Casos e Acasos de uma Lúcia

5 PARTE I - Meu Segundo Amor - Suposto Ciúme


Na manhã seguinte ao meu ‘”não encontro”, Hanna fizera questão de me ligar e avisar sobre o quão alterado Krause havia ficado depois que eu saí para o cinema. Ele não havia dito o motivo, apenas havia ficado mal-humorado de uma hora para outra, havia mudado seu humor da água para o vinho o resto do dia. Sem aguentar ouvir o ar bufante de Krause por mais tempo, ela apenas o deixou e fora para casa.

Saí de casa meio-dia pensando em uma razão especial para ele ter ficado do jeito eu ficou, mas não conseguir pensar em nada específico. Digo, eu nem mesmo vi seu estado, mas do jeito que Hanna havia falado, parecia realmente sério. Mas não como não havia um motivo claro, eu não poderia aceitar qualquer resposta mal-educada que partisse dele naquele dia, a não ser que ele fosse claro com seus sentimentos.

Quando atravessei a catraca da universidade, avistei meu melhor amigo sentado em um banco próximo. Sua atenção estava voltada para um livro em suas pernas. Quando ele me avistou, tratou de deixar seu livro de lado e caminhou em minha direção.

— Você está bem? — Krause fora o primeiro a falar.

Dei de ombros. Não havia nada de novo que devesse ser colocado em pauta.

— E você?

— Bem, eu.. — Ele havia gaguejado um pouco. — Qual era mesmo o nome do cara que você gosta?

— Por que? Você está com ciúmes? — Briguei enquanto me sentava em um dos bancos. Krause se juntava a mim, se sentando ao meu lado.

— Não é isso... — Ele sorriu sem graça. — Mas... Vocês...

Ele não parecia que continuaria a frase. Então apenas resolvi contar o que de fato aconteceu na sala de cinema. Então ele iria saber que absolutamente nada havia acontecido. Nossas mãos não tocaram sem querer, ele não colocou os braços pelo meu pescoço usando a velha desculpa do bocejo, ele não tentou me beijar. Longe disso.

— Ele não sente nada por mim... Não aconteceu nada.

Ele não parecia convencido, mas partiu para a pergunta seguinte.

— Então por que continua atrás dele? Lúcia... Você vai apenas se machucar se continuar indo atrás dele assim. Você não quer parar achando que um dia ele vai olhar para você, mas não vai.

— Por que essa preocupação toda agora? Olha, o Rafael não está me iludindo. Ele adora deixar claro que tudo que somos e tudo o que seremos é bons amigos e nada além disso.

— Lúcia, me escuta.

— Não, me escuta você. Mesmo que ele não reconheça o que eu sinto, eu gosto da amizade que nós temos. Você não pode simplesmente dizer pra eu não ser amiga dele. Não seja essa pessoa.

Eu não estava zangada ou alterada. Meu coração acelerava, mas tudo o que eu sentia de verdade, era um desconforto por não ter o apoio do meu melhor amigo. Digo, ele estava certo de que eu poderia vir a me machucar, mas ele só estaria 100% certo se Rafael me desse qualquer tipo de esperança, mas ele não dava absolutamente nenhum sinal. As coisas que passamos foram simplesmente rodeadas de amizade. Mesmo seu segredo, o que havia confiado a mim na noite anterior, fora simplesmente porque ele me vê como uma amiga querida, alguém em que ele pode confiar e contar coisas assim. E para mim, aquilo já era perfeito. E eu apenas continuaria em frente. Krause não poderia simplesmente dizer para eu me afastar dele. Não tinha o direito.

Ele chamou meu nome algumas vezes, mas eu apenas pude ignorar. Segui até a sala, onde já via Hanna escutando música de cabeça baixa. Sentei ao lado dela sem falar absolutamente nada. De tão alto, pude ter uma noção do que ela escutava. Toquei gentilmente em seu gorro, chamando sua atenção. Ela, ainda sem levantar completamente a cabeça, virou para mim e lançou um sorriso aconchegante no ar. Entre os assuntos e as conversas jogadas fora, ela mostrou a mim um panfleto que havia pego no dia anterior.

— É uma festa hoje à noite. Fica no centro, em uma boate perto do João do Vale. Quer ir comigo?

— E como quero. Você chamou o Krause?

— Eu sequer falei com ele hoje. Eu o vi de longe e vim direto para a sala.

— Por que você não falou com ele? – Perguntei, quase como se aquilo fosse um crime, afinal, ela nunca havia feito isso.

— Você não sabe, mas quando estamos apenas nós dois, oitenta por cento do assunto é você. Por acaso, quando estão apenas vocês dois, eu sou o assunto principal? — Hanna havia retirado o fone, ela gesticulava e fazia algumas caras e bocas; característica dela. — É uma coisa muito suspeita. Depois do que aconteceu ontem, eu tenho quase certeza que ele gosta de você.

