Casamento por obrigação

23 Capítulo 23 - Relembrando, para nunca mais esquecer


Ave maria, minha amiga! Isto tudo aqui é lindo por demais! — comentou Aura Maria na manhã seguinte, ajeitando as sacolas. — Eu pensei de verdade que a roça era um lugar parado e sem graça, mas depois daquela festança de ontem à noite... E esses rapazes que vocês têm trabalhando aqui, todos fortes, de braços grossos! Sem falar no jeito que você dançou no salão, Betty... Todo o mundo nesta fazenda te quer mui bem!

— Sabe que nem sempre foi assim, Aura Maria... — desabafou Betty, ajeitando as apostilas contra o peito. — Eu sofri mui nesta terra quando era moleca, sofri ainda mais do que quando cheguei na Capital. Principalmente por causa das humilhações daqueles Valência... e da tal noiva do Armandinho.

— Aquela Marcela tem uma cara de nojenta que vou te contar, viu? Ficou me fuzilando com os olhos o baile inteiro, como se fosse me matar no meio do carpete só porque eu estava perto do braço do seu caubói. Acho que aquela dondoca pensou que eu ia dar em cima do homem dela... Ai, amiga, pelo amor de Deus, não pense nada errado de mim! O Armando é um triplepapito de tirar o fôlego, mas eu sei mui bem o quanto você bebe os ventos por ele e jamais me atreveria a furar o seu olho!

— Eu sei disso, Aura Maria, fique tranquila — sorriu Betty, com o seu riso típico de ojojo.

— Mas me diga, onde você vai com tanta pressa agora?

— Tenho que ir dar o reforço letivo na escolinha dos peões. E também... também vou ver o Armando por lá.

— Você é completamente louca por esse arriero, mamita!

— Vai mui além disso, Aura Maria... Eu o amo com todas as forças do meu peito, e ainda mais agora, depois de ontem à noite.

— Pois então você tem que fazer exatamente o que eu te ensinei no quarto! Vá para cima dele, seduza o homem! Lembra daqueles filmes de amor que nós assistíamos na biblioteca de Bogotá? Use as manhas!

— Eu não teria coragem de fazer aquilo de jeito nenhum, amiga! Eu sou virgem, você esqueceu desse detalhe técnico?

— E isso pode mui bem ser um aperitivo a mais para o ego dele, Betty! Um homem experiente e rodado como você diz que ele é, com certeza nunca deve ter tido a chance de ser o primeiro de ninguém.

— Ele me acha apenas uma criança inocente, Aura Maria. Uma irmãzinha.

— Mas se você atiçar o fogo dele...

— Não, eu não teria essa audácia toda. Sou mui tímida para essas coisas da Capital.

— Pois perca a timidez de pressa, porque você não pode perder esse pedaço de mau caminho para aquela enjoada da Marcela Valência!

— Vamos logo para a escola que eu já estou mui atrasada com os relatórios!

As duas pegaram os livros de pedagogia e foram andando pela trilha de terra batida sob o sol de Quindío.

— Você já cavalgou por estas redondezas, Betty? — quis saber a recepcionista, curiosa.

— Sim... Algumas vezes com o Armando, lá no início das férias. Bem agarradinha na garupa dele.

Betty ficou vermelha feito uma manga madura e deu uma risadinha tímida de ojojo.

— Bem apertadinho contra as costas dele, não é? — provocou Aura Maria, mordendo os lábios com malícia. — Danada!

As duas finalmente chegaram à cabana provisória da escola. Freddy estava plantado na soleira da porta, ajeitando o sombrero, e ao focar os olhos na acompanhante da professora, travou no lugar.

— Perdão... mas desculpe-me o mau jeito, professora Beatriz... mas por acaso essa bela senhorita de hábitos finos é uma aluna nova da Capital? — perguntou Freddy, com os olhos brilhando de encantamento.

