Notas iniciais
A estrofe inicial é da música Light - Sleeping at Last, super fofa. Estamos nos anos 2021-2022, apenas pra terem uma ideia básica. Aproveitem!! XOXO

'Сause you are loved
You are loved more than you know
I hereby pledge all of my days
To prove it so
Though your heart is far too young to realize
The unimaginable light you hold inside


Quando ligaram do hospital, Yuri estava em Londres.

Ele quase derrubou o celular, mas conseguiu manter a postura e entender o que estava acontecendo. Yuuri falava rápido demais, pra variar. O bebê que era pra chegar em junho viera um mês antes.

E é claro que ele tinha que estar em outro país no dia.

Ele culpava Victor, como muitas outras coisas em sua vida. Seu técnico o convenceu a participar do show de patinação junto com outros patinadores da elite no Reino Unido. E ele fora sozinho porque não precisa de um técnico para ensiná-lo a dançar.

(Na verdade, esse era o trabalho de Yuuri.)

E porque tudo acontece quando ele está ansioso, seu voo atrasou e ele demorou uma hora a mais que o esperado para chegar em São Petersburgo. Foram as quatro horas mais estressantes de sua vida.

Qualquer um no seu lugar teria um autocontrole muito maior. Até parecia que o bebê era seu. Mas ele não podia evitar a animação.

Yuri conhecera Victor há dez anos e Yuuri há sete. Eles eram amigos, muito bons amigos. O casal foi muito influente em seu crescimento e, por mais que odiasse admitir, pareciam pais muito constrangedores. Mas eram pais. Ele não falaria aquilo em voz alta nem se pagassem.

E já que formavam aquela pequena família incomum, era óbvio que Yuri ficaria animado com a chegada de Alexei. Ele que escolheu o nome, aliás. Tinha muito orgulho dessa parte.

Ele estava acabado quando o avião finalmente pousou na Rússia, mas ele não desistiria tão cedo. Se pudesse iria direto ao hospital, mas ele ainda tinha malas para descarregar e algo para buscar em casa.

Yuri levou exatamente uma hora e vinte e sete minutos para pegar um táxi até seu apartamento, jogar as malas sobre o sofá, tomar um banho, pegar o gatinho de pelúcia embrulhado super fofo que ele tinha comprado meses atrás especialmente para a ocasião e entrar no carro esportivo que ele havia comprado com seu dinheiro pouco antes de completar 19. Só aí ele dirigiu pelas ruas de São Petersburgo para conhecer seu novo afilhado.

No caminho ele deixou sua mente divagar. Como seria Alexei? Ele sabia que bebês no geral eram todos iguais, com suas caras vermelhas e enrugadas, mas ele podia sonhar um pouco. A mãe biológica de Alexei era pálida com várias sardas no rosto e cabelo castanho escuro. Ele não se lembrava de seus olhos, mas apostava que eram castanhos também. Poderia esperar por um afilhado com cachinhos escuros, então?

Ele estacionou o carro e praticamente voou para a recepção da clínica. Voou com graça, pois se havia uma coisa que os bicos como modelo o haviam ensinado é que andar de cabeça erguida era fundamental para ser levado a sério. Isso incluía ser atendido rapidamente.

— Boa tarde. — ele disse à recepcionista tentando esconder a respiração ofegante — Onde eu posso ver Alexei Katsuki-Nikiforov? Acredito que ele nasceu hoje pela manhã.

A mulher digitou algo no computador e disse:

— Ele já está com os pais dele, aqui diz. O senhor quem seria?

— Yuri Plisetsky. Eu sou o padrinho. — ele não conseguiu esconder o pequeno sorriso em seus lábios com a última parte e a mulher sorriu também.

— Terceiro andar, quarto 39, Sr. Plisetsky. O elevador é no fim do corredor.

— Obrigado. — ele disse antes de sair a passos rápidos até o dito elevador.

Parecia que estava prestes a entrar no rinque para uma competição. A adrenalina, o frio na barriga, a expectativa. E se Alexei não gostasse dele? Era certamente muito cedo para falar algo do tipo, mas ele estava nervoso. Ele queria tanto que seu irmãozinho gostasse dele.

Irmão. Era engraçada aquela palavra. Quando Victor dissera meses atrás que Yuri seria um irmão mais velho ranzinza, ele achou o termo meloso. Mas ele até se acostumara com a ideia. E quando Yuri dissera acidentalmente que seu irmão não teria um enxoval fora de moda, Yuuri apenas sorriu e disse que não tinha problema. Ele usava o título desde então.

Finalmente encontrara o quarto 39. Respirando fundo, ele bateu a porta esperando uma resposta. A voz abafada de Victor dizendo "Entre" foi o sinal para ele girar a maçaneta.

A primeira coisa que reparou foi como o quarto era grande. Deveria ser metade de seu flat. Afinal, estávamos falando de Victor Nikiforov e ele não economizava quando o assunto era família.

Só então ele reparou em Yuuri numa poltrona com um bolo de cobertores nos braços e Victor ao seu lado.

— Yura. — o japonês parecia ligeiramente surpreso com a presença do mais novo — Pensamos que só viria amanhã.

— Tsk. Como se eu fosse esperar um dia inteiro depois daquela ligação. — era uma fala condizente com sua personalidade, mas não havia a acidez característica na voz. Seus olhos estavam focados nos braços de Yuuri — Como ele está?

— Dormiu há pouco tempo. — Victor respondeu com um sorriso — Mas ele estava bem acordado antes. Gosta de gritar. Acho que puxou você, Yurio.

