Casamento de Julho
17 Campeonato
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VII – CASAMENTO DE JULHO
CAPÍTULO XVI – CAMPEONATO
A tão esperada final do Campeonato Estadual Juvenil de Boxe tinha chegado e eu não poderia estar mais feliz e nervoso. Pela primeira vez desde que passei a dar aula para crianças carentes e treinar os mais velhos para competirem mundialmente, nós tínhamos chegado as finais de uma das maiores competições juvenis de boxe do país e eu não conseguia conter o sorriso orgulhoso ao observar Joseph e Charles se aquecendo para a competição. Dependendo do resultado conquistado essa noite, nós passaríamos para as nacionais e, por fim, as competições mundiais.
— Treinador, treinador. – Chama Adam, uma das crianças mais novas da academia, puxando a barra da minha blusa. Desvio minha atenção de meus boxeadores da noite para o garoto de oito anos que me encarava com os olhos brilhando.
— O que houve, Adam? — Pergunto, abaixando-me para ficar a altura dele.
— Eu também vou poder lutar aqui um dia? — Questiona, esperançoso.
— É claro que sim. Você só precisa acreditar e treinar muito. E assim que você tiver idade suficiente vai poder lutar com pessoas muito fortes e vencê-las. — Respondo, bagunçando os cabelos encaracolados de Adam.
— Eu vou poder vencer pessoas fortes como você, treinador? — O garoto me encara, esperando uma resposta sincera. Sorrio e trago Adam para mais perto, dando um abraço na criança, que ri ao sentir as cócegas em sua barriga. — Está... fazendo cócegas, treinador.
— Seja sempre uma pessoa gentil e determinada, Adam. Isso o fará muito mais forte do que qualquer outra pessoa no mundo. – Aconselho e ele sorri, assentindo, antes de me abraçar.
— Certo, treinador. – Concorda o garoto, assim que nos afastamos. Sorrio e bagunço seus cabelos mais uma vez antes de me levantar.
— Você é sempre tão atencioso, treinador Damon. — A voz recheada de segundas intenções da sra. Johanna Collins, mãe de Adam, invade meus ouvidos e preciso fazer um grande esforço para não suspirar. Eu já estava ficando cansado das investidas da mulher. Viro-me em sua direção e ela sorri largamente com seus lábios em um tom escarlate intenso. Com passos semelhantes a de uma serpente, a mulher de longos cabelos cacheados e olhos esverdeados desliza a mão pelo meu peito, enquanto a outra aperta meu braço. — Eu nem mesmo sei como ser grata por todo o carinho que sempre proporciona a meu Adam. Ele te adora.
— Ele é um bom garoto. — Afirmo, afastando a mulher com o máximo de delicadeza possível. Adam nos encarava confuso, mas logo ignora a presença da mãe e corre para se juntar aos outros colegas da academia, que estavam sentados na arquibancada do ginásio onde ocorreria a competição.
— Você é tão bom com crianças, treinador Damon. Eu tenho certeza de que será um pai maravilhoso. — Comenta Johanna, voltando a se aproximar. Ela leva o rosto em direção ao meu, mas eu acabo desviando da mulher, que ri e morde o lábio, no que provavelmente era a sua tentativa de se parecer sexy. — O que acha de depois do campeonato nós dois sairmos para comemorar a vitória dos meninos. Somente eu e você.
— Desculpe, querida. Ele já tem planos para o fim da noite. — Diante da afirmação afiada, instintivamente me afasto de Johanna e vejo Elena acompanhada de nossos primos se aproximarem.
Surpreendo-me ao ver o quão incrivelmente linda e sexy a mulher estava com a calça preta e a jaqueta jeans da mesma cor. Sua blusa marcava a cintura fina e o modelavam os seios. Ela usava um coturno preto junto de um cinto com fivela larga. Os cabelos estavam ondulados na ponta e a leve maquiagem realçava toda a beleza da mulher.
Ela sorri irônica e o olhar ameaçador que lança em direção a Johanna parece ser o bastante para fazer a mulher entender que era melhor ela se afastar de mim ou acabaria lidando com o lado nada agradável de Elena. A mãe de meu aluno engole em seco e solta meu braço.
— Eu... eu vou para a arquibancada. — Avisa Johanna, sorrindo nervosa. — Nós nos vemos ao fim do campeonato, treinador Damon.
— Claro, sra. Collins. Até mais. – Despeço-me da mulher, tentando conter a vontade de rir.
Elena sempre foi bastante ciumenta com os primos, mas essa era primeira vez que eu via seu ciúme ser direcionado para mim. Recebo um olhar intimidante da mulher, quase como um aviso de que estaria de olho em mim e vejo Oliver ao seu lado, prender o riso. É claro que ele e os outros dois patetas ao seu lado não conseguiam disfarçar a felicidade que sentiam ao ver nossa interação. Oliver, Ben e Austin podem ser piores que velhas fofoqueiras.
— Tio Damon! – O grito infantil do filho de meu melhor amigo chama a minha atenção. Amplio meu sorriso ao ver o garoto descer do colo da mãe e correr animado em minha direção.
