Castelo de Vidro
28 Teatro de Marionetes - Parte 3
Notas iniciais
# Narração Clara (ON):
Um erro jamais poderia justificar o outro, até porque dois erros nunca são iguais. Eu tinha errado bastante. Sabia que não conseguiria reparar todos os meus erros, mas tentaria pelo menos apagar alguns deles. Comecei me reaproximando de meu irmão e agora estava aqui na premiação a fim de reconquistar a minha filha. Pegar um voo de 12 horas só pra tentar estreitar laços vale a pena quando a pessoa é importante. Esqueci os demônios que me fizeram ir embora, mas tinha medo que eles voltassem.
Carlos estava impecável hoje. Olhá-lo daquela maneira me fez lembrar o porque um dia eu me apaixonei por ele. As pessoas o paravam para lhe dar os parabéns e tirar fotos.
Fiquei apenas observando de longe enquanto via ele com a mulher que um dia julguei ser minha melhor amiga. Ela sorria e o ostentava como se Carlos fosse um prêmio. Talvez em sua imaginação fútil até fosse. Será que se eu não tivesse com medo e tivesse ficado eu ainda estaria do seu lado?
Vejo que ele conseguiu ficar sozinho por um momento e aquele era o momento. Ia falar com ele. Olhar no fundo dos olhos dele. Aproveitar que estava aqui e tentar talvez por um ponto final nisso.
— Meus parabéns pelo prêmio, Carlos. — disse enquanto colocava a minha mão direita em seu ombro esquerdo, já que ele estava de costas.
— Clara… É você mesmo?
— Creio que você ainda não está na idade de ter alucinações.
— É claro que é você. — seus olhos brilharam. — Você continua a mesma. — ele passou a sua mão esquerda no meu rosto.
— Eu tenho que ir… — me desvencilhei de suas mãos.
— Mas já? Fica por favor…
— Eu não posso.
— Por que? Eu ainda te amo. Mesmo depois de todos esses anos eu ainda sou incondicionalmente apaixonado por você. — meu coração quase parou, mas eu não podia fazer isso. Eu tinha que deixá-lo mais uma vez.
— Siga em frente, Carlos. Eu já segui. Me esqueça. É o melhor para nós dois.
— Será que dá por favor pra você tentar ouvir o que eu estou dizendo? Será que você pode me deixar tentar explicar o quanto você significa pra mim?
— Você precisa me esquecer. — tentei ser o mais firme possível.
— Eu quero muito te esquecer. Quero mesmo. Mas esse é o problema, algumas coisas, uma vez que as amou, tornam-se suas para sempre. E eu sinto que vou te amar para sempre. Não é amar no sentido bonito da palavra, é o amor que isola, fere, machuca e te faz reviver o que não vai mais voltar. Você se tornou parte de mim e eu não consigo te deixar ir, mesmo que você já tenha ido. — Carlos disse e eu fiquei surpresa. — Tome conta do meu coração, eu o deixei com você Clara.
— Eu vou tomar. — virei as costas e fui andando em direção ao banheiro. Não podia chorar na frente de todos.
De quantas maneiras um coração pode ser despedaçado e ainda continuar batendo? Mesmo depois de tudo ele ainda me ama e ainda disse que deixou o seu coração comigo, que era pra eu tomar conta. Eu iria. Iria tomar conta do jeito que eu não fiz com o meu.
Desisto de ir no banheiro quando vejo a minha filha na minha frente. Menos de dez passos. Ela estava linda, parecia uma princesa. Já a tinha visto no palco, mas de perto ela ficava ainda mais radiante.
— Anna Júlia Konkovic. — fui impulsiva e a chamei.
A chamei e ela olhou para trás. Os olhos dela estavam arregalados, mas não havia pânico neles, só perplexidade. Não houve tempo para pânico. Anna abriu e fechou a boca algumas vezes antes de emitir qualquer som. Seus amigos perceberam que ela tinha olhado para trás e pararam de fazer o que estavam fazendo e acompanharam o seu olhar. Eles pareciam tão perplexos quanto ela.
— Mamãe… — ela falou baixo.
— Minha filha. Você está linda. — ela estava maravilhosa.
