Casamento por obrigação
25 CAPÍTULO 25: O Tinto da Manhã
O sol mal havia nascido no horizonte de Quindío, e o topo das montanhas verdejantes de Filandia ainda estava completamente coberto por uma névoa fria e densa. No pátio dos estábulos da Fazenda Laços, o silêncio da manhã era quebrado apenas pelo som rústico do trabalho pesado.
Armando Mendoza já estava de pé desde a madrugada. Ele havia acabado de carregar quatro sacos pesados de estrumes e sementes nas costas, jogando-os com força perto das carroças. Estava sem camisa, exibindo toda a musculatura vigorosa das costas e do peito brilhando de suor sob a luz fraca, usando apenas um lenço vermelho amarrado no pescoço e o seu fiel sombrero aguadeño. Pelos cantos do terreiro, várias peoas passavam devagar, fingindo espanar as traves e limpar o chão de cascalho só para ter o pretexto de olhar o patrão agir e pegar no pesado feito um peão forte.
De repente, a porta da habitação dos fundos se abriu. Beatriz saiu caminhando devagar, segurando uma garrafa térmica e duas canecas de alumínio nas mãos.
— Bom dia, Armandinho — cumprimentou Betty, aproximando-se com um sorriso tímido, os olhos de café fixando-se inevitavelmente no peito desenhado e suado dele. — Eu trouxe um tintico quente para ajudar a tirar esse sereno frio da manhã.
— Betty! — Armando virou-se no susto, limpando o suor da testa com o antebraço musculoso. Um sorriso largo e terno brotou em seus lábios ao vê-la ali. — Deus te pague, minha cara! Esse café forte da tia Júlia ressuscita qualquer arriero destas bandas.
Ele deu um passo à frente e pegou a caneca das mãos dela. No tranco do movimento, os seus dedos calejados, grossos e fortes roçaram nos nós dos dedos de porcelana dela, fazendo Betty estremecer por inteiro, sentindo o calor do corpo dele. Armando deu um gole longo no café e suspirou, olhando ao redor.
— Sabe, Betty... eu prefiro mil vezes o cheiro desse algodão úmido e o peso desses sacos de sementes nas costas do que toda a hipocrisia e a falsidade daqueles ternos caros de Bogotá que meu pai queria que eu usasse na festa de noivado.
— Dava para notar mui bem, caubói — riu ela, sentando-se em um banco de madeira rústica perto da baia e ajeitando a saia longa do vestido. — Você lida com essa terra bruta como se fizesse parte dela desde o berço. Mas olhe só para aquelas moças ali perto do celeiro... estão quase quebrando o pescoço de tanto esticar o olhar para o "patrão peão"! Ojojo!
Armando deu uma gargalhada alta, máscula e gostosa. Jogou o poncho leve sobre o ombro esquerdo e sentou-se mui perto dela no banco de madeira, sentindo o perfume de amora silvestre que ela exalava.
— Que olhem o quanto quiserem, Beatriz! O meu corpo pode até pertencer aos afazeres desta fazenda... mas o homem... o homem você já sabe mui bem de quem é dono.
Ele tomou mais um gole do café, focando os olhos na névoa que subia pelas plantações de café no horizonte.
— Estar aqui assim com você, no silêncio da roça, tomando um tinto quente... me faz lembrar de quando éramos apenas crianças e eu sumia escondido da casa principal dos meus pais para vir brincar de pique com você e com a Camila aqui nos fundos da propriedade.
— Você sempre foi o nosso herói salvador, Armandinho — o olhar de Betty ganhou um tom nostálgico e doce, mexendo com a colher na caneca. — A Camila era a minha única companheira naquela época, a única que não ligava nem um tiquinho por eu ser apenas a filha do caseiro da fazenda. Mas o resto dos herdeiros... o Mário Calderón, a Marcela e o perigoso do Daniel me tratavam com asco, como se eu fosse um bicho feio e esquisito no meio do pátio. E até o Freddy e o Wilson entravam na onda de deboche deles.
O semblante de Armando ficou sério na mesma hora. Os seus olhos escureceram, focando rigidamente nos olhos dela.
