Casos e Acasos de uma Lúcia
1 PARTE I - Meu Segundo Amor - Aquele ônibus
Notas iniciais
Comentários sempre bem vindos.
Vivemos em um mundo onde é perfeitamente normal alguém ou uma sociedade excluir alguém porque simplesmente tal pessoa pensa diferente, o que fere o ego daquele que se acha superior. Pode ser diferente do jeito que for, até mesmo gosto musical.
Minha história não se passa em uma típica escola norte americana, onde as garotas populares namoram os garotos populares que as nerds idolatram. O clichê mais adorado é quando esses garotos descobrem que são apaixonados por essas nerds.
O meu clichê se passou em uma escola brasileira. Era uma boa escola, de fato. Mas quando as pessoas localizam características em outras, características que possam tirar proveito de alguma forma, uma hierarquia começa a ser criada. Desde a quinta série, eu estive no último patamar desta tal hierarquia.
Eis cinco fatos dos quatros anos em que estudei nesta escola:
1 – Eu era bolsista.
2 – Passava parte do tempo na biblioteca escrevendo sobre o meu conto de fadas perfeito.
3 – Meu estilo musical era diferente das meninas na época. Se hoje o que eu escuto é o conforto para a maioria dos jovens na minha idade, naquele tempo era estranho para as pessoas. Principalmente para aquelas meninas.
4 – Minhas roupas eram – e ainda são – estranhas aos olhos de outros. Babados e laços são minhas paixões.
5 – Eu gostava de alguém.
Não sei qual desses fatos fez com que eu me tornasse uma excluída quase que instantaneamente, mas sei qual deles me fez ser odiada por todos em apenas um mês do retorno das aulas.
Contos de fadas iluminam sonhos de milhares de garotas em todo o mundo. Elas sonham em poder ter seu príncipe, ser acordada de um sono profundo com um beijo verdadeiro e viver em castelos felizes para sempre. Mas amor não é algo tão comum quando a maioria pensa.
Quando completei quatorze anos, meu conto de fadas se transformou no garoto transferido do interior. Mas aquele amor, aquele sincero amor que alimentou meu coração e meus sorrisos por vários anos escapou dos meus braços por simples capricho.
O nome: Pedro Gonçalves Júnior.
Eu estava na oitava série quando Pedro Júnior chegou à minha escola, mais precisamente, na minha turma. Ele tinha a pele negra, de olhos escuros e cabelos encaracolados. Costumava usar um boné quando não estava na escola. Enquanto ele se tornava popular a cada dia que passava, enquanto eu já era uma excluída. Com um gosto musical peculiar para a época e um guarda roupa diferente e extravagante, em algumas ocasiões, minhas paixões eram laços e babados, vestidos de bonecas e sapatos de Lolitas. Era o que eu gostava. Era o que eu era. Minha identidade. Nunca havia feito isso para chamar atenção, mas as pessoas achavam que sim. Então, elas me ignoravam e eu sempre ficava solitária, desenvolvendo um amor platônico e inocente por Pedro.
Um dia, uma garota se apoderou do meu diário, onde havia poemas e confissões que nunca seriam entregues. Todas elas se referiam a uma única pessoa, identificada imediatamente, pois seu nome estava escrito em quase todas as páginas. Em pouco tempo, meu nome já era reconhecido. Tornei-me tão popular quanto Pedro, porém, era reconhecida de um jeito ruim. Enquanto Pedro era bonito, esperto, um bom amigo e ótimo no xadrez, eu era apenas a garota estranha que mantinha um caderno que tinha todas as páginas ocupadas com seu nome. Eu saí prejudicada e emocionalmente machucada. Pedro sabia meu nome, sabia quem eu era. Mas para ela, eu era, provavelmente, uma louca psicótica que só o queria para mim e para mais ninguém. Mas não era nada disso.
Em um dia, ele simplesmente foi embora, para muito longe, longe o bastante para que eu nunca o alcançasse.
Mesmo após tudo o que eu passei, meu sonho nunca mudou.
Primeiro nome Lúcia, carregando o sobrenome Torres, com meus recém-completados 18 anos, e já no segundo ano da faculdade de Design. Aparentemente inocente, porém com opiniões simbólicas, sou uma jovem que carrega um segredo desde o seu nascimento, escondido através de meu sobrenome oculto, meu único sonho era, de fato, ter um amor para dividir o café em tardes chuvosas. E até onde minha ambição havia me levado?
— Quando o verei de novo?
