Notas iniciais
Oi gente, voltei com mais um capítulo. Nossa já faz 1 ano que eu posto essa fic. Nem eu mesma tô acreditando. Quero agradecer a todos os meus leitores por continuarem a acompanhar a história. E aos novos leitores eu quero dizer "Olá, bem-vindos, fiquem a vontade". Escrevi esse capítulo com muito carinho. Espero que gostem. Boa leitura.

# Narração Anna Júlia (ON):

O quê era aquilo que eu estava sentindo? Era uma sensação tão boa que eu faria de tudo pra sentir mais. Acho que chamam isso de liberdade. Pelo menos foi o que o Nathaniel falou. Me sentia que nem aquelas crianças que moravam no mesmo condomínio que minha avó. Estava correndo descalça no meio das crianças. Meu cabelo estava desgrenhado. E eu não parecia nem um pouco com aquela garota que sempre esperava ter permissão antes de fazer algo.

Estava brincando de pique bandeirinha. Acho que dava para contar nos dedos a quantidade de vezes que brinquei disso quando era criança. Não tinha o costume de correr descalça pela rua. Não tive uma infância normal. Eu não era uma criança normal.

Meu time estava massacrando o time do Nathaniel. As meninas não tinham piedade dos meninos. Elas jogavam pra ganhar. Estava me divertindo horrores. Será que tinha como congelar esse momento e revivê-lo outras vezes?

Depois de bastante tempo jogando, tempo esse que passou voando sentei no chão de paralelepípedos exausta. Nathaniel repetiu o mesmo gesto que eu. Ficamos tentando recuperar o fôlego, até que vejo minha avó. Engulo em seco imaginando o esporro que iria tomar.

— Anna Júlia, o quê significa isso? — minha avó me olhava assustada.

— Estava brincando com as crianças daqui do condomínio e com o Nate.

— Percebi… Você está imunda.

— Eu sei… — falei e comecei a rir.

— Vamos pra casa agora, você precisa tomar um banho.

— Mas eu tô com o Nate agora, daqui a pouco eu vou pra casa.

— Não senhora, você vai agora. — minha avó foi ríspida. — Creio que o Nathaniel não vá se importar, certo?

— Não senhora, eu não vou me importar.

— Ótimo mais tarde ela te liga, Nathaniel. Vamos Anna Júlia, temos que conversar assim que chegar em casa e você tomar um banho e colocar uma roupa limpa.

— Tá bom. Vamos.

— Tchau, AJ.

— Tchau, Nate. Mais tarde falo contigo.

Fui andando para casa contrariada. Minha avó atrapalhou a minha diversão. Isso não é uma novidade. Ela sempre faz isso. É impressionante. Vamos ver o que ela quer assim que chegar em casa. Aposto que lá vem mais um assunto extremamente desgastante.

Entrei em casa e subi direto para o meu quarto. Peguei a primeira roupa confortável que avistei. Uma calça de moletom cinza e uma blusa branca, além das roupas intimas. Entrei no banheiro e me olhei no espelho. Realmente eu estava com uma aparência terrível. Meus pés estavam negros e eu estava toda soada e com o cabelos desgrenhados. Tirei a minha roupa e fui tomar o meu banho. Banho gelado, só assim para conseguir me refrescar com esse calor insuportável.

# Narração Anna Júlia (OFF):

# Narração Angela (ON):

Durante todo o caminho de casa pensei em como contaria essa notícia para minha neta. Repeti essa cena milhões de vezes e cada vez a reação dela parecia piorar. Parece loucura decidir isso assim de uma hora para outra, mas no fundo isso vai render bons frutos. Cedo ou tarde isso aconteceria. Eu sou daquelas que prefere cedo. É horrível ficar adiando os problemas.

Quando cheguei no condomínio presenciei uma cena incomum. Minha neta correndo descalça pela rua e com os cabelos desgrenhados. Não conseguia me lembrar de outras vezes que já a tinha visto dessa maneira. Se fosse em outro momento eu não repudiaria tanto essa cena, eu ficaria feliz. Repudiei esse momento, por ele ser extremamente inoportuno. Minha neta iria para outro lugar, ela não podia se apegar ao lugar e as pessoas, não nesse momento. Eu ficaria feliz se isso tivesse ocorrendo em outra época, até porque consigo constatar a sua mudança. Ela está mais leve e feliz. Não parece a mesma menina de alguns meses atrás.

Me aproximei quando vi que ela tinha sido dominada pela exaustão e a chamei. Confesso que fui um pouco ríspida, perguntando o que era aquilo. Mandei que ela viesse para casa comigo, ela estava imunda. Ela tentou contrariar a minha ordem alegando que ela estava conversando com Nathaniel. Sabia que ele não iria se importar se ela fosse para casa naquele momento, ele saberia que era algo importante. Ele entenderia porque é um bom menino. Ele teve uma boa criação e sabia como as coisas funcionavam.

Chegamos em casa e eu fui direto para o escritório. Anna Júlia subiu direto para o seu quarto. Enquanto a esperava resolvi tomar um chá de camomila para acalmar os nervos.

Depois de um certo tempo a porta do escritório é aberta e lá está a minha neta vestida com uma calça de moletom cinza e uma blusa branca.

— O que era tão importante que não podia esperar para ser falado mais tarde? — minha neta estava apática.

— Sente-se. — falei cordialmente.

— Não tô com vontade.

— Acho melhor você se sentar. O que eu tenho para te falar é um pouco impactante.

