Casamento Imperfeito
13 Chapter 13: Tudo ao seu tempo
Notas iniciais

Sarah
Eu tentava me concentrar na conversa ao meu redor, mas minha cabeça me empurrava aos meus insanos pensamentos.
Insanos porque é simplesmente absurdo imaginar na mínima, pouca, bem pequena mesmo, possibilidade de que eu, euzinha, e o Klaus estamos apaixonados um pelo outro. Ou nos apaixonando, tanto faz.
Não mesmo.
Sem chances.
Não.
Suspirando, cocei discretamente a testa.
Eu não vou pensar nisso. Eu não vou pensar nisso. Eu não vo- AH, QUE SE FODA ESSA PORRA.
Comecei a comer um pouco do purê de batata sobre meu prato, até que ouvi meu nome ser citado. Ergui a cabeça.
— Sim? — não estava nenhum pouco atenta no que diziam.
— Eu estava perguntando se você e Klaus pretendem ter filhos… — disse Rebekah.
Abri a boca para responder, mas apenas ruídos saíram de meus lábios; eu tinha travado.
Só me faltava essa caralha agora. Meu paaaau.
Virei o rosto para Klaus, que estava sentado à minha frente. Ele me olhava também.
— Hã… — desviei meu olhar do seu, direcionando-o a Rebekah. — Acho que é muito cedo pra decidir isso. — respondi, tentando soar firme, mas falhando miseravelmente.
— Exato. — Klaus complementou, exibindo um sorriso, porém em seus olhos eu via que ele estava apreensivo.
Estávamos os dois, na verdade, porque em momento algum falamos sobre isso um com o outro.
Essa falta de conversa nossa é patética, ridícula, só mostra o quanto falta conexão entre nós. Falta muita, muita coisa.
Muita.
Muita mesmo.
Porra, eu preciso me distrair.
Comi meu purê e as minhas costeletas, deixando apenas as ervilhas sobre o prato. Odeio ervilhas. Tomei meu suco de uva e como todo mundo já estava satisfeito, um homem e uma mulher apareceram e tiraram as travessas e os pratos da mesa.
— Ai, ai, essas costeletas me mataram, e olha que ainda tem a sobremesa — comentou Kol, acariciando a própria barriga, parecendo totalmente anestesiado.
Logo pratos e talheres eram postos sobre a mesa junto de duas tortas. Uma era de maçã e outra de morango. Aposto meu rim que esta última é por causa de Klaus.
Provei e as duas estavam muito gostosas.
No fim, voltamos pra fora, onde Kol colocou uma playlist pra tocar e foi nadar com a Davina na piscina, puxando Klaus e Elijah junto. Hayley acabou por ir também.
Já eu, pus meu chapéu estilo Lana Del Rey, óculos escuro e deitei sobre a espreguiçadeira.
Por algum motivo desconhecido por mim e pela vida, Rebekah e Freya resolveram deitar nas espreguiçadeiras ao meu redor. Eu agora estava entre as duas – Freya lado esquerdo, Rebekah direito.
— Como estão você e o Nik? — indagou Rebekah, soando casual.
— Estamos… bem. — respondi, sentindo meu corpo tensionar um pouco. Que tipo de conversa era aquela? Ou melhor, a que ponto ela chegaria? Aliás, por que ela tá me perguntando isso? Percebeu algo estranho em mim? Ou talvez em Klaus?... ou talvez em nós.
Ai merda.
— Mesmo? — virou o rosto para mim, e eu fiz o mesmo. — Você hesitou. — explicou.
— Não é isso — balancei a cabeça. —, só achei repentina a pergunta. — sorri de nervoso.
— Nossos pais estão te pressionando, não é? — Freya se intrometeu. Olhei para ela, que apenas fixava seu olhar na piscina. — Sabe, pra ter um herdeiro. — meneou a cabeça na minha direção, me encarando.
— Como sabe? — minha pergunta foi quase automática.
Ela e Rebekah riram.
— Já passamos por isso — disse Rebekah.
Encostei minha cabeça na espreguiçadeira, cansada de intercalar meu olhar entre as duas.
— Mas vocês não casaram com ninguém… — murmurei mais para mim mesma do que pra elas, confusa.
— Ah, bem, não é que nossos pais não tenham tentado fazer isso… — continuou Rebekah. — Eu, por exemplo, só não casei até hoje porque me escorei na Freya e estou trabalhando na empresa.