— Aqueles idiotas de sociedade... Você lembra mui bem daquele dia em que o Daniel Valência jogou todos os seus cadernos de escola direto na lama da plantação de café e o Mário começou a rir alto, dizendo para todo o mundo ouvir que você era a "horrorosa da roça"?
— Como eu haveria de esquecer, Armando? — ela abaixou os olhos, o coração apertado pela lembrança antiga. — Eu chorei tanto naquela tarde... Achei de verdade que nunca mais ia ter a coragem de sair de dentro do meu quarto.
— Mas eu peguei o Daniel Valência pelo colarinho do terno chique dele e joguei o desgraçado direto no cocho de água dos cavalos, lembra? — Armando colocou a mão pesada, quente e firme sobre o joelho dela, apertando-o com uma posse protetora. — E o Mário Calderón levou um soco tão bem dado no meio da fuça que ficou com o olho roxo por uma semana inteira perante os peões! Eu avisei a todos aqueles marmanjos: “Se alguém nesta terra ousar encostar um único dedo na Beatriz ou na minha irmã Camila, vai ter que se ver com o lombo do meu chicote!”
— Lembro mui bem... — Betty olhou para ele, os olhos de café brilhando de pura admiração e amor selvagem. — A Marcela ficou histérica na varanda, gritando para a Dona Margarida que você estava cometendo um absurdo ao defender uma camponesa feia e descalça ao invés de defender os seus iguais da alta sociedade. E você olhou na cara dela e disse que eu tinha mais valor em um único dedo do que todos os Valência juntos na Colômbia. Foi bem ali, naquele terreiro... que eu soube que você era o homem mais honrado de todas essas bandas.
Armando aproximou o rosto másculo do rosto dela, a voz descendo para um tom rouco, baixo e necessitado. O cheiro de suor da lida, fumo e terra exalava do peito nu dele, inebriando os sentidos da moça.
— Eu sempre te protegi, Betty, e sempre vou te proteger. No começo da juventude, eu tentava me enganar, achava que era só porque você era a menininha inteligente e desajeitada que ajudava a Camila nos estudos de Bogotá... Mas hoje... hoje eu olho para você, com essa pele alva de porcelana, esse corpo de fêmea gostosa que me tira completamente todo o juízo da cabeça... e percebo que o destino já estava me amarrando às suas vontades desde aquela época debaixo do pé de manga. Você me domou por inteiro, Beatriz Pinzón. O patrão virou peão do seu amor.
Sem dar tempo para mais nenhuma jura, ele segurou a nuca dela devagar com os dedos grandes, puxando-a para si, e selou os seus lábios em um beijo ardente, profundo e demorado, com gosto de tinto forte e desejo proibido. Eles se beijavam ali mesmo, no meio do pátio dos estábulos.
Após levar Betty para a casagrande, despédiu-se aos pés da escada. Saiu para voltar a trabalhar. Uma culpa golpeou seu coração.
(Pensando alto, com o semblante fechado de revolta) Eu estou fazendo o que é certo... É o meu dever de amigo! Eu só fico aos beijos com Bettica para o próprio bem dela. Aquela menina voltou da Capital mui foguenta, cheia de ideias de mulher resolvida... Se eu não a mantiver ocupada aqui, sob a minha vigilância e saciada nos meus braços, ela vai acabar cometendo uma loucura! Vai acabar aceitando os galanteios de um daqueles peões sem vergonha da lavoura ou caindo na lábia barata do Daniel Valência! E aqueles canalhas não têm a minha honra; eles vão se aproveitar da inocência e da pureza dela e depois vão abandoná-la na sarjeta! Eu não. Eu jamais faria uma baixeza dessas com a filha do Seu Hermes. Eu controlo os meus instintos de homem feito, mantenho as minhas mãos nos limites e apenas desfruto dos beijos dela para garantir que ela chegue prístina ao altar. (Ele chuta o feno com frustração) É por proteção! Apenas por proteção... Eu não estou gostando desse feitiço maldito que me amarrou nesta fazenda, não senhor!
_____
Fale com o autor