— Tia Clara. — Lucas veio correndo e me abraçou. — A senhora decidiu voltar de vez?
— Ainda não decidi, meu filho.
— Por favor… Fica conosco. — ele suplicou.
— Cadê o seu pai?
— Vou chamá-lo.
— O que a senhora faz aqui? — ela olhou sem sentimentos para mim.
— Recebi um convite e aceitei. Queria participar desse momento especial. — a respondi.
— Especial? Isso só foi uma atuação digna de um oscar. — ela falou como se fosse natural.
— Podemos conversar a sós?
— Hoje não. Eu estou com os meus amigos. — ela continuou indiferente.
— Amiga, não se importe com a gente. Vai com a sua mãe. — a garota que identifiquei como Melissa se pronunciou.
— Melissa? É você mesmo? — parecia ser ela, mas poderia estar enganada.
— Sim, tia Clara. É bom revê-la. — ela sorriu e isso me fez perceber que ela continuava com o mesmo sorriso de 12 anos atrás. — Anna Júlia, vai conversar com a sua mãe!
— Você mudou, querida. Da última vez que a vi você ainda mantinha a cor natural do seu cabelo. Você está linda.
— Obrigada. Tia, se a senhora me dá licença, vou me retirar com os meninos, a senhora quer falar com a Anna. Não queremos atrapalhar..
— Não vai embora, Mel. Que saco, me esperem eu vou com vocês. — Anna retrucou levemente irritada.
— Entendo que você não queria falar comigo agora, mas quero conversar contigo antes de voltar.
— Marca com o tio Fernando. Pode deixar que eu não vou te dar um bolo. O tio Fernando nunca deixaria, muito menos o Luke. — ela cerrou os olhos deixando a sua irritação visível e respondeu.
— Foi bom te ver de perto, minha filha.
— Não sei se posso responder o mesmo, Clara.
Ela saiu e foi em direção aos seus amigos. Ela não era mais uma criança indefesa. Ela era independente e determinada. Ela vai e ela vem ela não anda na sombra de ninguém.Possui uma personalidade forte e não fazia questão de mudá-la pra agradar ninguém. Sabia que ela poderia ser arisca comigo. Eu não posso culpá-la. Ela não pode ver dentro do meu coração.
Vejo Fernando chegando com Lucas e sorri abertamente. Ele estava tão parecido com o pai. Agora parando para pensar ele e Anna são cópias fieis minha e de Fernando.
— Por que você não falou que vinha? — Meu irmão me perguntou me abraçando.
— Não queria estragar a surpresa. — o respondi retribuindo o abraço.
— E com quem você planejou essa surpresa?
— Se eu te falar você nunca vai acreditar.
— Cadê a Anna? — Lucas interrompeu.
— Está com os seus amigos.
— Ela não destratou a senhora não né? — em seu rosto estava estampado a preocupação que ele tinha com as reações de minha filha.
— Não meu filho. Não se preocupe com isso. — lhe dei um sorriso terno.
— Tia eu conheço a minha prima. Sei que ela não faz a linha simpática na maioria das vezes. Não precisa protegê-la.
— Lucas, está tudo bem, eu juro.
— Lucas, não se preocupe com a sua tia. — Fernando passou a mão no cabelo do seu filho. — Vá ficar com a sua prima, provavelmente ela precisa de você.
— Sim senhor.
Lucas saiu como seu pai havia pedido e eu fiquei a sós com o meu irmão.
— Agora você pode me falar quem te ajudou a planejar essa surpresa.
— Foi a minha ex-sogra, também conhecida como Angela Konkovic.
— A capeta de saia?
— A própia. Também fiquei surpresa quando ela falou que me ajudaria. Sabe ela até me ofereceu hospedagem.
— Você está aonde?
— Estou num apart hotel.
— Vai ficar por quanto tempo?
— 4 dias contando com hoje.
— Amanhã então vamos almoçar. Eu, você, Anna Júlia e Lucas. Só nós quatro.
— Vamos sim.
— Relaxa que a Anna vai nesse almoço.
— Eu sei… Ela me falou que você e nem o Lucas a deixariam faltar. Obrigada meu irmão.
— Não precisa agradecer, família é para essas coisas.