— Se você diz… — ela puxou a cadeira e se sentou.

— Vou ser direta, pois tanto você e eu odiamos rodeios. Você embarcará para Londres o mais breve possível.

— Como assim? — Anna Júlia arregalou os olhos âmbar.

— Você vai morar com a sua mãe. — disse friamente.

— Isso só pode ser sacanagem! Não é possível que isso seja sério! Vocês são loucos acham que podem ficar me jogando pra lá e pra cá. EU NÃO VOU PARA LONDRES, PRINCIPALMENTE COM ESSA MULHER! — minha neta puxava seus cabelos castanhos e e gritava. Ela estava surtando. Já imaginava que isso iria acontecer.

— Ela é sua mãe, Anna Júlia Konkovic! Você tem que passar um tempo com ela. Ela tem esse direito.

— Não tem não! Ela perdeu esse direito quando ela se foi e me abandonou!

— Mas ela está tentando consertar as coisas. Ela que teve a ideia de passar mais tempo com você.

— Consertar as coisas. — ela riu. — Ela tinha que estar tomando um remédio tarja preta quando ela teve essa ideia de merda. Eu não vou ficar com ela!

— Você vai sim e isso já está decidido! Sua mãe parte em cinco dias, na verdade ela quer voltar o quanto antes. Arrume a sua mala.

— Eu não acredito que isso tá acontecendo. — ela me olhava chocada.

— Um dia você vai me agradecer isso.

— Só no dia que vacas voarem. Então eu não contaria muito com isso.

— Você pode acabar se surpreendendo. Eu faço isso porque é o melhor para você.

— Você sempre dá essa desculpa. Que previsível, dona Angela Konkovic.

Ela se levantou as e me deu as costas. Antes dela sair da sala ela olhou pra mim uma última vez. Era um olhar frio e calculista.

— Eu vou fazer a vida dela um inferno. Ela vai se arrepender de ter tido essa ideia. — Anna Júlia saiu do escritório e bateu a porta.

— Eu sei que você vai. — a respondi baixinho, mas ela não escutou porque já tinha saído. Eu sabia que ela iria cumprir as suas palavras.

No final a minha conversa com a minha neta não tinha sido tão desgastante quanto imaginava. Anna Júlia possuía um gênio forte, sabia que ela tinha percebido que não tinha como mudar essa decisão, então ela enxergou o lado bom daquilo tudo. O lado bom para ela é claro. Sabemos que isso não significa que seja o lado bom para todos.

# Narração Angela (OFF):

# Narração Miguel (ON):

Estava na casa da Larissa. Conheço a planta desse lugar de cabeça, afinal já estive aqui muitas vezes. Tenho boas lembranças dessa casa. A maioria delas envolvem diretamente Anna Júlia. Eu fui um babaca com ela no fim das contas. Traí, menti e acima de tudo não aceitei a perda. Eu continuo sendo um babaca, pois ainda não aceito a perda e ainda falo que sem mim ela não fica.

Nas minhas lembranças essa casa sempre foi mais alegre, agora ela anda tão fria. Deve ser por isso que Jennifer não passa mais tanto tempo aqui. Miriam e Larissa soltam risinhos baixos pela casa. Até parece que vai acontecer alguma coisa.

Me pego parado em frente a porta do antigo quarto de Anna Júlia. Aquele ainda era o quarto dela, ainda tinha as suas coisas. Não sabia o estado que estava o cômodo, nem tinha coragem o suficiente de abrir a porta e descobrir. Não queria entrar e ser abatido por todas as lembranças, mas ao mesmo tempo ironicamente queria abrir a porta. Sabia que encontraria um pedaço dela ali dentro. Um não, mas sim infinitos pedaços.

— Miguel, o que você está fazendo aí? — Larissa perguntou.

— Estava te procurando. — tentei dar a resposta que ela queria ouvir.

— No quarto da Anna Júlia?

— Desculpa. Eu estava distraído, não tinha percebido que estava indo para o quarto errado.

— Eu não acredito em você. — ela me olhou e soltou um sorriso debochado. — É impressionante como ela sempre tá atrapalhando, ela tá sempre no meu caminho. Fala logo o que você queria no quarto dela.

— Queria ver se o exemplar de “Anjos de Demônios” estava aqui. Ela falou uma vez que me emprestaria, que era só eu vir buscar. — tentei ser o mais convincente possível

— Desde quando você gosta de ler? — ela arqueou a sobrancelha e cruzou os braços.

— Desde sempre, até parece que você não me conhece. — retruquei parecendo levemente irritado com essa conversa sem sentido.

— Desculpa, meu amor. Eu esqueci. Você realmente gosta de ler, quem não gosta é o Caio. Enfim, eu acho que não deve estar aí o livro, ela levou quase tudo pra casa da avó dela. E se não levou, ela deve levar agora que vai pra Londres. — Larissa sorria como se tivesse vencido a guerra depois de falar a palavra “Londres”.

— Londres? — não conseguia digerir aquela informação.

— Isso mesmo. Londres. Ela viaja em menos de uma semana. Isso não é sensacional?

— Acho que sim… — falei com o meu estômago embrulhado. — ... Eu tenho que ir… Prometi a minha mãe que não chegaria tarde.

Desci as escadas do apartamento atordoado e fui em direção ao elevador. O que estava acontecendo? Por que ela iria para Londres? O elevador chegou e eu entrei me arrastando nele. Minha mente estava a mil, mas meu corpo não correspondia. Parecia que eu estava me movendo em câmera lenta.

