Casamentos, perfumes e doses de tequila
3 O Perfume
Notas iniciais
11 de abril de 2017.
Reiner acordou com uma forte dor de cabeça indicando uma ressaca daquelas. Virou o seu corpo e ficou observando o quarto vazio ao mesmo tempo que resgatava as lembranças da noite anterior.
Convidara Eren, Armin e Marcel para comemorar a sua promoção no trabalho em um bar com uma excelente promoção no happy hour da cidade. O plano era ficar só uma hora, mas Eren acabou se encontrando com Erwin e Levi, seus chefes, fazendo a noite se estender até o fechamento do bar.
Sua última lembrança era de ter virado um shot de tequila e gritado:
— Gostaria de anunciar a todos que a partir de agora é tudo por minha conta! – Ouviu todas as pessoas do bar berrando de alegria – E garçom, traga shots para todo bar, inclusive para os funcionários da casa. Eu pago!
O desespero o invadiu ao se lembrar desses detalhes. Com as mãos no rosto, Reiner estava com muito medo de olhar o seu saldo na conta. Talvez fosse o caso de pedir ajuda ao FMI...
Evitando pensar muito no assunto, saiu da cama e foi até o banheiro. No meio do caminho, notou uma embalagem de preservativo aberta. Uma onda de desespero invadiu seu rosto. Quão bêbado eu estava ontem a noite? E o pior, com quem eu dormi?
O banheiro estava vazio, porém, ainda dava para sentir o vapor do chuveiro recém usado. Uma toalha extra estava pendurada no box, confirmando a presença de que alguém esteve lá. Optou por não se preocupar com isso no momento e tentar tomar um banho para aliviar a sua ressaca.
Saiu do banho com os cabelos molhados e se vestiu. Em seguida, foi até a cozinha para beber um pouco de água, quando se deparou com uma mulher, que até então não conhecia, de cabelos curtos e escuros sentada na bancada enquanto escrevia algo em uma folha de papel. Um perfume de alecrim invadiu suas narinas, trazendo uma lembrança dela se aproximando e falando no seu ouvido que tinha uma amiga dela interessada no Marcel. Estranhamente, o nome Angélica veio em sua mente ao olhá-la:
— Você acordou – disse Angélica levantando o rosto mostrando seus olhos verdes como o mar – Acabei usando seu chuveiro e ia botar a toalha para lavar enquanto deixava isto na sua cômoda. – ela deu um pequeno sorriso enquanto mostrava um pedaço de papel com várias palavras escritas – Espero que não se incomode.
–Não se preocupe com isso – respondeu um pouco confuso – Pode deixar que eu faço.
— Tem certeza?
—Claro, não tem problema.
Um silêncio constrangedor se instalou no ambiente, sendo quebrado por Angélica:
– Sabe, ontem a noite foi divertido – sentiu o rosto esquentar um pouco ao ouvir isso – e você é muito gato, além de ser engraçado.
– E por que eu sinto que estou tomando um fora? — perguntou o loiro em um tom de brincadeira
— Porque é o que está realmente acontecendo. – disse sem rodeios – Está na sua cara que está apaixonado demais por alguém. E que ela não sai da sua cabeça.
—Como? Isso não faz sentido algum — respondeu com pouca convicção.
— Caso não se lembre, ontem te contei que meu trabalho consiste em identificar mentirosos – ela se levantou da bancada – E você, é um mentiroso de primeira.
— Acha que sou o tipo de pessoa que mente em relação aos meus sentimentos?
—Claro! – ela cruzou os braços
Reiner ficou sem resposta. Aquela mulher não tinha papas na língua, mas não negava que era bonita e totalmente seu tipo: cabelos escuros , pele morena, olhos claros e alta. O dono do apartamento se surpreendeu em admitir que tinha um tipo de garota que gostava mais e ficou mais surpreso ainda por sua aparência ser completamente diferente da de Annie.
A observou caminhando em sua direção. Seus gestos eram elegantes naturalmente. Talvez fosse algo comum de pessoas altas, pois Bert também era assim:
– Olha, não falei nada disso para te ofender – disse a morena enquanto envolvia as duas mãos no rosto dele – Mas detesto ver alguém mentindo para si mesmo com relação aos seus sentimentos.
—Se eu parar de mentir que diferença vai fazer? – pela primeira vez em anos, Reiner decidiu ser honesto consigo mesmo – Não vou acabar com o casamento dos meus amigos por causa dos meus sentimentos.
–Sinto muito por isso– suas mãos permaneciam no rosto dele – Mesmo não confessando seus sentimentos para essa pessoa, pelo menos admita para si mesmo seus sentimentos.
—Tenho medo de admitir e ter que lidar com a dor de vê-la sem poder contar sobre meus sentimentos – ele correspondeu o toque dela acariciando seu rosto – Acha melhor não deixar essa pessoa saber.
A morena suspirou:
— Por favor não me coloque em uma posição mais difícil do que aquela de ontem a noite.
— Como?
—Ontem, no seu quarto... Nunca vi alguém...
—Já entendi! – interrompeu Reiner com o rosto vermelho da mesma tonalidade que um caminhão de bombeiros.
Ela riu do constrangimento do rapaz, que acabou rindo de volta por um tempo, até ficarem em silêncio novamente enquanto se olhavam. Os olhos dela eram verdes e o encaravam com uma intensidade absurda. Lembrou-se daquela vez, há três anos, olhos da mesma cor e totalmente intensos encaravam seu rosto com muito desejo.
Mas naquele momento não eram os olhos dele o encarando. Eram os de Angélica.
