Castelos de Areia

7 120 dias de Sodoma


Notas iniciais
Hello, pessoas! E aqui estou eu, com mais um capitulo, já que meus dedos andam numa coceira terrível para escrever kkkkkkkk. Eu sei que postei ontem, mas foda-se u.u kkkk

Sentei no chão, encostado no sofá, com o álbum de fotos da família no colo. Eu não costumava ver aquilo, contudo o tédio me obrigou. Passei por várias páginas. Numa delas, havia o retrato de Hugo com Victor em uma praia do Caribe. Noutra, Hugo estava sozinho, exibindo seu belo uniforme do exército francês, em tempos mais antigos. Mais à frente, estava eu, me divertindo com dois ou três amigos no jogo do Lyon contra o Paris Saint-Germain.

— Thomas. — chamou Victor.

Fechei o álbum e levantei a cabeça. Meu pai estava ao meu lado, em pé, me observando de um jeito até terno pros seu padrões diários. Vestia uma camisa social azul malpassada com uma calça jeans clara. Percebi um corte longo na sua mão esquerda. Já imaginei Victor se mutilando, mas logo lembrei que ele havia se cortado enquanto fazia o almoço.

— Oi, pai.

Ele sentou-se no sofá, com a minha cabeça no meio de suas pernas.

— Eu não vou te mandar comer. Você já tem 16 anos.

— Eu não tou com fome. — respondi rápido.

— Claro que não. — meu pai resmungou. — Você vai morrer, ultimamente caixão anda muito caro, enterrar alguém é muito caro, além do trabalhão todo de gastar lágrimas.

— Fiquei comovido com sua preocupação. — dei uma risada seca.

— Era a intenção, te comover. — Victor passou a mão em meu ombro, por debaixo da camisa preta de mangas 3/4. Notei que sua pele estava extremamente gelada. Era estranho ter contato físico com meu pai, quando eu nem falava direito com ele. Senti um breve arrepio passar por meu corpo.

— De quem eu sou filho? — questionei de repente, olhando para trás, diretamente nos olhos de Victor.

— Thomas! Que pergunta besta. — ele sorriu.

— Você sabe o que eu quis dizer. Quero saber se foi você ou Hugo que deu o material para que eu aparecesse nesse planeta. — me ajoelhei e segurei sua calça na altura das coxas. Victor pareceu hesitar por um instante, mas acariciou meu cabelo castanho durante alguns segundos. Entretanto, ficou calado.

— Pai? Por favor. Eu já tenho 16 anos. Vou saber de qualquer maneira um dia. — insisti.

— É óbvio e claro que você é... Que o espermatozoide foi meu. — Victor respondeu por fim.

Tornei a me sentar no chão. Aquilo foi a decepção do dia. Tudo que eu queria era que minha herança genética fosse de Hugo. Lá no fundo, eu tinha uma esperança, afinal, ruivos têm uma possibilidade óbvia de ter filhos morenos. Mas nem isso eu pude obter. Eu tinha que ser filho de Victor. Definitivamente, eu queria voltar no tempo e consertar esse acontecimento. Contudo, pensei rapidamente, se eu fizesse isso, o bebê que viria ao mundo não seria mais eu, e sim outra pessoa.

— Olha pra esses cabelos ondulados, pra esses olhos castanhos, pra essa pele tom de oliva, Thomas. Cada traço seu é uma parte de mim. — meu pai continuou. — Você sempre teve uma preferência por Hugo. Eu só tive medo. Eu sou humano, Thomas.

Abracei a mim mesmo, ainda frustrado.

— Tudo bem. — menti. — É bom saber a verdade.

Victor desceu do sofá e sentou ao meu lado. Por que ele tinha que chegar mais perto? Não era claro que eu queria distância? Ele passou os braços fortes ao redor do meu corpo e deu um beijo molhado na minha bochecha. Não podia negar, foi algo legal. Eu não tinha muitas recordações de coisas assim com meu pai. Deixei minha cabeça cair sobre seu colo e fiquei ali durante alguns minutos, em silêncio. Então, o Iphone dele tocou. No mesmo instante, meu pai se levantou e foi buscar o celular. E eu fiquei sozinho, olhando para a parede bege da sala, um pouco estupefato pelo que tinha acabado de ocorrer.

[...]

Rocei os dedos nas páginas antigas de 120 dias de Sodoma. Aquele exemplar foi um dos primeiros vendidos, na década de 30. Estava escrito em alemão, já que o texto só se tornou disponível em francês depois da segunda metade do século XX.

