Catarina de Lurton: Além do tempo.
4 Ele apenas pensava...
Cália, Montemor...
O povo ainda gritava.
—Afonso, do que eles estão falando? -Questionou Amália.
Afonso gostaria de saber a resposta, mas, pensava e pensava e nenhuma resposta aparecia. Ele sabia que Catarina tinha perdido, o médico tinha lhe dito, ele tinha visto o sangue. Sendo assim, como o povo ainda gritava vivas ao "herdeiro"?
Ele fez a única coisa que poderia fazer, gritou por Gregório, seu conselheiro.
—Descubra quem começou com tal asneira e me traga a pessoa aqui... -Ele olhou para Amália, segurou suas mãos. -Vamos entender o que está acontecendo, meu amor.
Amália assentiu.
Elixir, Canoth...
Após aquele encontro, Catarina e Eleonora tornaram-se boas amigos. A família da jovem mulher a recebeu muito bem e o seu parentesco com o rei de Canoth logo foi esclarecido. Ela era sua irmã. De acordo com a mulher, ela via poucas vezes o irmão.
Sua majestade era um homem serio, quando falava-se dele perto dos lordes e marqueses eles logo se calavam em respeito.
—Vivíamos tempos sombrios, meu falecido pai não sabia administrar o reino. Todo o dinheiro era extorquido para a burguesia.
As mulheres fofocavam sobre a beleza do rei. Até as casadas, pobres coitadas, não se aguentavam. Catarina até poderia ligar... Poderia, contudo, Heitor tomava toda a sua atenção. O pequeno menino já apresentava sinais da sua liderança. Catarina se divertia vendo-o mandar nos únicos amigos que tinha, os filhos de Eleonora e de algumas senhoras. As crianças faziam todas as suas vontades.
—Ele será um grande rei. -Disse Eleonora.
—Sim, será. -respondeu orgulhosa.
—Catarina. -Chamou uma voz irritante.
—Sim, Trila. -Respondeu irônica.
—Sua prole está machucando o meu Fernandinho.
—É mesmo? E o que a minha prole está fazendo? -perguntou irônica.
Catarina olhou. Heitor estava sentado em cima da barriga do menino.
—Eles estão brincando. -Tentou explicar, não queria magoar os sentimentos da mulher... Mentira, ela adoraria esculachar aquela mulher, contudo, as leis de boa maneira não permitiam.
—Isso não é brincadeira, o meu pobre Fernandinho está sendo hostilizado pela sua prole. Aquele menino precisa de educação! Que menino mal educado. -Acusou, descaradamente.
A paciência de Catarina sumiu.
Perigosamente, ela se aproximou da mulher, Eleonora se afastou um pouco.
—Meça as suas palavras quando for as pronunciar a respeito do meu filho.—Trila tentou dizer algo, mas se calou quando Catarina levantou o dedo. -Heitor tem a educação que o seu filho nunca terá. Heitor é mais do que o seu filho jamais será. Cuidado, você está falando do futuro rei de um grande e poderoso reino, não de um futuro fazendeiro.
Trila estava calada, ela não sabia o que dizer. Ela não sabia se podia dizer algo.
Catarina virou-se e chamou Heitor para ir com ela, estava na hora de voltar para casa. Quando a carruagem saiu da casa dos Viernes, não demorou muito para todas as outras saírem também. Trila até tentou falar mal de Catarina, mas a duquesa já tinha conquistado uma certa confiança.
—Você viu o que ela falou para aquela mulher? -Questionou Eleonora.
Seu marido, o duque Damien estava próximo a ela.
—Ela agiu corretamente, Trila não pode maldizer o futuro rei de Montemor. Sabe que considero a ascensão dessas pessoas um erro.
—Concordo com você, Damien. -Disse o homem, ele estava mais distante do casal.
—Concorda mesmo, irmão?
—Sim, a rainha fez bem em defender o pequeno príncipe. -Defendeu-a o rei.
—Vejo que você, meu irmão, tem muito apreço por Catarina. -A duquesa jogou verde.
—Acredito que ele apenas concorde com a sua atitude. -Disse Damien.
O rei manteve-se calado. Sim, Catarina tinha conseguido chamar a sua atenção.
Cália, Montemor...
Os dias passaram rapidamente, não foi difícil achar a mulher, ela falava abertamente para qualquer um sobre o herdeiro. Orgulhosa, sim. A alegria tinha tomado de conta de todos, a mera esperança de que o herdeiro de Montemor tivesse sobrevivido mantinha o povo controlado e esperançoso.
—Quem lhe contou isso? -Questionou Afonso.
—A serva da rainha. O herdeiro vive! Graças a ele.- Ela olhou para Amália, que estava ao lado de Afonso, com nojo. -Montemor te salvação e um herdeiro legitimo!
Amália engoliu em seco. Já doía o bastante lembrara da perda do seu filho, mas pensar que os próximos seriam hostilizados pelo população por sua causa, lhe causava ânsia. Afonso, por outro lado, se enfureceu com as palavras da mulher. Ele sabia o quanto proferir tais palavras feiram sua amada.
—Saia daqui. -Disse friamente.
A mulher se assustou, contudo, não demonstrou arrependimento. Referenciou e saiu.
