Casamento por obrigação
2 Capítulo 2 - O encontro
Beatriz Pinzón Solano está de volta à fazenda onde nasceu depois de morar na Capital durante 5 anos, nos quais, graças à sua inteligência, ganhou uma bolsa de Estudos para fazer intercâmbio de 8 meses na Espanha. Seu pai, apesar de ser controlador permitiu que a filha fosse estudar na Capital, pois sabia que era dotada de grande inteligência e ali não dispunham nem de escola para estudar o básico. Ela não podia perder a oportunidade que a vida lhes brindava com uma bolsa de estudos por intermédio de Catalina Angel, a madrinha de Betty. Assim, a menina foi em companhia da jovem senhora estudar. Inicialmente, iria ficar apenas para fazer o Ensino Médio, mas acabou ganhando uma bolsa, trabalhando e quase viu já estava lá há 5 anos e com quase 18 anos. Era magra, de média estatura, pele branca de porcelana, cabelos negros cacheados que caíam sobre seus ombros, olhos de café e um corpo, que se destacava, apesar de sua discreta roupa.
Apesar de ser filha de empregados, Beatriz, quando pequena, sempre foi bem tratada pelos Mendoza que a tinham com determinada distância como uma sobrinha. Camila, a menina dos Mendoza, tinha apenas um ano mais que ela a via como a irmã que não tinha e Armando sendo mais velho, sentia que era como o protetor das duas, sobretudo, de Betty, que por ser menos favorecida fisicamente e também pobre era tratada com diferença e sofria bullying por parte dos filhos dos fazendeiros abastados, como os Valência e até mesmo de Mário, Freddy e Wilson.
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—Filha! -Dona Júlia não podia aguentar de emoção -Mas está tão linda, minha filha!
—Ojojo! Gostaram do meu novo look? Na capital não poda mais ser Beatriz, a horrorosa. Ojojo! Onde está, papai?
—Aqui! — O homem limpava as mãos sujas em um pano para poder pegá-la no colo, esquecendo que ela não era muito mais a menininha que se foi. –E a muito mais a acreditar que aquela moça a sua frente era sua filha Betty.
—Você está diferente!
—Não me reconhece mais, papai? Já não sou a mesma feia de sempre. Estou um pouco arrumadinha. Ojojo!
—Nunca foi feia! Sempre foi uma menina bonita, mas agora que cresceu, está muito destapada com estas roupas indecentes!
—Ah, não começa, Hermes! A menina tinha que se adaptar às modas das moças da Capital.
—Isto é o que temia, Julia! Que a menina andasse como estas outras mundanas!
—Ora, papai não seja tão antiquado. Eu continuo a mesma! Levo comigo os valores que me ensinaram. Agora, venha cá meu velhinho turrão que estou morrendo de saudades dos dois!
Os dois a abraçam ao mesmo tempo.
—Mas onde estão suas malas?
—Tenho estas e as outras estão ali na porta!
—Já as pego! Não perde a mania de deixar tudo espalhado...Não sabe que dona Margarida não gosta?
—Tem coisas que nunca mudam!
—Mas também duvido que Dona Margarida venha aqui, deve estar muito ocupada com os preparativos e receber toda esta gente. –disse Júlia
—O que me faz lembrar que tenho que continuar com meu trabalho!
—Como assim, trabalho? Cheguei hoje de viagem e mal consegui entrar, esbarrando nesta multidão de gente. Estou cansada, passei por apuros para chegar aqui. Aliás, por que a fazenda está assim?
—Assim como?
—Tão cheia de gente, quase não consegui chegar aqui.
—Er...
—E nem foi me buscar na estação, papai!
—Desculpe, filha. É que os Mendoza, nossos patrões, estão recebendo muita gente importante hoje.
—Mas por que a casa está assim? –pergunta, curiosa. -Por que não foram me buscar na estação?
—Shiu! Minha filha!
—Não estou entendendo!
—Filha, venha, deixe seu pai ir, ela tem trabalho para fazer, depois ele te explica. -disse Jùlia, puxando a menina pelo braço.
Hermes balançou a cabeça.
—Esta menina nunca vai entender que não tenho escolha. Os Mendoza são boa gente, nos dão trabalho, casa para morar, são amigos, mas tem uma divisão, ainda sim somos empregados e eles patrões. Temos que manter as diferenças. –dizia Hermes para si mesmo.