O loiro ignorou a provocação e chegou mais perto. Haviam colocado uma roupa amarela em Alexei e Yuri agradecia por terem ouvido sua opinião e descartado a cor azul. Ele tinha a cara rosada, alguns fios de cabelo e dormia encolhido contra o peito de Yuuri.

— É tão pequeno. — foi a primeira coisa que pensou e disse.

— Sim, os médicos disseram que por ele ser um pouco prematuro terá que ficar mais alguns dias em observação. — Yuuri disse em voz baixa — Mas ficará tudo bem. Alyosha é um menino forte.

Ele assentiu olhando para o mais novo da sala com um sorriso. Alyosha era tão fofo, ele queria apertá-lo e ao mesmo tempo protegê-lo de todos os males do mundo. Ugh, ele estava parecendo Victor agora.

E falando em Victor, o mesmo interrompeu seus pensamentos perguntando:

— Você quer segurá-lo, Yurio?

Yuri apenas levantou o olhar e assentiu hesitante. Ele não era estúpido, aprendera acidentalmente como segurar um bebê quando um dos gêmeos de Leroy foi parar em seus braços ano passado. Mas Alexei parecia tão frágil, a impressão que tinha era de que qualquer movimento podia machucá-lo.

Yuuri se levantou com cuidado da poltrona e indicou com a cabeça para ele se sentar. Quando o fez, Katsuki ajeitou Alexei em seus braços de modo que os dois ficassem confortáveis.

— Ei, Alex, esse é o Yura. Ele é um gatinho raivoso, mas com um grande coração. É também o seu padrinho. — Victor disse apenas para irritar o loiro.

— Está estragando o meu momento. — Yuri murmurou, mas acabou sorrindo para o bebê em seus braços — Oi, Alyosha. Seu pai velhote é um estúpido, ignore.

— Hey!

— Shh. Vocês vão acordá-lo. — Yuuri disse tentando manter uma postura séria. Leia-se: tentando — O que acha de seu irmãozinho, Yuri?

Ele é muito fofo, foi o que ele queria responder, mas Alexei era mais. Ele era uma coisinha maravilhosa que conseguira conquistar Yuri em menos de quinze minutos. Ele sequer abrira os olhos! Plisetsky estava ficando sentimental e Otabek certamente riria dele por isso.

— Enganaram vocês. — Yuri disse tentando esconder a voz embargada — Isso não é um bebê, é um feijão rosa que cresceu demais.

— Oh, Yura, você está chorando?

— Eu não estou! — ele disse enquanto sua visão embaçava completamente — É só que... É um bebê muito feio e isso me deixa triste.

— Awn, Yuuri, acho que ele está com ciúmes. — Victor disse com aquele sorriso idiota dele — Não fique assim, Yura, você sempre será nosso bebê n° 1.

— Victor, vai se...

— Yuri, — o japonês disse sério — não na frente de Alexei. Ele nem completou 24 horas de nascido.

— E eu tenho que aguentar o velho por dez anos. — ele suspirou, voltando a olhar para o embrulho em seus braços com um pequeno sorriso — Fico feliz por te conhecer, Alyosha. Acho que nós vamos nos dar bem.

Ele sentia isso em seu coração. Ele e Alexei tinham um destino juntos: como irmãos.

Ele mal podia esperar pra vê-lo patinando.



— Posso entrar no gelo com ele? — Yuri perguntou com um sorriso — Seria legal ele ver um triple axel de perto.

— Yuri, nem pense. — Yuuri disse praticamente tomando o bebê de seus braços — Vamos, eu preciso ver suas transições e sequência de passos.

Quando Yuri tinha 19, Yakov se aposentou e Victor se tornou seu técnico, assim como de Mila e outros patinadores do rinque. No ano seguinte, Yuuri se aposentara e se tornara seu instrutor de dança, ajudando com a parte artística das coreografias. E aos quatro meses, Alexei viera ao rinque pela primeira vez para vê-lo treinando.

Na verdade, Victor estava ocupado organizando alguns documentos para a próxima viagem e Yuuri era o único dos dois que podia trabalhar com um bebê no colo.

Yuri ao menos podia fingir que era uma ocasião especial.

— Posso fazer um salto pra ele ver? — ele disse já no gelo — Nada muito elaborado.

Yuuri suspirou, mas assentiu.

— Um salto apenas. Precisamos nos apressar com esses treinos já que eu não vou com você para as competições.

Yuri assentiu e voltou-se para o mais novo.

— Preste atenção, Alyosha. É o primeiro de muitos saltos que você verá.

O loiro quis acreditar que ele estava prestando atenção em si, pois ele não desviou o olhar como a maioria dos bebês faz.

— Olha como Yuri patina, Alyosha. — Yuuri disse com um sorriso — Será que você vai gostar de patinar também?

Yuri deu algumas voltas pelo gelo antes de se preparara para um salto. Ganhando velocidade, checando a distância, ele deu o impulso num quad flip. Porque obviamente ele não faria um salto qualquer. A aterrissagem foi instável, mas ele ainda conseguiu sair em pé tocando o chão.

— Yura, você não devia treinar quads! — Yuuri ralhou do outro lado do rinque — Victor vai achar que eu não tenho pulso firme com você.

— Katsudon, você é o juízo coletivo da família. Seu pulso é o mais firme nessa equipe. — ele afastou a franja dos olhos e se dirigiu à beira do rinque — O que ele achou?

— Nada demais. Acho que ele ainda não se interessa pelo gelo. — Yuuri disse segurando a risada com a careta do loiro.

— Alexei Victorovich, você é um traidor. — ele dramaticamente apontou um dedo para o bebê, que apenas riu — Não conte mais comigo para ligar aqueles brinquedos estranhos da Fisherprice.

