Por outro lado, antes de conseguir trancar-se no quarto para suspirar, Beatriz foi interceptada no corredor pelo seu pai. O Seu Hermes, zeloso com as aparências e com a tradição dos Pinzón, pegou-a firme pelo braço e a levou de volta para o centro do salão da casa grande; afinal, aquela era uma data mui importante, sua única filha estava ganhando a maioridade perante o vilarejo. O caseiro orgulhoso dançou a primeira valsa com ela e, logo em seguida, conforme o seu plano secreto de arrumar um pretendente de bem, entregou a mão de Betty para outro convidado rico, e depois para outro herdeiro das redondezas. Dona Júlia, que continuava sem saber as reais intenções de casamento arranjado do marido, achou mui estranho aquele desfile de rapazes. Beatriz, que ainda andava flutuando nas nuvens e com o juízo perdido por ter tido a coragem de beijar a boca de Armando, sentia-se mui mal no meio daquela dança forçada.

O seu incômodo ficou pior por demais quando um dos homens da alta sociedade que lhe fizeram a corte e pediram licença para dançar foi o asqueroso do Daniel Valência. Betty sentia o estômago revirar com o cinismo do sujeito, querendo apenas estar novamente protegida nos braços de Armando e sentir aqueles lábios fortes contra os seus.Armando, assistindo a tudo do canto do balcão, sentiu o sangue ferver ao ver o Daniel Valência bailar colado com a sua Beatriz.

Uma fúria cega e um sentimento de ciúme possessivo que ele nunca, jamais havia experimentado antes rasgaram o seu peito de arriero. Ele teve uma vontade violenta de atravessar a pista, empurrar o cunhado e tomá-la em seus braços de uma vez por todas, mas a Marcela Valência continuava grudada feito carrapata em seu braço, impedindo os seus movimentos.— Eu realmente não entendo como os seus pais resolveram promover este baile de gala luxuoso para a filha dos criados, Armando! — reclamou Marcela, abanando-se com desdém.

— A Beatriz não é apenas a filha dos funcionários, Marcela! — o caubói rosnou entre dentes, a voz pesada. — Os Pinzón são pessoas honradas, são nossos amigos e a Betty nasceu e foi criada correndo por estes estábulos junto conosco. Você sabe mui bem disso desde pequena!— Só acho que a alta sociedade não deve misturar as coisas com a criadagem, Mendoza! Fica feio!

Armando deu de ombros, com cara de poucos amigos, não estava nem aí para o que a mente esnobe da noiva pensava.— Mas mude essa cara de bravo, meu amor... Eu não vejo a hora de este baile caipira terminar para podermos ficar finalmente juntos, trancados no seu quarto — sussurrou Marcela, com um sorriso manhoso, roçando o corpo no dele.

— Os seus irmãos e os seus pais estão bem ali na mesa de doces, Marcela! — Armando tentou desvincilhar, tenso.

— Não tem medo de que eles nos peguem no flagrante no corredor? Afinal, para a sociedade dos Valência, você se vende como a boa moça donzela e pura da família.

— Eu quero apenas que você me pegue de jeito na cama, Armando... como sempre fez! — provocou ela com malícia, mordendo o lábio. — Deixe que os moralistas pensem o que quiserem!

Marcela lançou-lhe um olhar de desejo ardente, enquanto Armando se afastava dela com um pretexto qualquer, o corpo completamente frio e sem tesão.

A Dona Júlia não estava gostando nada de ver a filha ser disputada daquela forma no salão e começava a entender as segundas intenções por trás das conversas do marido. Assim, em total concordância com a Dona Margarida, a mãe resolveu colocar um ponto final naquele desfile de pretendentes e chamou todos os peões e convidados para perto da mesa principal para cantarem os parabéns de dezoito anos.

Durante os aplausos e os vivas, os olhares de Betty e Armando se cruzaram várias vezes no meio da multidão, carregados de uma eletricidade proibida, embora não tivessem tido a menor chance de se reunirem a sós novamente. Assim que a última fatia de bolo foi servida, Beatriz recolheu-se ao quarto de cima, alegando cansaço para os pais, mas a verdade é que ela queria apenas fechar a porta, tocar os próprios lábios com a ponta dos dedos e fechar os olhos de café para reviver o sabor de amora. Só seria mui melhor se pudesse ter dançado a valsa com ele após o beijo.

No quarto ao lado, Armando Mendoza mal esperou o último convidado do vilarejo ir embora para trancar-se sozinho em sua cama de solteiro. Ele encarava o teto colonial, os braços cruzados atrás da cabeça, pensando puramente na filha do caseiro.

