Cartas para um beija-flor
3 Carta 3 – Sonhos
4 de novembro de 2018
Querido beija-flor,
Hoje vou te contar alguns sonhos (ou seriam pesadelos?) que tive depois que você se foi.
Na madrugada do dia 3, eu sonhei que estávamos conversando por mensagem. As conversas me parecem confusas agora, mas me lembro do que você disse: "Nós somos apenas servos provocando um ao outro". Eu não entendi muito bem o que você quis dizer com isso. Servos de quem? Um do outro? Fiquei intrigada com isso, mas apenas respondi que estava com muita saudade de você. Logo depois que disse isso, acordei. Acordei chorando, pois o sonho havia sido tão real que eu cheguei a acreditar nele. Eu me quebrei quando vi que era apenas uma ilusão. Lágrimas desceram quentes de meus olhos. Fui torturada pelo meu próprio inconsciente.
Após uma ida ao banheiro, voltei para o quarto e tentei dormir de novo. Para meu desespero, eu tive mais um sonho. Sonhei que havíamos voltado a namorar e que estava tudo bem. Ledo engano. Acordei de novo. Naquele momento, minhas olheiras traduziram fielmente o que eu estava sentindo.
Na madrugada do dia 4, eu tive um sonho tão lindo... Sonhei que estávamos de braços dados, andando pela universidade junto com alguns amigos. Sempre quis fazer isso com você, mas nunca fiz e nunca farei. Infelizmente a distância nunca nos permitiu um beijo, nem um toque sequer. Lembro-me de quando você me disse: "É... Perdi a chance de pegar nessa mãozinha". Isso me enche de frustração. De todos os rapazes que eu já amei, você é certamente o que mais merecia o meu abraço.
Lembra-se de quando você vivia me dizendo que me pegaria nos braços e me giraria no ar quando me encontrasse? Você até chegou a escrever uma música sobre isso. É agonizante que esse momento tenha que morar apenas na nossa imaginação, pois nunca aconteceu na realidade, tampouco acontecerá um dia.
Sabe o que é mais doloroso nisso tudo? Todos os dias eu acordo, checo o meu celular e não há nada. Você era o único que conversava comigo todos os dias. Não era só meu namorado, era também o meu melhor amigo. Agora, sempre que o celular vibra, o meu coração dispara, pois tenho a vaga esperança de ser você ou quem sabe a sua mãe. Mas é sempre um e-mail de algum professor, ou uma notificação de algum vídeo do YouTube. Isso só pode ser o cúmulo do gráfico de expectativa vs. realidade, ou como diria a minha mãe, um balde de água fria.
Enfim, é muito triste ver que eu perdi alguém que me conhecia tão bem, que admirava o meu jeitinho espevitado e tagarela, além de sempre rir dos meus trocadilhos no melhor (ou pior?) estilo "A Praça é Nossa". Faz falta, é claro que faz. Fomos amigos desde 2016 e começamos a namorar em 2017. Não é fácil lidar com a ausência de alguém com quem eu convivi durante dois anos. Você é insubstituível. É clichê dizer, mas ao apagar seu número, parece que foi arrancado um pedaço de mim.
E por falar em pedaço, você me disse uma vez que me rejeitar seria como rejeitar o seu braço, algo que você obviamente não faria, pois ninguém quer perder um braço. Estranhamente você me disse no dia em que terminamos que não era a sua prioridade cumprir as minhas expectativas. Como assim? Primeiro você me diz que sou tão imprescindível para você quanto o seu braço, depois me diz que minhas vontades não importam tanto assim?
Eu me senti humilhada.
Suas palavras são lindas. Você é um poeta de mão cheia. Mas acho que suas promessas são tão absurdas que você paralisa quando precisa cumpri-las. Seja mais honesto da próxima vez. Não diga coisas como: "Eu seria capaz de entregar a minha vida por você". Não diga, porque eu acredito, eu mergulho de cabeça. Eu não encaro como hipérbole, eu encaro como verdade. Não brinque com o meu imaginário. Ele é tão fértil que faz nascer flores no deserto.
Eu vou te eternizar nessas cartas, amor. Mas não quero te canonizar, deixo isso para o Papa Francisco. Também estou aqui para puxar a sua orelha, como todo bom anjo da guarda.
Com amor,
Da sua eterna flor.
♡
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