Cheguei no hall do prédio e me sentei no chão. Nunca me imaginaria nessa cena.

Peguei o meu celular e num movimento involuntário disquei o número de Anna Júlia. Ainda sabia o número dela de cabeça. Apertei o botão para chamar e fiquei aguardando ela atender. O telefone não chamou três, mas sim sete vezes antes de cair na caixa postal. “Oi, é a Anna Júlia. Você já sabe o que fazer depois do sinal. Beijinhos.” Olhei para o display do meu celular e finalizei a ligação antes de deixar o meu recado.

Liguei mais três vezes e mais uma vez todas as ligações caíram na caixa postal. Estava na quinta tentativa quase perdendo as esperanças, quando ela finalmente atende o celular.

— O que você quer, Miguel? — sua voz estava arrastada como se ela tivesse chorado.

— Tá tudo bem, Anna? — fiquei mais preocupado quando percebi que ela esteve chorando.

— Não te interessa. — ela não quis me responder e foi grossa.

— Valeu, grossa. — tentei quebrar o climão que tinha se instaurado.

— Não precisa agradecer.

— Eu sei… Eu mereci.

— Ainda bem que você sabe. Fala logo o que você quer.

— Eu tô preocupado com você. — fui sincero.

— Na boa você não desiste?

— De você? Nunca. — não dava pra desistir dela, sabia que tinha sido o pior cara do mundo e ela nunca iria me perdoar, mas quem sabe a amizade dela eu ainda tinha chance de ter.

— Você é um maluco obcecado por mim. — sinceramente eu talvez fosse mesmo.

— Devo ser… Pelo menos esse maluco tá conseguindo a sua atenção por mais de cinco minutos e fez você parar de chorar.

— Quem disse que eu tava chorando? — ela gaguejou.

— Eu te conheço. Anos de convivência. Eu sei até o motivo do choro. É por isso que eu tô te ligando.

— Sabe?

— Você vai pra Londres. — fui direto.

— Como você descobriu?

— A Larissa me contou. Não vou mentir, ela estava muito feliz por causa disso. Só pela felicidade dela e da Miriam deu pra sacar que a decisão não tinha partido de você. O mais louco disso tudo é que assim que eu fiquei sabendo eu só pensei em te ligar e saber se você estava bem. Saí correndo daquela casa e agora tô sentada no hall do teu antigo prédio falando com você.

— Cena meio difícil de acreditar, mas por incrível que pareça eu acredito em você. Realmente você acertou, tô sendo obrigada a ir pra Londres.

— Você vai quando?

— O mais breve possível. Meu prazo máximo é daqui a cinco dias contando com hoje.

— Você não contou pra ninguém né?

— Não, até porque eu não tive tempo. Ainda tô digerindo essa notícia. E sinceramente eu não vou contar. Odeio despedidas.

— Eu guardo o seu segredo.

— Por que você faria isso, Miguel?

— Porque eu respeito a sua decisão. Na verdade eu entendo porque você não vai contar pra ninguém. Ia ser muito complicado.

— Complicado demais…

— Tô indo para aí. Você não pode ficar sozinha.

— Tá maluco? Você não pode fazer isso. Esqueceu que você quer acabar comigo e eu te odeio.

— Por hoje vamos esquecer isso. Pelos velhos tempos. Depois podemos voltar a nos odiar. Eu tô saindo daqui. Me encontra na pracinha do teu condomínio.

— Tá bom em 15 minutos eu tô saindo de casa.

Finalizamos a chamada e me levantei num pulo. Dessa vez o meu corpo correspondeu. Fui correndo até o carro. Agradecia mentalmente por ter vindo de carro, apesar do meu condomínio ser quase do lado do condomínio de Larissa.

Nesse momento eu desejava que Anna Júlia nunca tivesse se mudado, porque nesse momento eu já estaria com ela. Na verdade se ela não tivesse se mudado eu duvido que ela teria encontrado com a mãe dela e teria que ir pra Londres essa hora. Provavelmente eu ainda estaria com ela.

Se meu pai me visse desejando isso ele somente me falaria uma coisa. “Não fique mais imaginando. Não fique pensando no que aconteceu, no que não aconteceu, senão vai ter mil passados, e nenhum futuro.” Talvez ele esteja certo, mas eu não conseguia evitar os meus desejos.

Dirigia perdido em milhões de pensamentos. Ela me disse que em 15 minutos ela iria sair de casa. Geralmente se leva de 20 a 30 minutos para chegar aonde ela mora. Tinha que chegar o mais rápido possível. Sabia que estava sendo imprudente, que poderia sofrer um acidente, afinal eu estava cortando todos os carros e estava correndo. O limite de velocidade era 80 km/h e eu estava a 120 km/h. O carro ainda não tinha sido emplacado, então não precisava me preocupar com os radares.

O rádio estava no último volume, mas eu não escutava a música que estava tocando. Precisava focar em algo. Estava correndo demais. O velocímetro beirava aos 150 km/h. Isso era muito acima da velocidade permitida. Quando me toquei disso voltei aos 120 km/h, não conseguiria andar mais devagar que isso. Me forcei a saber que música estava tocando na rádio. Não sabia dizer se era sorte ou não, mas tocava uma das minhas músicas favoritas, “Find You” do DJ e produtor Zedd.

