Casamento de Julho
13 Erros
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VII – CASAMENTO DE JULHO
CAPÍTULO XII — ERROS
Eu já cometi muitos erros em minha vida e sempre tive consciência disso. Mesmo tentando mudar o meu temperamento difícil, no fim, eu permanecia com a minha péssima mania de agir primeiro antes de pensar nas consequências. E eu já havia pagado um preço alto por isso, como ter que lidar com Kai e suas armadilhas, ser responsável, ainda que de forma indireta, pela morte de uma pessoa e ter perdido a confiança de meu pai.
Mas de todos os erros que eu já cometi, o maior deles com certeza era estar beijando a pessoa que eu deveria ver como minha irmã e que eu jurei para todos que odiava em meio de um corredor escuro. Quer dizer, ela é Elena Gilbert. Eu não deveria gostar tanto de ter suas mãos puxando os curtos fios de cabelo de minha nuca, muito menos de ter suas pernas em volta de meus quadris, enquanto eu a segurava pelas coxas torneadas.
Eu não deveria estar descendo meus lábios pela pele alva e tão convidativa de seu pescoço, tampouco estar tão excitado por ouvir seus gemidos e suspiros. Erros como Elena não deveriam beijar tão bem, nem fazer meu coração bater tão forte em meu peito. Nada daquilo deveria estar acontecendo. Eu sabia muito bem disso. Ainda assim, eu era incapaz de me separar de Elena e acabar com toda aquela loucura.
A forma como nossos corpos pareciam se encaixar como peças perfeitas de um quebra-cabeça era alucinantes. Eu queria experimentar mais de Elena. Queria sentir mais de seu sabor. Desejava tê-la por completo. E esse era o meu maior pecado. Elena era a última garota com quem eu deveria me envolver. O universo já havia me enviado sinais o bastante para saber que eu nunca poderia me dar ao luxo de viver um grande amor.
Elena merece muito mais do que um grande idiota inconsequente, que não consegue controlar a própria raiva. Eu não sou um príncipe encantado em um cavalo branco pronto para protegê-la de qualquer perigo. Na verdade, se estivéssemos em um conto de fadas, eu provavelmente seria o vilão ou um dos personagens que atrapalhar o casal principal de alguma forma. Porque eu sou um maldito que quebra tudo o que toca.
Mas mesmo sabendo que Elena merece alguém muito melhor do que eu, ainda havia algo que me impedia de me afastar, de acabar com aquele momento alucinante entre nós. Eu continuava a beijar Elena e saborear seus lábios como se não houvesse um amanhã. Continuava a pressionar meu corpo contra o seu de encontro a parede dos fundos do Hawkeye, apesar de saber que um dos colegas de trabalho de Elena poderia aparecer a qualquer momento.
Muito além de desejo físico, havia algo de mais intenso naquele beijo eufórico, que sugava todo o meu ar e me levava ao êxtase. Eu já havia me envolvido com muitas mulheres. Muito mais do que eu me orgulhava, mas nenhuma delas havia despertado tantos sentimentos conflitantes dentro de mim. Elena havia chegado a um lugar que eu jamais permitir que nenhuma outra pessoa entrasse e isso era apavorante.
Era aterrorizante me sentir tão vivo. Sem que eu tivesse qualquer controle, Elena estava derrubando todas as barreiras que impus em meu coração. Eu deveria odiá-la, mas ao invés disso, sinto que eu não poderia me sentir mais atraído e... apaixonado. E constatar isso com um simples beijo era ridículo e surreal. Eu não poderia amar Elena. Eu não poderia sentir esse sentimento que me torna tão vulnerável.
E como se a bolha em que estivéssemos se estourasse, a porta dos fundos do Hawkeye se abre e nós nos afastamos imediatamente. Elena desce de meu colo e posso ver o quanto ela parecia sexy com os cabelos bagunçados, lábios inchados e respiração ofegante. Engulo em seco desvio o olhar, sabendo que se continuasse a encará-la, poderia acabar atacando tomando seu corpo para mim sem nem mesmo pensar duas vezes.
— Elena? O que você ainda está fazendo aqui... Damon? — Cait aparece com Ally ao seu lado e as duas nos encaram confusas, mas não demora muito para que abrissem sorrisos maliciosos.
— Parece que atrapalhamos um momento importante, Cait. — Comenta Ally, ajeitando a bolsa em seu ombro. A garota ao seu lado ri e assente, concordando. — Bom, nós seremos boazinhas e não vamos questionar o que acabou de acontecer, ainda que a gente saiba o que houve, porque Austin e Barry chegaram. Mas você não vai escapar de nós, Elena.