— Não, Freddy, ojojo! Ela é a Aura Maria, minha melhor amiga da cidade grande. Ela estava no baile de dezoito anos ontem à noite, você não lembra?

Freddy tirou o chapéu de palha e a cumprimentou com uma reverência de arriero mui polido, completamente babando e encantado com os modos daquela moça exuberante da Capital.

Enquanto os dois se entrosavam na entrada, Betty adentrou a sala de aula rústica. Armando estava sentado na mesa principal, escrevendo algo em um caderno de planejamento. Ao ouvir os passos dela, ele levantou os olhos devagar. Os dois se olharam fixamente no meio do silêncio do galpão.

Betty abriu um sorriso doce, mas o peito de Armando deu um solavanco de nervosismo. O caubói sentia que o ar faltava na sala; ele simplesmente não sabia como iria conseguir olhar na cara dela e atuar como o diretor e o "amigo protetor" após o tranco daquele beijo na varanda. Apesar de saber que não devia, a verdade nua e crua é que ele havia correspondido e aprofundado o beijo com vontade na calçada. Não deveria ter feito aquilo de jeito nenhum! Tinha a obrigação de homem feito de tê-la desencorajado, de ter afastado a menina na hora, e não de ter se banqueteado nos lábios dela! Tinha que ter protegido a sua Bettica dele mesmo, do seu próprio instinto de predador.

Quando a Aura Maria entrou na sala logo atrás, foi a vez de Betty ter as suas atenções divididas com o alvoroço dos alunos. Os rapazes da colheita e os peões adultos, muitos dos quais haviam dançado com Betty e cobiçado a Aura Maria no baile do casarão, ficaram completamente impressionados ao verem as duas belas moças juntas ali na frente da lousa. Os hormônios da roça começaram a funcionar em alta voltagem na mesma hora, com os rapazes ajeitando os cabelos e esticando o pescoço.

— É melhor você se sentar logo ali no fundo, Aura Maria, ou esses marmanjos não vão conseguir prestar atenção em nenhuma linha da matéria de hoje! — brincou Betty.

— Aluna nova no pedaço, patrãozinho? — perguntou Wilson da primeira carteira, com um sorriso de orelha a orelha.

— Não, Wilson! A Aura Maria é da cidade grande e veio passar uns dias comigo na habitação. Ficará poucos dias aqui na roça — explicou a professora.

— Pois nós esperamos de todo o coração que a senhorita mude de ideia e crie raízes nesta fazenda! — disparou um dos rapazes adolescentes do fundo, fazendo os outros peões rirem alto.

Ojojo! Realmente você impressionou a todos, Aura Maria!

Após o término letivo daquela tarde, o Freddy ofereceu-se mui faceiro para levar a Aura Maria e a Betty para darem uma volta de jipe para conhecerem as divisas da fazenda. Armando, vendo que a moça estava devidamente protegida e acompanhada pelos funcionários, aproveitou a brecha e saiu correndo pela tangente, fugindo da presença de Betty para não ter que dar explicações.E assim se sucedeu pelos dias seguintes.

— Ai, querida... o seu caubói arriero está fazendo de tudo para não cruzar o caminho contigo no pátio, você reparou? — comentou Aura Maria na copa, dias depois. — O homem te vê e sai correndo de cavalo para o meio do algodão!

— Eu sei... Mas eu preciso dar um jeito urgente de quebrar esse gelo dele, Aura Maria.Betty havia visto Armando na companhia de outras mulheres e peoas da vila vizinha durante a semana e aquilo havia acendido uma faísca de ciúme doentio em seu peito. Para provocá-lo e ferir o orgulho do caubói, ela aceitou deliberadamente a companhia e os galanteios de um jovem peão forte da lavoura na hora da saída. Lógico que Armando assistiu à cena de longe e não gostou nem um tiquinho de ver outro macho rondando a sua menina; o Tigre de Quindío havia ficado bufando de raiva [🎭].

