Cassie

1 20 de Abril de 1999


20 de abril de 1999, 11:19 am.

A biblioteca estava parcialmente ocupada; alunos estudavam para importantes provas no decorrer daquela semana. Maioria tentava garantir um bom desempenho, supõe-se.

Ouvia-se um burburinho lá fora, e alguém percebeu que aquilo não se tratava de um trote, nem de uma brincadeira de mau gosto, mas de um crime que estava em curso. Um crime deliberado, arbitrário.

Em um curto espaço de tempo, o sangue de jovens inocentes foi sendo derramado. Um tribunal feroz, sedento, recolhendo almas sem dá-las ao menos a menor chance de se defender, de negociar, de tentar se salvar.

Gradualmente, a vida das pessoas era ceifada de maneira absurda. De 15, 16, 17 anos, uma vida inteira pela frente, carreiras promissoras. Engenheiros perdidos, jornalistas, juízes que não se formariam, psicólogos que jamais ouviriam, músicos que jamais poderiam obter o reconhecimento do mundo através de talento.

A biblioteca

Ela nunca poderia imaginar que sua fé pudesse ter sido usada como balança para poupar — ou tirar — sua vida. 17 anos; tão moça. Vítima de uma crueldade deliberada, que jamais seria aceita.

"Você acredita em Deus?", perguntou a figura desorientada, insana e cheia de fúria posta em sua frente. Ela não negaria sua fé, nem com a morte diante de seus olhos.

"Sim". Sim. Uma resposta firme, envolta em espírito e apenas uma certeza: a salvação, que certamente viria de uma forma ou de outra. Ela não negou o seu Deus, e isso a satisfazia. Obtivera a redenção, e manteve-se estoica até o último segundo.

A falta de uma alma da pessoa que tirou a vida de Cassie Bernall a fez se elevar a uma posição de mártir, uma inspiração para a arte, e um pretexto para que as pessoas pudessem refletir até sobre si mesmas.

Bernall e sua fé servem de lição para que olhe-se e avalie-se internamente. Faz-se necessária a autocrítica; os dogmas apresentados pelas religiões do mundo são de fato cumpridos? A tirar como exemplo: o respeito mútuo e o reconhecimento de erros. Muitas vezes, uma palavra mal — ou bem — dita é usada para salvação. Ou declínio.

Cassie seguiu os valores de sua religião. Não renegara seu Deus. E isso serve de ensinamento, para que o povo seguidor de cada deus — seja da religião cristã, a budista, a islamista, a judaísta — reflita sobre seu comportamento, e projete valores sob sua prática religiosa edificada.

Cristo pregava o amor. O fundamentalismo cruel é o contrário do Corão. Buda pregava a sabedoria, e a paz. Todas as religiões se unem em uma só, a partir do mesmo princípio. Guerras santas ocasionadas desde a Idade Média, tais como as Cruzadas e a Santa Inquisição acoplada ao Estado desencadearam uma série de conflitos, os quais ocorrem indireta e diretamente, cuja matriz é apenas uma: o comensalismo religioso, a atitude imperialista, a repressão que se perpetuou desde a fragmentação cristã.

Várias teorias foram montadas e desconstruídas acerca do que levara Harris e Klebold a cometer tal atrocidade. No entanto não muda o fato de que a mesma foi cometida, indiscriminadamente. Não há outra palavra que seja capaz de caracterizar este crime, a não ser a arbitrariedade absurda com que foi retirada a vida de quem a teria plenamente.

Quantos ainda irão morrer, em memória dos que já morreram? Quantos precisarão ser submetidos a torturas, a rememorar-se dos que foram denunciados e condenados à morte? Tornou-se um ciclo vicioso, quase descontrolado. A questão de Columbine traz à tona a questão da superioridade.

Cristo não se achava superior ao povo pelo qual passou.

Buda não queria impor a ninguém sua sabedoria.

Nenhum deus tribal, ocidental, egípcio, qualquer parte de qualquer mitologia, pode ser posta como forma de suplantar outra, e esmagar os valores de igualdade, que a priori, deveriam e devem ser cumpridos.

Cassie Bernall teve a chance de ensinar isso.

Você leva a sério o seu Deus?

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