Coloco-me de joelho e não demoro a receber o abraço caloroso de Tony. Ergo a criança e aperto ainda mais o nosso abraço, ouvido as gargalhadas gostosas do garoto de cinco anos. Mesmo conhecendo Tony há pouco tempo, eu já o tinha como realmente um sobrinho. E era ainda melhor saber que o sentimento era correspondido pela doce criança.
— Ei, garotão. Eu estava com saudades. – Comento, finalmente o ajeitando em meu colo. Tony sorri e me abraça apertado mais uma vez.
— Eu também senti saudades, tio Damon. – Afirma Tony, observando-me com atenção. Eu já estava há uma semana sem visitá-lo e ainda há mais tempo sem conseguir dar alguma atenção decente a criança por causa dos preparativos do casamento de meu pai e tia Isobel, então realmente sentia falta de brincar com o garoto.
— Vocês vieram! – Comemoro, sorrindo ao observar Mal, Ben, Ally, Austin, Oliver e Felicity se aproximarem.
— Não perderíamos esse evento por nada. – Afirma Ben, sorrindo em cumprimento.
— Trouxemos flores. – Informa Oliver, mostrando um buquê de flores brancas muito bonitas e de um odor extremamente agradável. Sorrio e meu melhor amigo me abraça, apertado. Ele se aproxima mais de meu ouvido e sussurra: – Presente da Elena.
Encaro discretamente a linda mulher que dava um mínimo sorriso. Ao notar que eu a observava, a morena me lança uma piscadela. Sorrio mais largamente e aperto ainda mais meu melhor amigo com o meu braço livre, enquanto Tony ria, divertindo-se ao ser "esmagado" entre o pai e eu.
— São Jasmins. Significa sorte, doçura e alegria. Possui perfume marcante que se acentua durante a noite, e, por causa disso, é conhecido como o Rei das Flores. – Comenta Elena com um tom desinteressado. Quase rio ao ver como ela se esforçava para parecer indiferente a situação, mas ainda me observava, esperando uma reação minha.
— Obrigado. Você é mesmo o amor da minha vida. Eu te amo. – Respondo para Oliver assim que nos afastamos, mas direciono meu olhar a Elena, que morde o lábio inferior e se aproxima mais de Ally e Mal, que riam animadas. Viro-me para Felicity, que ria com os braços cruzados. Observo as flores por alguns instantes e sorrio, ajeitando Tony em meu braço direito. – Desculpa, Felicity. Oliver e eu estamos destinados a vivermos juntos por toda a eternidade. Por isso, nós iremos nos casar.
— Não, tio Damon. O papai vai se casar com a mamãe. – Afirma Tony, puxando meu rosto para me encarar. – Você não pode se casar com ele.
— Tony... – Felicity repreende o filho, envergonhada.
— Na verdade, Damon vai se casar com a Elena, Tony. Não se preocupe. – Provoca Austin, sorrindo malicioso, enquanto alterna o olhar entre Elena e eu. – E com certeza seus pais vão se casar.
— E nós obviamente seremos padrinhos do casório. – Afirma Ben, encarando o loiro, enquanto passa o braço pelo ombro da namorada de cabelos roxos.
— Calem a boca. – Resmunga Elena, mas ainda era possível ver um brilho divertido nos olhos.
— Isso nunca vai acontecer. – Respondo, interpretando meu papel de que fazíamos em público. Entrego minhas flores para que Oliver voltasse a segurar, tentando esconder a minha vontade de rir.
Ben, Mal, Austin, Ally e Oliver começam a rir, deixando Felicity confusa. Elena e eu precisamos nos esforçar para manter a pose. A verdade é que todos da família Barton sabiam que Elena e eu finalmente havíamos nos acertado. No entanto, para manter a segurança da garota, pedimos sigilo aos nossos primos, que prontamente concordaram. Então, toda essa provocação não passava de um teatro em que todos se divertiam.
— Barry e Cait precisavam estar aqui para ouvir isso. – Comenta Mal, desanimada. – Por que eles tinham que ir para Tóquio justo nessa semana?
— Eu também queria que Nancy, Sam e Beth tivessem vindo. Aliás, vocês tiveram alguma notícia de Sam? – Questiona Austin, pensativo.
— Tudo o que sabemos é que Sammy está envolvida em problemas em Paris. Ninguém sabe ao certo a localização dela. Beth não passou mais detalhes do que aconteceu, mas disse que ela está bem. – Responde Elena, suspirando preocupada. Oliver entrega as flores que eu havia entregado a ela, que as pega com um sorriso fraco.
— Espere um pouco. Uma das primas de vocês está desaparecida e com problemas, mas vocês simplesmente aceitam a ideia de que ela está bem? – Questiona Felicity, surpresa com a calma presente entre nós.
— Pensei que já estivesse acostumada com a família Barton, Felicity. — Comenta Mal, encarando a pediatra. – Todos eles são teimosos e inteligentes. Eles também vivem se metendo em confusão.
— É algo natural para eles. – Concorda Ally, parecendo cansada.
