Notas iniciais
Ei, você! ♥
Eu estava com medo de postar história, tem assuntos delicados e eu estava com medo de não saber tratar da maneira certa, mas eu sonhei com essa história há um ano e meio ou dois e escrevi metade dela no meu antigo caderno do terceiro ano porque estava sem pc, eu passava dia e noite escrevendo pra não esquecer dela.
Mas acabou que eu deixei um pouco de lado e, quando mudei de casa no fim do ano passado, descobri que minha mãe jogou o caderno fora. Enfim, eu tentei recuperar na minha memória o máximo que pude dos 11 capítulos que eu tinha escrito no caderno e o resultado foi esse kkk Ainda não acabei, estou indo pro 5º capítulo, mas já fiz um resumão de tudo.
Espero que gostem e desculpem pelo textão, senti a necessidade de explicar isso. Obrigada por ler! ♥

— Vamos logo, mãe! – Gritei. Ela andava apressadamente como um pinguim, louca para ir ao banheiro. Estava literalmente brilhante com seu vestido tubinho de lantejoulas esbranquiçadas, seu cabelo tingido de loiro preso num coque estiloso cheio de gliter e um salto alto de bico fino combinando escolhido a dedo por ela, já que lhe adicionava uns bons centímetros a mais — ela era baixinha que nem eu. Ela parecia uma backvocal dos anos sessenta, a única coisa que destoava era o enorme paletó do meu pai jogado em seu ombro para espantar o frio. Avistei um bar ao longe, era o único estabelecimento aberto essa hora da noite. Parei em frente à porta de vidro, uma luz amarelada emanava do lugar que parecia estranhamente quente e aconchegante, entretanto, muito barulhento.

Por fora o bar parecia ser mediano, havia duas janelas de vidro fechadas perto da porta, as paredes da faixada eram pretas com pôster de anúncios colados e a tinta descascava na base. Uma placa verde de neon enorme sobre a porta dizia “Bar do Carl” e um pouco abaixo, num quadro de plástico branco, encontrava-se uma lista com as especialidades vendidas: cachaças e batatas fritas. Olhei para minha mãe e sorri divertida, ela ainda estava na esquina a uns quarenta metros. Pus a mão na porta — também de vidro — preparando-me para abri-la. – Corre, mulher, corre!

— Estou indo o mais rápido que consigo... Ah! Estou chegando... Ah, ai minha bexiga! E esses saltos estão acabando... Ah... Comigo... – Arfou andando ainda mais rápido, as pernas entortadas para prender a urina. Era uma cena hilária, não pude segurar a gargalhada. Quando ela chegou perto, abri a porta e fiz uma reverencia cavalheiresca para ela entrar. Ela riu um pouco, me deu um peteleco na cabeça e subiu o único degrau na entrada do bar. Fiz uma careta de dor enquanto ria.

— Não me faça rir, Violeta... Ah... Meu Deus... – Ela entrou desesperada e a segui de imediato. Por dentro, o bar fedia a cerveja velha, mofo e óleo de batata frita. As paredes eram iguais as lá de fora, pretas e com a base descascando, as únicas diferenças eram os lindos desenhos de grafites em todo lugar e as decorações diversas, como prateleiras com troféus, fotos e neons com as luzes desligadas. De certa forma, toda desordem dava um belo estilo acolhedor e jovial. O piso de cerâmica no chão estava sujo, mas o cinza-claro coberto de várias substâncias fazia o lugar parecer um pouco menos escuro. Apenas um pouco. A iluminação do lugar era composta por um varal com bolinhas de led amareladas e umas fitas de led brancas grudadas numas vigas horizontais no teto alto, não eram tão eficientes para o tamanho médio do estabelecimento. Havia mesas e cadeiras de madeira maciças desordenadamente espalhadas por todo lugar.