No final da tarde do dia seguinte, Armando estava sozinho no box dos fundos do estábulo, escovando a crina dos cavalos para gastar o nervosismo, quando ouviu passos leves contra o cascalho. Percebeu pelo faro e pelo ritmo que se tratava de um corpo feminino e ficou curioso. Logo, ao olhar de relance, comprovou ser a Beatriz e o seu coração deu um solavanco de puro nervosismo.

Armando Mendoza havia estado com mulheres de todos os tipos, de todas as linhagens da alta sociedade e de quase todas as idades na rumba... mas a Betty... a Betty era um enigma mui diferente para os seus sentidos. Ela era uma menina jovem e pura, e acima de tudo, era a sua melhor amiga de infância. Ele tentava repetir para si mesmo que não podia de jeito nenhum fazer com ela as safadezas que fazia com as outras mulheres experientes da cidade. Não podia ser o canalha que destruiria a vida e a inocência dela por um capricho de carne.—

O que você pensa que está fazendo aqui a esta hora da noite, Beatriz? — perguntou ele, com a voz áspera, forçando-se a continuar escovando o cavalo para evitar olhar para as curvas dela.

— Estou sem sono no sofá, Armando... e resolvi dar uma volta para respirar o ar puro da fazenda — respondeu ela, aproximando-se a passos lentos e predatórios

— E por acaso você não sabe o quanto é perigoso para uma moça fina andar circulando sozinha por estes estábulos na escuridão?— Nós temos jagunços e guardas armados fazendo a segurança de toda a propriedade dos Mendoza, não temos, caubói?

— Se for um forasteiro ou um ladrão de gado, os nossos jagunços irão atacar sem aviso e têm ordens do meu pai para matar, Beatriz! Mas se um tipo cínico como o Daniel Valência vier passear por aqui de madrugada, os guardas não poderão fazer absolutamente nada, pois ele é um convidado constante desta casa por causa do noivado! De modo que você poderá correr um perigo terrível se ele te encurralar no feno! E eu posso mui bem não estar presente para te proteger e te salvar de novo, como fiz no pátio!

— Fico mui grata e feliz por saber que você se preocupa tanto com a minha segurança, Armando — ela sorriu, aproximando-se por trás dele.

— Eu sempre me preocupo contigo, Betty... você sabe disso — murmurou ele, mantendo o maxilar cerrado, focado rigidamente na crina do animal.

— Grata, meu herói! — Betty adentrou o box e, num gesto rápido, deu-lhe um beijo carinhoso e estalado na bochecha máscula.

— Mas eu sabia perfeitamente bem que você estava aqui trancado no estábulo, e que ao seu lado eu não corria risco nenhum de maldade. Eu precisava mui ver você a sós, Armando.

— Por quê? Qual o motivo? — ele engoliu em seco, sentindo o perfume de amora invadir o box.

— Porque você sabe muito bem que eu gosto de você... que sou louca por você desde que eu era apenas uma menininha desajeitada nesta roça — ela estendeu os dedos de porcelana e acariciou a lateral do rosto dele, sentindo a barba por fazer.

— Isto não está certo, Beatriz! Pare com isso! — Armando segurou o pulso dela, a voz falhando de desejo. — Vá para o seu quarto!

— Sabe, Armando... eu sei que você não sentia absolutamente nada de desejo por mim no passado porque eu era apenas uma criança feia na sua frente... mas agora eu cresci. Eu virei uma mulher feita. E eu sei perfeitamente bem que você gostou do beijo que eu te dei na varanda na noite do baile. Não adianta mentir.

— Você está jogando um jogo mui perigoso para a sua inocência, Beatriz Pinzón Solano! — ele sibilou, os olhos escurecendo.—

Por quê? Porque eu tenho a coragem de dizer em voz alta que você gostou do meu beijo? Pois eu sei que gostou! Eu senti o seu corpo tremer, caubói!