“Família é para essas coisas”. Sabia que essas palavras iriam ecoar na minha mente por bastante tempo, afinal Fernando sempre prezou muito a nossa família.
# Narração Clara (OFF):
# Narração Leo (ON):
Essa hora ela já deve estar no Rio vendo a Jules. Alguns anos se passaram. Como ela deve estar? Sinto falta dela. Será que ela me odeia? Costumávamos a ser amigos, mas será que eu posso continuar com esse pensamento?
Tyler estava inquieto, eu o entendo, a mãe dele viajou pra reencontrar algumas pessoas que fazem parte de seu passado, esse que não é muito comentado.
Estou ficando zonzo só de vê-lo caminhar pra lá e pra cá, mas tento não me irritar com isso, afinal ele só descobriu da ideia da sua mãe tem pouco tempo. É claro que ele sabia que tem uma irmã, mas ele nunca soube como lidar com essa situação. Ele não a conhece e não sabe o que esperar disso tudo.
Queria que meus pais e o tio Anthony chegassem logo, mas sabia que eles ainda iriam demorar bastante. Eles estavam em um jantar com o Chanceler da Itália.
Não aguento mais essa inquietação de Tyler e decido dar um ponto final nisso.
— Senta aqui cara. — falo rolando os olhos.
— Como você consegue ficar tão calmo com essa situação? — crianças são realmente questionadoras.
— Simplesmente ficando. As pessoas que a tia Clara foi encontrar não são bichos papões. Você realmente acha que o seu pai a deixaria ir sozinha pro Rio se aquelas pessoas fossem más?
— Não sei… a mamãe pode ser bem convincente… e também tem o jantar com o Chanceler.
— O Chanceler iria entender se o seu pai não fosse ao jantar, afinal ele é muito amigo dos seus pais.
— Tá bom, você conseguiu me convencer, Leo. Mesmo assim quero que a mamãe volte logo. Não gosto dela longe.
— Eu sei. Você quer que ela volte sozinha ou com a sua irmã?
— Não sei. Será que ela vai gostar de mim? Como ela é?
— Ela é uma garota incrível, Tyler. É claro que ela vai gostar de você.
— Espero que ela venha com ela então.
Eu também esperava, mas preferi não falar nada, achei melhor guardar os meus pensamentos para mim. Eu acreditava bastante em destino e pedia silenciosamente pra ele ouvir as minhas súplicas. Essas que pediam pra que colocasse Jules novamente em minha vida.
Queria ver com os meus própios olhos como ela está. Aposto que ela continua linda e ainda possui aquele olhar que te faz tentar descobrir o que se passa por sua cabeça.
Não tenho saudade só dela, mas é claro que meu peito se aperta mais quando vem a imagem dela. Como será que está o resto do pessoal? Lucas, Amanda e Melissa. Será que eles ainda são tão unidos como antes? Ainda devem ser. Que bobeira cogitar que eles se afastaram, o destino não seria tão cruel.
Chamo Tyler pra jogar vídeo game, assim evitando qualquer outra pergunta sobre o passado e também aproveito pra me satisfazer com a minha cota de pensamento sobre eles diária, antes que a felicidade que isso me trouxe vire melancolia e eu comece a pensar em como seria se eu tivéssemos ficado no Rio ao invés de virmos pra Europa.
# Narração Leo (OFF):
# Narração Angela (ON):
Estava conversando com meu filho e como sempre sua mulher e sua filha o estavam junto. Incrível como Larissa era a cópia de Miriam. A outra filha, Jennifer não ligava muito para o que a mãe falava e ficou com o seu pai o tempo inteiro. Acho que se não fosse o terror psicológico que a mãe dela faz com ela, com certeza ela moraria com o pai.
Carlos estava aéreo, será que ele já tinha encontrado Clara? Sabia que meu filho não tinha superado bem a ida de Clara para o exterior, o seu nome tinha se tornado um tabu naquela casa e a palavra mamãe foi extinta do vocabulário da minha neta. Miriam notou que Carlos não estava prestando atenção em nada e fechou a cara.
— Querido o que aconteceu? — Miriam perguntou.
— Nada…
— Como assim não aconteceu nada? Você está aéreo.
