Casamento por obrigação
24 Capítulo 25
Daniel olhava para aqueles papéis e sorria do seu jeito cínico. Desde que havia descoberto aquele segredo, o que era um simples desejo se tornou sua prioridade. Assim, tornou-o a guardar na maleta de seu armário e foi para seu destino, a Fazenda Mendoza. Mas seu interesse não falar com nenhum daquela família intragável e sim com o senhor Hermes.
—Espero que tenha se convencido, Senhor Pinzón que sou a melhor opção!
—Sim. -disse, sem muita certeza.
—Sou um homem de posses, inteligente, com diploma e ainda sozinho. E sua filha é uma moça muito interessante.
—Veja bem, senhor Valência, o problema é que não sei como dizer isto a minha filha, ela não é uma moça comum.
—Tenho certeza que o senhor tem suas armas paternas.
—Creio que em um jantar será melhor.
Tampouco Dona Julia podia acreditar que teria que fazer um jantar para receber o tal do Valência, desconhecendo as intenções do marido. Sabia que Betty não suportava nenhum daquela família.
—Mas por que tanto prato?
—Iremos receber um convidado especial.
—Especial? Mas quem?
—Isto é surpresa! A senhorita irá saber quando chegar o momento.
—Não vai me dizer que está de novo com planos de noivado, papai. Já disse que sou muito nova para me casar.
—Sua tia Pinzón casou-se com 16 anos.
—Eram outros tempos, papai. Hoje, as moças se casam depois de se formar.
—Tenho certeza que o seu distinto noivo terá muito prazer em ter uma esposa inteligente, pois ele mesmo é um homem de posses e muito inteligente.
—Esposa? Mas quem é este, papai?
—No jantar irá saber! Ah, deve ser ele. Atenda, Júlia.
Betty não podia acreditar que a sua frente estava o homem que mais odiava, nada menos que Daniel Valência e muito menos que o tal noivo misterioso que seu pai falava com tanta orgulho era ele. O pior é que para seu pai, Daniel era honesto, cavalheiro, ainda que pudesse ser seco e direto às vezes. Mas Daniel não era nada do que seu pai pensava e Betty sabia muito bem.
—O pedido oficial deverá ser feito por seu pai. Somos uma família tradicional.
—Claro, Claro. -disse, sem esperar
—Uma pena que meu tio Lázaro esteja doente, ele gostaria de ver isso.
—Melhor não incomodá-lo, se está assim.
—Já lhe contei a história do meu tio?
Hermes começou a contar, Betty e Júlia olharam uma pra outra e se recolheram para a cozinha com o pretexto de lavar os pratos.
—Juro que não sabia que seu pai tinha intenção de casá-la com este senhor Valência.
—Ai, mamãe, o detesto.
—Mas não estava de passeio com ele outro dia?
—Foi um erro que cometi. Nunca devia ter dado assunto a este senhor,
Por fim, Hermes foi buscar algo para beberem e celebrarem.
—Ufa! Ele parou de falar. -disse Daniel
—Saiba que meu pai tem muito mais histórias para falar de tio Lázaro. -disse Betty, debochando.
—Estou pronto para ouvi-las!
—Por que está nessa de casar comigo?
—Não pensaria que é por amor?
—Primeiro por desejo, quero ser o primeiro a colher esta fruta. E segundo porque me interessa muito.
—O senhor um homem de posses e rico quer se casar com uma mulher como eu, filha dos empregados?
—Não se faça de humilde, pois sei de suas ambições. Ainda mais é inteligente.
—Sou tão inteligente não vou descansar enquanto não souber porquê quer se casar comigo.
—Esteja à vontade, querida noiva. Antes disso, estará casada e em meus braços se entregando como minha adorada esposinha.
Betty fez cara de asco. O odiava.
Gostaria de lhe contar o que ele tentou fazer, mas seu pai não acreditaria, estava encantado por aquele homem e se acreditasse iria culpá-la por ter aceitado ir sozinha com ele passear de barco, sendo um homem. Sabia como seu pai era machista. Assim que, a solução foi esperar o jantar terminar para chorar no travesseiro. Iria contar para Armando. Quem sabe poderiam achar uma solução.
