Caso 1.4
2 02: A Viagem
Notas iniciais
Dia anterior...
A tarde estava ensolarada. Por uma região montanhosa de Manaus uma caminhonete 4x4 passava numa velocidade absurdamente mais alta que a permitida. Dentro do veículo só se escutavam risadas distorcidas que exalavam álcool por si só.
— Kevin, você está bêbado? — Ana perguntava preocupada do banco de carona, tentando fazer sua voz se sobressair às gargalhadas dos amigos bêbados que iam na fila de trás, para o namorado ao volante.
— Não que eu saiba. Por que, amor?
— Está indo rápido demais! — Comentou, observando o velocímetro do carro atingir a marca de 140 km/h.
— Relaxa, nessa estrada não tem radares...
— Eu não estou necessariamente preocupada com os “radares”. — disse, logo recusando uma nova lata de cerveja que sua melhor amiga a oferecia por cima do banco. — Não, Evelyn, obrigada!
— Ana, fique tranquila! Conheço esse trecho como a palma da minha mão. — explicou Kevin, apontando com o dedo indicador para a frente. — Não têm curvas fechadas, buracos ou nada com que deva se preocupar. Apenas longas retas que deixam o piloto usar seu carro no limite!
— “No limite”? Se você acelerar mais que isso eu te jogo pro lado de fora!
Na fila de trás, o preguiçoso Alan previsivelmente dormia no canto esquerdo, encostado à sua porta. Antes de cair no sono ele devia ter ingerido uma ou duas latas de cerveja, o que costumavam fazer seu sono dobrar. Pelo menos o resto daquela viagem seria sem um Alan brincalhão e falante.
Ao lado dele, cutucando a orelha deste na tentativa de acordá-lo, Wilson bebia a décima-primeira lata consecutiva enquanto fazia a namorada rir com suas gracinhas. Ambos estavam bêbados – Evelyn ainda mais, já que se encontrava nua da cintura pra cima.
— Deixa ele quieto e vem aqui na tua gata! — chamava num tom bem sexy a garota loura, acenando para Wilson vir ao seu encontro ao mesmo tempo que acariciava os próprios seios.
— “Tua gata”? — Kevin repetia rindo e olhando para Ana. — Acho que a sua amiga certinha foi abduzida e trouxemos a versão assanhada dela!
— Ela não é acostumada a beber tanto assim... — explicou. — Amanhã, quando contarmos que eles transaram duas vezes no carro perto da gente, ela vai querer abrir um buraco no chão e entrar nele!
— Acho que serão três... — Assentiu o namorado observando o retrovisor.
— Ai não, de novo não! — Ana revirou os olhos.
— Eu só espero que estejam usando camisinha...
Não demorou muito tempo para que os gemidos de Evelyn começassem a tomar conta do carro junto a catinga de álcool que fazia os olhos dos conscientes arderem. O casal no ato sexual trocava caricias enquanto cambaleavam para os lados de tontura. Talvez nem chegassem ao orgasmo daquele jeito. Wilson ainda por cima não sabia se bebia ou transava, e para a sua sorte um embrulho no estômago respondeu por ele: vomitaria.
E foi uma rajada quente e nojenta de pura cerveja que subiu garganta acima do rapaz e jorrou de sua boca como se fosse uma mangueira de bombeiros, atingindo o painel frontal do carro e parte dos braços de Kevin.
— Ai, que nojo, Wilson! — Reclamou o amigo, finalmente reduzindo a velocidade do carro para se limpar.
— Não reduz por bem, reduz por mal! — Ana ria no passageiro.
Parando o carro num canto da estrada, Kevin pegou um pano no porta-luvas e abriu a sua porta. Ao sair do carro, a sensação de alivio ao escutar seus ossos estalando e voltando pro lugar depois de várias horas seguidas sentado naquele banco desconfortável o fez suspirar. Ana também saltou do veículo para respirar um pouco de ar puro e tirar aquele fedor de álcool que a corrompia por dentro. Enquanto isso, Wilson e Evelyn terminavam o ato.
— Essa camisa era novinha! — Reclamou o moço vendo a mancha do vomito em sua vestimenta enquanto a namorada se aproximava pela frente do veículo.
— Sorte que foi em você. — disse Ana. — Não que a minha blusa seja nova, mas isso é nojento!
Kevin então direcionou seu olhar para a estrada que ainda tinham pela frente e pôs-se a pensar. Ana o seguiu.
— Tá faltando muito pra gente chegar lá?
— Umas duas horas! — respondeu, dando um inevitável e longo bocejo.
— Você já deve estar bem cansado, né? Dirigiu a manhã toda.
— Eu aguento, Jô, relaxa...
E ele deu um curto selinho na namorada, que espertamente aproveitou a deixa e tomou a chave do carro de suas mãos.
— Eu sei que você aguenta, mas eu não aguento ir a 140 km/h por mais duras horas, amor. Sinto muito, mas agora sou eu quem dirige!
Repentinamente, uma moto passou numa velocidade incrível pela pista e bem próximo ao casal, assustando-os.
— Que louco! Poderia ter batido em nós! — Ana reclamou, observando o motoqueiro sumir na estrada.
— Como eu te disse, andar correndo por aqui é normal! — Afirmou Kevin, roçando os olhos. Sua expressão estava realmente bastante cansada. — Mas tudo bem, pode dirigir. Acho que vou dar uma de Alan e dormir também!
— Nem pensar! Se você dormir, vai ficar um silencio onde só os gemidos da Evelyn serão ouvidos... Você vai acordado e conversando comigo!
— Então vamos! — o rapaz determinou.
Após retornarem ao carro, agora em posições opostas, Ana deu partida no veículo e a viagem do grupo continuava.
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