— Não se preocupe, Miriam. Está tudo bem.
Miriam pareceu engolir a desculpa fajuta que Carlos a deu. Na minha opinião foi a melhor coisa que ele fez, afinal não sei como ela poderia reagir quando soubesse que Clara estava aqui. O último encontro das duas não foi um dos melhores, o que é difícil de entender já que elas foram melhores amigas um dia.
Pela primeira vez na noite vejo minha neta sozinha. Ela vinha na nossa direção e quem a conhecia bem sabia que algo tinha acontecido. Seus olhos faiscavam e isso nem sempre era um bom sinal.
— Anna querida, que bom que você decidiu ficar um pouco conosco. — Miriam falou sorrindo.
— É verdade Anna, achei que só conseguiria falar com a senhorita em casa. — falei e ela percebeu o deboche.
— Decidi reforçar o fato de que somos uma “família unida” para as câmeras, Miriam. Já que somos uma família tão unida, por que não chamamos a minha mãe? Aposto que isso ia ser uma manchete e tanto. Já pensaram nisso? — ela falava com um falso entusiasmo, que ia aumentando gradativamente e que tinha chegado ao seu ápice quando ela citou Clara.
— Poderíamos até chamá-la, mas ela não está aqui sweetheart.
— Você tem certeza disso? Acho que eu a vi tem uns cinco minutos. Sabe, ela estava até usando um vestido dourado incrível Zuhair Murad.
— Um vestido Zuhair Murad? Até parece que você sabe reconhecer um honey. — Miriam debochou.
— Não só sei reconhecer um, como é aquele último que foi lançado na semana de moda de Milão. — Anna Júlia a respondeu sorrindo ironicamente.
— Isso não pode estar acontecendo… — Miriam começou a murmurar. — … Ela não vai voltar e tomar tudo o que é meu.
— Mamãe calma… — Larissa falou.
— POR ISSO QUE VOCÊ ESTAVA AÉREO NÉ, CARLOS? VOCÊ A VIU! É IMPRESSIONANTE COMO ESSA MULHERZINHA AINDA É UM FANTASMA QUE INSISTE EM APARECER EM NOSSAS VIDAS! — Miriam estava histérica.
— Calma, Miriam. Você está histérica. Estão todos olhando. — falei.
— Fica calminha darling. Você não quer que as pessoas pensem que você é uma maluca, né? — Anna Júlia falou.
— CALA A BOCA SUA PIRRALHA MIMADA! FALA ALGUMA COISA, CARLOS!
— Só calo depois que eu te contar que vou encontrá-la essa semana e acho que o papai vai junto, já que ele tava “correndo atrás” da mamãe hoje mais cedo. GAME OVER VADIA! — Anna Júlia sorria sadicamente.
Minha neta saiu andando e dava pra ver em seus olhos que ela estava satisfeita com essa situação. Miriam exalava raiva e Carlos permanecia calado, afinal tecnicamente ele foi pego. Larissa tentava a todo custo acalmar a sua mãe, mas não estava obtendo muito sucesso. Tinha que intervir senão esse espetáculo recheado de horror iria tomar proporções gigantescas.
— Já chega, Miriam. Acabou! Resolva isso com Carlos em casa!
— Mas… — ela tentou argumentar.
— Não quero escutar mais nada. Põe um sorriso no rosto e acene. Não nos faça passar mais vergonha do que você já fez.
— Mas, Angela… Isso não pode ficar assim… — ela tentou argumentar mais uma vez.
— Já disse que não quero escutar mais nada. Não me irrite mais do que você já conseguiu. Em casa resolvemos isso, todos nós.
Miriam abaixou o seu olhar e assentiu levemente. A vi respirando fundo e sorrindo levemente. Em casa resolveríamos essa confusão.
Realmente ela estava linda. Clara estava esplendida aquele vestido Zuhair Murad. Ela sorria e quando me viu abriu um sorriso maior ainda. Ela sempre foi uma garota de ouro. Ainda não consigo entender como ela e Carlos tiveram aquele fim.
* Flashback (ON):
— Tenho que ir… Não posso mais ficar aqui. — Clara disse enquanto jogava suas coisas dentro de uma mala.