Silent love is calling faith / Amor silencioso está chamando fé

To shatter me through your hallways / Para me destruir pelo seu caminho

Into echoes you can feel / Em ecos que você pode sentir

And rehearse the way you heal / E ensaiar a forma que você cura

Make them dance / Faça-os dançar

Just like you / Assim como você

'Cause you make me move / Porque você me faz mexer

Yeah, you always make me go / Sim, você sempre me faz dar um passo

I'll run away with your foot steps / Vou fugir com as suas pegadas

I'll build a city that dreams for two / Vou construir uma cidade que sonha por dois

And if you lose yourself / E se você se perder

I will find you / Eu vou encontrar você

High on words / Palavras ásperas

We almost used / Nós quase usamos

We're fireworks with a wet fuse / Somos fogos de artifício com o fusível molhado

Flying planes with paper wheels / Aviões com rodas de papel

To the same achilles heels / Com o mesmo calcanhar de Aquiles

Make them dance / Faça-os dançar

Just like you / Assim como você

'Cause you make me move / Porque você me faz mexer

Yeah, you always make me go / Sim, você sempre me faz dar um passo

I'll run away with your foot steps / Vou fugir com as suas pegadas

I'll build a city that dreams for two / Vou construir uma cidade que sonha por dois

And if you lose yourself / E se você se perder

I will find you / Eu vou encontrar você

Consegui chegar no condomínio antes da música acabar. Estacionei do lado da praça sem dificuldades. Desliguei o rádio, o carro e desci dele. Ativei o alarme do carro, mesmo sabendo que nada aconteceria ali, mas já era costume.

A avistei sentada no balanço olhando para as estrelas. Essa era uma das poucas vezes que eu estava a vendo num estilo mais casual e informal. Fui chegando mais perto dela. Era incrível como ela estava linda, mesmo estando vestida de calça de moletom cinza e blusa branca. Não consegui deixar de reparar que ela usava o bracelete que tinha dado pra ela no Natal. Fiquei feliz por isso.

— Chegou tem muito tempo? — esperava que ela não estivesse me esperando por muito tempo.

— Na verdade não. Deve ter uns 5 minutos. — ela me olhou, mas logo voltou a olhar para o céu. — Você chegou rápido. Aposto que veio correndo.

— Você me conhece bem. Se a gente tivesse apostado uma grana eu teria perdido. Eu afundei o pé no acelerador pra chegar aqui o mais rápido possível.

— Isso é culpa dos muitos anos de convivência. — ela respondeu enquanto continuava olhando para o céu.

— Verdade. Mas mesmo assim em todos esses anos eu nunca a vi vestida dessa maneira muitas vezes. — retruquei tentando fazer ela voltar a olhar para mim.

— Não estava muito na onda de me produzir.

— Nem precisa. Você continua linda.

— Puxar o meu saco e nem babar o meu ovo não vai fazer o meu humor melhorar.

— Não puxo o saco de ninguém e muito menos babo ovo de alguém. — falei levemente irritado.

— Tá bom, senhor irritadinho.

— Vamos começar com os apelidos fofos?

— Talvez. — ela respondeu indiferente.

— Se for pra alegrar os seus últimos momentos aqui, eu aceito todos os apelidos.

— Você sabe que não precisava fazer isso. Eu podia ficar sozinha. — ela olhou no fundo dos meus olhos, sabia que ela estava tentando me convencer.

— Não podia não. Hoje não. Você ia acabar fazendo alguma cagada.

— Que mentira. Você falando assim até parece que só faço merda. — Anna Júlia colocou as mãos no peito tentando insinuar que estava ofendida, mas sabíamos que era só teatro porque ela deu um riso levo no final.

— Não quis dizer isso, mas no fundo isso meio que se aplica a realidade. Na verdade eu estava tentando dizer que você tentaria reverter a decisão que foi imposta de um jeito explosivo.

— Não tem como reverter isso. Na verdade as minhas malas estão prontas. Não estou levando muita coisa. Acho que vou amanhã mesmo pra Londres.

— Duvido que você não vá fazer nada. — ela iria tocar o terror em Londres.

— Eu também duvidaria se fosse você. — Anna Júlia riu. — Sabemos muito bem que a minha estadia em Londres vai ser divertida. — ela me falando isso só me confirmou o que eu já sabia.

— Já sabe quanto tempo você vai ficar? — estava curioso.

— Não me falaram, mas te garanto que não vai ser muito. Vou enlouquecer a minha progenitora e quem sabe botar fogo na casa. Ela vai ter que me mandar de volta.

— Então não demore muito pra fazer isso. As férias de verão estão acabando.

— Não vou deixar de cursar o meu último ano com a galera. Ela não vai me privar disso. Depois da formatura, que se dane.

— Os seus amigos sentirão a sua falta. — falei o óbvio.

— Eu sei, mas não posso contar pra eles. Vai ser mais difícil ir. — seus olhos nublaram.

— Por isso eu vou guardar o seu segredo.

Ficamos em silêncio e Anna Júlia voltou a observar o céu estrelado. Ela realmente tinha fascínio pelas estrelas.

Era interessante observá-la vendo as estrelas. Parecia que ela estava tentando achar a solução dos seus problemas nela. A resposta para as perguntas que não conseguia responder. A força para seguir e fazer o que tinha que fazer.

— Por que você olha tanto para as estrelas, AJ?

— Até você vai ficar me chamando de AJ?

— Até parece que eu não te chamava assim as vezes. E você não respondeu a minha pergunta.

