Cartas para um beija-flor
8 Carta 8 – Muleta
5 de novembro de 2018
Querido beija-flor,
É difícil, cara. Eu notei uma diferença na sua abordagem. É óbvio, amigos não se falam da mesma forma que a gente costumava se falar. Percebi que você estava mantendo um tom mais distante, sem essa de "bom dia, meu bolo de fubá" ou outras bobagens.
Você me pediu ajuda para editar uma imagem, eu editei. Você agradeceu e nós ficamos meio sem assunto. É um pouco triste. Antes nós conseguíamos manter uma conversa por um dia inteiro sem parar. Agora parece um pouco sem sentido fazer isso, né?
Quer saber? É esquisito ter que te tratar diferente. Não me é natural. Logo eu, que sempre fui tão espontânea com você, depois do término fui obrigada a colocar alguns freios na minha empolgação. Acho que isso também aconteceu com você. Tentamos embarcar num processo de lapidação constante das nossas conversas. Se antes havia uma joia de amor, teríamos que fazê-la se parecer cada vez mais com uma joia de amizade. Mas eu temia que ela perdesse o seu valor nesse processo... E se a lapidássemos demais? E se enjoássemos dessa nova configuração de relacionamento? E se preferíssemos seguir cada um o seu caminho? Você nunca tinha parado pra pensar nisso?
É complicado pra mim. Eu sinto que você passou a me tratar como trataria qualquer amiga sua. Tratamento vip? That's over, baby! Eu fiquei mal acostumada, confesso. Sou uma pessoa carente, gosto mesmo é de ser paparicada. Gosto daquele romantismo com tanto mel que até as abelhas ficariam com inveja. Gosto de todas aquelas coisas bregas: cartinhas, flores e chocolates. E eu sei que você também gosta. Não sou egoísta a ponto de pensar que só eu sofri ao tentar ser apenas uma amiga, eu sei que você também sofreu. Vamos ser sinceros: esse rito de passagem de paixão para amizade seria um sacrifício para nós dois. Um sacrifício das nossas lembranças, um sacrifício do nosso amor.
~*~
Quando hoje os assuntos estavam morrendo a todo momento, você tentou me mandar notícias, memes e prints de tweets. Também respondeu rápido todas as vezes. Vejo que estava fazendo o possível e o impossível para manter a conversa. E eu valorizo isso. Apesar de estar tão triste quanto eu, você ainda queria me dar uma gotinha de alegria que fosse. Uma pena que seja difícil me contentar com uma gotinha quando já tive um mar.
Hoje eu não sonhei com você. Mas sonhei que me sentava todos os dias para conversar com outro cara. No sonho eu comecei a gostar desse cara, mas ele me iludiu, só queria ficar comigo e depois me jogar fora. Acho que isso reflete bem o medo que eu tenho de começar de novo. Eu não quero ter que me relacionar com outro cara para depois descobrir que ele não era nada do que eu pensava. Você é a minha zona de conforto, pois sei que você não é assim. Você não é machista, nem homofóbico. Você é educado, gentil e bondoso. Você jamais enganaria uma garota. Mas (des)graças à circunstância, eu nunca estarei com você. Por isso, vou ter que me arriscar em terrenos desconhecidos agora. E é disso que eu tenho medo. Sei que a maioria dos garotos não é como você. Você é raro, raro como um diamante. Um diamante que eu perdi.
Agora há pouco admiti a você que eu só estava usando a nossa amizade como muleta, e que isso estava me machucando muito. Você disse que não gostaria muito de perder uma amizade, mas que odiaria ainda mais fazer mal a alguém. Sendo assim, disse-me adeus. Eu, com olhos marejados, disse adeus também.
Agora somos uma joia vazia.
Com amor,
Da sua eterna flor.
♡
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