— Oh, Yura, não seja tão mau. — Yuuri disse ajeitando o fino cabelo castanho de Alexei — Agora, a sequência de passos.

Yuuri era um técnico cruel.



— Olha, Beka. Me diz se não é o afilhado mais fofo e legal que você já viu. — Yuri disse numa chamada de vídeo pelo celular para seu melhor amigo. Alexei estava em seu colo mastigando um brinquedo de borracha com forma de polvo.

— Ele é realmente muito fofo. — Otabek disse com um sorriso — A babá dele também.

Yuri colocou o bebê novamente no chão junto com os outros brinquedos, assim tinha uma razão para esconder o rosto que estava ligeiramente mais vermelho.

Ele não tinha certeza de quando isso começou, mas Otabek agora dizia algumas coisas que soavam... estranhas, apesar de essa não ser a palavra. Não sabia o que o mais velho queria com isso, mas ele não seria o idiota que começaria a ter ideias.

— Yuuri e Victor precisavam sair e eu me ofereci para cuidar de Alyosha. Assim eu tenho uma desculpa para procrastinar a minha dissertação de História da Moda. — ele disse sentando-se no chão.

— É interessante te ver cuidando de crianças. Não achei que você tivesse paciência.

— Estamos falando do meu afilhado, Altin. — ele disse quase ofendido com a insinuação — E ao contrário de certas pessoas, eu sou um universitário comum que aceita qualquer trabalho de meio-período para pagar as contas no fim do mês. Não sou um badboy com motorista particular.

— Eu não tenho um motorista particular. — Otabek suspirou — Então Victor e Yuuri estão te pagando para tomar conta de Alexei?

— É, eu não consegui convencê-los do contrário. — ele revirou os olhos — Se eu tivesse recusado, eles demorariam mais para ir embora e pagariam alguma velha com cheiro de naftalina para o serviço. Isso traumatiza qualquer bebê.

— Você quer ter filhos, Yuri? — Otabek perguntou curioso.

Era uma pergunta que ele já se fizera muitas vezes, mas nunca tinha uma resposta definitiva. Para ter filhos era preciso uma esposa ou marido, já que Yuri estava mais inclinado para esse lado. Ele não via problemas com adoção, mas era tanta coisa a considerar. Ele não se imaginava casando com alguém. Sua lista de relacionamentos sempre fora muito curta por causa da patinação. E ele só conseguia se ver longe do esporte dali a dez anos.

— Acho que sim. — ele acabou respondendo — Mas só de ver Yuuri e Victor após cinco meses eu começo a pensar melhor. É sério, eles parecem mortos. Talvez eu fique melhor como uma babá, é mais fácil.

— Sério? — o moreno arqueou uma sobrancelha — Yura, eu sou o mais velho de três irmãos e oito primos. Cuidar de crianças não é fácil.


— Meu Alyosha é um anjinho, ok? Ele não... Não, Alyosha, isso não é pra ir na boca. — Yuri disse afastando o celular para salvar o controle do blu-ray, tudo isso enquanto Otabek ria a quilômetros de distância.

Às vezes, ele é um péssimo melhor amigo.



Uma das atividades favoritas de Victor era usar Yuri como um carregador gratuito de bebês.

O mais velho dizia que carrinhos eram pouco práticos e não se podia vigiar Alexei toda hora. Mas como fazer compras no shopping sem um carrinho e um marido? Exatamente, use seu aluno que por acaso é o padrinho de seu filho.

Yuri não se incomodava, na maior parte das vezes. O treinamento de um atleta lhe dera resistência o suficiente para andar por horas com uma criança no colo.

Mas baby slings eram um desastre da moda e ele fazia questão de mencionar isso toda vez que saíam.

— É péssimo, velho. — ele disse emburrado, apontando para o tecido preto que segurava Alexei contra seu peito — Não combina com nada no meu guarda-roupa e eu pareço um canguru. Você devia me ouvir, eu estudo Moda.

— Mas é fofo! — Victor disse pela décima vez naquela tarde — E diminui a pressão na coluna quando carrega o bebê. E eu tenho certeza que a nova moda será punks com essas pequenas pessoinhas, os meninos não te deixarão em paz.

— Claro, um cara usando um baby sling é muito sexy. Chamem os bombeiros. — ele murmurou revirando os olhos. Olhando para o menino em seus braços, ele fez uma careta — Ele tá babando. Ainda tem aqueles lenços umedecidos com você?

— Você usou o último deles com o sorvete há quinze minutos. — Victor sorriu — Terá que se contentar com a fralda.

— A fralda já está babada, Victor. — Yuri disse entredentes. Alex podia ser fofo, mas qualquer coisa com saliva dava arrepios no loiro.

— Awn, Yurio, você está indo muito bem assim. É um ótimo irmão mais velho. — se Victor não estivesse com tantas sacolas de compras, ele teria dado tapinhas em seu ombro — Oh, essa loja é ótima.

Assim eles entraram no quinto estabelecimento com preços inacessíveis para o mortal comum, mas apenas perfeito para a lenda aposentada Victor Nikiforov. Não eram roupas ruins, mas Yuri preferia algo menos formal e chamativo.

Uma atendente veio rapidamente em seu auxílio e Victor começou a escolher entre uma infinidade de camisas e acessórios, vez ou outra pedindo a opinião de Yuri sobre uma combinação específica, e o loiro fazia o possível para dar uma opinião mais construtiva que "Suas roupas são mais extravagantes que a minha árvore de Natal".

Em algum momento a atendente dissera com um sorriso:

— É tão bonito ver uma família fazendo compras juntos. O bebê de vocês é lindo.