O livro aberto para mim não fazia diferença nenhuma. Eu não dominava o idioma alemão. Hugo uma vez insistiu para que eu aprendesse essa língua, mas eu desisti logo. Me contentei em saber somente inglês, francês, português e um pouco de italiano.

Apoiei minha cabeça no braço, e este, na mesa. Os raios solares entravam francamente pela janela de vidro. Já fazia algumas horas que eu estava na biblioteca. Era um cantinho especial, um certo esconderijo. Foi com Hugo que aprendi a gostar da presença dos livros. Quando eu era mais novo, essa era a forma de estar perto dele, do pai que eu mais amava.

O pai que eu mais amava. Você sempre teve uma preferência por Hugo. Não havia como negar. Se minha herança genética carregava o rosto de Victor, o meu coração carregava os olhos verdes de Hugo.

— Ei. — uma mão apertou minha orelha. Ergui os olhos para cima. Era exatamente Hugo ao meu lado.

— Oi.

— Esse livro é proibido para menores. — ele riu.

— Eu sei.

— E você não fala alemão. — meu pai puxou outra cadeira e sentou-se ao meu lado.

— Não precisa humilhar. — resmunguei.

— Eu sei. — Hugo deu de ombros. — Mas eu quero. Já que você se negou a continuar as aulas. — Ele puxou minha mão e a acariciou. — Victor me disse que te contou sobre... Sobre seu nascimento. Que é o DNA dele que você leva.

— E?

— Como você tá?

— Bem. — tentei fazer uma expressão indiferente. — Por que vocês não contaram logo?

— Medo besta de pai. — Hugo sorriu. — A gente te ama. Inclusive Victor e você sabe disso.

Esfreguei o olho. Talvez Victor realmente me amasse. Porém, era de uma maneira bem estranha.

— Tudo bem. Não tou chateado. — suspirei. — Lê pra mim? — afastei o livro para meu pai.

— Eu não vou ler essa putaria pro meu filho de 16 anos. Busca algo como A Chapeuzinho Vermelho nas estantes. — ele deu uma gargalhada curta.

— Sério. Por favor. — pisquei o olho fofamente.

— Para de ser gay. — Hugo fez uma falsa cara de zangado.

— Olha quem fala.

Ele pegou o livro e passou umas dez ou quinze páginas. Parecia que estava escolhendo alguma parte que tivesse o menor teor de imoralidade. Concentrou-se alguns segundos, devia estar traduzindo o texto mentalmente para o francês. Mas, finalmente começou:

— “Oh, por Deus!” exclamou Curval, cujo cérebro estava em fermento lúbrico naquele dia, “vejam meus amigos, observem pelos sinais deste pau duro, a chama que a paixão descrita me incendeia”. — Hugo riu e parou. — Isso é mais que putaria, Thomas, é sadismo.

— Eu sei, vem do nome do autor, Marquês de Sade. Continua, tenho 16 anos e já fiz sexo. E eu não vi nada demais nessa parte.

— Aprende alemão e lê por si mesmo. — meu pai devolveu o livro para minhas mãos.

— Não aprendo alemão e compro o exemplar em francês. — dei um sorriso maroto.

— Não quero um filho que se contente com o mínimo de cultura, quando pode alcançar o máximo. — ele piscou um olho e levantou-se. — Vem comer. Fiz Macaron.

[...]

Depois que comi o Macaron de Hugo, fui para o meu quarto e fiquei observando a rua, debruçado na janela. Colmar não era tão fim do mundo assim. Tinha até um notável movimento, já que ela era uma das cidades turísticas da rota do vinho da Alsácia. Eu é que possuía um preconceito enorme com lugares pequenos. Talvez porque era um mauricinho metido, vindo de Paris. Puxei meu celular do bolso da calça e chequei as mensagens. Mensagens essas que obviamente eram da operadora. Porque no fim das contas, meus amigos tinham feito questão de me esquecer.

Todavia, quebrando todas as expectativas, havia uma mensagem de Carla. Meus dedos se apressaram, querendo ler o que raios estava escrito.

Ei, se você quiser, a gente pode se encontrar hoje à noite. Você escolhe o lugar e a hora.

Eu ainda podia escutar a voz de Victor bem clara nos meus ouvidos: “Eu entendo que você queira sexo fácil. Entendo que você trace algumas prostitutas. Mas por favor... Não seja aquela menina, okay?”. Depois de um breve momento de carinho, eu até havia me inclinado para obedecer meu pai. Contudo, dezesseis anos de brigas e confusões falaram mais alto. Além de que, eu precisava saber de algumas coisinhas. Respondi Carla:

La Table du Brocanteur. Oito e meia.