— Até parece que você não sabe a resposta, mas vou responder mesmo assim, eu gosto das estrelas porque elas brilham no meio da escuridão. Na verdade têm vários motivos, mas esse é o mais fácil de explicar.

— Por isso que você gostou tanto do bracelete que te presenteei no Natal.

— Isso mesmo, você acertou em cheio.

— Você sabe que vai faltar um pedaço desse céu estrelado quando você for né?

— Como assim? — tinha atiçado a sua curiosidade.

— Você involuntariamente vai acabar levando um pedaço dele com você. Não tem como impedir. Vai ter um buraco no céu a partir de amanhã.

— É impressão minha ou você tentou fazer uma referência a uma das minhas músicas favoritas?

— “Holes in the Sky”? Sim, foi uma tentativa. Agora vou tentar mais uma coisa.

— O quê?

— Canta comigo essa música? Eu tenho ela aqui no celular.

— Canto sim.

Peguei o meu celular e coloquei no player. Não demorei para achar a música. Logo a melodia suave começou a tocar. Quando o vocal começou, Anna Júlia acompanhou perfeitamente.

Arms to the ground, far from the river / Braços para o chão, longe do rio

Grace in our tears, high on a fever / Graça em nossas lágrimas, no alto de uma febre

Somebody heal me from my pain / Alguém me cura da minha dor

I'm reaching closer / Eu estou alcançando mais perto

And stars dive on earth / E estrelas mergulham na terra

Feeling up, lost in memories / Sentindo -se, perdido em memórias

Quando começou o refrão comecei a cantar também. Tinha feito a proposta de cantarmos juntos, mas eu só a estava observando. Ela soltou um sorriso leve quando percebeu que eu finalmente a estava acompanhando.

Holes in the sky / Buracos no céu

Pierced by the fire / Perfurado pelo fogo

Somebody tell me this is real / Alguém me diga que isso é real

Hands to the sky, I am a dreamer / Mãos para o céu, eu sou um sonhador

We build our hope, we are believers / Nós construímos a nossa esperança, somos crentes

Somebody free me from my chains / Alguém me liberte destas correntes

I'm reaching closer / Estou me aproximando

My stars dive, no one heard / Minhas estrelas mergulharam, ninguém ouviu

Feeling up, my memories / Me sentindo bem, em minhas memórias

Holes in the sky / Buracos no céu

Pierced by the fire / Perfurado pelo fogo

Somebody pull me from the dark / Alguém me tire dessa escuridão

Arms to the ground, far from the river / Braços para o chão, longe do rio

Somebody heal me from my pain / Alguém me cure dessa dor

Hands to the sky, I am a dreamer / Mãos para o céu, eu sou uma sonhadora

Somebody free me from my chains / Alguém me liberte destas correntes

A música acabou e eu sentia a dor que minha ex-namorada sentia. Ela não queria ir, ela estava despedaçada. É fácíl explicar porque ela está despedaçada, afinal ela tá deixando um pedaço dela com cada pessoa que convive diretamente com ela. Anna Júlia não é aquele tipo de pessoa que as pessoas esquecem fácil. Ela sempre será aquele tipo de pessoa que as pessoas vão fantasiar o que ela realmente está fazendo, já que nem todos vão poder realmente ver o que ela vai fazer. Alguns dos palpites podem ser simples como, fazer compras na quinta avenida, patinar no Central Park, passear com o seu bulldog francês em paris, ou palpites mais fantasiosos como, estar estrelando um musical na Broadway, casando com o próximo príncipe na linha de sucessão. Eu só sei que independente de onde ela estiver, com quem ela estiver, essa menina estará fazendo coisas incríveis.

Nos levantamos do balanço e eu a acompanhei até a porta de casa. Não falamos nada durante o curto caminho. Aquilo era a nossa despedida silenciosa. Era o apropriado para a ocasião. Ela odeia despedidas e eu não queria dizer adeus, ou melhor um até breve, porque eu sei que ela voltaria. Sentiria a sua falta, mas não falaria isso em voz alta. Hoje éramos amigos, mas a partir de amanhã não sei o que seríamos e eu sinceramente não queria descobrir.

# Narração Miguel (OFF):

# Narração Anna Júlia (ON):

Miguel tinha me deixado na porta de casa. Era difícil imaginar passar um tempo do lado dele na atual conjuntura, mas por incrível que pareça, por trás de toda loucura ele ainda é uma pessoa legal. Tenho boas lembranças com ele.

Se ele tinha ficado preocupado com a minha viagem de última hora, não queria imaginar os meus amigos. Eles iriam ter um surto. Esse é o motivo de eu não contar nada.

Quando estou para entrar no meu quarto sou interrompida. Minha avó estava parada na porta do quarto dela.

— Suas malas já estão prontas?

— Sim.

— Está levando tudo que precisa?

— Acho que sim. Não sei quanto tempo vou ficar.

— Clara, conseguiu marcar o voo de vocês para amanhã a tarde.

— Que horas é o voo?

— As 16:00, mas temos que chegar com 2 horas de antecedência no aeroporto.

— Ótimo.

— Você vai avisar aos seus amigos? — minha avó perguntou terna.

— Não. E nem a senhora vai. — fui grossa.

— Mas eles precisam saber. — ela tentou me fazer mudar de ideia.

— E eles vão… mas quando eles descobrirem eu já estarei longe daqui.