Yuri virou o rosto tão rápido que por um momento pensou ter quebrado algo, mas o desgosto em sua expressão era maior que qualquer preocupação com ossos deslocados.

— Nós não estamos juntos! — ele disse com o rosto corado — Alex não é meu filho!

— É, na verdade, os dois são meus bebês! — Victor disse com um sorriso constrangido, como se aquela confusão acontecesse todos os dias — A diferença de idade é bem grande e eu sou um pai jovem, então as pessoas se enganam facilmente.

Yuri mandou seu melhor olhar ameaçador para o mais velho, o que era difícil de fazer com um garoto hiperativo no colo.

— Oh, me desculpe! — a mulher se redimiu o mais rápido possível — Nesse caso, o senhor tem filhos adoráveis. É muito difícil ver irmãos que cuidam dos mais novos assim.

— Sim, meu Yurachka é um irmão muito cuidadoso. Ele é uma graça ajudando o velho pai dele a fazer compras. — agora Victor teve a audácia de colocar um braço ao redor de seu ombro e sorrir alegremente para a desconhecida. Yuri queria chutá-lo.

Quando eles finalmente saíram da loja com pelo menos mais duas sacolas, Yuri disse irritado:

— "Os dois são meus bebês"? Sério, Victor? Por acaso tá escrito "cria de Nikiforov" na minha testa?

— Era uma explicação mais curta que "Ele é um patinador que eu treino e conheço desde criança, também é o padrinho do meu filho e às vezes parece que ele é meu filho também, mesmo sendo muito chato". — ele disse com aquele olhar presunçoso de quem sabia que estava certo — Acho que depois dessa você merece um presente. Vamos, aquela loja que você gosta é por aqui.

— Victor, não precisa. Não quero mais pessoas supondo coisas sobre nós. — havia sinceridade e um tom de chateação na sua voz — Não sei o que é pior: ter que te chamar de "papai" ou deixar os outros pensarem que eu tenho um complexo de lolita.

— Vai ficar tudo bem, Yura. É meu pagamento por você ter me ajudado hoje. E você precisa de um visual que combine com o baby sling. — ele piscou um olho e olhou para Alexei — Alyosha, vamos comprar roupas para o seu onii-san.

Aquilo pareceu animar o bebê, que começou a balançar os bracinhos freneticamente e emitir sons para chamar atenção.

— Você está criando um bebê shopaholic. — Yuri disse com um sorriso, penteando o cabelo de Alexei com os dedos.

— Apenas o melhor para os meus meninos. — Victor disse puxando o rapaz para mais uma loja, apesar das reclamações.

No fundo, era legal ter um pai para dar presentes.

— Victor, eu não acho que seja uma boa ideia. — Yuuri disse com o cenho franzido de preocupação.

— Solnyshko, por favor, pense a respeito. — Victor parecia à beira do desespero — Eu não quero Alexei perto dos meus pais. Por mais que doa dizer isso, eles não farão falta na criação dele.

— Sim, mas e os meus pais? — o outro disse na defensiva — Eles cuidariam do nosso filho muito bem.

— Eu sei, amor, mas eles não durarão para sempre. E Mari deixou bem clara sua posição sobre filhos. — Victor suspirou — Além disso, não queria que Alexei fosse parar tão longe da Rússia caso o pior acontecesse.

— Mas Yuri, Victor? — Yuuri não concordava com aquela história nem um pouco — Ele só tem olhos para o esporte até não se sabe quando. Nem sabemos se ele pretende se casar, quem dirá ter filhos. É muita responsabilidade para um garoto carregar sozinho.

— Ele tem 21 anos, Yuuri. — o russo ponderou.

— Nem terminou a faculdade! — Yuuri retirou os óculos e esfregou os olhos, como se aquilo diminuísse o estresse da situação — Eu não consigo, sempre vejo ele como aquele menino de 15 anos no pódio do Grand Prix. Eu o vi crescer, amadurecer, mas sei que ele não está preparado para esse tipo de tarefa. Eu amo Yuri e Alexei o suficiente pra dizer que isso não daria certo.

Não podia, se recusava a imaginar a cena. Já era péssimo o suficiente cogitar a possibilidade de não estar ali para ver seu pequeno Alexei crescer, agora fazer Yuri assumir a carga? Era como decidir o destino de duas crianças, não de uma.

Ele não duvidava do amor de Yuri pelo bebê. O patinador via em Alyosha o irmão mais novo que nunca teve e a diferença de idade poderia colocá-los muito bem como pai e filho. Mas Yuuri sabia que Yuri tinha problemas que poderiam ser um obstáculo no caso de ter que cuidar de uma pessoa.

— Não temos que pensar sobre isso agora. — Victor disse segurando sua mão sobre a mesa, o rascunho do testamento deixado de lado — Não precisa ficar ansioso por isso.

— Isso ajudou bastante. — ele murmurou com um tom leve de sarcasmo. Yuuri acabou com a cabeça apoiada sobre o ombro de seu marido, de olhos fechados. Aquela discussão o deixara exausto — Apenas... Apenas fale com Yuri sobre isso, ok? De preferência antes de assinar qualquer coisa.

— Eu prometo, amor. — Victor disse antes de beijar o topo de sua cabeça — Nossos meninos ficarão bem.

Assim Yuuri esperava. Ele morreria antes de deixar Yuri ou Alexei em maus lençóis.

Mesmo com toda a preocupação, sabia que Yuri se esforçaria para fazer um bom trabalho caso fosse necessário.



Foi num dia frio de janeiro que as coisas mudaram.