— Não faça isso. — falei mas foi em vão. Ela já tinha tomado uma decisão.
— Já tomei a minha decisão. Nem a senhora vai conseguir me convencer do contrário.
— Fique pela a sua filha… Ela precisará de você.
— Não posso… Ela ficará bem, eu sei disso. Você nunca deixará nada faltar pra ela. Nem você, nem Dorothéia. Um dia você entenderá os meus motivos.
— Carlos nunca te perdoará por isso. Nós nunca a perdoaremos.
— Eu sei… Me desculpa… Eu sou muito fraca… — ela sussurrou a última parte.
E ela saiu de mala e cuia. Desde aquele dia não a tinha mais visto. Ela continua igualzinha a oito anos atrás.
* Flashback (OFF):
Quando a vi não consegui segurar as lembranças do dia que ela partiu. A sua última frase ecoava na minha cabeça. “Eu sei… Me desculpa… Eu sou muito fraca…”, a parte dela se desculpando ecoava ainda mais alto. Eu sei que falei que nunca a perdoaria, mas depois das tentativas de contato que ela fez percebi que nunca conseguiria a odiar. Claro que eu possuía uma mágoa muito grande. Ela abandonou a própria filha, mas não posso negar que ela não a ama. Vi isso em muitas cartas. Cartas que nunca chegaram ao seu destinatário. Pelo menos boa parte delas. Respondi suas tentativas de contato algumas poucas vezes e nessas vezes vi que ela sofria mais que Carlos e Anna. E foi só por causa disso que deixei ela se reaproximar. Algumas pessoas merecem uma segunda chance. Ela merecia ser feliz.
— Angela… — seus olhos ficaram levemente marejados.
— Clara… — sorri levemente. — Você continua igualzinha. — ela me abraçou e eu retribuí.
— Eu senti muito a sua falta. — ela falou.
— Eu também senti minha filha. — a respondi.
Miriam nos olhava sem entender nada. Ela franzia o cenho e não fazia nem um pouco de questão em esconder.
— Que palhaçada é esse? Então você sabia o tempo todo que essa vadia estava aqui? — Miriam falou.
— Não me chame de vadia. Clara falou polidamente.
— Como assim você sabia disso mamãe? — Carlos disse.
— Não finja que você sabia disso, Carlos. — Miriam olhou raivosa pra ele.
— Permiti que Clara visitasse Anna. Ela é a mãe dela.
— Como você permite que essa mulherzinha, essa vadia barata se reaproxime assim da sua neta? Não se esqueça que ela abandonou a própria filha e o marido.
— Não questione as minhas escolhas, Miriam! — bradei.
— Já falei pra não me chamar de mulherzinha, Miriam. — Clara continuava calma e serena.
— Cala a boca, vadia. Era só o que me faltava, a vadia voltou e a velha tá ficando gagá. — Miriam falou e Larissa a olhava assustada.
— Chega, Miriam! Cala a boca você! — Carlos bradou. — Vamos pra casa. Já chega.
— Me desculpe por toda essa confusão, Angela. — Clara disse sem graça.
— Não se desculpe. Vamos sair daqui, já atraímos muita atenção hoje.
Fomos andando em direção ao jardim e as pessoas não paravam de olhar, também não era todo dia que se via uma cena dessas. Clara não aparecia pessoalmente por anos, muitos até pensavam que ela estava morta, pois nem em seu nome tocávamos. Se não fosse algumas manchetes de revistas estrangeiras ela teria sumido totalmente do mapa.
Conversamos bastante e ela me contou o que ela fez durante esses anos. Estava claro que ela havia mudado bastante, havia amadurecido e muito. Vejo uma foto no display de seu celular e não consigo deixar de ficar curiosa. Nela haviam três rapazes sorridentes, um deles não me era nem um pouco estranho, já os outros dois não me remetiam a ninguém. Na verdade a segunda pessoa estranha se parecia um pouco com Clara, possuía o mesmo sorriso inocente que ela tinha quando adolescente, além de ter olhos vívidos.
— Está aérea Angela, o quê aconteceu? — Clara perguntou.
— Nada. Só fiquei curiosa com a foto que você está observando.
— Ah sim. Ela está linda né?