Ah, aquela descrição grudou no meu subconsciente como um chiclete gruda em um sapato. A diferença era que eu não fazia questão de tirá-la de lá. Camisa preta desbotada, a calça jeans de mesma cor, chinelos nos pés e bottons de bandas que ela adorava estampavam a mochila dele. Um queixo fino e as maças do rosto pareciam saltar; ele era a criatura mais linda que já havia visto, depois de meu gato de estimação. Eu não soube dizer exatamente quando me apaixonei. Poderia ter sido no instante em que o percebera, sentado ao meu lado no ônibus, ou poderia ter sido instantes depois disso, quando nossos olhares se chocaram.
— E o seu nome? Quando vai me dizer?
— Dá próxima vez.
Sua voz grossa penetrou meus ouvidos como uma melodia suave. Como uma sinfonia de Bach ou Tchaikovsky, porém era muito melhor. Por dois meses, aquela voz permaneceu na minha cabeça, até que eu pudesse escutá-la de novo. Mas quando o veria novamente?
*-*-*-*-*-*
O costume que eu mantinha era de sempre almoçar na universidade. Tendo aula durante o período da tarde, o horário iniciava exatamente as duas em ponto. Mas naquela quarta-feira de Setembro, meu avô comemoraria seu aniversário de 59 nos. Para a comemoração, um almoço fora feito, já que era um evento que não deveria passar em branco e o aniversariante teria uma viagem de negócios no fim da tarde, marcada há mais de uma semana.
Fora um almoço feito em casa, nada de restaurantes ou coisas do tipo, mas sim uma comida caseira feita ela minha avó, cujo passatempo favorito era justamente cozinhar. E fazê-lo para o marido então, muito melhor.
Após a refeição e sobremesa, precisei apresar-me. Apesar da carona oferecida pelo meu avô, percebi que recusá-la era o melhor caminho, pois o mesmo poderia se atrasar ao me levar, visto que era contramão.
Ao invés, ele deixou-me na porta do terminal de integração, onde eu pegaria o ônibus até a universidade.
— Tchau, vovô! Faça uma boa viagem e, por favor, não beba muito...
Dito isso, deixei o carro rumando até a entrada do terminal.
Naquela época eu não sabia, mas ali meu Conto de Fadas daria início no momento exato em que estaria atravessando as plataformas, enquanto meu príncipe encantado estava misturado na multidão. Ao contrário dos filmes, ele não andava em um cavalo branco, mas sim em um ônibus.
Ah, aquelas maçãs da bochecha... Como eu queria poder tocá-las. E no fim, eu não pude controlar minas ações mais uma vez. Quando percebi, já estava o cumprimentando. Por vezes, ajo sem pensar, apenas no impulso. Se eu quero fazer algo, antes mesmo de pensar, já o fiz. Se era bom ou ruim, nunca conseguir encontrar uma resposta para essa dúvida. Mas se que, se não tivesse agido assim, talvez nunca mais pudesse ter coragem pra fazê-lo.
— Oi! — Estava tentando, a todo custo, parecer convincente, ao invés de nervosa, que era meu real estado.
Talvez ele realmente não tivesse percebido o quanto eu estava nervosa, pois pude ver certa decepção em seus olhos, quando estes encontraram os meus. Logo, ele pôde se lembrar de mim e também o quão invasiva eu fui.
Apesar de ter sido um cumprimento sem resposta, eu não quis desistir. Caso abraçasse essa ideia, saberia que aqueles dois meses em que estive ansiosa, repassando aquele segundo encontro na minha cabeça, seria apenas tudo o que ele foi até aquele dia: um sonho.
— Qual o seu nome?
— Eu não vou te dizer — ele sorriu... Debochado.
Fora algo simples, mas doeu como se uma faca estivesse atravessando meu coração. Minha próxima reação fora apenas desviar o olhar para meus sapatos e resmungar a mim mesma sobre o quanto eu estava sendo realmente chata. Alias, eu estava mesmo sendo chata?
Sem a resposta, minha mente imaginava mil maneiras diferentes de responder a esta minha dúvida. Enquanto o barulho tomava conta dos meus pensamentos, mas, ali fora, entre ele e eu, o silêncio reinava. E, por mais estranho que possa parecer, ele quebrou todo aquele desconforto que havia se instalado entre nós.
— Você realmente gosta de laços, não é?
Fora algo que simplesmente me pegou de surpresa.
— Então você percebeu?