Era final de tarde e Yuri havia acabado de sair da diretoria da Sputnik 1985, onde fazia o estágio. As roupas não eram seu estilo, mas São Petersburgo não era exatamente a capital da moda, então não tinha muitas opções.

Ele estava sem seu carro, então era obrigado a ir a pé pra casa. Ele não se importava com frio, afinal era um patinador de gelo. Mas qualquer um prefere um cobertor com chocolate quente ao frio russo.

Uma van escura passou a dirigir devagar perto de si e Yuri demorou um milissegundo para decidir se era um sequestro ou não. O vidro baixou e lá dentro estavam Victor como motorista e Yuuri ao lado.

— Yura, você vai congelar seu nariz nessa nevasca. — Victor disse com um bico — Entra aí, deixamos você em casa.

— Eu tô bem. — ele revirou os olhos, ajeitando o cachecol — Não vou morrer se andar na neve. E esse carro novo parece algo da máfia.

— Se você pegar uma gripe, pode prejudicar seus treinos. As olimpíadas são mês que vem. — Yuuri se pronunciou — Por favor, Yurio.

Aquilo era uma jogada baixa, pois não dava pra dizer "não" para Katsuki. O loiro respirou dramaticamente e entrou no carro, que estava muito mais aquecido que o lado de fora.

— Oi, Alyosha. — ele disse com um sorriso para o bebê na cadeirinha no extremo do carro. Ele foi recebido com um sorriso — Ele tem sorte de nunca ter conhecido o cadillac rosa.

— Meu amado carro. — Victor disse com a voz chorosa — Ele não era seguro para crianças. Tivemos que dizer adeus.

— Foi para um bem maior, querido. — naquela hora ele soube que Yuuri era um bom mentiroso, porque ele simplesmente odiava o cadillac — Onde está o seu carro, Yurio?

— Na oficina, tinha algo de errado com os freios. Vou buscá-lo amanhã. — reparando no trajeto em que estavam, ele disse — Vocês estão meio longe de casa.

— Estávamos a caminho do escritório do nosso advogado. — Victor respondeu — A propósito, Yuri, tem uma coisa que precisamos...

Uma freada brusca. O impacto de metal contra metal. As janelas de vidro se quebrando. A sensação de ter sido atirado para fora de seu corpo. O zumbido no ouvido. Tudo aconteceu em segundos e ao mesmo tempo numa eternidade.

Yuri bateu a cabeça e por um momento desmaiou. Ele acordou com os choros de Alexei e uma dor irritante no tornozelo e no quadril.

Finalmente entendendo a situação, a adrenalina o colocou pra funcionar. O primeiro a receber sua atenção foi Alexei, logo ali ao seu lado.

— Shh, tá tudo bem, Alyosha. Tá tudo bem. — ele disse tentando acalmar o bebê e a si mesmo no percurso. Seu primeiro instinto foi retirá-lo da cadeirinha, mas sabia que se ele estivesse machucado poderia piorar. Então apenas o deixou ali enquanto checava visualmente por algum ferimento. Felizmente, ele parecia bem.

— Alex...

Foi só aí que ele realmente olhou pra frente e a visão quase o fez vomitar. Não havia mais a frente de um carro, era uma mistura horrível de metal, plástico e sangue. Deus, era muito sangue. O cheiro lhe dava náuseas. Victor estava imóvel.

— Vic...Victor? — ele chamou com a voz fraca — Victor, por favor, fala alguma coisa, qualquer...

— Yuri... — veio a voz quase inexistente de Yuuri, logo ao lado. Havia um corte horrível em seu rosto, seus óculos estavam tortos e seu braço estava torcido num ângulo muito estranho.

— Yuuri! Yuuri, vai ficar tudo bem, ok?! Aguenta só mais um pouco, os médicos já devem estar chegando, vão tirar você daqui e... — ele não parava de falar, era uma de suas últimas estratégias para manter a calma.

— Alexei... Alyosha... — Yuuri fez um último esforço de virar a cabeça na direção de Yuri, numa tentativa falha de olhar para trás.

— Ele...Ele está bem! Alexei está ótimo, Yuuri! Você pode vê-lo assim que os médicos chegarem...

— Yura... — Yuuri mal conseguia manter os olhos abertos — Cuide dele...

Foi a última coisa que Yuuri conseguiu falar, e a última que Yuri conseguiu ouvir antes dos próprios gritos.

— Yuuri? Yuuri, por favor, acorda. Yuuri?! Yuuri! — ele gritou com todas as suas forças, mesmo quando era claro que Yuuri não acordaria.

Ele gritou enquanto o tiravam do carro. Ele gritou quando Alexei desapareceu de sua linha de visão. Ele gritou ao ver os corpos de Yuuri e Victor deitados no asfalto cobertos por uma lona.

Ele não conseguia mais gritar quando o sedaram e o fizeram dormir.



Ele acordou em uma cama de hospital.

Estava sozinho, sua boca estava seca e parecia que ele havia tomado soníferos o suficiente para derrubar um elefante. Resumindo: péssimo.

As memórias vinham em pedaços. Ele andando na rua, ele entrando no carro de Victor, a colisão e então...

Ele arregalou os olhos enquanto tentava se levantar, mas havia uma máscara em seu rosto e dezenas de fios grudados em si. Os aparelhos enlouqueceram com seus batimentos, quase tanto quanto sua mente no momento.

Houve a colisão e Victor havia morrido. Não, Victor e Yuuri haviam morrido. Devia ser um pesadelo. Não tinha como, estava tudo tão bem e do nada...

