Casamento por obrigação
17 Capítulo 17
Armando tinha toda a razão do mundo: conhecia o caráter de Daniel Valência desde sempre. Claro que as intenções do cunhado eram as piores possíveis. O sujeito estava completamente louco para colher e beliscar aquela frutinha madura, como ele mesmo dizia com asco. Daniel mal conseguia aguentar a excitação dentro das calças ao sentir mui de perto o perfume puro de inocência que emanava do corpo de Beatriz.
Ao contrário de Armando — que preferia se envolver abertamente com moças mais experientes da Capital ou da rumba, com as quais pudesse desfrutar livremente de sua sensualidade sem se preocupar com promessas —, o Valência tinha um fetiche sombrio: preferia seduzir, quebrar as defesas e iniciar as meninas puras da roça. Geralmente, ele não era nem um tiquinho gentil com as coitadas, mas não lhe importava a mínima. Assim, depois de lancharem mui falsamente na mesa de seus pais, ele a convenceu a ir cavalgar.
— E onde diabo você vai com a filha do caseiro, Daniel? — reclamou Marcela na varanda, ajeitando o chapéu de sol.
— Vou apenas cavalgar por aí com a moça, dar uma volta — desversou ele, polido.
— Só você mesmo, Daniel, para dar trela para essa gente... — desdenhou a noiva.
— Shiu, cale a boca, Marcela. Nós já conversamos mui bem sobre os meus planos — sibilou ele entre dentes.
Daniel levou Beatriz para passear a cavalo pelas divisas.
— Vou te levar para conhecer outros lugares mui mais bonitos da nossa propriedade, Beatriz — sorriu ele, de canto.
Um desses lugares era o enorme e deserto lago que cortava a fazenda vizinha.
— Veja só que espetáculo!
Beatriz abriu bem os olhos de café; estava genuinamente admirada com a beleza daquele lago espelhado à sua frente, rodeado de flores silvestres da montanha.
— Eu não disse para você que o nosso lago era muito maior que o dos Mendoza? Até as nossas águas são mais limpas e mui mais lindas. Quando eu te conheci nesta roça, você vivia tomando banho no rio... Não sente uma vontade louca de nadar aqui comigo hoje, da mesma forma como nadava nas terras dos Mendoza?
— Er... não, Seu Daniel, grata — gaguejou ela, sentindo um calafrio.
— Vamos, Beatriz! Não seja acanhada! Ou por acaso você guarda algum preconceito ou algo contra o sangue dos Valência?
— Não, imagina... de jeito nenhum. Só não penso que fica mui bem para uma moça de família. Eu fui criada e acolhida naquela fazenda dos patrões. Já aqui... é notório para todo o mundo que a sua irmã Marcela não gosta da minha presença, e eu não conheço bem o seu pai.
— Mas conhece a mim, não conhece, boneca? — disse Daniel, dando um passo largo e segurando o queixo de porcelana dela com os dedos firmes.
— Sim, claro... — Beatriz tentou desviar o rosto, sentindo-se profundamente desconfortável e com o estômago revirado ao sentir a pressão dos dedos de Daniel no seu queixo.
— Vamos dar uma volta na água?
— Não creio ser uma boa ideia, Seu Daniel.
Daniel soltou uma risada carregada de puro deboche de sociedade.
— Ah, entendi tudo... Você não se sente tão à vontade aqui nas minhas terras como se sente livre na fazenda dos Mendoza — riu ele, destilando veneno. — Tudo bem, não tem problema, logo, logo você se acostuma com os meus modos. Mas você não pode se negar a dar um passeio romântico no lago comigo, não é? Vamos subir naquele barquinho de madeira ali na margem... ou você vai me dizer que é contra isso também?
— Não... acho que um passeio de barco está mui bem — cedeu ela, com um sorriso tímido de quem queria evitar brigas entre as famílias.
Quando a embarcação alcançou exatamente o meio do lago deserto, cercada apenas por árvores e águas profundas, Daniel parou de puxar os remos de ferro. O silêncio ficou pesado.
— Está uma bela tarde para nós dois, Beatriz...
— Na verdade... já está ficando bem tarde, Seu Daniel — Betty ajeitou as apostilas contra o peito, o coração acelerando no peito. — É melhor darmos a volta e regressarmos para a margem.
— Não tão cedo, minha querida. Não tenha tanta pressa.
— O seu pai e a sua irmã Marcela podem ficar mui preocupados com o nosso sumiço na lavoura.
— Eu sou um homem adulto e dono do meu nariz, Beatriz, não creio de jeito nenhum que eles se importem com quem eu passo as minhas tardes.
— Neste caso... o meu pai ainda se importa mui sério com a minha conduta, Senhor Valência. É melhor irmos, já está passando da hora.
— Quantos anos você tem agora, Betty? — ele perguntou, aproximando-se pelo banco do barco.
— Dezessete anos! — ela firmou a voz, altiva.
— Uma flor perfeita que ainda está desabrochando para o mundo...
— Como disse? O que o senhor quer dizer com isso?
— Quero dizer que eu adoro e tenho fixação pelas flores puras que ainda não foram colhidas por homem nenhum... exatamente como você, Beatriz — disse Daniel, estendendo a mão grande e acariciando a lateral do rosto dela com uma lascívia asquerosa.
Beatriz sentiu o sangue congelar e um medo terrível tomou conta de seus sentidos.