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—Mas pai! O senhor não sabe o que está falando! O senhor Valência não é flor que se cheire! Até os Mendoza dizem isso.
—Filha, não se envolva nos assuntos dos patrões!
—Eles não são nossos patrões! Ainda mais não trabalho na fazenda nem dos Mendoza!
—Como não?
—E a escolinha?
—Como professora, mas em breve estarei de volta à faculdade!
—Isto é se eu permitir!
—O quê? O senhor não quer que eu estude e me forme?
—Claro, minha filha, desde que isto não a prejudique na vida. Me orgulho que minha filha aprimore sua inteligência e se mostre ao mundo como um verdadeira Pinzón, mas não devemos desprezar o que a vida está nos dando. Nunca imaginaria que um homem como Daniel Valência se interessaria por você, filha! Bem apessoado, distinto, rico, educado, sincero. Um homem de bem!
—Você está enganado, pai! Não está falando de Daniel Valência! Não o conhece! Ele é um canalha!
—Não se atreva a repetir isso de um homem de bem como Daniel Valência!
—Falo e repito! Canalha, ordinário, falso e mentiroso!
—Não me faça perder a paciência ou faço contigo o que deveria ter feito!
—O quê? Vai voltar a me bater de cinta? Como fazia na infância?
—Beatriz Aurora! Fiz isto uma única vez.
—Duas. E deveria ter feito muito mais! Assim não estaria me respondendo.
—Pai. Sabe que te respeito muito, mas é o cúmulo que escolha com quem devo namorar! Estamos no final do século XX e isto está ultrapassado!
—Pois o menino Daniel Valência é jovem e concorda comigo.
—Porque lhe convém!
—Por que tem tanta implicância com ele¿
Beatriz queria contar ao pai quando Daniel a tentou agarrar, beijá-la e fazer não sabe que coisas no meio do lago, mas tinha medo que do jeito que seu pai estava inclinado a acreditar em Daniel, acabaria por acreditar nele e não nela e pensar que ela o havia dado permissão. E caso acreditasse, ainda iria lhe questionar porque não contou na ocasião o que Daniel tinha feito. Agora, se arrependia de não ter-lhe contado.
—Diga-me, o que tem tanto contra o senhor Valência?
—Além de ser um mulherengo incorrigível, um grosso, costumava tirar sarro de mim quando era feia.
—A senhorita nunca foi feia! Sempre foi bonita!
—Não é o que pensava Daniel e seus amigos!
—Quem?
—Ora, Mário, Freddy.
—E eles continuam achando?
—Não. Agora que voltei bonita, não!
—E agora Valência também continua “tirando sarro” como disse?
—Não mais!
—Vês? Ele mudou! Era coisa de menino! Agora, mais maduro reparou a beleza que tem e que consertar as coisas! Ao fundo, devia sentir algo por você! (faz cara de nojo) Pois, quer permissão para cortejá-la.
—Não quero namorar com ele!
—Deve dar-lhe uma chance!
—NÂO!
—BEATRIZ AURORA, NÃO ME GRITE!
—Pai! Não posso namorar com quem não gosto!
—Vocês jovens de hoje. E acaso gosta de alguém?
—Er... (lógico que pensou em alguém, mas não podia dizer) Não.
—Então, dê uma chance ao Valencia.
—Não.
—Dê-lhe uma chance ou já sabe.
—O quê?
—Não permitirei que volte a terminar seus estudos na Capital!
—Pai!
—Sabe que precisa de minha autorização e sobretudo de dinheiro emprestado de don Roberto.
Beatriz ficou chateada. Queria chorar, mas não na frente de seu pai.
