Catacrese
1 Capítulo Único
Você sabe o que acontece com alguém que sofre sozinho por muito tempo?
…
… …
… … …
Não?
Ele aprende a mentir.
Distorcendo a verdade, ele lentamente melhora sua capacidade de fingir, de manipular, esconder.
E, com o tempo, a mentira se torna convincente a ponto de persuadir a si mesmo.
Depois de mais um tempo, ele começa a duvidar da verdade e, eventualmente, a esquece...
...Como uma máscara perfeitamente moldada e soldada ao rosto que a veste.
Mas esse fato tem absolutamente nenhuma relação com esta história.
***
É natural que esteja chovendo.
Desde tempos antigos, a humanidade atribui todo tipo de significado a tempestades, geralmente relacionando-as à fúria de algum deus e ao caos. Em outros casos, pode ser uma premonição, tanto boa quanto ruim – e isso é discutivelmente subjetivo.
Interpretações supersticiosas à parte, pelo menos o clima tempestuoso reflete o ar carregado da situação atual.
Um conflito demasiado pessoal para ter quaisquer espectadores exceto pelos céus retumbantes acima – uma batalha de titãs.
De um lado, o “monstro”.
De outro, o “mártir”.
Ambos afastados da humanidade, não importa a direção.
E, se você olhar do ângulo certo, não há diferença alguma.
Um monstro que quer ser humano.
Um humano que quer ser imortal.
Caos e cosmos, não “bem” e “mal” – ambos monstros em suas próprias perspectivas.
Imagens espelhadas não são iguais sobrepostas, afinal.
— Vamos acabar com isso, Shizu-chan.
Os dois sabem. Enquanto ambos existirem, nenhum deles conseguirá alcançar seu objetivo. É um sacrifício necessário.
— Izaya… — será a última vez que o informante ouvirá seu nome rosnado com tanta emoção por trás das sílabas – eles têm história, afinal.
Daquele telhado só sairá um monstro respirando.
Izaya não pode mais permitir que uma besta coloque em perigo o objeto de seu amor. Esse jogo já se arrastou por tempo demais.
Não pode ficar estático enquanto assiste a seus adorados humanos se relacionarem com um animal selvagem como Shizuo, sob constante ameaça iminente. Não, mesmo que eles não entendam, é seu dever como observador, como amante da humanidade.
Shizuo não pode permitir que Izaya continue virando do avesso a vida das pessoas que ama. Já faz anos que sua vida é transtornada pelo inseto, impedindo-o de levar uma vida pacífica.
Não pode ignorar as investidas e provocações do inimigo, então precisa acabar com ele. Não há outro jeito.
Ambos já estão enraigados demais no ódio para olhar de outro ângulo.
A luta é um equilíbrio entre a agilidade do perigoso informante de Shinjuku e a potência do homem mais forte de Ikebukuro, oscilando minimamente entre as duas bandejas até que um vacilo pese em um dos lados e acabe tudo em segundos.
Um passo mal calculado desencadeia a reação, derruba ambos gigantes no chão, declara o vencedor da disputa histórica do distrito.
Entretanto, a tensão não se dissipa, e os segundos se prolongam.
— Vá em frente, monstro. — Izaya cospe entredentes, pontuando o desafio com um sorriso venenoso. Em volta de sua garganta, os punhos de ferro de Shizuo se fecham firmemente, mas não com violência suficiente para quem é conhecido como a própria personificação dela.
A chuva dilui o sangue escorrendo dos cortes múltiplos no rosto do loiro, que mantém seu alvo preso definitivamente ao chão debaixo de si e longe da única arma que sabe usar além de palavras.
Mas nenhum músculo contrai, nenhum aperto intensifica, e nenhum deles para de respirar.
— É isso que você quer, não é? — Shizuo tem o cenho franzido como sempre, mas seu olhar carrega um tom de incredulidade que quase pode ser confundido com pena — Você sequer se importa de morrer se for pra ferrar com a minha vida? Qual é o seu problema, Izaya?
No primeiro momento, Izaya não registra as palavras do rival. Não esperava ouvir qualquer som além de ossos se partindo e a chuva se misturando à sua poça de sangue, então a voz inusitadamente calma de Shizuo vinda de uma proximidade nunca antes atingida em lutas anteriores desvirtuou o moreno de seu estado de espírito original.
— Você acha que isso tudo te faz melhor do que eu? — ele estala a língua em frustração, aproximando o rosto da expressão de puro choque do informante — Eu só queria viver a porra da minha vida em paz, seu infeliz. Aí você aparece e manda um monte de imbecis atrás de mim para se divertir, me torra a paciência e me chama de monstro como se eu não fosse da mesma espécie que você. Você se sente melhor vendo eu me foder, já que você é tão fodido quanto eu?
Humilhação sequer começa a descrever o que Izaya sente ao ser lembrado da verdade – ou, mais precisamente, ser atropelado por ela. Há muito tempo descartara o motivo inicial pelo qual fazer da vida de Shizuo um inferno para apenas afundá-lo em nome de uma causa nobre. Saber que seu próprio inimigo conseguiu ler nas entrelinhas de suas mentiras desperta uma nova camada de ódio em seu peito, banhada por vergonha.
Porém, ele não consegue responder. Talvez se forçasse o ar de seus pulmões, conseguiria rebater com algum insulto ácido, mas o choque cortou suas cordas vocais.
— Sinceramente, eu tenho pena de você, Izaya. Vai se foder.
As trovoadas cessam após um tempo, e só então Izaya percebe estar sozinho.
Entretanto, mesmo depois de ser descartado até por uma aberração da natureza, o informante continua a deixar-se encharcar pela chuva torrencial.
Talvez o frio amenize a ardência em seus olhos e seu peito.
Quando a água estia, seu corpo todo começa a tremer com algo além do clima, e, quando Izaya consegue prestar atenção na risada histérica ecoando pelo telhado vazio, percebe ser sua.
— Eu odeio tanto você, Shizuo.
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