Um enfermeiro entrou no quarto e começou a falar com ele enquanto ajustava as medições, mas ele não ouvia nada. Sentia que sua respiração falhava, o ambiente girava e inúmeros alarmes gritavam em sua cabeça. Não tivera um daqueles episódios desde que seu avô falecera dois anos atrás.

— Sr. Plisetsky, por favor, tente se acalmar. Senão serei obrigado a te sedar novamente. — o enfermeiro disse entrando em sua linha de visão.

Ele queria gritar e mandar que colocassem todas as drogas que tinham naquele hospital, pois assim ele teria uma desculpa para evitar o problema em mãos. Mas ele já superara essa fase há muito tempo, então se esforçou para recuperar o controle.

Inspirar, expirar. Concentrar-se no ar entrando e saindo dos pulmões. 1, 2, 3. Repetir o processo.

Depois do que pareceu cinco ou seis ciclos do processo, ele estava mais calmo. Mas sua mente ainda estava a mil, ele tinha muita coisa pra saber.

— Quanto tempo eu dormi? — ele perguntou num murmúrio ao enfermeiro.

— Pouco mais de doze horas. — o homem respondeu fazendo a reposição de uma bolsa de soro — Não teve nenhum ferimento grave. Você é patinador, não? Os médicos disseram que precise talvez de duas semanas de repouso antes de voltar à rotina.

Sinceramente, as competições eram sua última preocupação no momento.

— No carro comigo, — ele engoliu em seco ao pensar sobre seus dois tutores — havia um bebê. É o meu afilhado. Como ele está?

— Ele está bem. Já foi liberado, inclusive. — ele respondeu com um sorriso — Um senhor chamado Yakov Feltsman está aí fora te esperando. Posso mandá-lo entrar?

Yuri assentiu e o enfermeiro saiu, deixando o patinador sozinho com seus pensamentos. Victor e Yuuri morreram. Era tão estranha a ideia de que duas pessoas que estavam ali perto há pouco tempo de repente não estarão mais. Não poderia falar com eles, não poderia tocá-los, nada.

E, céus, o que aconteceria com Alexei?

Yakov entrou no quarto, parecendo mais velho e cansado do que nunca. Desde que encerrou seu trabalho como técnico, o homem estava aproveitando sua aposentadoria como comentarista esportivo e resolvendo palavras-cruzadas no correio da manhã. Não imaginava que seus ex-alunos fossem dar esse tipo de trabalho mais.

— Yura. — ele disse com o usual tom de mal-humor e preocupação — Como se sente?

— Um caco. — respondeu sincero — Onde está Alexei?

— Lilia o levou pra casa. — ele respondeu sentando-se numa cadeira próxima — Com sorte ele não se machucou.

O loiro franziu o cenho.

— Lilia sabe cuidar de crianças?

Yakov pareceu ofendido com a pergunta.

— Eu e Baranovskaya já cuidamos de pirralhos o suficiente nessa vida. Victor não é o primeiro aluno a ter um filho. — seu olhar entristeceu — Victor...

Yuri comprimiu os lábios e desviou o olhar quando sentiu seus olhos arderem. Era um hábito que ele tinha e era difícil se desfazer, não gostavam quando o via chorando.

— Yakov, — ele começou com incerteza clara na voz — o que acontecerá com Alexei?

Feltsman suspirou e esfregou os olhos como quem estivesse espantando o sono, um claro sinal de fadiga.

— Eu não sei, Yuri. É uma burocracia cansativa e a partida deles foi repentina. Enquanto o Juizado de Menores não se manifestar, ele fica conosco. Os Nikiforov não apareceram nem para o casamento, não acho que eles queiram algo com o filho de Victor. — parecia haver um pouco de desgosto em sua voz — Resta a família de Yuuri e talvez seja melhor assim. Lá temos a certeza de que vão amá-lo e cuidar dele.

— Ele teria que ir pro Japão. — ele disse com uma careta.

— Obviamente, mas nós dois sabemos que é melhor que ficar nas mãos do sistema, Yuri.

Oh, ele sabia. Plisetsky mataria um antes de deixar seu irmãozinho num orfanato. Podia contar o número de vezes em que quase acabara em um daqueles abrigos antes de seu avô assumir sua guarda definitivamente.

Não afastava o aperto no coração de ver Alyosha indo embora.



Só recebera alta do hospital quatro dias depois, quando já haviam discutido o funeral.

Se tivessem deixado Yuri decidir algo, haveria uma briga com os Katsuki. Ele era contra velarem o corpo de Yuuri no Japão, longe de Victor. Os familiares de Yuuri tinham preferência, obviamente queriam se despedir do filho em casa. Não diminuiu a chateação do russo nem um pouco.

O velório de Victor foi um dos eventos mais surreais da vida do loiro. Estava ensolarado, um dia lindo. Mas a ocasião era mórbida. Muitos patinadores vieram prestar homenagens, Giacometti inclusive discursou. Yuri não conseguiu falar uma palavra o período inteiro.

Quando as últimas pessoas deixaram a capela, Yuri não tinha mais certeza do que fazer. Deveria ir pra casa, tirar aquele terno opaco e reorganizar sua vida, ou pelo menos parte dela. Perdera seus dois treinadores, precisava de novos. As Olimpíadas eram no próximo mês. Ele ainda queria participar, então tinha que resolver a questão dos treinos rapidamente. Deveria consultar seus contadores para saber como proceder com os patrocínios, pois isso também era organizado por Victor e Yuuri. Ugh, havia alguma coisa em que eles não opinaram nos últimos sete anos?