— As coisas do mundo não são fáceis assim como você lê nos seus romances, Betty!

— E por que não seriam? Por que você continua insistindo em falar para todo o mundo que vai se casar com a Senhorita Marcela Valência? Acaso você ama aquela mulher de verdade, Armando? Me diga!

— É um assunto mui complexo... Não é fácil de explicar para uma mocinha como você, Betty. Envolve as dívidas do meu pai e o destino desta fazenda!

— Se você a amasse com a sua alma, Armando, eu juraria respeitar o seu sentimento e trataria de te esquecer de uma vez por todas nos livros de Bogotá... mas eu tenho a certeza absoluta de que você não tem um pingo de amor por aquela noiva!

— E como uma menina pura como você pode ter tanta certeza sobre o que eu sinto ou deixo de sentir, Beatriz? — ironizou ele, tentando recuperar a pose de patrão arrogante.

— Ora, se você a amasse de verdade, Armando, você não passaria as noites beijando e se agarrando com outras mulheres e peoas pelos cantos do vilarejo!Armando travou no lugar, o rosto queimando de vergonha.

— Do que você está falando agora, Betty?

— Eu vi, Armando! Não foi com uma, mas com várias camponesas que eu te peguei de conversa por aí! E te vi aprontando até na sua própria festa de noivado com a Marcela no mato! Por acaso você acha que eu sou cega?

— Você... você andava me vigiando pelas costas, Beatriz? — ele semicerrou os olhos, chocado.

— Não! Eu não andava vigiando ninguém! Eu só queria falar contigo como sempre falávamos de noite nos fundos, éramos amigos! Eu não imaginava que ia encontrar aquelas sujeiras... Mas agora eu me lembro perfeitamente de que, desde a minha infância, eu sempre te via rodeado de mulheres fáceis e peoas por todos os cantos da lavoura.— Pois então você já sabe mui bem que eu sou um homem assim, um depravado que não tem conserto! Fique longe de mim!

— Eu sei o que você é, Armando! Mas isso não muda o que eu sinto no meu peito. O nosso beijo na varanda significou o mundo inteiro para mim... Eu nunca, jamais havia beijado homem nenhum na minha vida, e tinha que ser mui especial. Tinha que ser contigo, caubói... o meu primeiríssimo beijo de amor! — disse ela, levando os dedos delicados aos próprios lábios

— Er... o seu primeiro?... — Armando gaguejou, e uma dor aguda, misturada com um ciúme primitivo e uma ternura violenta, rasgou o seu peito ao ouvir a confirmação de que havia sido o dono daquela pureza. Mas ele engoliu o nó na garganta e forçou a mentira para fora:

— Er... mas... você é uma menina mui jovem, Beatriz! Está na flor da idade, vai voltar para a Capital e vai beijar muitos outros rapazes inteligentes da faculdade ainda na sua vida... Por que fica perdendo o seu tempo vindo atrás de um caubói chucro como eu? Você sabe mui bem que eu não me prendo a mulher nenhuma da terra!— Se você é tão livre assim e não se prende a nenhuma saia... por que aceitou ficar noivo e colocar uma aliança no dedo da Senhorita Marcela Valência? Me explique de uma vez!

— Você não entenderia os negócios, Betty!

— Eu entenderia perfeitamente bem se você deixasse o seu orgulho de lado e tentasse me explicar como um homem de verdade faz! Eu não sou mais uma menininha da escola, Armando! Eu estou cursando Administração e Economia na Capital, eu sei ler balanços e o meu pai me disse em segredo que as coisas financeiras não andam nada bem nas contas desta fazenda!Armando suspirou, derrotado pela inteligência contábil da moça.

— Então... sabe que a Fazenda Laços passa por uma situação financeira mui ruim?

Sim, eu sei de tudo.