Don Hermes era muito machista e queria ter um filho homem, mas sua esposa já havia perdido três crianças, um nem chegou a nascer, de modo que a terceira tentativa, que era ela, ele prometeu que seria tudo que sonhara. Infelizmente, ou não. Foi uma menina, então, ela teria que cumprir o sonho de ser uma brilhante economista, como foi seu tio-avô Lázaro Pinzón, seu avô Hermes. Ele, o pai também era bom com os números, mas nunca havia estudado formalmente, por conta de problemas de saúde na infância que o impediram de frequentar a escola regularmente, de modo que prometeu que seu filho seria como Lázaro Pinzón e sua filha seria como sua esposa, devotada ao lar, excelente cozinheira e dona-de-casa, como sua esposa. Mas como só teve Beatriz, decidiu que ela faria as duas coisas. Seria uma excelente esposa e mãe, casando-se com um homem bem situado na vida, não necessariamente rico, mas que fosse educado e inteligente para entender que sua filhatambém tinha que ser culta e educada e formada na universidade. Para ele, Daniel Valência preenchia todos estes requisitos. E se estava interessado em sua filhinha, iria usar toda sua autoridade de pai pra unir os dois.
Assim, mesmo com o incômodo de Beatriz,Daniel passou a ser visita constante na casinha dos Pinzón. Bancava o bom moço para o pai e a mãe dela. Mas Beatriz sabia que aquilo eraa sódifare, aparte do que aconteceu com ela, já tinha ouvido muitas coisas sobre Daniel.
—Beatriz! Tome estas flores, lindas como você!
—Não seja insolente, Daniel Valência! A mim no me convence! Pode parar de representar!
—O que diz? Não acha romântico receber flores de seu namorado, futuro noivo?
—Nunca será meu noivo!
—Será minha esposa! Escute o que digo!
—NEM QUE SEJA o ÚLTIMO HOMEM DA FACE DA TERRA!
—Pois conforme-se, pois será minha esposa, nem que para isso tenha que fazer uma loucura!
—O que quer dizer? Vai me ameaçar? Se não casar contigo vai fazer o quê?
—Não me provoque! Não me conhece! Sou capaz de tudo!
—Pois é, eu sei. Conheço quão grosseiro, mentiroso pode ser!
—Não é o que seu papai acha!
—Meu pai está iludido, pensa que é um cavalheiro, mas não passa de um canalha!
Chega perto dele, tomando-a pela cintura com força, com a outra mão segura seu pescoço.
—Disse para ter cuidado com as palavras! Não quero machucar este corpo delicioso que tem. (Beatriz sente um arrepio, algo que esfria sua espinha, sente medo.)
—Não quero fazer nada contra você! Até prefiro mantê-la assim, pura imaculada para nossa noite de núpcias!
—Louco! –cuspiu-lhe
—Isto! Assim me deixa mais excitado, deve ser deliciosa e apertadinha, lógico por ser virgem. Gostaria de prová-la já!
—Nunca! –contorce-se em seus braços
—Mas acalme-se. Não vou fazê-la provar como é ser seu homem antes do casamento. Te garanto que vai gostar tanto que vai se viciar. Pode ficar tranquila! –a joga no sofá –Não farei nada contigo. Não quero. Dei minha palavra a seu pai e embora não tenha honra, meu pai Júlio Valência tem e não vou tocá-la até ser minha. Quero-a assim pura e imaculada quando será minha e de mais ninguém.
—Jamais, Daniel Valência! Jamais!
—Será por bem ou por mal. –segurando seu pescoço, fazendo-a levantar-se –Pois se não aceitar meu pedido, irei recorrer a outros métodos. Nem queira saber.
—O que fará? Vai me matar?
—Não. Sei que seu pai não vai aceitar uma filha desonrada, que não seja mais virgem, ele é moralista! Realmente uma relíquia e me obrigaria a a casar-me contigo se a desonra-se. Isto mesmo! Será minha esposa por bem ou por mal! Quero ser seu homem só na lua-de-mel quando te farei mulher com uma delicadeza rara, mas se assim não quiser, te possuirei a todo custo e a farei se casar comigo.
—Nunca!