O som da campainha os interrompeu. Um pouco sem graça, se afastou da moça que parecia um pouco decepcionada:
—Acho melhor eu ir para casa – disse Angélica – Obrigada pela noite. Espero que consiga lidar com seus sentimentos e dê tudo certo entre você e seu amado.
— Amada – corrigiu o loiro – Eu gosto de uma mulher.
— Você não sabe de nada mesmo – Angélica disse com decepção e foi até a bancada pegar sua bolsa.
Aproximou-se novamente do homem e colocou o pedaço de papel no bolso da calça do loiro, enquanto aproximava seu rosto para dar um longo beijo em seus lábios:
– Caso você precise de alguém para conversar, estou deixando o meu número – ela deu um sorrisinho – Mas nada de beber demais.
— A minha conta bancária agradece.
A campainha passou a tocar cada vez mais rápido. Angélica decidiu sair pela porta dos fundos enquanto atendia a porta da frente, onde Annie e Bertholdt estavam parados:
–Olá garanhão, tudo bem? – disse Annie o provocando – Espero que não estejamos interrompendo nada.
— Como assim? – questionou o loiro enquanto dava passagem para o casal entrar.
—Não se faça de bobo. Você demorou demais para abrir e te escutamos falando com alguém.
— Ele poderia estar falando sozinho – respondeu Bertholdt
– Fazendo uma voz em dez tons mais agudos que o dele, Bert? – respondeu Annie se divertindo com a conversa – Se for isso mesmo, você está de parabéns Braun, pode ir naqueles programas de talentos e surpreender as pessoas com sua voz feminina.
Os dois rapazes riram do comentário de Leonhardt e o padrinho do casal os convidou para entrar:
– E como foram de viagem? Gostaram de Praga? -perguntou o loiro enquanto sentava em uma poltrona
— A cidade é maravilhosa! – dessa vez, foi Bertholdt o primeiro a falar indicando sua empolgação com o assunto: — A cidade é simplesmente o paraíso da arquitetura. Claro, não entendo sobre o assunto como Annie, que trabalha na área, mas não pude deixar de apreciar – seus olhos estavam cada vez mais iluminados: — A casa de Kafka foi a melhor experiência da viagem! E a Kafka Bookstore também...
— Tive que conter o Bert de não comprar a loja inteira! – disse Annie acariciando os cabelos negros do marido – Mas foi quase impossível, ele é simplesmente apaixonado pelo Kafka.
O moreno corou um pouco com o comentário. Annie deu um beijo em sua bochecha:
— Não estou te repreendendo, bobo – disse Annie com um sorriso radiante – Eu gosto disso em você.
Eu também. Pensou o loiro por um segundo antes de se repreender mentalmente.
O resto da tarde se resumiu aos três jogando conversa fora, como nos velhos tempos. Poderia até se dizer que nada mudou, mas o loiro discordava. Agora, existia uma aliança na mão esquerda dos seus dois melhores amigos, que não soltavam as mãos por nada e se olhavam apaixonadamente. A maior prova de que aquilo não era um sonho foi a fotografia que os três tiraram no casamento: agora ele tinha uma cópia dela, presente do casal.
Olhar Annie e Bert no meio de um momento romântico, era doloroso demais. Ver aquele sorriso tão iluminado direcionado para alguém que não era ele, o matava aos poucos.
Mas espera, sorriso de quem? E como eu posso estar questionando algo desse tipo? Óbvio que é o dela! Tem que ser.
Na hora de se despedir, o anfitrião abraçou longamente o corpo pequeno de Annie e em seguida abraçou Bertholdt. Seu amigo era mais alto, por isso, acabava se sentindo protegido em seus braços. Era estranho pensar que um cara gigante, como Reiner necessitaria de proteção, mas nem sempre foi assim. Teve que lidar por dezessete anos com um pai abusivo que batia nele e na mãe. E seus dois amigos sempre o ajudaram naquele período.
Mas era com Bert que se sentia protegido. Era com ele que se sentia livre para chorar e extravasar toda verdade sobre o pai e sobre si mesmo. Aquele homem era seu porto seguro.
E por isso que não queria deixá-lo ir daquele abraço. Seu corpo ficaria mais frio caso o moreno se afastasse. Ele tinha um cheiro delicioso de erva-cidreira misturado com nostalgia. Aquele cheiro foi o gatilho necessário para que o loiro tivesse uma epifania:lembranças, até então enterradas, invadiram sua mente. Lembranças que queria esquecer e fingir que não aconteceram, mas agora era tarde demais. Elas insistiriam em permanecer e impregnarem nele, como uma tatuagem.
Após se afastarem, Reiner olha para Bertholdt, pela primeira vez, com outros olhos.E por um breve momento, seu amigo o olha de volta com uma expressão séria e um olhar mais intenso. Ele o olhou mesma forma que tinha feito três anos antes, fazendo com que o coração de Braun batesse mais rápido e deixando seu rosto mais quente.
Será que ele também se lembra? Perguntou-se.
— Bert, o elevador chegou! – chamou Annie interrompendo o transe dos dois.
Como se nada tivesse acontecido, Bertholdt diz um breve "tchau" ao amigo e vai em direção ao elevador, como se nada tivesse acontecido.
Com o rosto pálido, Reiner fecha a porta da casa e apoia suas costas na porta, a deslizando lentamente até o chão.Levou as duas mãos até a boca para conter o soluço e não fazer muito barulho enquanto chorava.
Agora não tinha mais volta, precisava enfrentar aquela noite que ocorreu há três anos, na casa de praia dos Jaeger.
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