Casa, crias e outras coisas mais

8 Capítulo 8 - Larissa: Descobertas


Notas iniciais
Será mesmo que tudo é do jeito que parece ser. Até mesmo os mais belos rostos, e os mais puros corações escondem segredos obscuros.

—I-

Monólogo

O táxi se foi e eu, parada de frente à porta vi as flores cobrirem todo jardim com suas cores, tão belas e tão calmas.

Por que elas tinham que lembrar-me de seu meu melhor amigo? Eu não queria mais pensar nele, e em todas as coisas que passamos juntos.

A casa, já arrumada, parecia mais clara e amigável aos olhos de quem a via por fora.

O que permanecia nesse lugar que nos torna tão inquietos, e de certa forma acaba nos privando de nossos próprios desejos e sonhos?

Talvez a resposta disso, seja apenas a falta de um verdadeiro amor que tampasse todo buraco que ódio e o rancor nos deu durante tanto tempo.

O meu maior medo, é que o meu próprio medo se torne algo tão vazio que possa atingir outras pessoas, pessoas que eu amo.

-II-

Depois de tudo que eu havia passado, talvez esse não fosse o melhor momento para confrontar Pete, por mais que ele parecesse duro como uma rocha, por dentro estava desmoronando. Poucos poderiam perceber isso.

Cruzei a porta e entrei no quarto de Pete, mas já logo falando:

— Você matou o Fábio?

— Aquilo foi apenas um momento impulsivo, você sabe como me altero com coisas do similares a traição. _ dizia ele calmamente. — Mas já passou.

— Você precisa de auto controle, e você sabe disso. Isso até prejudicando você.

Pete parecia não dar a miníma para o que eu estava falando, continuou de costas mexendo nas taças de cristais que estavam em uma bandeja sobre um móvel de seu quarto.

— Isso não está me prejudicando, você realmente acha que é todo dia que eu mato pessoas? Eu estou bem.

— Você matou o homem que amava, porque não conseguiu controlar sua angustia!

E foi nesse exato momento que Pete se virou para mim, suas sobrancelhas estavam franzidas, seus olhos se encheram de lágrimas e respondeu:

— Você não sabe o que eu estou passando, não diga o que não sabe! Eu nunca o amei, e acredite, nunca seria capaz de amar uma pessoa igual a ele. _ dizia furiosamente enquanto seu dedo indicador apontava em minha direção. — Você me ofende dentro de meu próprio quarto! Saia daqui! Ande! Saia!

Estava parada, de frente para Pete, não precisava saber mais nada, a verdade que eu queria já estava confirmada. Dei uns passos até me aproximar da porta...

— Você sabe do que estou falando irmão. Você sabe que precisa se desapegar de algo, e que se não fazer isso, vai acabar em decadência e abandonado por todos que você ama.

— Saia... _respondeu Pete em um tom baixo.

-III-

Ao cair da noite, pouco antes de Esther e Bruna saíram sozinhas novamente, pude perceber que havia algo de errado no clima do ambiente. A casa estava em repleto silêncio. Ítalo e Pete estão juntos da estufa desde após minha conversa com o garoto. Maressa estava quieta até demais.

— Por que está aqui, tão calada e tão sozinha, minha queridinha? _ uma voz um pouco grossa e fanha surgiu por trás de mim.

Ao me virar, me deparei com a figura um pouco alta e vestida com uma roupa de faxineira estilo novela mexicana, era Clis, a Empregada.

— Clis... Olá... Já que está aqui, eu tenho perguntas para te fazer, o que acha de sermos amigas? _ perguntei gentilmente enquanto sorria para ela.

— Que formidável! Aceito!

Segurei nas mãos de Clis, e me sentei junto a ela delicadamente no sofá e iniciei a conversa:

— Me diga, como veio parar aqui? Como se tornou parte desse lugar, mesmo sem possuir tanta importância?

— Se você realmente quer saber, é uma longa história, meu docinho. _ respondeu.

— Ficarei lisonjeada em ouvi-lá.

— Eu estava em um relacionamento com uma linda garota, loira, alta, dos olhos verdes... Certamente eu a amava, mas não sentia que o mesmo vinha dela, seu nome era Quézia... Um certo dia, nós resolvemos sair, ir para um bar beber a noite e foi nesse bar. Ao chegarmos nesse bar, Quézia e eu nos sentamos em cadeiras a mercê do balcão, bem ao lado de um menino, ele era diferente , o jeito que se vestia e até mesmo que chamava o garçom.

No decorrer da noite, comecei a conversar com ele, o jeito como ele me tratou, como respondia as minhas perguntas me encorajava, era magnífico. Meu coração bateu em um ritmo diferente desde o primeiro olhar que ele trocou comigo. _ Clis olhou para cima, com um olhar apaixonado e ao mesmo tempo cheio de lágrimas enquanto contava sua história para mim. — Quanto mais conversava com ele, mais queria ter ele perto de mim...