E, Deus, Alexei. Seu querido afilhado iria embora pro Japão, longe de sua terra natal, longe da parte russa da família. Suspeitava que ele nem aprenderia russo se crescesse numa casa onde todos falam apenas japonês e o ocasional inglês para turistas. Alyosha se esqueceria de Yuri. Ele seria apenas um parente estranho que o visita nos feriados, ligado a um pai que ele mal lembra o rosto, enterrado a milhares de quilômetros de distância.

Era cruel, mas melhor que o orfanato.

— Yuri Plisetsky? — um homem baixo, com óculos e uma maleta surgiu em sua frente, interrompendo a passagem.

Ele arqueou uma sobrancelha. Seu primeiro pensamento era que seria um fã, mas a faixa etária não condizia.

— O próprio. — ele murmurou incerto.

— Sr. Plisetsky, lamento que seja uma péssima hora, mas a ocasião é uma emergência. — o homem ajeitou os óculos com um quê de afobação. Parecia que estivera correndo o dia inteiro. — Eu sou Anton Kolyada, advogado de Victor Nikiforov.

— Oh. — ele disse um pouco surpreso com a abordagem — Em que posso ajudá-lo?

— Meu cliente achou relevante mencioná-lo em alguns papeis quando em vida e precisamos discutir...

Yuri fechou a cara.

— Olha, eu não sei o que Victor fez, mas eu não quero nada do dinheiro dele. Acho até estranho ele ter falado de mim, mas eu não...

— Não tem nada a ver com dinheiro, Sr. Plisetsky. — o advogado interrompeu — É sobre Alexei Katsuki-Nikiforov.

Aquilo o fez parar para ouvir.

— O que tem Alexei?

— Victor mencionou que você é o padrinho de Alexei, estou certo?

— Sim. — ele assentiu com o cenho franzido. O que raios Victor tinha feito agora?

— Bom, isso facilita o meu trabalho. — ele murmurou — Acontece que... Bom, poderíamos conversar num local mais privado? De preferência na presença dos atuais guardiões do menino?

Os dois trocaram contatos e combinaram de marcar uma reunião ainda naquela semana. Quando disse aquilo a Yakov e Lilia, a última concordou em receber o advogado em sua casa. Todos estavam intrigados com as notícias. O que Victor fizera que envolvia Yuri e Alexei?

O dia do encontro chegou. Yuri não vira seu afilhado desde o dia do acidente e quando chegou à casa, Lilia dissera que ele estava dormindo. Talvez ele pudesse esperar mais um pouco, pelo menos até Kolyada explicar o que estava acontecendo.

— Fico muito grato por terem arranjado tempo para esse encontro, pois há assuntos muito importantes em jogo. — Anton disse se sentando no sofá e abrindo sua maleta — A principal delas é a guarda de Alexei Katsuki-Nikiforov.

Os três observaram em silêncio. Yuri era o mais inquieto, afinal ainda não sabia o que ele tinha a ver com a história.

— Eu conhecia Victor desde seus primeiros escândalos publicitários. Trabalhamos juntos muitas vezes e eu gosto de considerá-lo um amigo. Eu trabalhei com o casamento e até com o processo de adoção. — ele suspirou — Por isso eu estou acostumado com as ideias um tanto impulsivas de Victor, mas que foram pensadas com o coração. A última dele era particularmente questionável, mas esperada considerando sua personalidade.

Anton entregou um papel plastificado para o loiro. Parecia que fora amassado e rasgado, sendo o plástico a única coisa que o mantinha inteiro. Ele reconheceu a caligrafia como a de seu falecido técnico.

— É um testamento. — o advogado esclareceu — Na verdade, o modelo de um. Não está autenticado. No dia do acidente ele pretendia conversar comigo sobre o mesmo, mas a visita nunca ocorreu. Recuperaram os papeis das ferragens e me contataram. Mesmo nada sendo oficializado, Victor manifestou várias vezes que pretendia colocar o Sr. Plisetsky como guardião de Alexei. Yuuri parecia concordar.

Mesmo as letras no papel dizendo a mesma coisa, Yuri não acreditava. Ele levantou o olhar pronto para dizer algo, mas Yakov foi mais rápido:

— O quê?! Ele não... Argh, olha de quem estou falando, é o Victor! — o homem parecia incrédulo com a situação, colocando a mão na testa em sinal de estresse — Mas Katsuki nunca concordaria com isso! Ele tinha mais miolos que o marido.

— De fato, Yuuri era mais contrário a ideia e preferia que seus pais cuidassem de Alexei, mas após muitas discussões eles entraram em um acordo. Como podem ver no documento, os Katsuki são a segunda opção para a guarda do bebê, no caso de Yuri não aceitá-la. — ele fez uma pausa, esperando que assimilassem o ocorrido — Se eu fosse um advogado qualquer, eu fingiria que esse papel nunca existiu e pouparia muitas dores de cabeça futuras. Alexei acabaria em um orfanato até sua família no Japão conseguir contatar as autoridades russas e tirá-lo daqui. Isso levaria meses, afinal a cidadania japonesa é muito burocrática, e nem estou contando os gastos. Mas Victor era meu amigo, um homem que amava sua família mais do que tudo. E eu sei que se ele apontou o Sr. Plisetsky como guardião do filho, ele deve confiar muito nele.

Yuri não sabia o que dizer. Era tanta coisa pra pensar e considerar, ele ainda não acreditara no que Victor e Yuuri fizeram (tinha que incluir Yuuri, pois sabia que Victor nunca faria nada sem o consentimento do marido). O casal confiava nele para cuidar de Alexei. Ele sentia um misto de gratidão e medo, não imaginava que era tão importante assim na vida dos dois. Se fosse o contrário e Yuri tivesse que escolher alguém para cuidar de seu filho, certamente os escolheria. Eram o exemplo mais perfeito de uma família que ele já presenciara.