Entrei no meu quarto e olhei para as minhas malas no canto. Não estava levando muita coisa para um mudança, tinha planos de voltar o mais rápido possível. De qualquer maneira compraria muita coisa lá, afinal tinha noção de que o meu plano de voltar o mais rápido possível poderia dar errado.

Deitei na minha cama e logo peguei no sono. Minha última noite na minha cama. No meu quarto. As horas passariam voando e elas passaram.

Acordei mais cedo do que eu esperava. Eram 11:00, tinha previsto acordar no mínimo meio dia. Fui começar a me arrumar para ir pro aeroporto. Fiz tudo me arrastando mais que o normal.

Quando estava pronta me olhei no espelho. Minha aparência não estava ruim. Estava melhor do que eu imaginava. Vestia jeans claro com uma blusa braca com as palavras “Fuck it for Chris” em preto, uma bela referência a série britânica “Skins” e por fim meu all star de cano médio vermelho.

Desci as escadas e encontrei meu pai, minha mãe, minha madrasta e minha avó. Que cena ilária. Parei na ponta da escada e comecei a rir. Cadê alguém para acender um fósforo e ver isso tudo pegando fogo.

— Que bom que você desceu, já são 13:00, vamos almoçar e ir pro aeroporto. — meu pai falou.

— Não estou com fome.

— Mas você precisa comer, sweetheart. — Miriam falou.

— Eu preciso que você cale essa boca, não tô afim de fica com dor de cabeça.

— Anna Júlia, que comportamento é esse? — minha mãe me repreendeu.

— Você quer mesmo uma resposta? — debochei.

— Já chega! — minha avó falou irritada. — Vocês parecem crianças!

— Onde estão as suas malas? — meu pai perguntou.

— No quarto.

— Ótimo, eu estou indo pegar junto com o Sr. Matias.

— Você vai mesmo com essa roupa? — Clara perguntou.

— Algum problema com ela? — perguntei.

— Londres é frio, querida. Estamos no inverno.

— Tenho um casaco separado encima da mala. Ele deve dar pro gasto.

Meu pai me obrigou a comer alguma coisa. Ele disse que eu não poderia viajar de estômago vazio. Não estava com vontade de almoçar então comi waffles e tomei uma vitamina de morango.

Assim que terminei de comer fui no banheiro escovar os meus dentes e aproveitei pra dar uma última olhada no meu quarto. Eu voltaria em breve, não ia ter tempo de sentir tanta falta daqui.

Fechei a porta do meu quarto e respirei fundo. Estava na hora.

# Narração Anna Júlia (OFF):

# Narração Melissa (ON):

Estava indo a reuniões com o meu avô desde as 8:00. Uma reunião mais importante que a outra. Agora eles tinham dado uma pausa para o almoço. Não tinha percebido, mas estava faminta. Olhei no relógio e me assustei, já passava das 13:00.

— Minha neta, não precisa me acompanhar nesse almoço.

— Sério?

— Vá almoçar aonde mais lhe agrade. O motorista ficará a sua disposição, já que o meu carro está aqui na empresa.

— Certo.

Fui em direção ao meu restaurante de comida tailandesa favorito na cidade. Não demorei muito para chegar. A empresa ficava perto do local. Eu poderia ter vindo andando, mas com a fome que eu tava, preferi vir de carro.

Entrei no restaurante e me sentei no canto. Era um lugar mais reservado. Fiz o meu pedido. Um Chuchi Goony, que é basicamente um curry vermelho com camarões, legumes, folhas de limão kaffir e arroz.

Enquanto esperava o meu pedido olhava o meu celular. Olhei para o contato de Nathaniel e meu coração dizia que eu tinha que ligar para ele.

Ele não demorou muito pra atender e isso foi ótimo. Queria saber o que tinha acontecido ontem entre ele e Anna Júlia.

— Fala maninha.

— Olá, Nathaniel.

— Como você está?

— Eu tô ótima e você.

— Ando bem também. Fico feliz que você esteja ótima.

— Soube que você foi na casa de Anna ontem. Você e Bernardo. Também soube que ela não foi nada receptiva com vocês. Boatos de que Bernardo voltou pra casa e você ficou.

— Então o Bernardo te contou o que aconteceu ontem?

— Sim, eu falei que se ela quisesse conversar ela ligaria ou até iria na casa dele. Provavelmente ela queria espaço.

— Eu fiquei conversando com ela, relaxa que eu não vou roubar o seu posto. Ela ainda estava chateada por causa da parada da mãe dela. Mas agora ela tá melhor.

— Você nunca roubaria o meu posto, mané. Essa situação com a mãe dele é bem complicada. Resolvi não me meter dessa vez porque sabia que isso poderia piorar tudo. O Lucas quando tentou intervir se machucou legal. Acho que eles ainda não estão se falando. Enfim, fico feliz que você tenha conseguido resolver as coisas e deixá-la melhor.

— Também fico feliz em ter conseguido ajudá-la. Mas ainda estou preocupado.

— Por que? — fiquei curiosa.

— Porque a dona Angela falou que precisava conversar com ela assim que elas chegassem em casa. Parecia ser algo importante. Muito importante.

— Não se preocupe, no fundo não deve ser nada demais. Se fosse algo super bombástico a Anna Júlia teria me ligado. Fique tranquilo. Logo logo a gente descobre o que aconteceu.

— Você está certa. Vou ficar tranquilo.