— Vão embora. — Resmunga Elena, envergonhada. As garotas riem e acenam, afastando-se de nós. No entanto, antes que desaparecesse em nosso campo de visão, Cait para de andar e se vira para nós, despertando a atenção de Elena, que desde que nos separamos, encarava os próprios pés.
— Elena. — Chama Cait e vejo um brilho malicioso e divertido em seus olhos.
— O quê? — Elena leva a cabeça e encara a amiga.
— Você prefere o Dalton Psychiatric Services ou o North Meridian Psychiatric? — Questiona a Snow, sorrindo traquina.
— Do que você está falando? — Pergunta Elena, confusa pela pergunta da amiga e colega de trabalho.
— "No dia em que eu me apaixonar por Damon Salvatore, vocês podem me internar em um manicômio, porque eu enlouqueci de vez." — Responde Cait e isso me faz encarar Elena, esperando alguma explicação. — Isso te lembra alguma coisa?
— Eu recomendo o Dalton Psychiatric Services. É um dos melhores hospitais psiquiátricos de Hawkins. — Ally sorri, adorando provocar Elena, que lança um olhar nada agradável para as garotas. — A gente promete te visitar todos os dias e...
— Calem a boca e vão embora! — Elena simplesmente retira a sapatilha que usava para jogar contra as meninas, que riem e correm para não ser acertadas.
— Tchau, Damon e Elena. Juízo vocês dois! Lembrem-se de usar camisinha! — Grita Cait, que recebe em resposta a outra sapatilha de Elena voando em sua direção.
Um silêncio constrangedor se instala entre nós. Ela recolhe a bolsa que eu não fazia ideia de que momento havia ido ao chão e as duas sapatilhas que usou como arma para calar as amigas. No entanto, ainda éramos incapazes de nos encarar. A timidez e a culpa parecia ter nos atingindo em cheio. Quer dizer, além de termos nos agarrado nos fundos do Hawkeye, ainda fomos flagrados por pessoas que nos faria lembrar para sempre do acontecimento.
Suspiro e encaro Elena, que ainda calçava as sapatilhas. A verdade é que eu não sabia o que dizer. Quer dizer, eu sabia que provavelmente deveria me desculpar por ter marcado o pescoço dela e ter permitido que o beijo fosse muito mais longe do que deveria. No entanto, meu orgulho e a falta de arrependimento me impediam de dizer que eu sentia muito pelo que aconteceu. Eu realmente não sentia. Sendo sincero, a vontade que eu sentia nesse momento era de voltar a beijá-la e ver até onde poderíamos ir naquela loucura.
Mas o meu lado racional me alertava de que havia um erro e tanto. Nossos pais se casaram e para a sociedade, nós nos tornamos irmãos. Pessoas normais não saem por ai beijando seus irmãos postiços, muito menos desejam dormir com eles. O único problema é que Elena e eu não somos normais e de uma maneira nada segura e saudável. Constantemente estamos nos insultando e a ponto de nos matar. E agora, havíamos experimentado da perigosa linha tênue entre o ódio e o desejo.
— Elena, eu... — Começo, sem realmente saber o que dizer. Ela me encara com os olhos brilhando em desespero e preocupação.
— Não. Não fala nada. — Pede a garota, erguendo a mão, em sinal de que não queria ouvir mais nada.
— Mas, nós... — Sou interrompido mais uma vez com Elena apertando meus lábios.
— Não. Eu sei o que vai dizer e eu não quero ouvir. Não quero falar sobre isso. Pelo menos, não ainda. Eu... eu preciso entender o que eu estou sentindo e eu realmente não preciso de mais nenhum comentário seu para tornar tudo ainda mais difícil e constrangedor. — Explica Elena, finalmente soltando meus lábios. — Nós ficaremos morando na mesma casa sozinhos por quatro semanas. Isso já era ruim o bastante antes de... bem, antes disso acontecer. Então, para o bem da nossa convivência nos próximos dias, não diga nada.
— Certo. — Respondo e ela me repreende com o olhar.
— Eu disse: não diga nada. Então, cala a boquinha e vamos embora. — Elena se vira e começa a andar em direção ao estacionamento, deixando-me para trás.
Respiro fundo, tentando manter a calma e o restante do autocontrole que ainda havia em mim. Elena definitivamente vai me levar a loucura até que nossos pais voltem de viagem. Eu só não sabia dizer se seria por causa de seu comportamento nada normal ou do perigoso desejo que ela nem mesmo imaginava que havia acabado de despertar em mim.