A voz de Lilia interrompeu sua linha de consciência.

— Obrigada pela informação, Sr. Kolyada, mas acho melhor o senhor conversar com os Katsuki. Não há como Yuri assumir uma criança agora e...

— Não. — Yuri falou em alto e bom som, fazendo com que todos os olhares se voltassem pra ele — Eu vou cuidar de Alexei. Era o que Victor e Yuuri queriam, é minha obrigação.

Lilia e Yakov pareciam chocados, Anton foi o primeiro a falar:

— Não é uma obrigação, Yuri. É apenas um pedido. Sei que você é jovem e um filho é a última coisa que seria bem-vinda agora, então você não é obrigado a nada. Eu apenas quis comunicar a vontade dos Katsuki-Nikiforov.

— Não, eu vou cuidar dele. — ele disse decidido — Alexei é mais que um afilhado, ele é praticamente o meu irmão. Victor e Yuuri... chamá-los de amigos é pouco para descrever o que eles eram pra mim. Eu não ficaria em paz sabendo que tenho o poder para zelar pelo bem do filho deles e resolvi ignorar. Eu assumo a responsabilidade.

Kolyada parecia um tanto cético, mas assentiu e pegou novamente o testamento.

— Você tem tempo para pensar a respeito, enquanto isso eu estou trabalhando na autenticação desse documento para que ao menos haja relevância na guarda dos Katsuki. Victor era totalmente contra o envolvimento dos pais dele nisso. — ele arrumou suas coisas e se preparou para sair — Eu vou deixar vocês a sós agora. Tenho certeza de que têm muito a conversar. Sabem o meu número caso tenham alguma dúvida.

Assim que o Sr. Kolyada deixou a casa, Yakov falou em um tom cauteloso:

— Você não pode estar falando sério, Yuri.

— Eu estou falando muito sério. — ele disse olhando nos olhos de seu ex-técnico e ex-instrutora de dança — Victor queria que Alexei ficasse comigo. É melhor que ele ter que viajar para o Japão onde mal poderemos visitá-lo.

— Você tem uma vida toda pela frente, Yuri. — Lilia disse séria — Filhos são uma tremenda responsabilidade. Não vai querer jogar tudo fora por...

— Por Alexei? — ele riu sem humor — Eu jogaria fora até o que eu não tenho, Lilia. Ele precisa de mim. Agora se me dão licença, vou ver meu afilhado.

Ele se levantou sem esperar uma resposta e subiu as escadas até os quartos. Se estivesse certo, ele estava no seu antigo quarto na casa de Madame Baranovskaya.

Ao encontrar a familiar porta, Yuri entrou, encontrando o herdeiro dos Katsuki-Nikiforov adormecido.

Ele caminhou a passos lentos até a cama, mais por receio do que pela dor no pé. Lilia fizera um bom trabalho ao converter a cama em um berço improvisado, colocando travesseiros e cobertores ao redor para que o bebê não caísse. Alexei dormia pacificamente, seu peito subindo e descendo calmamente, os dedinhos da mão às vezes se mexendo de modo involuntário. Será que estava tendo um sonho?

Yuri ajoelhou-se ao lado da cama e o observou de perto. Ele era pequeno. Muito, muito pequeno. Era difícil para Yuri imaginar como alguém tão indefeso merecia aquele destino tão cruel. E ele não fazia ideia do que estava acontecendo. Alexei não se lembraria de seus pais adotivos. Só passara míseros oito meses ao lado deles, e era sua vida inteira.

Yuri não conseguiu segurar o soluço que escapou de sua garganta.

Tinha que ser uma piada. Uma piada de muito mau gosto vinda dos céus. Olha que criança engraçadinha, ela nascerá de uma mãe que não está preparada para tê-la. Que tal fazermos com que ele seja adotado, para mais tarde matar seus pais?

Eles estavam tão felizes, Yuri pensou amargamente, tão felizes por você ter chegado.

O loiro viu todo o processo. O casal entrando na lista de espera, fazendo mil entrevistas, tendo a sorte milagrosa de encontrar uma moça que estava disposta a abrir mão da criança assim que nascesse e assim diminuindo talvez anos da espera dos dois. Ele viu os dois comprando o enxoval, brigando pela cor dos móveis, discutindo mil nomes diferentes até escolherem o que Yuri sugerira. Ele viu tudo isso e esperava ver muito mais.

Yuri não percebera isso no momento, mas Alexei não foi o único que perdeu algo naquele acidente.

O patinador sabia muito bem o que era se sentir abandonado. Victor e Yuuri haviam confiado nele para cuidar de Alexei. Ele nunca se perdoaria se deixasse o menino sozinho. Isso era mais que um compromisso com seus antigos mentores, era pelo seu irmãozinho.

Segurando a mão do infante adormecido, Yuri sussurrou uma promessa:

— Eu não vou te deixar sozinho, Alyosha. Eu juro que vou te dar o amor e conforto que Yuuri e Victor te dariam, até mais. — a mãozinha apertou seu dedo indicador e ele quase sentiu sua respiração falhar — Somos um time agora. Nada vai me impedir de cuidar de você.

Ele não queria pensar naquilo agora, mas o "nada" era realmente muito grande. Nada nem ninguém tomaria Alexei de si.

Isso incluía sua carreira de patinação.

Notas finais
Eu sei que o que eu fiz foi errado, mas não me arrependo. /15tiros Não tenho nenhuma frequência de postagem planejada, foi coisa do momento. Mas se eu ver que vocês gostaram, posso ficar animada e agilizar a história ^-^ Até a próxima! XOXO