algum tempo. Gemeu em meio ao ósculo. Não somos um casal…

Foi o último pensamento lógico que teve antes de sentir as mãos de Máscara da Morte dentro de sua calça.


Continua.