— Pois então... A safra de algodão do ano passado não foi boa de jeito nenhum. Choveu demais no tempo errado, tivemos aquela praga maldita da broca no cafezal e perdemos quase toda a produção premium que ia para a exportação. Os bancos nos fecharam as portas e o velho Júlio Valência foi o único que aceitou nos emprestar o dinheiro vivo para não irmos à ruína total. A condição do empréstimo foi o meu pescoço no altar com a Marcela.Betty escutou a confissão e os seus olhos de café encheram-se de uma profunda indignação.

— Mas isto é um absurdo completo, Armando! É uma chantagem nojenta! Você não pode arruinar a sua vida inteira e a sua felicidade casando-se dessa forma forçada com alguém que você não ama!

— Eu já disse isso para os meus pais, Betty... Nós tentamos de todas as formas achar uma saída legal com os advogados da Capital para pagar a dívida com juros, mas o contrato não dá brecha. A garantia são as nossas terras. É o meu sacrifício ou a miséria do meu pai.Betty suavizou o olhar, aproximando-se mais dele no feno, tocando o peito dele por cima da camisa quadriculada.

— Você diz que não a ama... Mas me diga uma coisa, Armando, olhando nos meus olhos: você já fez amor na sua vida estando verdadeiramente apaixonado por alguma mulher?

— Beatriz!... Pelo amor de Deus! Se o Seu Hermes te escuta falando essas bobagens de luxúria comigo, ele me mata com o facão!

— Armando repreendeu, o rosto queimando, sentindo a virilidade pulsar só com a proximidade do corpo dela.

— Por isso mesmo é que eu estou trancada aqui conversando contigo, Armando! Porque eu sei que você tem a cabeça aberta do mundo e não vai me julgar como o meu pai faria. Responda: quando eu fizer amor pela primeira vez na minha vida, quando eu decidir me entregar por inteiro a um homem, quero que seja com quem eu amo de verdade. Quero que seja mui especial e que nós nos desejemos como dois loucos na cama!

Armando ficou olhando para ela com o queixo caído, completamente paralisado no meio do box, sem saber o que responder. Aquela menina doce da roça não podia de jeito nenhum estar soltando aquelas palavras tão quentes e maduras na sua frente! Uma onda de preocupação violenta e um ciúme doentio invadiram os sentidos do caubói: será que ela confiava nele a ponto de confessar os seus desejos íntimos, ou andava espalhando aquele tipo de conversa com os rapazes da faculdade e os peões do pátio? O pensamento de outro homem escutando aquilo o deixava com vontade de quebrar as paredes.

— Mas você ainda não me respondeu, caubói...

— Betty insistiu, roçando os dedos no peito dele. — Já fez amor estando apaixonado?

— Não... — ele confessou com a voz rouca, entregando os pontos perante a verdade. — Eu nunca me apaixonei por mulher nenhuma nesta vida, Beatriz, como já te disse antes. E, para ser sincero, não creio que isso vá acontecer no meu futuro.

— Nunca é tarde demais para o coração se apaixonar, Armando! A vida dá voltas.

— Você crê nisso? Eu vou me casar em breve por obrigação, sem um pingo de amor no peito... E não creio de jeito nenhum que a mulher certa, se é que ela existe, vá aceitar dividir o meu corpo com a Marcela e com as outras da rumba.

— Nisto você tem toda a razão do mundo... Nenhuma mulher de verdade aceitaria ser metade. Mas me diga... o que foi que você sentiu no seu peito com o beijo que eu te dei na varanda?

— Por que diabo você me pergunta uma bobagem dessas, Betty? — ele desversou, suando frio, tentando dar um passo atrás contra a baia do cavalo.

— Não sei... Tenho uma curiosidade mui grande. Você é um homem vivido, experiente com as mulheres... E como eu sinto coisas mui fortes por você, eu precisava saber se eu beijo bem. Se o meu beijo presta.

— Olha, Beatriz...