À direita da porta, numa parede com grafites coloridos com coisas ilegíveis escritas artisticamente, estava acoplada uma televisão de tela fina, ao lado de uma janela, na qual passava um jogo de futebol de um time qualquer. Provavelmente atrás daquela parede havia um cômodo, pois o lugar parecia um pouco maior por fora e o bar estava encostado numa outra parede conectada à direita daquela da TV. Mais a frente havia outra parede horizontal preta, dessa vez sem grafite, apenas duas setas indicando os banheiros: Esquerdo feminino e direito o masculino. Atrás dessa parede, uma vertical menor funcionava como divisória, separando as portas de alumínio de cada gênero. Minha mãe seguiu para a esquerda e eu fui logo atrás dela, mas ouvimos alguém assoviar para nós.

— Ei, você anãzinha e você aí, dona brilhantina. Dois reais para usar o banheiro, uma por vez, menores de idade lá fora. – Disse o barman apontando para mim. Fiquei impressionada com o quanto era bonito. Parecia ter seus vinte e cinco anos, seu cabelo curto e preto estava molhado, completamente bagunçado e com leves ondulações nas mechas. Seus olhos azuis brilhavam entediados, estava com um avental também preto amarrado na cintura e uma camisa polo branca, suada, grudada ao corpo bem definido. Ele apoiou-se no bar me encarando e estendeu uma mão esperando o dinheiro. Olhei para a minha mãe que sapateava freneticamente com a mão na parede das setas, ela me fez um gesto pedindo-me para me apressar. Suspirei e tirei umas moedas da minha pequena carteira de mão e entreguei ao barman. Ele acenou com a cabeça para minha mãe e ela correu para o banheiro.

— Dona Renata, a senhora é uma guerreira! – Ri quando ouvi o som da porta de alumínio sendo fechada. Olhei para o barman e ele sorriu sarcasticamente apontando o polegar para a saída.

— Mas eu sou maior de idade! – Protestei.

— Me mostre à identidade então. – Ele inclinou-se um pouco mais reforçando o apoio no bar sobre os braços cruzados. Eu revirei os olhos e pus a mão sob meus seios por cima do meu vestido justo azul-esverdeado para mantê-los no lugar enquanto retirava minha identidade de dentro do sutiã. O barman levantou a sobrancelha e sorriu sedutoramente. Eu dei um sorriso debochado e entreguei o documento a ele, que verificou e rapidamente me devolveu com seu sorriso de canto. Guardei de volta no lugar e me sentei em um dos banquinhos estilizados do bar, o rapaz me seguiu com o olhar o tempo todo.

— Então... Segundo minhas contas, você tem dezenove anos, certo baixinha?

— Parabéns senhor barman, você sabe contar! – Brinquei enquanto prendia meus longos cabelos cacheados em um rabo de cavalo. Ele riu gostosamente enquanto colocava uísque no copo de um homem bêbado que lutava para se manter sentado no banco da ponta esquerda do bar. O olhar do barman agora era divertido.

— Pode me chamar de Luís, senhorita Violeta.

— Ei, achei que você só verificaria minha idade...

— E eu achei que seria rico aos vinte e cinco. – Falou Luís parando na minha frente enquanto limpava um copo. Eu sorri enquanto encarava seus belos olhos azuis. Ele se aproximou com seu sorriso de canto, a cabeça levemente inclinada para a esquerda. – Sabe, você pode admirar minha beleza o quanto quiser, minha linda. Para você é de graça... Mas tem que comprar alguma coisa para ficar aqui dentro. Regras do chefe.

— Tudo bem, me dê uma batida de morango. – Comprimi meus lábios formando uma linha fina enquanto o observava limpar os últimos copos da pia. – Você não tem cara de quem segue regras de chefes. – Ele arfou com meu comentário.