— O que quer dizer? — vinquei a testa. Tô entendendo é mais nada. — Se vocês trabalharem na empresa não precisam casar?
— Quase isso. Conta a história pra ela, Freya. — mandou.
— Claro. Então, eu, também quando tinha sua idade, corri o de me casar, mas como antes estava me dedicando e estudando sobre negócios com o Finn, pude contra-atacar meus pais alegando que queria fazer parte da empresa. Eu trabalhei por um ano na empresa e depois que eles viram os resultados positivos que eu trazia, entramos em um acordo que, enquanto eu ou qualquer Mikaelson trabalhar na empresa, não é obrigado a se casar. — Freya contou. Não escondi minha cara de perplexa, estava bem surpresa com essa história. — É patético você reparar que eu tive que fazer isso pra conseguir me livrar de um casamento forçado, mas era melhor do que deixar acontecer.
— Verdade. — concordei, me recompondo. — Mas espera… — franzi o cenho. — Se os Mikaelson que trabalham na empresa não precisam se casar, por que o Klaus…
— Ele não quis. — Rebekah respondeu, me interrompendo.
— Klaus na época tinha outras prioridades, não queria seguir regras impostas por nossa família. — complementou Freya. — Pode não parecer, mas ele era um tanto inconsequente anos atrás e detestava o nosso pai; Mikael sempre foi bem abusivo com ele durante a infância e adolescência. E pra piorar parecia estar apaixonado e amando pela primeira vez alguém. — suspirou.
— Então imagina como tudo ficou pior ainda quando ele descobriu que Mikael não era seu pai biológico. — continuou Rebekah.
QUÊ? — Arregalei os olhos, não acreditando no que tinha ouvido.
Mas que porra de história é essa?!
S•K
Vários pingos de chuva caíam sobre o vidro da janela, escorregando para baixo. Algumas iam rapidamente; outras, mais lentamente.
Soltei o ar pela boca, observando a fumaça se formar e sumir segundos depois no vidro.
Às quinze horas, o tempo deu indícios de que iria chover. O ar estava mesmo abafado, então não fiquei muito surpresa.
E agora, quatro e cinquenta e cinco da tarde, como indica meu celular, estou dentro da bosta do carro de Klaus.
— Podemos assistir alguma coisa quando chegarmos em casa — disse. Não respondi. —, ou simplesmente dormir — olhou em minha direção.
— Tanto faz. — murmurei, fechando as pálpebras.
Um minuto de silêncio até que ele retomou a palavra:
— Tem alguma coisa te incomodando?
— Por que teria? — respondi.
— Não sei, eu realmente gostaria que você me explicasse.
— Te explicar o quê, Klaus? — perguntei baixo, começando a me sentir nervosa. Abri os olhos, virando para si.
Ele desviou o olhar da pista, me encarando.
— Me explicar o motivo de você estar sendo evasiva comigo desde o início da tarde. — acusou.
— Não estou sendo evasiva com você — revidei.
— Oh, claro que não — disse irônico, voltando a prestar atenção na estrada. — Ponha uma coisa na sua cabeça, Sarah: eu não quero que você resolva se afastar de mim por seja lá qual motivo esteja chateada, então me conte o que está acontecendo. — bufei.
— Você não me contou tudo sobre você. — expliquei. — É por isso que estou “chateada”. — rolei os olhos, fazendo aspas.
— Do que você tá falando? — ele riu, parecendo nervoso. — Você sabe muito sobre mim; sabe minha cor favorita, sabe que eu gosto quando você dorme comigo, que eu amo pintar e que me inspiro com coisas bobas, e que meu sonho é você deixar eu ler suas histó…
— Isso são coisas adicionais, Klaus. — o cortei, minha voz levemente tremida pelo nervosismo. Por algum motivo desconhecido dos infernos, lágrimas se acumularam ao redor de meus olhos. Cruzei os braços, me recusando a chorar. — Eu quero saber o que realmente importa, tipo o fato do Mikael não ser seu pai biológico ou até mesmo sobre seu primeiro amor — soltei logo de uma vez, fazendo questão de fitá-lo.
— Como? — ele me olhou atordoado.
— Isso mesmo que você ouviu, e antes que pergunte, foi Rebekah e Freya que me disseram, até porque se eu fosse esperar por você… — deixei no ar.
Ele respirou fundo.
— Em casa conversamos. — semicerrei os olhos.