— Eu sempre estou certa. Nunca se esqueça disso. Tenho que ir, Nathaniel. Minha comida chegou. Depois conversamos e você me conta como é ser escorraçado pela minha melhor amiga. — o provoquei.

— Não vou te contar isso nem nos seus sonhos. Vai lá. Beijos. — ele falou sério.

— Veremos se você vai contar o ou não. Beijos.

Desliguei o celular e fui comer. Admito que fiquei levemente preocupada com o que Nathaniel tinha me falado. O que será que a dona Angela tinha tanta pressa em conversar com a minha amiga. Provavelmente era algo sobre a dona Clara. O assunto deve ser bem delicado e estressante. Acho que a minha amiga conseguirá lidar bem com a situação. Se ela não conseguir ela vai pedir ajuda. Eu espero.

# Narração Melissa (OFF):

# Narração Anna Júlia (ON):

O caminho para o aeroporto foi um saco. Preferi me despedir do meu pai em casa mesmo. Quanto menos gente melhor. Só a minha avó que tinha vindo conosco.

Meu pai me abraçou e falou para eu me comportar. É claro que ele estava segurando a onda. Ele não pode ser um pai normal uma vez na vida. Minha madrasta me abraçou e eu sussurrei no ouvido dela, “eu volto logo pra te infernizar sua vadia”. Não conseguir evitar sorrir no final dessa frase e ela me lançou aquele olhar de “duvido que você volte”.

Estávamos na fila para fazer o check-in e eu só olhava para os lados querendo que isso tudo fosse uma ilusão.

— O que você tanto olha?

— Nada.

— Você está esperando os seus amigos? — ela estava curiosa — Se você estiver posso adiar o nosso voo para mais tarde.

— Eles não vão vir.

— Por que? — ela continuava curiosa.

— Porque eles não sabem. — fui direta.

Fizemos o check-in e logo tinha a minha passagem em mãos. Aquilo era a prova de que tudo não era uma mera ilusão. Despachamos as malas e agora só tínhamos que esperar.

Fomos em direção a ala dos voos internacionais e vejo o meu tio junto com o meu primo e Amanda. Mais que droga.

Minha mãe sorriu quando viu o meu tio. Minha avó me abraçou pelos ombros.

— Não fique com essa cara. Era óbvio que ele ia descobrir que você estava indo viajar. — minha avó falou calmamente.

— Eu sei, mas não o queria aqui.

— Por que? Vocês sempre foram muito próximos.

— Porque a gente brigou. No dia do restaurante. Enfim… isso não importa.

Minha mãe abraçava e beijava o meu tio e o meu primo. Falava que ia sentir a falta deles e que era para eles irem para Londres um dia fazer uma visitinha.

Amanda me fitava de longe e eu a ignorei. Sabia que ela estava tomando as dores de Lucas. Aquilo me irritava. Eles me irritavam, afinal eles sempre achavam que eram os donos na verdade.

Provavelmente ela se cansou de me fitar e ser ignorada e veio falar comigo.

— Vocês precisam se resolver. — ela disse séria.

— E você precisa parar de se meter aonde não é chamada, Mands.

— Eu me preocupo com o Lucas.

— O Luke não precisa de babá. Ele já tá grandinho.

— Você certas horas é pior do que uma criança, Anna Júlia! — ela esbravejou.

— Devo ser mesmo. Mas não me importo. Já te falei e vou repetir. Não se mete aonde não é chamada. Você não tem escrúpulos o suficiente pra aguentar tudo. — fui ríspida.

— Talvez eu tenha, vocês que não conseguem reconhecer isso. — ela retrucou.

— Não. Você não tem. Você mesma já disse que não consegue ser que nem a gente. Não preciso fazer que nem a Mel pra te fazer entender né? Geralmente eu não aprovo os métodos dela, mas passo a compreender melhor porque ela os usa.

— Tá certo. Não vou mais incomodar. Desculpa. — ela abaixou a cabeça.

— Eu te perdoo.

Minha mãe terminou de se despedir do tio Fernando e de Lucas e até da minha avó. Ela abraçou Amanda e me chamou para irmos. Lucas me olhou assustado e agarrou o meu braço. Amanda compartilhava do mesmo olhar assustado de meu primo. Eles não sabiam que eu iria. Meu tio Fernando não tinha contado nada, mas mesmo assim os trouxe.

— Você também vai? — Lucas apertou o meu braço levemente.

— Você tá me machucando. — puxei o meu braço com força.

— Desculpa. Eu não tive a intenção. — seus olhos marejaram.

— Eu sei que não. — disse baixinho.

— Responda a minha pergunta. — Lucas suplicou.

— Eu também vou. Até parece que você não sabia.

— Eu não sabia. Eu juro. É claro que eu achava estranho os três se reunirem, mas não imaginava que era sobre isso. Por favor você não pode ir.

— Não tem mais volta, Luke. Já tá tudo decidido. Não tive escolha. Não esquece de agradecer ao seu pai por mim. Adorei a surpresa. — debochei no final.

Lucas e Amanda me abraçaram e começaram a chorar. Aquilo estava pior do que eu imaginava. Que complicado se afastar de algumas pessoas. Por isso que eu mais uma vez falo que eu não queria que ninguém ficasse sabendo.

— Tenho que ir. — olhei no fundo dos olhos dos dois.

— Me desculpa pelas coisas horríveis que falei, amiga. — Amanda suplicou.

— Já te perdoei, Mands.