— Normalmente não, mas se você conhecesse meu tio... – Luís procurou os ingredientes e parecia bem concentrado. Eu suspirei impaciente e soltei o ar pela boca, soprando meus lábios fechados enquanto olhava ao redor tamborilando os dedos no bar. O lugar estava cheio de pessoas muito bêbadas que, ou conversavam entre si, ou assistiam ao jogo e torciam animadamente. Boa parte das mulheres sentavam-se um pouco afastadas dos homens, mas outras se enturmavam com eles em conversas cujo assunto eu estava longe demais para saber qual era. Num canto, um casal estranho cochichava com cumplicidade e observavam com cautela todos ao redor. O olhar do homem encontrou o meu, e eu desviei rapidamente. Alguém passou correndo muito rápido para o banheiro masculino jogando uma case de madeira avermelhada no chão de forma descuidada, o som que fez ao cair indicava que não estava vazia. Aquilo fez meu coração palpitar. Quem deixa algo tão precioso jogado desse jeito? Eu sempre quis ter um violão, no entanto, era demasiado caro para mim. Se um dia conseguisse um, com certeza trataria melhor do que esse cara.

Encarei a case emburrada por uns instantes considerando reclamar com o dono quando ele saísse do banheiro, — mesmo que não fosse da minha conta — quando de repente, vi o casal estranho se levantar. A mulher parecia inquieta e olhava para todos os lados, como se procurasse por algo, enquanto o homem disfarçou, andou até o banheiro e bateu na porta. De lá saíra uma voz abafada, incompreensível do lugar de onde eu estava. Ele se afastou, parou ao lado do violão e olhou em volta enquanto descaradamente pegava o violão e pendurava nas costas.

— Ei! – Gritei inconscientemente levantando do banco. – Esse violão não é seu! Luís! – Virei-me para o barman que deixara a batida de lado para apurar o que estava acontecendo. — Luís, o dono do violão está no banheiro, esse homem está roubando...

Não tive tempo de terminar de falar, o homem pôs-se a correr para a saída e a mulher foi logo atrás. Algum bêbado gritou “Pega o ladrão, pega!” e um pandemônio começou. O homem foi barrado na porta por uns seis bêbados enquanto a mulher gritava quando outro grupo a alcançou e a segurou fortemente. Alguns bêbados começaram a brigar entre si e jogar cadeiras, uma acertou e quebrou a janela. Uma corrente fria percorreu o local.

— Edson! – Berrara a mulher quando os bêbados — homens e mulheres — se aglomeraram em volta do ladrão chamado Edson e começaram a lhe dar pontapés. O violão foi arrancado à força das costas do homem e com o chute de alguém, veio parar perto do bar. Olhei boquiaberta para Luís que me olhou de volta atônito, mas rapidamente se recompôs e pulou por cima do bar como um James Bond ou algo do tipo e apontou para mim e depois para o violão no chão.

— Cuida dessa merda, não deixe ninguém pegar! – Gritou por cima da enorme barulheira que os brigões faziam e foi em direção aos bêbados. – Ei, deixa esse troféu aí, é do meu tio! Isso vale mais que vocês todos juntos! Pare com isso!

— Mas o quê...

— Filha, o que está acontecendo? Vamos embora! – Berrou minha mãe. Peguei o violão encapado do chão e o abracei protetoramente. Minha mãe começou a me puxar pelo antebraço procurando alguma saída extra daquele lugar, já que a porta estava bloqueada pela multidão.

— Violeta, aqui. – Luís me entregou uma caneta. – Eu não devia fazer isso com uma cliente que acabei de conhecer, mas que seja... Preciso que você anote seu telefone naquele papel na parede, leva o violão com você e amanhã eu mando o dono ir buscar. Você mora muito longe?

— Ahn... Ah, não, a duas quadras daqui... – Gaguejei.

— Isso é tudo culpa daquele idiota, sempre deixa esse troço jogado... Amanhã ele vai buscar, está ok? Tem problema para a senhora, dona brilhantina? Não? Bom. – Luís respondeu a própria pergunta e nos empurrou de leve para um canto além do banheiro masculino. Chegamos a uma porta de saída nos fundos, Luís destrancou-a com uma chave retirada do bolso de seu avental e nos empurrou para fora, estávamos na rua de trás.

— Foi um prazer te conhecer, baixinha, não volte mais aqui, talvez eu ligue para você. – Disse ele, piscando o olho direito e batendo a porta com força. A gritaria lá dentro agora estava abafada. Eu olhei para minha mãe, novamente, eu estava boquiaberta.