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Aquela noite se realizaria a festa de noivado de Armando e Marcela. A casa estava cheia de gente, as famílias Mendoza e Valencia, políticos, pessoas da sociedade haviam vindo especialmente para a ocasião e dona Margarita, como sempre, estava muito feliz de receber, pois apesar de estarem falidos, o status dos Mendoza continuava intacto.
Deste modo, digamos que não foi nada fácil para Armando chegar até à casinha dos Pinzón, que ficava atrás da casa principal, onde morava com seus pais Mendoza, donos da propriedade. Teve que passar por ali e cruzar com o menos número de pessoas possível, principalmente, seus pais ou um dos Valência, o que fariam com que fosse impossível chegar até a casa dos Pinzón.
— Seu Hermes! –disse, aliviado por encontrá-lo pelo caminho.
—Seu Armando?
—Ora, seu Hermes, não precisa me tratar assim com tanta cerimônia!
—Desculpe-me, é o costume! Nós, os Pinzón somos assim! Não sabia que o senhor já havia chegado de viagem. Como foi na Capital?
—Bem... Fiz bons negócios!
—E aqui na fazenda está tudo nos conformes também para a festa de seu noivado!
—Ah sim.
—Não, não se preocupe. Farei o que seus pais me pediram. Vou levar os convidados e acomodá-los nos quartos correspondentes. Posso não ter a classe que estão acostumados, mas sei ser gentil e educado.
—Acredite, não estou aqui para cobrar-lhe o serviço, seu Hermes!
—Já estou indo lá para continuar a receber os seus convidados, não me demoro. É que tive que esperar Betty chegar...
—Betty? Sua filha, don Hermes?
—Sim, Betty que chegou hoje de viagem! Não pude nem buscá-la, senhor, pois tinha que receber, acompanhar seus convidados às suas habitações e quando me dei conta, já era hora. Por sorte, a menina não esqueceu o caminho e veio direto.
—E onde está, Don Hermes?
—Lá na casa! Ela vai ficar feliz em vê-lo, mas o senhor deveria deixar para amanhã, já que tem que receber tantos convidados.
—Acredite, don Hermes, não me importo. Estou ansioso para vê-la novamente. E apenas chegou sua filha?
—Sim.
—Er, não chegou também uma prima, uma amiga? Ou uma...
—Não, não! Não entendo o que fala, Seu Armando.
“Quem será a moça, então, que abraçava dona Júlia? A filha de algum dos criados da fazenda?”
—Bem, Don Armando, siga, fica a vontade.
“Seria aquela moça, Bettica? Não, não podia ser! " -pensava. Ela era tão pequena, quanto devia ter agora? 16 anos?"
Sua amiga Betty, ainda por cima era diferente desta moça que desceu do carro.
Enquanto isso, as duas conversavam.
—Filha, vou passar um café para comermos com bolo, Deve estar faminta.
—Mesmo que não estivesse, senti muita falta de sua comida e da senhora.
—Espere aí, sei que está cansada!
Beatriz ia ajudar sua mãe quando ouviu a porta se abrir e a voz de seu pai. Apesar de estar atrasado em seu ofício, Don Hermes não poderia deixar de levar o filho dos patrões para sua casa.
—Seu Armando, fique à vontade, sim? Júlia fará companhia. Desculpe o mal jeito, mas seus pais estão precisando de mim.
—Entendo, seu Hermes!
—Júlia lhe fará companhia e Betty!
—Tudo bem, don Hermes!
Betty da cozinha se estremeceu ao ouvir aquela voz. Era ele, Armando Mendoza. Como sonhava com o dia em que o veria novamente. Achava que a distância e o tempo iria fazê-la esquecer-se dele, mas não, bastou ouvir sua voz que seu coração passou a bater depressa. Armando ficou ali esperando sentado no sofá da casinha dos Pinzón, sem se dar conta que alguém o observava.
Estava mais lindo que se lembrava o filho dos patrões de seus pais. Apesar das diferenças de idade, já que Armando era quase 10 anos mais velho que ela, de modo que a via como uma menina, uma irmãzinha, Betty era apaixonada por ele e o idealizava, sonhava que se casaria com seu patrãozinho protetor. Achava-o o rapaz mais bonito que tinha visto, alto, forte e encantador. Tudo nele a encantava. Mas sabia que isto não poderia ser assim, ele era mais velho, era o moço mais bonito e popular da fazenda e todas as meninas ricas dali sonhavam em namorá-lo e ela era a feia camponesa e filha dos empregados da fazenda. Esperava que que quando o visse não parecesse tão charmoso, afinal havia conhecido tantos outros rapazes bonitos na cidade, mas ali estava ele, ainda mais bonito, forte e másculo que se lembrava, um verdadeiro homem feito. Respirou fundo e foi a seu encontro.