Era uma teoria que eu não queria nem imaginar. Definitivamente não era algo a se pensar.

— Você está maluca? Que tipo de conclusão exagerada é essa? Ele não gosta de mim. Somos apenas bons amigos.

Essa era uma expressão muito usada, mas não havia outra a ser colocada em pauta. De fato, Krause e eu éramos bons amigos. Mais do que isso, ele era meu melhor amigo e se tinha uma coisa que eu não pensava era em uma possível existência de um sentimento que ultrapassasse a amizade.

— Mantenha minha teoria em mente e vai ver logo em breve que eu estou completamente certa.

Eu não poderia deixar de sorrir daquela afirmação tão convicta de Hanna. Ela estava tão certa de sua teoria que não pude contradizê-la. Mas por dentro, meus pensamentos sofriam com essa dúvida plantada em minha mente, pois sequer um dia pensei em como os sentimentos que haviam entre Krause e eu pudessem se transformar em algo mais forte. Aquilo me deixou um tanto incerta de tudo.

Deixando toda aquela teoria maluca de lado, as aulas da tarde correram com a mais completa calma e demora. Os minutos passaram devagar dentro da sala de aula, mas do lado de fora, a vida aparentava passar muito mais rápido. Semiologia tornara-se tão repetitiva que o sono era o único a bater na porta dos alunos. Um jovem havia cochilado de verdade na minha frente, o que fez alguns dos colegas de classe das duas tirarem fotos. Muitas fotos. Quando ele finalmente acordou, percebera que havia se passado apenas meia hora de aula. Uma eternidade ainda se estenderia pelas próximas horas.

Quando o relógio posicionado acima do quadro branco marcou seis horas, o professor liberou todos os seus alunos. Hanna seguiu para fora da turma ao meu lado. A festa começaria apenas às dez horas, mas resolvemos apenas ir cedo para o Reviver, a fim de descobrir qual o evento teria lá naquela noite. Caminhávamos distraídas e quando passamos pela escada próximo ao financeiro, escutei aquela voz familiar que me deixava de pernas bambas vindo logo atrás de mim. Rafael sorria e acenava para mim.

— Como foi sua aula? — Perguntei a ele, que respondeu animadamente o quão havia gostado da aula daquele dia. Quando terminou de falar, puxei Hanna para meu lado: — Rafael, essa é Hanna.

— É um prazer... — Hanna sorriu, esticando o braço a fim de cumprimenta-lo. — Maria Lúcia fala muito de você.

— Por que fala muito? — Indaguei quando ela enfatizou o ‘Maria’ e o ‘fala muito de você’. Bem, falava muito mesmo.

— Maria? Por que me fez acreditar que seu primeiro nome era Lúcia? — Ele sorriu, sabendo que eu estava um pouco envergonhada. — É um prazer, Hanna. Ela também fala muito de você. Na verdade, ela fala demais.

E pronto. Aquilo bastou para que continuassem a conversar como se fossem amigos há décadas. Fora um sentimento muito bom quando vi minha melhor amiga conversando com o cara por quem eu estava completamente apaixonada. Eu nunca havia tido uma amiga que pudesse me dar conselhos sobre garotos ou me ajudar com qualquer problema que tivesse. Nunca havia sequer me permitido sonhar em ter algo próximo disso. As coisas simplesmente acontecem para nós quando não focamos tanto nelas, parece até mesmo um tipo de carma. Por mais que deseje algo, esse algo parece nunca chegar perto e quando você para de ir atrás, como num passe de mágica, você já tem esse algo em suas mãos.

— Rafael, eu e a Lúcia vamos sair hoje. Não quer vir? Nosso melhor amigo está com ciúmes de você e não convidamos ele.

— Para onde foi parar a sua timidez?

— Estou apenas tentando fazer uma nova amizade. E então, quer ir com a gente? Vai ser divertido.

— Está mesmo tudo bem eu ir? Quero dizer, parece um programa de amigos...

— Mas até onde eu sei, vocês dois são apenas amigos, não são?

— Mas que tipo de amiga você é? — Indaguei, olhando diretamente em seus olhos.

Como Hanna poderia falar tanto? Ela fez Rafael soltar mais uma risada e em pouco tempo, já estávamos a caminho do Reviver. No carro, tocava músicas que nós três conhecíamos. Hanna cantarolava as músicas enquanto dirigia e Rafael apenas sorria e acompanhava cantarolando de boca fechada.