—Foi ruim assim, Armando? O meu beijo te deu nojo? — perguntou ela, abaixando os olhos com uma falsa tristeza para acuá-lo.

— Olha aqui, eu não quero falar sobre esse assunto no estábulo! — ele exclamou, perdendo o controle do juízo.

— Por favor, meu herói... eu preciso saber a verdade da sua boca.

— Só acho que você não deve sair por aí testando o seu beijo com os homens do vilarejo, Beatriz Pinzón! Porque nem todos os marmanjos da roça vão agir com o respeito e o cavalheirismo que eu tenho por você! Eles podem mui bem interpretar mal a sua inocência e querer abusar do seu corpo nos fundos da plantação! É um perigo!

— Mas eu jamais iria sair beijando outros homens por aí, Armando! Eu já te disse que sou uma moça direita... o único homem que eu beijei na minha vida inteira foi você! Agora me diga, por favor... foi ruim assim?

— Não... não foi ruim de jeito nenhum, Beatriz! — ele soltou de uma vez, arfando.

— Quer dizer então que foi bom? Que você gostou? — ela deu um passo à frente, encurralando-o contra a madeira.

— Beatriz! Pelo amor de Deus!

— Por favor, Armando... eu preciso mui sabê-lo.—


Por quê?! Por que tanta insistência?

— Porque eu confio no seu julgamento mais do que em qualquer outro, e preciso saber se eu provoco reações de homem em um cavalheiro forte como você. Se o meu corpo te balança.

— Betty!...

— Não quer me dizer? Foi mui ruim então, não é? Eu sou uma caipira desajeitada que não sabe beijar... — ela fingiu um beicinho magoado.

— Está bem! Que inferno! Você beija bem, sim! Beija mui bem, mui gostoso para quem nunca havia tocado a boca de um homem na vida! Está satisfeita agora com a resposta, Beatriz?! — esbravejou o caubói, o orgulho de macho capitulando diante da provocação.

— Bem... como? De que jeito? Descreva para mim, Armando.

— Eu não sei dizer em detalhes, Beatriz! Foi há alguns dias e a minha mente não consegue lembrar de cada linha do toque. Eu já não lembro mais do sabor

— mentiu ele descaradamente, embora o gosto de amora silvestre continuasse queimando os seus lábios a cada amanhecer. — Se você tivesse me perguntado na mesma hora, no pátio do baile, talvez eu pudesse te responder com mais precisão. Agora a lembrança sumiu.Betty abriu um sorriso perigoso, sexy e completamente indomável de Rainha Paisa, os olhos de café faiscando na penumbra do estábulo.

— Então não tem problema nenhum, meu caubói... — sussurrou ela, jogando os braços macios ao redor do pescoço musculoso dele e colando o corpo perfumado ao peito nu do herdeiro.

— Eu te beijo novamente agora mesmo... e assim o senhor poderá me dizer com toda a precisão do mundo o que o meu corpo provoca em você.

— Betty... acho que isto não é uma boa ideia... — Armando tentou protestar, mas a sua voz saiu como um sussurro sôfrego e sem forças, as mãos grandes caindo trêmulas sobre a cintura fina dela por puro instinto de posse.

— É uma ideia excelente, Armandinho... — ela murmurou contra a boca dele, roçando os lábios de porcelana nos lábios carnudos do caubói.

Como ela era um bocado baixinha e ele era um homem mui alto e forte, Betty teve que se pendurar um pouco nas pontas dos pés, puxando o lenço do pescoço dele para baixo para selar um beijo terno, úmido e profundo bem ali na penumbra do box, entre o cheiro de feno e a presença dos cavalos.

— Gostou da precisão da memória agora, caubói? — sussurrou Betty contra a boca dele assim que se afastaram por falta de ar, com um sorriso de triunfo, vendo os olhos de Armando virados de puro delírio e desejo reprimido, completamente laçado pelo feitiço da sua ex-feia.