Beatriz saiu correndo e se trancou no seu quarto e chorou, chorou na cama a noite inteira. Não entendia porque agora Daniel estava tão interessado nela. Amaldiçoou-o. Amaldiçoou- o dia em que voltou bonita e atraiu a atenção daquele homem asqueroso Tentou conta tudo aos seus pais, sua mãe parecia acreditar-lhe, mas não tinha poder de fala, tão submissa que era, e seu pai, teimoso e agraciado pela forma como agora era tratado pelos papais Valência, que o tratam como nunca antes, pois agora eram quase compadres. Júlia só balançava a cabeça.
—Tenha fé, tudo vai se resolver, filhinha!
—Não tenho mais esperança, mãe! Se ao menos tivesse todo o dinheiro iria embora.
—Por que não pede para Armando?
—Ele também não está bem financeiramente. A fazenda passa por crises, por isso, querem obriga-lo a se casar com a irmã desse asqueroso, ela deve ser tão asquerosa quanto ele.
—Mas ele gosta dela, não?
—Da senhorita Valência?
—Sim, está sempre atrás dele e saem juntos e dormem juntos!
—Para nada, mamãe! –gritou, estava com muitos ciúmes –Ele não gosta dela!
—Como sabe?
—Porque porque somos amigos. E me disse que não gosta que apenas foi obrigado a se noivar, ou perdem a fazenda.
—Digo porque já os vi entrando no quarto dele para fazerem coisas que casados fazem, sabe? São as moças de hoje, fazem antes do casamento.
Beatriz estava vermelha de ciúmes, sentia vontade de chorar.
—Logo, eles devem se casar!
—Porque fazem coisas antes de casar? Só na cabeça de vocês aqui. Mas Armando não pensa assim, não gosta dela ou não teria namoradinhas por aí! Sabe a professorinha? Flagrei-os fazendo lá na cabana-escola.
—O patrãozinho e a professorinha?
—Sim. E não foi a única vez não. Por isto, digo que não gosta dela. Se tem intimidades é porque ela assim o quer e permitiu!
—Se seu pai sabe dessas coisas! -Beatriz começa a se arrepender de ter contado essas coisas a sua mãe -Não iria permitir que se aproximasse do patrãozinho, sabe?
—Sei, mãe. Mas a mim, Armando respeita.
—Sim, sempre cuidou de você, a vê como uma menininha, sua irmãzinha (Que raiva que Beatriz está) Mas ele sabe que vai precisar assentar cabeça e terá que se casar com alguém e do jeito que patrãozinho gosta desta fazenda, não vai aceitar perdê-la e vai acabar casando com a senhorita Valência! E não se preocupe, filha que essa de sair com outras é coisa de homens. Eles são assim! -Betty ficou chocada -Veja, seu Roberto era mulherengo e quando conheceu dona Margarida virou um homem de família.
—Pois eu não aceitaria. Se namoro com um homem, ele tem que ser meu! E não sair com as outras. Quero exclusividade.
—Ai, filha. Se continuar assim, não vai se casar.
—Pois que eu não case! Mas dividir, não vou. Um homem que eu ame, também me amará e seremos um do outro. Nos amaremos e teremos uma família e lindos filhos pelo jardim.
—E quem é este, minha filha? Um que conheceu na faculdade?
—Hã?
—Este que gosta?
—Não gosto de ninguém.
—Gosta. Sou sua mãe e sei que estes olhinhos não brilham por nada e este coração bate forte por alguém.
—Ai, mãe.
—Se não quer contar, compreendo.
—Está bem. Gosto de alguém sim.
—E ele gosta de você?
—Não sei. Sinto que sim.
—Se é assim, se gosta de outro de forma tão intensa, fuja! Não se case com o menino Valência! Se precisar, fuja!
—Mas como, mãe, se o papai...
—Ele vai cair em si. Vou te ajudar, não sei como, mas vou te ajudar.
—Grata, mãe.
—Agora, deveria pedir ajuda ao seu amigo, don Armando é um bom homem, pode te ajudar.
—Grata, mãe. (A abraçou, pensando: “se ela soubesse quem é o homem que gosto, não me daria tanto apoio.”-pensa)
—Pedirei, ele também odeia o Daniel Valência.
—Odeia o próprio cunhado?
—Não são cunhados e ele não vai se casar com ela! Não vai!
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