A boate ficava intocada em uma rua estreia perto do Reviver. Sabia da existência daquele lugar, mas jamais iria descobrir que ficava escondida em tal lugar, escondido do mundo. A fila estava razoavelmente comprida, considerando que nenhum dos três queria esperar. Mas no final, apenas tivemos que esperar a nossa vez e para minha surpresa, o rapaz que controlava a entrada de menores, indagou sobre a minha carteira de identidade, alegando que ela era falsa. Durou aproximadamente sete minutos até que um segurança liberou a minha entrada. O constrangimento que senti logo se dissipou quando aquela atmosfera alegre fora me apresentava. As cores neons em tinta que pintava rostos desconhecidos era vista em qualquer canto, uma luz que vinha do chão em azul iluminava grande parte do local, que era dividido em quatro ambientes contando com a entrada. Era tudo muito animado e cada ambiente continha sua própria música, sendo o último o mais lotado. As pessoas dançavam, sorriam e bebiam. Eu mesma gostava de tomar de quando em quando, mas não gostava de exagerar, pois sabia que perdia o controle bem fácil.

Mas quando Rafael apareceu com três doses de tequila, eu simplesmente não pude negar, pois era a minha bebida favorita. A dose era cara, mas não o impedia de comprar mais e mais. Hanna, ao contrário de mim e Rafael, não poderia beber, mas mesmo assim, tomou um gole de uma ice. No início, ela estava um tanto tímida com o ambiente, mas apenas meia hora depois, ela já descia até o chão com a batida da música. Ela estava alegre e já havia conhecido gente ali. Ela poderia ser tímida, mas em um ambiente daqueles, era difícil não se soltar. Eu, por mais que estivesse ficando bêbada, me controlava ao máximo para manter a compostura ao lado de Rafael, mas quando ele me deu a terceira dose de tequila e a quinta garrafa de ice, eu já não conseguia mais esconder.

— Você ainda acha que o que eu sinto por você é tudo uma ilusão da minha mente?

— Por que você está tocando nesse assunto agora?

— Eu só queria dizer que o fim do semestre está logo aí e então virá o Natal e finalmente o Ano Novo. Esteja preparado para cumprir o que me deve.

Eu estava dispersa e sendo controlada pela batida da música que tocava naquele ambiente. Apesar de estar relativamente escuro, era possível ver seu rosto. Ele sorria, estava se divertindo. Assim que parei de falar, Rafael passou os braços pelo meu pescoço e me abraçou de um modo desajeitado. Ele também havia bebido, mas não parecia realmente alterado. Apenas parecia estar se divertindo além da conta. Enquanto me abraçava, ele dançava junto.

— Certo, certo, eu vou apenas esperar e conceder um desejo a você. Vou esperar pacientemente...

Sua risada era parcialmente abafada pelo som, mas seu sorriso estava claramente visível a minha frente. No resto da noite que se seguiu, dançamos juntos, apenas nós dois. Mesmo com um ritmo em que se é comum dançar separado, ele permanecia me abraçando em cada uma das músicas.

Rafael dizia frequentemente que eu não deveria me iludir com suas ações. Deixava claro que éramos amigos. Bons amigos. Talvez até melhores amigos. Mesmo assim, era impossível eu não me deixar levar, pois a cada simples toque da sua pele contra a minha, um calor subia de um modo que era impossível descrever. Rafael era lindo. Ela gentil, bondoso. Era respeitoso. Seu sorriso era inconfundível, o seu olhar era penetrante e o seu jeito de andar ela único. O modo como segurava a faca era uma característica que ninguém que eu conhecia tinha. Tornou-se um traço exclusivamente dele. Diante de toda a atenção que dei a esse novo sentimento, de toda a força que tive de não deixar esse novo amor escapar, porque deveria simplesmente não alimentar minha mente e meu coração de algo tão bom?

— Você precisa se afastar dele.

Felipe Krause estava certo de que eu deveria seguir seu conselho. Ou melhor, ordem. Durante toda a semana que se seguiu, ele me seguia e repetia as mesmas palavras.

— Ele não é de confiança.

Eu queria poder dar ouvidos a meu melhor amigo, mas como poderia quando ele apenas repetia as mesmas coisas sem dar qualquer explicação para me convencer daquilo? Como eu poderia acreditar sem que houvesse um motivo real para tanta preocupação?

— Confie em mim, Lúcia. Ele não é quem você pensa.

Eu comecei a acreditar que ele realmente estava com ciúmes. Ele sequer havia conhecido Rafael, mas repetia irritantemente que sabia como se portava o tipo dele e que sabia que ele estava apenas brincando comigo. E eu sabia que Rafael não estava, pois todos os dias repetia a mesma coisa em meus ouvidos. Toda vez, sem deixar passar, que tudo aquilo era apenas e unicamente uma forte amizade. Como Krause tinha certeza de que ele era realmente uma má pessoa?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.