— Vamos conversar agora, Niklaus Mikaelson — disse o mais ameaçadoramente possível, sentindo uma gana de pular em cima dele de tão nervosa que estava começando a ficar.
Para o bem de sua boa aparência física, parou o carro no acostamento antes que eu pegasse sua cabeça e batesse incessantemente contra o volante.
— Nós temos risco de sofrer um acidente aqui… — tentou avisar.
— Que pena, agora vamos ao que interessa. — ele suspirou.
— Ok, por onde eu começo… — ele pareceu pensativo. Faltei soltar fogo pelas narinas com aquela demora. — Bem, meu pai biológico, antes de eu ter nascido, claro, se mudou pra Inglaterra e foi morar no lado da casa dos meus pais…, então minha mãe se envolveu com ele porque ela quis mesmo, aí sem querer ela engravidou…
— Meu Deus, Klaus, conta isso direito — balancei a cabeça incrédula com o jeito desanimado dele de contar histórias.
— Desculpa, é que eu sou ruim em explicar as coisas. — riu sem graça.
— Percebi. — Concordo. — Agora continua.
— Então, continuando, minha mãe deitou com o Mikael quando descobriu que tava grávida de mim pra ter uma justificativa e depois de nove meses eu nasci. Tudo ok até aí, mamãe exigiu que meu pai verdadeiro ficasse calado para o bem de todos e eu cresci normalmente achando ser filho de Mikael, mas nunca nos demos muito bem, não. Ele sempre me forçou pra cima dos negócios da empresa e eu queria conhecer o mundo. Mas foi quando completei dezoito que tudo ficou uma merda. Mamãe quis se separar e Mikael enlouqueceu. Tava uma bagunça. Eu sempre quis viver da minha arte e conseguir minhas próprias coisas, então imagina quando eu ouvi minha mãe falar com uma amiga dela sobre querer fugir com meu pai verdadeiro? Ouvi tudo calado e logo fui à casa vizinha, mas quando cheguei batendo na porta da casa de meu suposto pai não tinha mais ninguém lá. Mikael já tinha descobrido dele – provavelmente dias, semanas ou meses antes – e o mandou para longe com sua influência. Ele sumiu do mapa e mesmo eu tendo o procurado por anos, nunca o encontrei. E olha que eu já cheguei a apanhar de Mikael por causa disso. — riu amargo, seu rosto era triste. Eu me sentia impactada com a história. — Mikael na época fez de tudo para abafar o caso para não virar externo e trazer problemas à empresa, e eu saí de casa porque não aguentava mais. Eu era uma pessoa difícil de lidar, honestamente. — suspirou.
Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu. Firmei os lábios, sentindo‑os tremer. Tudo que eu pude fazer foi me livrar do cinto de segurança e pular para o colo de Klaus, o abraçando.
— Você tá chorando? — perguntou, provavelmente porque minhas lágrimas estavam molhando o tecido de sua camisa naquele momento.
Ri de nervoso e afastei minha cabeça de seu ombro para encará‑lo.
— É que sua história é muito triste, não me culpe por estar chorando — comecei a limpar as lágrimas de meu rosto de forma grosseira.
Klaus retirou minhas mãos e começou ele mesmo a tirar os resquícios de choro, delicadamente.
— Desculpa por não ter contado antes, eu‑
— Não peça. — puxei suas mãos, encostando nossas testas. — Eu fui uma idiota intrometida e você ainda assim foi educado comigo. — entrelacei nossos dedos. — Obrigada por partilhar isso comigo, sério.
— Você é minha esposa. — disse com um sorriso no rosto, como se justificasse o fato de precisar me contar sobre seu pai.
— E você é meu marido. — devolvi, dando de ombros. Ficamos nos olhando de perto por um tempo, e nesse tempo meu coração martelava inquieto, mas mesmo assim eu só conseguia sorrir por fora. O que está acontecendo comigo, Jesus?
— Estou gostando de você aqui, sentada no meu colo, mas acho melhor irmos embora se não quisermos morrer jovens. — me tirou de meus devaneios. Eu não sabia se corava, me irritava ou ria de sua fala, então fiz tudo ao mesmo tempo.
Felizmente logo chegamos em casa, aproveitando a chuva para assistir a segunda temporada de Shingeki no Kyojin e comer porcarias.
A ideia de quem foi o primeiro amor de Klaus ainda é uma interrogação, mas por enquanto estou satisfeita com o que sei. Tudo ao seu tempo.
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