—Não ligue para esses comentários, meu amor. -Disse Afonso. -Devem ser apenas injurias para manter o povo esperançoso. Nossos filhos que reinarão sobre Montemor.
Uma solitária lagrima desceu do rosto dela.
—Será mesmo, Afonso? Será que é uma injuria? Será que algum dia teremos algum filho?
—Tudo será resolvido. -Ele pensou em dizer algo que ela gostaria de ouvir, contudo, só uma coisa veio a sua cabeça. -Nunca mais veremos Catarina e não lidaremos com mais nada a respeito dela.
Amália abriu um sorriso e o abraçou. Afonso rezava para que fossem mesmo mentiras, pois, se não, o destilo não seria gentil com ele.
Assim que deixou os portões do castelo a mulher tratou em comentar o que passou lá.
—O rei está louco. -Disse um homem. -Rejeita seu próprio sangue por uma plebeia.
—Plebeia igual nos somos. -Disse uma das defensoras de Amália, a dona de uma taberna.
Algumas pessoas se viraram para ela.
—Você concordo com os atos do rei? -Perguntou Isis.
—O rei faz o necessário.
A moça se revoltou.
—Você acredita que acabar com a vida de um inocente seja necessário? Acredita que fazer com que a rainha fuja para proteger essa vida seja necessário? Seja justo? Sem querer maldizer o nosso rei, mas, ele não sabe o que é necessário a muito tempo.
—Sim, desde que nos deixou para sofrer a inconsequência de Rodolfo.
—Tudo isso foi por amor. -Tentou a mulher mais uma vez. -O mais puro amor.
—Puro? Você disse: Puro? Onde está a pureza? No sangue derramado? Na fome e sede? -Questionou Isis.
A mãe de Amália ouvia a discursão de longe. Ela mesma não sabia o que falar.
—Tudo isso foi causada por Catarina!
—Rainha Catarina! -Corrigiu-a um homem.
—A rainha pode ser a responsável por algo, contudo, o mal que nos foi causado já foi perdoado e pago. Vimos a dor que ela passou, vimos seu desespero. Sua inocência em crer que o amor deveria ser sobreposto.
—A Isis tem razão. Tudo começou com as más escolhas do rei.
Constância tentava negar, mas algo a dizia que sim. Eles tinham razão, ela só pedia aos céus que Amália não fosse responsável pela morte de nenhum inocente.
O povo se agitava cada vez mais, Afonso podia não perceber, mas Catarina conquistava cada vez mais o apreso deles. O rei estava mais preocupado em cuidar de Amália e consertar a contabilidade do reino. Novos acordos, a mina funcionando. Parecia ser o bastante para ele. Deveria ser.
Entretanto, quando a noite chegava ele não conseguia parar de pensar no que o povo comentava. Seu filho. Ou, como o povo falava, o herdeiro de Montemor. Ele percebia que ninguém falava que ele era o pai da tal criança, eles só citavam Catarina.
O que ele faria se fosse verdade? Iria atrás da criança? O que Amália faria? Catarina parecia tão assustada quando ele a viu pela ultima vez, como ela estaria? Bem? Viva? Ele passava a mão no rosto, cansado. Eram tantos questionamentos. E então ele parava, dizia a si mesmo que não existia criança alguma. Que o seu único filho tinha morrido no momento em que Amália caiu do cavalo.
Era isso.
Fim.
Mas, não era. Dellano sabia disse, Lucíola sabia disso, Augusto sabia disso e até o povo sabia. Mesmo mentindo para si mesmo, Afonso também sabia.
Elixir, Canoth...
Heitor ardia de febre. O menino chorava de dor, deixando Catarina desesperada. Ela não sabia o que fazer, se sentia tão inútil.
—Mama, doi, mama. -Dizia entre lágrimas.
—Farei essa dor passar, meu amor.
Do que adiantava todos os seus bens se não conseguiu conter a dor do seu filho?
—Preparem a carruagem! Agora! -Mandou.
Ela sabia o que fazer, precisava da ajuda de Eleonora e iria até lá.
Com cuidado, pegou o filho no colo e o colocou na carruagem.
—Para a casa do duque e da duquesa de Viernes, rápido.
Quando ouviu batidas na porta eles se assustaram, Damien e Eleonora não esperavam visitas. Assim que a porta foi aberta Catarina entrou com Heitor no seu colo, o rosto melado de lágrimas e um olhar felino.
—Por favor, preciso de ajuda. -Pediu, desesperada.
Ela não notou, mas, enquanto explicava a situação para Damien e Eleonora um homem descia as escadas. Seus olhos a localizaram imediatamente. Eleonora não tinha percebido sua presença, até que ele se fez presente, parando atrás de Catarina.
—Chamem, o doutor Washiton, rápido. -Mandou.
—Você tem um medico aqui? -Questionou surpresa.
—Não normalmente, mas estamos recebendo a visita do meu irmão.
O rei?
—Seu irmão? E onde ele está, espero não está incomodando.
—De forma alguma. Você e Heitor são sempre bem-vindos. -Disse Damien.
—E o meu irmão ele está...
Ela não terminou de falar, foi interrompida.
—Estou aqui.
Catarina gelou, surpresa e virou. Diabos, ela pensou, ela era mesmo muito bonito, ela quase pensou que queria ser dele, só com aquele olhar.
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