— Volta logo, AJ. Nós vamos sentir a sua falta. — Luke falou enquanto chorava.

— Pode deixar. — sorri. — Só quero pedir uma coisa.

— Fala. — os dois falaram ao mesmo tempo.

— Não conta pra ninguém sobre Londres. Não agora. Esperem um tempo. Não quero ninguém triste por causa disso. Finjam que não sabem de nada.

— Tá bom. — eles concordaram juntos.

Os abracei mais uma vez e abracei a minha avó antes de ir. Ela me desejou uma boa viagem. Olhei para a minha mãe e passamos pelo portão.

Caminhamos até o detector de metais e passamos tranquilamente. Encarei o saguão do aeroporto e procurei o nosso portão de embarque. Portão 3. O painel avisava que já podíamos embarcar. 12 horas de voo. Daqui a 12 horas eu estaria numa cidade diferente, num país diferente, com pessoas diferentes. É claro que eu teria alguns rostos conhecidos. Poucos, mas eles existiam.

Parei enfrente ao portão 3 junto com a minha mãe. Estávamos na fila da primeira classe. Suspirei fundo e fechei os olhos.

— Como você está sentindo, Anna Júlia? — minha mãe perguntou e eu a olhei raivosa.

— Você não perguntou em nenhum momento o que eu achava sobre essa viagem. E agora quer saber. Que irônico. Eu não tive poder de escolha. Fui imposta a vir, só me “deixaram” escolher se eu vinha hoje ou em quatro dias. Isso não é justo. — esbravejei.

— Eu não preciso ser justa. Sou sua mãe. — ela foi ríspida.

— Você acha que é fácil ir embora e largar tudo? Não sei porque eu tô perguntando, a resposta deve ser afirmativa, afinal você fez isso há alguns anos. — retruquei irritada.

— É muito difícil ir embora, até você ir embora de fato. E então ir embora se torna simplesmente a coisa mais fácil do mundo. — minha mãe falou calmamente.

Coloquei os meus fones de ouvido e liguei o player. Comecou a tocar “Pieces” do “Sum 41”.

I tried to be perfect / Eu tentei ser perfeito

But nothing was worth it / Mas nada valeu a pena

I don't believe it makes me real / Eu não acredito que isso me faz real

I thought it'd be easy / Eu pensei que seria fácil

But no one believes me / Mas ninguém acredita em mim

I meant all the things I said / Eu quis dizer todas as coisas que disse

If you believed it's in my soul / Se você acreditasse que isso está na minha alma

I'd say all the words that I know / Eu diria todas as palavras que eu conheço

Just to see if it would show / Só pra ver se isso mostraria

That I'm trying to let you know / Que estou tentando deixar você saber

That I'm better off on my own / Que estou melhor sozinho

Entreguei o meu cartão de embarque e fui em direção ao avião. As comissárias de bordo sorriam e davam boa tarde. Eu dava um sorriso mínimo em resposta.

This place is so empty / Este lugar está tão vazio

My thoughts are so tempting / Meus pensamentos são tão tentadores

I don't know how it got so bad / Eu não sei como isso ficou tão ruim

Sometimes it's so crazy / Algumas vezes isso é tão louco

But nothing can save me / Mas nada pode me salvar

But it's the only thing that I have / Mas isso é a única coisa que eu tenho

If you believed it's in my soul / Se você acreditasse que isso está na minha alma

I'd say all the words that I know / Eu diria todas as palavras que eu conheço

Just to see if it would show / Só pra ver se isso mostraria

That I'm trying to let you know / Que estou tentando deixar você saber

That I'm better off on my own / Que estou melhor sozinho

Não demorei para achar a minha poltrona. Sentei e olhei pela janela do avião. Deixei escapar um sorriso melancólico, mas logo voltei a minha cara de indiferente. Fechei os olhos e cantarolei a música. Dizem que quem canta os males espanta né? Eu cantava para não pirar.

I tried to be perfect / Eu tentei ser perfeito

It just wasn't worth it / Isso não valeu a pena

Nothing could ever be so wrong / Nada poderia sair tão errado

It's hard to believe me / É difícil de acreditar em mim

It never gets easy / Isso nunca é fácil

I guess I knew that all along / Eu acho que sabia disso o tempo inteiro

If you believed it's in my soul / Se você acreditasse que isso está na minha alma

I'd say all the words that I know / Eu diria todas as palavras que eu conheço

Just to see if it would show / Só pra ver se isso mostraria

That I'm trying to let you know / Que estou tentando deixar você saber

That I'm better off on my own / Que estou melhor sozinho

O avião decolou e eu só conseguia olhar pela janela. Via a minha cidade ficando cada vez menor. Até o momento que não dava mais para vê-la, somente as nuvens. Segurei as lágrimas. Lágrimas de saudade, raiva, e mais um misto de vários sentimentos. Eu tinha partido e não tinha noção nenhuma de quando iria voltar.

Naquele momento eu me arrependia de não ter contado aos meus amigos, de não ter protelado a arrumar as minhas malas e demorar mais 2 ou 3 dias para viajar, só pra passar mais tempo com eles. Eu só esperava que eles me perdoassem por não falar nada e que não me esquecessem. Afinal eu já não acreditava mais na mentira que eu estava melhor sozinha.


# Narração Anna Júlia (OFF):

Notas finais
Chegamos no fim de mais um capítulo. Espero que tenham gostado. Deixem a sua opinião. Volto em breve. Até o próximo! Beijinhos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.