Enquanto eu resmungava com meus sapatos, ele simplesmente estava me observando, percebendo detalhes que não havia prestado atenção antes. Era algo realmente pequeno, mas ainda assim grande aos meus olhos.
— Você vai me dizer seu nome agora?
Finalmente senti que a conversa poderia andar. Ele abriu a boca, pensando provavelmente em uma nova desculpa para me dar. Jamais pude saber o que ele estava prestes a falar, já que fui surpreendida com um empurrão vindo de um senhor desesperado para conseguir subir para o ônibus que estava parado na plataforma. Essa era a realidade em que vivíamos todos os dias naquele maravilhoso lugar, visto que o desespero para sentar e a falta de educação poderiam resultar em empurrões como aquele que levei naquela tarde.
Por fim, o que me restou como o resultado daquilo fora uma meia rasgada e um joelho machucado. Minhas mãos estavam vermelhas, mas eu não sentia o ardor característico, e muito menos sentia os joelhos doerem. Aquele garoto segurou em meus braços gentilmente, ajudando-me a levantar do chão e somado a isso, existia o fato de que ele, naquele momento, começava a brigar com o homem que havia criado toda aquela situação. Ele estava tentando conseguir um pedido de desculpas, que eu não recebi.
Mas o que veio depois fora muito melhor.
Ele me encaminhou até um banco vazio, onde analiso a situação do meu joelho, que na realidade, não era nada ruim.
— Droga, — exclamei — essa meia chegou ontem...
— Esquece a meia — ele cortou minha fala. — Você precisa, pelo menos, colocar um curativo. Não pode ficar exposto.
— Eu não tenho curativo.
— Mas eu tenho.
Surpreendentemente, ele retirou uma caixinha preta de dentro da bolsa. Era bem simples, mas quando ele a abriu, logo se percebia que era uma caixa de primeiros socorros. Havia remédios, curativos, esparadrapo. Ele retirou do fundo da caixa uma embalagem de band-aids cor de rosa. Estavam escondidos entre os diversos remédios. Cuidadosamente, ele retirou a meia, limpou o excesso com algodão e depois, cobriu o machucado com o curativo.
— Quem anda com curativos?
— Eu ando com curativos — foi então que ele mostrou o dedo mindinho do pé, com o mesmo curativo cor de rosa.
— Esses remédios são todos seus?
Ele respirou fundo e surpreendeu-me novamente quando respondeu minha pergunta sem reclamar ou revirar os olhos. Aquilo deixou meu coração aliviado.
— Minha irmã mais nova. Ela sempre teve o sistema imunológico baixo. Também sempre foi muito desajeitada. Me dê suas mãos.
Minha reação seria perguntar mais sobre sua irmã, porém minha mente ficou em branco. Minhas mãos ainda estavam cobertas de terra, e ele apenas a limpou, delicadamente. O toque causou em mim um arrepio que subiu até a minha espinha. Fora a primeira vez que um simples toque causou tantos sentimentos diferentes em mim. Não sei se ele percebeu o quanto eu fiquei desconcertada com aquele simples acontecimento, mas no fundo, desejei que ele tivesse realmente percebido.
— Você está bem?
— Uma meia rasgada e um joelho sangrando. Estou bem — não hesitei em pedir mais uma vez. — Me diga seu nome.
Dessa vez, ele não revirou os olhos, não respirou fundo, mas sorriu. Era a segunda vez que via aquele sorriso sincero, fazendo com que pudesse sentir aquele arrepio na espinha mais uma vez.
— Por que eu deveria dizer? Nos encontramos apenas duas vezes em um período de dois meses. Quem garante que não nos veremos em apenas dois meses novamente?
— Eu não me importo. Não importa se vai demorar dois dias, dois meses, dez anos. Mas, da próxima vez, gostaria de poder chamar você pelo seu nome — respirei fundo — Eu quero saber o nome da pessoa que eu gosto.
Uma única vez na minha curta vida eu recebi uma confissão. Fora algo bem planejado, digno de filmes de Hollywood. Qualquer garota poderia se apaixonado instantaneamente... E eu? Apenas um mês depois dessa confissão grandiosa, fiz minha simples confissão naquela tarde. Não houve banda, não fiz uma serenata, não houve flores, não houve nada. Só eu e meus sentimentos. Aquilo fora a coisa mais assustadora da minha vida.
E o que mais contribuíra para aquele momento ser mil vezes mais assustador do que deveria, foram dois pequenos fatos:
1 – A reação dele fora completamente uma das piores possíveis para mim.
2 – Meu namorado estava na Europa.
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