Castelobruxo: o lírio e a fera
1 Prólogo
A cerca de cinquenta metros o caminho na floresta terminava em dois pilares antigos de pedra. Eles estavam cobertos de hera e além deles começava a ruazinha de terra que levava a Coromândia. Raira caminhava apressadamente, suas botas púrpuras batendo na terra com um barulho abafado. Era final de janeiro e o dia estivera quente, mas assim que anoiteceu, a temperatura tinha caído bastante.
Ela tinha coisas demais na cabeça, muitas delas que estavam fazendo seus cabelos muito negros embranquecerem. Ainda assim ela conseguiu escutar um galho se quebrando à esquerda. Imediatamente ela sacou a varinha e apontou para o local. Raira estreitou os olhos a fim de enxergar por entre as árvores, mas estava muito escuro.
— Lumos — murmurou. Da sua varinha saiu uma luz que bateu no mato e o iluminou como se fosse dia. Sorriu de leve. — Você não precisava me seguir, eu teria deixado você vir.
Ruben anulou seu feitiço de invisibilidade e revelou-se atrás de uma árvore fina. Ele tinha a cara habitual de poucos amigos, mas também exibia uma expressão preocupada e um tanto envergonhada por ter sido descoberto.
— Não é verdade.
Raira concordou com ele mentalmente. Não tinha compartilhado com nenhum dos professores a seriedade de seus problemas. Desde que se recuperara do encontro fatídico que tiveram no ano anterior com el Tunchi, ela se tornara extremamente fechada quanto as suas preocupações. Não queria atrapalhar a vida deles, pelo menos não por enquanto. No entanto, lá estava Ruben se enfiando nos seus assuntos como sempre. Ela devia ter previsto isso.
— Não posso deixar que vá sozinha — Ruben continuou.
— Venha — foi tudo o que a diretora disse antes de continuar seu caminho, agora acompanhada de perto do professor especialista em venenos.
Andaram em silêncio na madrugada, passando por casinhas simples até chegar nas ruas de fato da cidade. Caminharam pelo bairro em silêncio, Raira guiando os dois. Até que, ao dobrar uma esquina, Ruben teve certeza de que não precisaria mais que ela indicasse o caminho. No fim da rua de paralelepípedos havia uma quantidade grande de entulho esparramado na calçada, com o ferro de um antigo portão completamente torcido e arrancado do concreto: tinham chegado.
Raira pulou os escombros e entrou no jardim da frente da casa. Nem uma das plantas conseguira sobreviver intactas à explosão, como ela constatou. A parede da frente da pequena casa tinha sido completamente demolida e parte do que sobrara dos tijolos tinha virado pó. Os dois entraram no que sobrou da sala e uma mulher apareceu das sombras. Era muito branca e parecia estar aterrorizada, o que a deixava mais pálida ainda, mesmo à luz das varinhas.
— Diretora! Que bom que chegou!
— Eu vim assim que recebi o seu chamado, Hortência — respondeu Raira envolvendo as mãos da mulher nas suas. Ela olhou em volta. — Mas você não foi nada clara, o que aconteceu aqui?
Hortência hesitou na presença de Ruben, mas então decidiu contar:
— Eu não sei ao certo. Eu estava no quarto no início da noite quando tudo aconteceu. Eu ouvi um barulho estranho e quando peguei a varinha… algo explodiu. Eu ouvi risos, mas não encontrei ninguém aqui. Os trouxas apareceram em seguida.
— Levaram alguma coisa? — Ruben perguntou, chutando uma pedrinha na sala empoeirada.
— Não. Só destruíram minha sala e meu aparelho de jantar inteiro! – Hortência arfou.
— Se não eram ladrões — Raira perguntou, — você tem ideia de quem eram?
— Infelizmente não. Ah, eu fiquei tão assustada! Eu sou a única bruxa dessa região da cidade, quase não uso magia, veja bem, tenho vizinhos bem incheridos. Foi um custo explicar o que aconteceu aqui, Raira, um custo! Eles acreditaram que foi o gás da cozinha, apesar de eu não ter um fogão. Eu bem que vi a vizinha aí do lado espichando os olhos pros cacos dos meus pratos de porcelana, provavelmente bem feliz com que aconteceu. Mas isso não me perturba, pelo menos não agora. Os assuntos correm soltos, diretora! Todos comentaram o que aconteceu no castelo há poucas semanas… o meu medo era…
— Fez bem em me chamar, querida — Raira tentou tranquilizá—la. — Mas o que aconteceu na escola ano passado já acabou. Uma criatura maligna, sim, mas que já foi derrotada. — Só a memória do monstro com chifres em forma de galhos fez Raira sentir uma pontada de aflição. Ela teve que forçar um sorriso, olhando para Ruben. O professor apenas fez um gesto com a cabeça. — Nós vamos te ajudar a arrumar sua casa e apagar alguma memória dos seus vizinhos, caso seja necessário.
— Ah, Raira. A bagunça não é tudo!
A dona da casa conduziu os dois para o lado de fora. Pularam mais escombros até chegarem numa varanda lateral. A parede estava intacta, porém entre as duas janelas de madeira estava uma coisa que fez até mesmo Ruben abrir a boca, intrigado.
— Eu não faço ideia do que isso significa, foi por isso que te mandei um noiteado.