— Não tenha medo de mim, boneca. Nós somos amigos de infância, lembra? Eu sempre trago as minhas amigas novas para passear de barco por este lago.
— Creio que eu não estou entendendo a sua conversa, Seu Daniel...
— Pois eu posso perfeitamente te fazer entender agora mesmo! Você voltou tão bela e gostosa da Capital... Deve ter aprendido tanta coisa fina nos livros de Bogotá, mas o principal... o principal das manhas de mulher os seus professores deixaram guardado para mim. Pois bonita desse jeito, é até um pecado mortal que você ainda não seja mulher de verdade! Mas eu posso perfeitamente resolver esse problema para você aqui mesmo nesta tarde, e eu te garanto que você vai gostar mui bem!
Daniel avançou sobre ela com a força de um predador. Betty olhou desesperada em volta e só via água profunda por todos os lados. Não havia para onde correr.
— Seu Daniel, não! Me solte!
— Desde quando você se pôs tão orgulhosa e cheia de marra, Beatriz Pinzón?! — Daniel sibilou, os dentes cerrados de puro desejo reprimido. — Você sabe mui bem que não é nada nesta região, é apenas a filha do caseiro dos Mendoza! A ex-feia, a criada dos fundos, a bela professorinha... qual a diferença real no final? Vamos, Beatriz! Não se faça de difícil para cima de mim! Se você for uma boa menina e cooperar, eu posso até me contentar com um beijinho na boca por hoje... embora, se você quer saber a verdade, eu gostaria mesmo é de fazer o serviço completo debaixo desse feno!
— Não! Não encoste em mim! Socorro! — ela gritava, tentando empurrar o peito dele.
— Com essa nova forma deslumbrante você já deve ter beijado muitos rapazes finos da faculdade, e por que não eu? Venha cá!
Ele a segurou pelo braço com uma posse violenta. Vendo que a moça se contorcia inteira e tentava se livrar do aperto com unhadas, Daniel ficou ainda mais excitado dentro das calças.
— Sabe que uma mulher arredia e brava assim... só me deixa ainda mais louco e com mais vontade de fazer com o corpo dela o que eu bem quiser?!
— Não! Me largue! O Armando tinha toda a razão sobre o seu caráter! — Betty gritou, as lágrimas de humilhação brotando nos olhos de café.
— Que pena que o idiota do Armando Mendoza está mui longe daqui para bancar o seu herói salvador nesta tarde, Beatriz! Uma hora dessas, nos braços da minha irmã Marcela ou de qualquer outra camponesa dos estábulos, o Mendoza já está se divertindo, já que ele adora se revolcar com qualquer vagabunda da rumba! Eu não. Eu só tenho olhos e gosto pelas florzinhas puras e intocadas como você! Vamos, Beatriz, eu quero sentir o sabor desses seus lábios de amora agora mesmo, ou você vai me dizer que nunca beijou ninguém na vida?
Daniel deitou o corpo pesado sobre ela com brutalidade, prendendo os braços de Betty contra o casco de madeira do barco. Não havia a menor escapatória. Ele começou a morder e a lamber o rosto dela com violência no caminho para tentar alcançar a sua boca, enquanto a Rainha Paisa virava o rosto desesperada para os lados, negando-se àquela sujeira.
O cheiro da pureza dela estava levando o Valência à loucura total. Ele não sabia se conseguiria parar a gandaia depois que ela cedesse o primeiro beijo na marra. Não havia motivo nenhum para esperar mais; afinal, se ele não tinha paciência para bancar o bom moço nem com as filhas dos peões e as belas camponesas virgens da região, por que diabo haveria de ter paciência com ela? Ela era apenas a ex-feia, a filha dos criados. E na mente perversa dele, era apenas um beijinho de nada... embora o corpo dela o instigasse a fazer o serviço completo. Mas ele lembrava que ela era a querida dos patrões Mendoza e não queria arrumar brigas feudais com o Seu Roberto. Um beijo era apenas um beijo, quem na alta sociedade poderia condená-lo por isso? Afinal, a própria Beatriz havia aceitado de livre vontade passear sozinha com ele por sua fazenda. Não havia testemunhas ali no meio da água de que ela não havia lhe beijado de bom grado também, e no final ela acabaria lhe agradecendo pelo desfrute. Todas as moças do vilarejo sempre lhe agradeciam pelos beijos que ele dava, ou era o que a arrogância dele pensava. Para Daniel, ela era apenas mais uma saia para a coleção.
— Por que você está tão agressiva e brava, Betty? Acaso vai ter a audácia de dizer que eu não sou um homem atraente para os seus caprichos?
— Largue-me agora mesmo, seu Daniel! Me solte!
— Só um beijo na boca e eu te deixo em paz... — sibilou ele, deixando-a totalmente imóvel sob o seu peso. Ela não podia se soltar, a força dele era mui superior à dela de menina.
— Socorro! Alguém me ajude, pelo amor de Deus! — Betty soltou um grito desesperado para o vento.
— Não vê que não tem vivente nenhum aqui perto, Beatriz? Ninguém pode nos ouvir! Ninguém nesta terra pode me impedir de te tomar!
Daniel estava com os lábios quase roçando na boca da pobre Beatriz, quando um rugido rústico e furioso cortou o ar como um tiro de espingarda.
— TIRE AS SUAS MÃOS SUJAS DELA AGORA MESMO, DANIEL VALÊNCIA!
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