— Ainda assim... – Começa Felicity, confusa. – Esse não é um desses casos em que vocês entram em contato com Clint para resolver a situação? Não deveriam estar mais preocupados com essa situação? Como podem se manter tão calmos?
— Estamos preocupados. – Afirma Austin com seriedade. Felicity parece ainda mais surpresa ao ver como todos os primos assumiram uma postura mais rígida. Ally e Mal permanecem quietas, observando a tudo com curiosidade.
— Sei que pode parecer estranho nosso comportamento, Felicity, mas estamos preocupados. O que acontece é que também confiamos o bastante uns nos outros para aceitar nossas decisões. Se Beth pediu que não interferíssemos, nós iremos esperar o momento certo para agirmos. Até lá, não termos escolha além de agir calmamente. Existe um motivo para Beth não ter acionado tio Clint. Então tudo o que nos resta é confiar nelas e acreditar que em breve tudo será explicado. – Explica Elena, dando um fraco sorriso para a pediatra, que suspira e assente, parecendo compreender a decisão de nossa família.
— Entendo. – Responde. Ela então se vira para mim. – Vem, filho. Tio Damon agora vai ajudar os alunos dele antes da competição.
— Mas eu quero ficar com o tio Damon. – Resmunga a criança, fazendo aquele olhar pidão dele.
— Não vai dar, campeão. Tio Damon vai trabalhar agora. Depois você brinca com ele. – Afirma Oliver, estendendo os braços para pegar o filho em meu colo. E nesse instante, eu me torno vítima de seu olhos de cachorro que caiu da mudança. Sorrio e deixo um beijo estalado em sua bochecha.
— Vocês querem conhecer meus alunos? – Sugiro e vejo todos me encararem animados.
— Eu quero, tio Damon. – Afirma Tony, quase pulando em meu colo.
— Vamos lá. – Digo, colocando o garoto no chão. Pego em sua mão e faço sinal para os outros me seguissem.
Apresento as crianças que haviam vindo assistir as lutas para dar a apoio aos colegas da academia e os dois boxeadores que lutariam na noite. Infelizmente, não demorou muito para que os organizadores do campeonato anunciasse o início das lutas.
Depois de receber todas as felicitações e desejos de sorte de minha família, eles seguem para a arquibancada do ginásio. Tenho minha última conversa com Charles e Joseph antes deles se dirigirem para a área de espera das lutas. Charles foi o primeiro a lutar. Infelizmente, o rapaz não conseguiu vencer o forte e experiente oponente, Blake Stuart, na categoria infantil.
Em seguida, chegou a hora da luta de Joseph contra o campeão do ano anterior, Colton Johnson. Observo meu boxeador subir o ringue com a expressão preocupada. Ele respira fundo algumas vezes e se posiciona.
O apito do juiz ecoa pelo ginásio. No ringue, Joe passa a estudar o adversário, assim como eu havia aconselhado. Colton é o primeiro a avançar. Felizmente, meu garoto já esperava pelo soco de direita – um movimento padrão de Colton, como percebemos em suas outras lutas -, e consegue bloquear o ataque. Um segundo soco é direcionado a ele, mas novamente Joe desvia.
E sem esperar por um terceiro ataque, Joe avança, acertando as costelas do adversário e o rosto, no momento em que a guarda é abaixada. Joseph estava sério e concentrado. Os gritos e incentivos de seus colegas e da torcida parece inspirá-lo ainda mais a avançar contra o jovem Colton, que tentava se recuperar sem sucesso do último golpe de Joe.
Joseph aplica um uppercut contra o rival. Com a mão de trás da guarda, o golpe é desferido de baixo para cima e atinge o queixo do oponente. Colton cambaleia atordoado. Aproveitando a guarda baixa do adversário, com um movimento semicircular curto, Joe desfere um gancho na lateral da cabeça e outro no torso de Colton.
— Vai, Joe! Chão! Chão! – Oriento o garoto, vendo-o tentar derrubar o adversário. – Flexiona o joelho. Use o quadril!
Em questão de segundos, Colton é derrubado. Aproveitando a vulnerabilidade do jovem na luta em chão, Joe usa as pernas para minimizar ao máximo a locomoção do oponente naquele instante. Os gritos do público se intensificam, animados com a habilidade acima da média de meu pupilo. Sorrio orgulhoso, ao ver o apito do juiz, indicando o fim da luta ao ver o treinador de Colton jogando a toalha dentro do ringue para parar a luta.
Meu pupilo grita animado junto com os colegas de academia. Depois de todo o ritual de anunciar o vencedor da luta, Joseph se joga em meus braços, chorando, sem acreditar que tinha acabado de realizar um dos seus muitos sonhos. Ele havia acabado de ganhar a vaga no Campeonato Nacional de Boxe e eu não poderia estar mais orgulhoso.
Viro-me para a arquibancada, ainda abraçando meu aluno, e a primeira pessoa que encontro é Elena. Ela estava de pé e batia palmas, sorrindo animada. Correspondo ao sorriso e a vejo sussurrar um “eu te amo”. Sorrio ainda mais, completamente apaixonado. Eu não via a hora de chegar em casa e, quem sabe, receber um prêmio pela vitória da noite.
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