Assim, com a cabeça para explodir de tantas perguntas, seguimos para casa em completo silêncio. Eu estava tão atordoado e afetado que realizei todo o percurso em modo automático. Eu não faço ideia de como chegamos em casa, mas assim que eu estacionei, Elena pulou para fora do carro e corre para seu quarto, sem nem mesmo olhar para trás ou dizer um "boa noite".
E eu apenas segui para o meu, que para a minha infelicidade, estava perto demais para o bem de minha sanidade. Encaro a porta da garota por alguns instantes, questionando-me se ela se sentia tão afetada quanto eu. Se assim como eu, ela estaria desejando voltar no tempo somente para repetir tudo o que aconteceu, apenas para ter a chance de reviver aquele momento. Se ela também sentia seu corpo implorar por mais, como um viciado enfrentando a abstinência de sua droga.
Resolvo então parar de agir como um idiota e entro em meu quarto. Puxo meu celular do meu bolso e disco os números tão familiares para mim, sem nem mesmo me importar com o horário. Eu apenas sentia que precisava conversar com alguém e sabia que Oliver era a pessoa certa para colocar um pouco de juízo em minha cabeça naquele momento.
— Eu acho bom você ter um bom motivo para estar me ligando em plena cinco horas da manhã da primeira segunda-feira em que eu estou de folga, Damon. — Nem mesmo o tom mal-humorado de meu melhor amigo era capaz de me fazer esquecer aqueles sentimentos conflitante e sufocante dentro de mim.
— Elena e eu nos beijamos. — Jogo de uma vez, esperando que dizer isso em voz alta para Oliver me fizesse assimilar o erro mais certo que cometi naquela noite.
— Ah, você e Elena se beijaram. — Sussurra Oliver, sonolento. No entanto, depois do que pareceu ser uma eternidade, meu melhor amigo parece finalmente entender o motivo de meu desespero. — Espera. O quê?! Você disse que você e Elena se beijaram? Tipo, beijaram, beijaram mesmo ou só beijaram.
— Nós nos beijamos, Oliver. — Repito, batucando meus dedos da mão direita contra a cama, inquieto demais.
— Isso é incrível! — Comemora Oliver, quase como se eu tivesse dito que havia ganhado um prêmio excepcional. E talvez eu realmente estivesse, mas eu precisava colocar minha mente no lugar e ficar relembrando o quão incrível foi aquele momento só faria eu me iludir ainda mais.
— Isso é uma tragédia, Oliver! — Afirmo, esperando que ele entendesse a gravidade da situação. — Era a última coisa que poderia ter ocorrido entre nós.
— É claro que não! Deixa de ser dramático. Depois de vinte e quatro anos sendo obrigado a conviver com a tensão sexual de vocês dois, finalmente vocês estão começando a aceitar os sentimentos de vocês. — Comemora meu melhor amigo e eu quase conseguia ver o sorriso orgulhoso de Oliver do outro lado da linha. — E como foi?
— O quê? — Pergunto, deitando-me em minha cama. Encaro o teto e ouço o suspiro frustrado de Oliver.
— Não se faça de desentendido. Você sabe muito bem sobre o que eu estou falando. Como foi o beijo? Você gostou? O que sentiu? — E a sessão de perguntas ansiosas de Oliver se iniciou.
— Você é pior do que adolescentes cheia de hormônios. - Resmungo e ele ri, sem realmente se importar.
— Fala logo! Como se sentiu beijando Elena Gilbert? — Questiona Oliver e sua curiosidade era quase palpável. Suspiro e acabo deixando um sorriso de meus lábios.
— Foi... mágico. — Confesso e ouço uma risada divertida de Oliver. — Eu acho que nunca me senti tão vivo e tão em êxtase como naquele momento. Mesmo agora, meu corpo ainda vibra só de pensar na intensidade daquele beijo. Elena foi capaz de me fazer conhecer o inferno e o paraíso em questão de segundos. Eu... eu não sei explicar, cara. Foi tão tão de repente e tão único. Uma hora eu estava socando o rosto do Stefan e no outro estávamos Elena e eu nos pegando nos fundos do Hawkeye.
— Espera. Você disse que estava socando o rosto de Stefan? O que aconteceu? — Meu melhor amigo indaga, preocupado.