—Armandinho?
—Betty?
—Sim!
—Não pode ser! —Faz tanto tempo assim que não nos vemos que não me conhece mais?
—Betty? Não pode ser! –realmente era a mesma moça bela que viu descer do carro e não uma parente, era ela, a sua amiga Betty.
—Sim oj oj oj! Sou eu, Armandinho!
—Não pode ser! Você... você...
—O quê? Oj oj oj!
—É você! -disse, sorrindo. Reconheceria aquela risadinha onde quer que estivesse.
—Sim, Armandinho!
—Bettica! (a abraçou)
Betty sentiu como se uma corrente elétrica passasse por seu corpo. E percebeu que ele estava emocionado.
-Não posso crer. -disse Armando abraçando-a forte.
—Você está tão... forte!
—Trabalho na fazenda, sabe como é! Não sou como os moços da cidade. Faço trabalho braçal aqui! –disse exibindo seus músculos.
—Mas não imaginava tanto. –disse, impressionada, passando a mão por seu braço musculoso. Ainda mais tem moços que podem fazer este trabalho, não?
—Até parece que não me conhece! Sabe que sempre gostei de fazer tudo na fazenda.
—Sim.
—Continuo o mesmo!
—Sim. –disse ela com cara de carneiro degolado (uma expressão que quer dizer que estava totalmente apaixonada por ele), ainda abraçada a ele, passando a mão pelo seu braço musculoso.
—Mas você mudou bastante, Betty. Está crescida, não tanto, mas deixe-me ver!
Neste momento, Dona Júlia chegou e os dois se afastaram.
—Armandinho! Que bom que está aqui. Chegou há muito de viagem?
—Ah, olá, dona Júlia! Cheguei a menos de uma hora e logo que soube que Bettica estava aqui, vim vê-la.
Betty dá um olhar apaixonado a Armando.
—Bem, vou trazer um lanche.
—Não precisa se incomodar, dona Júlia.
—Imagina, acabei de fazer o café e é uma honra tê-lo aqui, ainda mais já iria fazer para mim e Betty. Fique à vontade!
—Estava com saudades, Betty!
—Também estava.
—Ficou de me escrever!
—Escrevi para você, você que não me escreveu. –Armando estranha. -Sabe que também voltei hoje da capital?
—Ah sim?
—E aí se formou?
—Com louvor! Inclusive, iniciei meus estudos na Universidade de Colômbia e fiz seis meses de intercâmbio na Espanha.
—Bravo! Sempre foi tão inteligente. Assim, que é internacional?
—Ojojo! Não tanto! Sabe como sou, mal saía de casa que era dentro da faculdade, assim não deu para conhecer tudo que queria!
—Mas você tem capacidade para conseguir o que quer.
Os dois ficam conversando bem próximos no sofá, estavam impressionados de quanto tinham mudado em apenas 5 anos. Estavam admirados um com o outro, Beatriz ao ver quão forte e enorme estava, já era todo um homem, devia ter uns 25 anos, pensou com tristeza que já deveria ter namorada, do jeito que estava bom, todo um bombom como diria sua amiga Aura Maria. E ele ainda mais surpreendido do crescida e bonita que estava a menina que foi embora com 12 anos e agora já devia ser toda uma mulher, quem sabe estava noiva, sentiu algo que não sabia explicar.
—Armando? E este pessoal que está na fazenda? –perguntou ela.
Neste momento, sua mãe entrou com uma bandeja com bolo, café, pães.
—Espero que gostem.
—Não sabe como senti falta de sua comida, mamãe! Huummm!!! Está muito bom.
—Hummm!
—Cheguei a sonhar com esta fazenda.
—Na capital sonhando com isto aqui? -disse Armando -Não posso acreditar!
—Fala, mas adora a fazenda. –disse ela
—Não tenho outro caminho, mas você sim! -disse -É inteligente, pode estudar, ser uma doutora!
—Você também!
—Sabe que meus pais dependem de mim!
—Gostaria de ir dar uma volta por aí e reconhecer os lugares. –disse Betty, esperando que ele se oferecesse para levá-la como fazia antes
—Hoje, não é um bom dia!