Flashback — Clis, a Empregada

Ele estava vestido com um blazer azul, usava por baixo do blazer, uma camisa com símbolos hindus estampados e uma calça cor café. Era um menino tão atemporal, tão carinhoso e atencioso...

— Amor, acho que vou ter que ir agora. Espero que você não se preocupe, fique bem com seu novo amigo. _ falou Quézia se levantando da cadeira e dando um breve beijo em meu rosto, indo embora.

A única coisa que veio em minha cabeça naquele momento foi a tristeza, abaixei a cabeça sem dizer nenhuma palavra. Senti as mãos de Peterson , o garoto o qual havia acabado de conhecer tocarem meu rosto, o erguendo.

— Não fique assim, meu caro. As coisas acontecem para abrir nossos olhos na maior parte das vezes. _ disse Peterson enquanto passava a mão em meus cabelos.
— Você é tão diferente, por que sou tão importante assim? Eu não passo de um nada! _ lágrimas começaram a escorrer de meus olhos.

— Não diga isso, você é certamente uma pessoa incrível...
Peterson, se aproximou lentamente e me beijou. Nunca havia sentindo algo como o sentimento que aquele beijo me despertou. Era como se uma flor de fogo se abrisse dentro de mim e mandasse das suas chamas para cada membro de meu corpo. Por mais que minha cabeça mandasse eu me afastar, meu coração não deixava eu me livrar dele.

— Venha comigo... Darei a você uma nova vida, uma família, um novo amor! _ seus olhos castanhos estavam direcionados diretamente para mim. — Você deixará todo seu antigo você para trás, e renascerá, assim como uma Fênix renasce das cinzas.

Eu apenas concordei balanço a cabeça. Dei a mão a ele, e o segui...

Tempos após eu ir morar na mansão de Peteson, ele me tratava como um rei, mas sempre tinha algo que me incomodava naquele lugar, algo que eu não sabia bem o que era.

Peterson me transformou, deu vida a Clis. Me fez renascer das cinzas e me fez queimar o medo de ser quem eu realmente era. Ele me deu vida!

Uma noite Ítalo, o qual já morava na casa muito tempo antes de mim, chegou a mim. Estávamos sozinhos, pensei que ele iria se meter de modo errôneo comigo. Ele não parecia bem, estava com olheiras, o cabelo molhado de suor. Usava um roupão branco, e estava inquieto. Estava assustado, sentado no sofá usando meu vestido mexicano até que ele começou:

— Não tenho mais paz desde que você veio para essa casa, o tempo todo, Pete com você! Ele só tem olhos para você, só tem tempo para você! Eu perti meu bebê, pra você! Uma travesti maluca que não consegue ser amada nem por si mesma! Sua vadia!

Continuei sentada sem nada a dizer, apenas comecei chorar, as lágrimas escorriam como lava pelo meu rosto...

-IV-

Clis colocou uma das mãos sobre a boca e começou a chorar enquanto terminava de contar sua história. Estava realmente surpresa com tudo aquilo, algo que eu mal podia acreditar.

— E então, Ítalo sujou todo carpete com minha angustia, com minhas lágrimas pintadas de vermelho vivo. Arrancou de mim todo fogo que sustentava Clis Davis!

— Mas... O que isso quer dizer? _ perguntei intrigada.

— Que o meu fim estava ali. E assim foi. Mas eu nunca consegui sair daqui, por mais que as paredes desse lugar fossem feitas de mágoas e angustias, não consegui me livrar dele... E digo isso porque Peterson, sempre amou mais ele do que eu! E ficou do lado dele, quando descobriu o que havia ocorrido aqui, nesse mesmo lugar, nesse mesmo piso o qual estamos pisando agora!

Sem acreditar, mas entendo o motivo de tamanha tristeza, abracei Clis com toda minha força e o deixei chorando por alguns minutos sobre meu ombro.

— Mas agora, é continuar, como se nada tivesse acontecido e um dia, a esperança de que minha alma atormentada e traída possa seja salva. _ Clis secou suas lágrimas delicadamente com a ponta dos dedos.

— Não se sinta culpada, tudo é apenas uma questão de tempo, Clis. _consolei enquanto Clis se levantava do sofá.

— Talvez o tempo já tenha parado para mim...

Pude ver Clis ainda angustiado sair andando e subindo as escadas... Talvez aquela fosse, nossa última conversa como reais amigas. Nunca imaginaria que aquele ser tão próprio e peculiar, passará por tanto sofrimento.

Mas o que mais me intriga, é a super proteção de Ítalo para com meu irmão. Ainda descubro o que há entre isso.

-V-

Ainda sentada no sofá, após a conversa com Clis, percebi um pequeno papel dobrado debaixo da garrafa de rum favorita de Ítalo. Curiosamente o peguei, o desdobrando com cuidado, e ali permanecia o seguinte recado:


"As rosas que nascem entre nossos jardins, estão repletas de espinhos que nos separam. E sou grato por tal separação."

Claramente a letra de meu irmão, mas o que aquilo fazia ali? Apenas colocou o papel novamente em seu devido lugar e subi para meu quarto. Existem muitas coisas a desvendar nessa casa.