Raira arfou.
— O que esses símbolos significam? — Hortência quis saber.
— Não são símbolos — Raira respondeu. — São letras.
Numa voz grave e séria, Raira leu o que estava escrito na parede:
— Piok mo fip’do maok arkado és k’kak’te dokak’to.
Ambos Ruben e Hortência olharam para a diretora, confusos. Raira se aproximou da parede e a tocou com a pontas dos dedos. As insígnias tinham sido gravadas a fogo mágico com um encantamento que até ela mesma desconhecia.
— “Nenhum bruxo vai sobreviver sem o espírito da floresta” — a diretora traduziu, se não tinha se enganado com o significado de nenhum dos traços e pontinhos da escrita. Depois virou para os dois ainda confusos. — Está escrito em arkedo, a língua xamânica antiga da Amazônia. É a primeira vez que vejo usarem ela fora das salas de aula. Até Castelobruxo não tem um professor de arkedo há anos.
— E o que isso significa? — Hortência não estava mais tranquila agora que sabia da tradução. — Por que escreveram isso na minha casa?
— Eu não sei — era verdade. Apesar de ser fluente em arkedo graças à sua formação bruxa, Raira não fazia ideia do que a frase significava, tampouco queria interpretá-la. No entanto, o uso daquele idioma era o bastante para perturbá-la. Ela conhecia as histórias por trás dos arkedoi, a tribo que falava arkedo; nenhuma delas acabava bem. Não fosse para o uso acadêmico, arkedo era uma língua morta. A não ser que… não ia comentar aquilo na frente de Hortência, entretanto. — Provavelmente é algum jovem inconsequente e seus bruxedos maldosos. Não vejo motivo para se preocupar, Hortência.
Raira forçou-se a sorrir novamente. Os três voltaram para dentro da casa e, após alguns gestos de varinha, a casa voltou a se organizar como era antes da explosão. Cada pedaço de tijolo se juntou na parede e o pó voltou a ser o cimento e a tinta do reboco. Até a instalação elétrica dos trouxas voltou ao seu lugar, o que era ótimo para Hortência. Os cacos do aparelho de jantar se juntaram, apesar de estar faltando uma lasca em um dos pratos, o que Hortência acreditava ser obra da vizinha. Contudo, ela estava muito agradecida: “Não sou muito boa com mágicas”, disse ela. “Sou bem melhor cuidando das plantas.”
Vários minutos mais tarde Raira andava apressadamente por Coromândia na direção da floresta. Ela era mais alta do que a maioria dos homens, as pernas bem longas; Ruben teve que apertar o passo para acompanhá-la.
— Diretora — Ruben chamou. Ela continuava andando apressada, não o tinha escutado. Diretora… Raira!
Ela parou de súbito quando escutou seu nome, como se despertasse dos seus pensamentos mais profundos. Já estavam na metade do caminho para a mata, já na estrada de terra. Raira tinha o rosto preocupado e Ruben conseguia ver isso.
— Diretora, aquelas marcas na parede… a língua arkedo... você também teve a sensação de que… você realmente acha que os espíritos da floresta acordaram?
— Eu temo que sim. Arkedo não é usado há séculos. Essa era a confirmação de que precisávamos. Eles acordaram e já temos bruxos se aliando a essas forças.
— Raira, nós temos que suspender as atividades de Castelobruxo — Ruben disse firmemente. Ele era sempre a voz da razão, Raira gostava de tê-lo por perto por causa disso. Contudo, eram bruxos, razão nem sempre era a melhor escolha.
— Nós não podemos nos dar ao luxo de cancelar um semestre inteiro. Não depois do que aconteceu no ano passado. Recebi várias cartas indignadas de pais que cogitam tirar os filhos da nossa instituição. Não, Ruben, Castelobruxo precisa funcionar esse ano.
— Isso não seria demonstrar fraqueza, os pais entenderão. Precisamos proteger nossos alunos.
— Eu concordo — Raira juntou as sobrancelhas, preocupada. — Mas você sabe bem, se essas forças se levantarem, eles não estarão mais seguros em suas casas do que aqui. Talvez essa pode ser a última vez que Castelobruxo possa funcionar da forma como o conhecemos.
— Faremos como quiser — Ruben concordou, mas não ia desistir facilmente. — Mas pelo menos os alunos de Durmstrang merecem ser avisados do perigo que vão correr aqui.
— Eles já sabem que a floresta é perigosa. Mas ainda assim tivemos um número recorde de inscrições de intercâmbio.
— Você acha que isso tem algo a ver com a morte de Dumbledore?
— Certamente — Raira passou a mão por entre os fios do cabelo muito volumoso. — Era um bruxo formidável, sem sombra de dúvidas. A morte dele deve ter mergulhado os europeus numa maré de medo. O novo diretor até agora não me comunicou.
— Mas, agora que…
— Ruben, meu caro — Raira o interrompeu docilmente. — Você não tem nada com o que se preocupar. Castelobruxo ainda é a maior fonte de proteção dentro da floresta. Só precisamos pensar num plano antes que seja tarde demais.
Os dois voltaram por entre as árvores até as propriedades do castelo, ambos prestando bastante atenção em cada barulho que ouviram no mato.
Notas finais
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