—Mas por quê?
—A fazenda está cheia de gente estranha e está tarde. Seu pai não gostaria! –disse Júlia
—É que...
—Ah vamos, por favor, Armandinho. –Betty faz beicinho.
—Está bem, sabe que não sei dizer-lhe não. -disse Armando
—Ela não é mais uma criança para fazer-lhe as vontades. -disse Júlia
—Mas continua sendo uma menina! -disse Armando —De qualquer forma, melhor deixemos para amanhã, afinal, está um pouco tarde. –disse Júlia.
—Sua mãe tem razão. Amanhã a busco para cavalgarmos. Se é que ainda se lembra que cavalgávamos juntos.
—Sim, claro. Como poderia me esquecer?
—Muito me alegro. –disse sorrindo.
—Bem, já se faz tarde.
—Voltarei amanhã.
—Vou ficar esperando-o logo cedo.
—Não precisa cumprir, don Armando. Sabemos que estará ocupado cheio de compromissos com suas visitas. -disse Júlia
—Não são minhas visitas e sim de meus pais. Sequer os conheço! Não poderia estar ocupado para um passeio com minha amiguinha. Então, o que me diz?
—Digo sim, claro.
—Passo cedo para lhe buscar, ah? -disse para Beatriz, que foi sorrindo para dentro.
—Tão divino! -suspirou.
—______
Ao chegar em casa, a mãe de Armando reclamou por ele ter se demorado tanto.
—O que ficou fazendo? Sabe que tem que nos ajudar a receber as visitas. São gente importante!
—Sabia que Beatriz chegaria hoje, mamãe? –disse Armando, submerso em seus pensamentos.
—Claro que sim! Mas como estava na Capital nem pude te falar nada!
—Fui visitá-la!
—E como estava?
—Bem, muito bem e diferente!
—Diferente como?
—Crescida e diferente...
Dona Margarita não fez muito caso, precisava continuar coordenando a chegada dos convidados.
—______
A noite havia sido estressante, acomodar todas aquelas pessoas não foi fácil, mesmo tendo os Mendoza uma casa tão enorme.
—Que cruz! Por que mamãe tinha que se exibir tanto? Imagina, isto é só para um noivado. E claro que Marcela concorda com tudo, que chatice com esta mulher, se tivesse como sair disso. Que cruz! Por que mereço isso?
—_______
Armando não havia podido dormir, a não ser por algumas horas, depois de aguentar a prosa maçante dos convidados mais velhos que ele e também de Marcela e Daniel. Ao menos só teve que aguentar os convidados, vez que os Valencia só chegariam no dia seguinte, como de praxe nestas festas. Assim que, tão logo acabou de tomar o desjejum foi cedo para a casinha dos Pinzón.
— Bom dia, don Armando!
—Bom dia, don Hermes!
—Algum problema? O que faz tão cedo aqui? Seus pais precisam de algo?
—Me comprometi a levar Bettica para passear e reconhecer a fazenda.
—Ora, mas que isso, senhor. Não precisava se incomodar, o senhor tem que recepcionar seus convidados.
—Meus pais que os convidaram que os recepcionem. Desculpe-me, don Hermes, mas não conheço esta gente!
—Bom dia. Armandinho!
—Bom dia, Bettica!
—Filha, creio quer não é mais uma menina e não pega bem que chame o filho dos patrões pelo diminutivo.
—Mas papai, Armandinho e eu somos amigos!
—Deixe, seu Hermes, não me importa! Bettica e eu sempre fomos amigos.
—É que não fica bem e sua noiva pode não gostar!
Armando deu de ombros, pouco lhe importava o que Marcela pensaria ao respeito. Bettica sempre foi sua amiga e não havia motivo para tanta formalidade.
Aquela palavra ``noiva`` lhe deu um aperto no coração. Com quem Armando estaria noivo, ou seria apenas uma brincadeira? Armando não era do tipo que casava e se fazia, tinha que ser com ela.
—Beatriz Aurora Pinzón de Solano, aceita casar-se com Armando Mendoza Saénz?
—Sim. -disse com o bouquet nas mãos, olhando-o apaixonada. -É a realização de meu maior sonho!
—E o senhor?
—Beatriz, mi Betty!-segurou seu queixo- És a mulher de minha vida. Sim!
—De modo que os declaro marido e mulher. Já pode beijar a noiva.
—Ah!
—____
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