— Está sim. Quem são eles?
— Meu marido Anthony, meu filho Tyler e o terceiro a senhora conhece é o Leo.
— Leo? Ai meu Deus. Como ele está enorme.
— Continua um menino incrível.
— Como assim esse outro garoto é seu filho? — agora que a minha ficha tinha caído.
— Tyler?
— Ele mesmo. Por um acaso tem outro? Quantos anos esse menino tem.
— Não… Só ele. Ele é um menino muito doce. Ele queria muito ter vindo, mas não achei que era o momento apropriado. E também ele ainda é novinho, só tem 8 anos.
— A Anna já sabe sobre ele?
— Não.
— Droga… — já pensava no que poderia acontecer quando ela descobrisse.
— Vou contar pra ela o mais rápido possível.
— Espero que sim.
— Espero que eles sejam amigos. — seus olhos brilharam.
— As coisas vão acontecer naturalmente. Tudo no seu tempo. — sorri para ela. — Mas e o Carlos, ele sabe?
— Ele também não sabe. Tyler não conhece quase ninguém. — ela parecia se desconectar do mundo.
— Você disse que ele tem 8 anos. Por um acaso ele não seria… — fui bruscamente interrompida.
— Não! Não ouse sequer pensar nisso, ele é meu e só meu. — ela parecia magoada e segurava forte o celular. — Tenho que ir. A noite foi longa.
— Tudo bem… Entendo… Vá.
Ela se levantou e a reação dela ficou se repetindo na minha cabeça. Clara parecia com medo de me contar o que estava acontecendo. O que será que a afligia tanto.
# Narração Angela (OFF):
# Narração Lucas (ON):
Ontem foi um dia que eu poderia julgar longo e desgastante. Hoje seria a continuação de tudo aquilo que plantamos ontem. Tínhamos aquele belo almoço em família que tinha grandes chances de terminar em confusão e numa grande discussão. Apesar de meu pai ser uma pessoa bem calma e graças a Deus eu puxei esse lado da família, não posso dizer que Anna Júlia e a tia Clara tenham puxado as mesmas qualidades. Meu pai já contou várias histórias de como a tia Clara é um pouco temperamental e digamos que não tem como negar em nenhum momento que Anna é filha dela. Digamos que a minha prima é uma pessoa totalmente temperamental e imprevisível, porém nem todo mundo conhece esse lado dela porque ela prefere cultivar e semear o seu lado misterioso. Lado esse que é totalmente irritante na maioria das vezes e que a faz parecer uma vaca manipuladora certas horas.
Hoje seria um dia interessante. Eu repetia essas palavras como se fosse um mantra. Respirava fundo e soltava o ar aos poucos. Será que eu estava enlouquecendo? Achava levemente que isso era possível, se fosse julgar pelo fato de achar que tudo daria certo nesse encontro. Ou será que eu sou otimista demais com certas coisas? Loucura ou otimismo? Várias perguntas surgem na minha mente e eu não queria descobrir a respostas de algumas delas. Talvez eu tivesse medo da verdade, ou talvez eu estava passando tempo demais com Amanda e estivesse absorvendo sua “humanidade fora do normal” como Melissa diz. Creio que eu não deveria escutar Melissa na maioria das vezes, além daquela ruiva de farmácia ser totalmente louca e insana as vezes, ela possui certas opiniões que podemos julgar como sem fundamento algum. Resumindo Melissa é uma garota louca. Quando digo louca, não é que ela possua um transtorno mental, talvez possa até ter, mas sim que ela não mede as suas atitudes e faz o que der na telha.
Me olho no espelho e começo a rir. Realmente eu estava ficando louco. Isso deve ser culpa da convivência, mas se fosse por isso, Nathaniel também teria que ser louco. Pensando bem os critérios da convivência não se aplicam muito a ele, já que ele não mora na mesma casa que Melissa e também toda vez que ele está lá ela arruma uma desculpa pra sair, o que funciona na maioria das vezes. Vendo por esse lado, Nathaniel é sortudo, ele não precisa aturar as loucuras da irmã dele que nem eu e Anna, até pra Amanda sobre as vezes.