— Ah... – Falei, encarando a case do violão nos meus braços. – Eu nem tomei minha batida.

***

Eram dez e meia quando recebi uma mensagem. Quando ouvi o toque da notificação, já estava de baby-doll, deitada na minha cama e quase dormindo, mas peguei o celular na mesa de canto para ver quem era.

“Você não é muito esperta, não é, ladra?”

Observei a tela do aparelho por alguns segundos, os olhos semicerrados tentando raciocinar. A mensagem era de um número desconhecido.

“Eu nunca roubei nada. Quem é você?”

“Eu não me lembro de ter te dado permissão de pegar meu violão. Mas você é tão idiota que roubou e deixou seu número no bar.”

Pisquei surpresa com aquela mensagem. Ele estava realmente com raiva?

“Eu só tentei ajudar. Um cara ia roubá-lo, o barman me pediu para trazer comigo para casa, eu vou te devolver amanhã, não se preocupe.”

“Sei... Faz sentido, é claro que aquele idiota do Ricardo entregaria meu bem mais precioso para uma completa estranha, afinal, não é dele.”

Eu estava completamente confusa com aquelas mensagens.

“Quem é Ricardo?”

“... O barman? Luís Ricardo. Você é retardada por acaso?”

Ok, ele estava passando dos limites. Agora eu estava profundamente ofendida e com raiva.

“Já acabou com a ignorância, seu ingrato de merda? Eu tentei ajudar, na próxima eu deixo o ladrão levar as suas coisas, seu desleixado. Vou passar a droga do meu endereço para você vir buscar essa merda, e espero nunca mais precisar olhar para a sua cara.”

Passei meu endereço para o completo desconhecido. Que burrice eu acabei de fazer? Não consigo pensar direito com sono e de cabeça quente! O celular tocou novamente alguns minutos depois.

“... Desculpe. Eu não devia ter falado com você desse jeito, é que essa confusão toda tiveram consequências muito sérias. Não devia ter descontado em você, eu não sou assim. Peço perdão.”

Aquilo me pegou de surpresa. Eu estava cansada demais para brigar, e ele propôs paz, então só queria acabar logo com isso e dormir.

“... Ok, por favor, me desculpe também. Não costumo brigar com pessoas, ainda mais pessoas que não conheço e por telefone menos ainda! ^-^ Ei, acho melhor nos encontrarmos no bar, não é mais fácil do que você procurar minha casa?”

Tentei reverter, em vão, a besteira que havia feito.

“Tudo bem, não se preocupe, sei onde fica.”

Aquilo fez meu coração acelerar de medo.

“... Como assim?”

“Ei, fique de boa! Eu moro perto da sua casa.”

Não estava convencida, mas acho que já não tinha opções, já dei meu endereço a ele. Algo me dizia que ele não era má pessoa, mas era muito errado julgá-lo apenas pela minha intuição. Depois que fiquei um tempo sem responder, ele me mandou outra mensagem.

“Bem... Acredito que seja um tratado de paz entre nossos reinos, então? Espero que não seja como no Casamento Vermelho... O mundo não precisa de uma Lady Stoneheart andando por aí! D:”

Eu ri daquela mensagem. Piadinha sobre os livros de Game of Thrones? Estou começando a achar que minha intuição não estava errada, não conhecia ninguém que tivesse lido os livros também.

“Quem de nós seria a Lady Stoneheart?”

“Com certeza eu não! Mas aposto que o Ricardo daria um ótimo Tesoureiro ou Meistre.”

“Por quê?”

“Porque como Cavaleiro Real ele não tem futuro... Levou uma coça dos bêbados, foi hilário! XD”

“Ah, para... Está falando sério? Hahaha XD!”

E assim passamos horas conversando. Eu não sabia o nome dele, não sabia a idade, não tinha ideia de quem poderia ser. Mas sabia com certeza que do meio daquela confusão toda, poderia ter saído algo bom.

Notas finais
O que achou? Comentários são muito bem vindos! ♥
Novamente, obrigada por ler! ♥