— Será que o safado do Calderón tem toda a razão do mundo? — murmurava Armando para a escuridão do quarto, com o cenho franzido. — Será que a Betty gosta de mim como homem? Não... imagina, homi! Tire essa bobeira da mente, Mendoza. É apenas coisa de criança, carinho de infância. Ela é uma menininha inocente e você é um homem feito, rodado... ela jamais pensaria em você desta maneira maliciosa. Ou iria?...

Armando rolou na cama, o corpo esquentando ao lembrar da pressão dos lábios de seda dela contra os seus. O seu pensamento de macho o traía, e ele imaginava-se devorando aquela boca de porcelana com uma selvageria que agora sabia exatamente que sabor tinha. O pior de tudo era saber que a sua Bettica estava dormindo a apenas alguns passos de distância do seu quarto, logo ali no corredor. Poderia levantar-se, bater na porta e repetir o beijo com mais força... mas sabia que aquilo seria uma loucura completa de arriero sem juízo.

Não era uma boa ideia ter a Betty tão perto dele. Sentia no peito que aquilo não estava bem perante a honra do Seu Hermes. Ela era apenas uma menina pura e ele um homem feito com uma larga e depravada experiência sexual nas costas. Mesmo que ela guardasse desejos por ele, Armando tinha a obrigação de não incentivar tais pensamentos na cabeça da jovem.

Assim, o caubói tomou uma decisão firme de patrão: decidiu não comentar absolutamente nada sobre o beijo no dia seguinte e evitar ao máximo ir atrás dela nos fundos, como sempre fazia para cavalgar, conversar ou prosear perto do rio. Deveriam limitar-se estritamente a se encontrarem nas refeições do casarão principal — enquanto ela estivesse hospedada ali por causa da reforma e não pudesse evitar — e nas dependências da escolinha rústica, onde o trabalho de professor era necessário. Não podia de jeito nenhum alimentar aquele tipo de fogo nela. Ele era um homem vivido e sabia que, por sua larga experiência, a menina queria apenas aprender as coisas do mundo, afinal ele era o seu melhor amigo e ela confiava na sua proteção.No quarto ao lado, Betty limpava as marcas do saltinho nos pés quando a porta de madeira se abriu devagar.

— Olá, minha rainha paisa! (N.T.) *

— Aura Maria! — exclamou Betty, surpresa.— Ai, Betty, me desculpe o mau jeito! Eu não sei se você queria dormir sozinha e sossegada na sua maioridade... mas a sua sogrinha Margarida e a prô Catalina disseram que eu podia perfeitamente ficar hospedada aqui com você, nesta cama de baixo do quarto da sua cunhada!

— Cunhada?! Que cunhada, Aura Maria? Ficou maluca de vez? — Betty corou instantaneamente.


— A tal da Camila Mendoza não é a sua cunhada de verdade, a irmã do seu caipira arriero? — riu a recepcionista de Bogotá, jogando a bolsa no chão. — Realmente, Betty... eu tenho que dar o braço a torcer: esse Armando Mendoza é um legítimo triplepapito de primeira qualidade! Mas não se preocupe, amiga, eu não vou furar o seu olho, sei mui bem que você bebe os ventos por ele desde que era cotoca! E olha... querida, eu simplesmente adorei o que vi na varanda!

— Você viu?! — Betty cobriu o rosto com as mãos, vermelha de vergonha, mas com o coração batendo cheio de vontade.

— Mas claro que vi, mamita! Vi perfeitamente bem quando você tomou a iniciativa e deu aquele beijo de rumba na boca dele! Este é apenas o primeiríssimo passo da nossa estratégia de Capital! Você não pode de jeito nenhum deixar que esse peão forte fique nos braços daquela noiva chata e azeda. Está na cara de qualquer vivente que o Armando não gosta daquela Marcela Valência, ali tem caroço nesse angu! Ele tem que ser seu e de mais ninguém, Betty! Agarre esse caubói de jeito pelos cantos da escolinha! Seduza o homem!

Betty deitou-se na cama de solteiro, escondendo o rosto de porcelana nas cobertas, vermelha de tanta timidez, mas com o corpo queimando de uma vontade indomável. Ela tocou os próprios lábios com carinho; aquele beijo de amor era o seu maior sonho secreto desde os seus doze anos de idade, quando ficava escondida atrás do cocho e o via beijando as moças ricas da fazenda na escuridão. E agora... agora ela sabia exatamente qual era o sabor do seu caubói.

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