— Stefan apareceu no Hawkeye. Eu não sei o que ele foi realmente fazer lá, mas pelo que eu entendi, ele planejava levar Elena em casa. De qualquer forma, quando eu cheguei, ele estava quase a beijando. — Conto, sentindo minha boca amargar apenas em lembrar o que poderia ter acontecido se eu não tivesse chegado naquele instante.
— E você simplesmente partiu para cima dele e o deixou irreconhecível? — Supõe Oliver, preocupado. — Por favor, me diz que você não fez isso de novo.
— Eu não fiz. — Afirmo, bufando. — Eu queria, mas a Elena não me deixou. Tudo o que eu fiz foi dar um soco no rosto dele quando ele começou a fazer o seu jogo de manipulação. Como era de se esperar do filho de Ewa Wasilewski, Stefan usou seu veneno para me atingir, relembrando da morte da mãe dele e do que aconteceu com o Kamikaze. Faltou muito pouco para eu descontar toda a minha frustração e irritação nele.
— Você está bem? — Pergunta Oliver, sabendo o quanto esses assuntos eram delicados para mim. Eu odiava falar sobre Ewa e mais ainda sobre o maldito lutador Kamikaze, que me provocou tanto que me fez perder o controle e quase matá-lo de tanto bater nele. O babaca foi parar na UTI por duas semanas e nunca mais conseguiu voltar para as arenas. Esse era mais um da minha lista de erros e arrependimentos que carrego dentro de mim.
— Agora eu estou. — Respondo com sinceridade. Oliver suspira e parece ficar pensativo. — Mas não se preocupe. Eu vou ficar bem. Não vou deixar que Stefan estrague meu dia.
— Até porque você beijou o amor de sua vida. — Provoca Oliver e eu bufo, irritado, mas incapaz de negar. — E o que vocês vão fazer agora? Por favor, não me diz que você vai para cama com a Elena para depois ser babaca e acabar a deixando com a sua regra ridícula de não dormir com uma mesma garota mais de uma vez.
— Não é ridícula e você sabe muito bem o porquê de eu fazer isso. — Resmungo, cansado.
— Acho bom você lembrar da minha pontaria no arco e flecha, porque se eu sonhar que você está planejando usar a Elena assim como...
— E eu não faria isso com a Elena e você sabe disso. — Interrompo meu melhor amigo, virando-me na cama para encarar a última foto que tiramos de todos os membros da família Barton. Estico meu braço e pego o retrato, encarando o rosto sorridente de Elena com seus catorze anos.
— Finalmente admitiu para si mesmo que você gosta dela e que planeja se casar com ela e ter três filhos, dois cachorros, três gatos e uma cacatua? — Brinca Oliver, provocando-me como sempre faz.
— Eu gosto dela. Muito mais do que deveria gostar. — Confesso e ouço meu melhor amigo ficar em um silêncio ensurdecedor por alguns longos segundos. — Oliver? Você está ai?
— Sim. Eu só... não pensei que admitiria tão fácil assim. — Explica, parecendo ainda em choque pela minha resposta.
— Eu não sou tão idiota ao ponto de ignorar o que estou sentindo nesse momento. Eu nunca me senti assim antes, Oliver. E isso é um problema. Eu realmente não sei o que fazer. Quer dizer, eu sinto como se estivesse entre a cruz e a espada.
— Como assim? — Pergunta Oliver, confuso.
— Elena e eu não podemos ficar juntos. Nossos pais se casaram e estão completamente apaixonados um pelo outro. Você sabe como meu pai é em relação a tradição familiar. Ele jamais aceitaria um envolvimento entre Elena e eu. E eu não posso me envolver com ninguém. Não quando Kai pode usar isso para me atingir. Enquanto eu estiver nas mãos dele, não é seguro para ninguém ficar ao meu lado. Nós também passamos mais tempo brigando do que respirando. Nós nunca conseguimos nos entender. E ainda tem o fato irritante de que Elena ainda é apaixonada pelo babaca do Stefan. — Revelo e ele bufa.
— As outras partes eu até entendo a sua preocupação, mas essa história de que Elena é apaixonada por Stefan é realmente uma idiotice. Ela só pensa que é apaixonada por ele, porque acredita que foi ele quem a salvou do afogamento. — Resmunga meu melhor amigo, irritado. — Até quando vai permitir isso? Você foi o herói dela, Damon! Foi você que se jogou de uma cachoeira, mesmo sem saber nadar direito apenas para salvar a vida dela, mesmo quando ela disse aquelas coisas horríveis para você. É injusto que Stefan leve todos os créditos quando Elena deveria ser grata a você!
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