Escuto o meu pai me chamando e naquele momento a ficha caiu. Estava na hora. Comecei a repetir que tudo ia dar certo como se fosse um mantra, o segundo do dia no caso e saí do quarto em direção a sala para encontrá-lo.
— E aí filhão, tá pronto? — ele me perguntou sorrindo.
— Não. Por um acaso tem como estar preparado pra esse momento?
— Não tem não. Por isso que você tem que pensar que tudo vai dar certo.
— Eu sei, tô repetindo isso de dois em dois segundos como se fosse um mantra.
— Vamos nessa. Ainda temos que buscar a sua prima na casa da avó dela.
Fomos em direção ao elevador e quando ele chegou apertamos o botão da garagem. Tentava espelhar o mesmo comportamento do meu pai. Calmo e sereno. Porém não conseguia reproduzir esse comportamento com exito, mas para aquele momento estava suficiente.
Quando chegamos ao estacionamento fomos direto em direção ao carro. Entrei no banco do passageiro e mandei uma mensagem pra minha prima avisando que já estávamos a caminho.
# Narração Lucas (OFF):
# Narração Clara (ON):
Que dia intenso foi ontem. Nossa se eu não estivesse preparada acabaria tendo um surto. As pessoas daqui ainda continuam mais intensas que o normal. Falando em intensidade, hoje vai outro dia cheio dela.
Estava pronta para almoçar com minha filha, meu irmão e meu sobrinho. Sabia que não haveria tanta tensão no ar como ontem, pelo menos era o que sinceramente esperava.
Antes de sair para o restaurante decidi ligar para Anthony pelo skype para ver como estavam as coisas. Parecia que ele esperava a minha ligação, pois em menos de um minuto ele me atendeu.
— Clara, eu ia te ligar nesse momento.
— Nossa… é sério?
— Sim, meu amor.
— É impressionante como estamos sempre conectados, querido.
— Como foi a festa ontem?
— Intensa. Afinal eu tenho muitos fantasmas.
— Tudo o que você tem que fazer é dizer a eles para irem embora... e eles irão.
— Eu não sei se eles vão, mas tô tentando exorcizar um por um. Hoje mesmo eu vou almoçar com Fernando, Lucas e Anna Júlia.
— Isso já é um bom começo. Vai dar tudo certo nesse almoço.
— Eu espero… — suspirei. — Mudando de assunto, como o Tyler está?
— Morrendo de saudade. Ontem o deixei com o Leo, pois teve o jantar com o Chanceler.
— Aí meu Deus, o jantar com o Chanceler era ontem?! Como pude esquecer?
— Relaxa meu amor, o Chanceler entendeu totalmente a sua ausência.
— Fala pro Tyler que eu também estou morrendo de saudade e que volto logo.
— Fale você mesma pra ele.
Anthony chamou Tyler e logo o meu príncipe apareceu na tela. Ele estava lindo e eu mal podia esperar pra voltar só pra abraçá-lo.
— Mamãe! — ele sorriu e seus olhos brilharam.
— Tyler!! A mamãe está morrendo de saudade!
— Você volta quando?
— Daqui a três dias tô de volta, talvez volte até antes.
— A Jules vem com você? — ele perguntou acanhado
— Desde quando você chama a Anna Júlia de Jules?
— O Leo a chama assim, então também vou chamar. Ele me contou muitas coisas legais dela, mamãe.
— Ainda não sei se ela volta comigo, mas posso tentar. — torcia internamente pra que ela fosse comigo.
— Tá bom. Manda um beijo pra ela.
— Pode deixar que eu vou mandar, agora meu amor a mamãe tem que ir, está na hora de encontrar o seu tio, sua irmã e seu primo.
— Tá bom mamãe, eu te amo. — enquanto ele falava isso ele mandava beijos.
— Eu também te amo, meu amor. — meus olhos ficaram levemente marejados.
Desliguei a chamada e pedi pra recepção chamar um táxi. Menos de cinco minutos depois a recepção do apart hotel me avisa que meu táxi chegou.
Chamei o elevador e naquele momento sabia que estava mais do que na hora de acertas as coisas.
Internamente eu estava nervosa e pedia para os deuses que me ajudassem e que fizessem dar tudo certo.
# Narração Clara (OFF):
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