Cartas para um beija-flor

26 Carta 26 – Solidão


Notas iniciais
Eu sinto que essas cartas estão se tornando quase um diário xD

13 de novembro de 2018

Querido beija-flor,

Sempre que você me manda uma mensagem, parece que joga um troço ruim no meu corpo. Meu coração acelera de um jeito que me faz mal e minha respiração fica estranha. Acho que é a adrenalina. É uma desgraça. Quando estou quase me recuperando o suficiente para voltar a me parecer com um ser humano, você reaparece. E não, você não reaparece querendo voltar pra mim, nem ao menos flertando comigo. Você só tem me mandado as últimas partes de uma fanfic que você começou quando estávamos namorando, nada de muito impressionante.

Mesmo assim, eu não consigo lidar. Qualquer mensagem sua que eu recebo, por mais que seja só um "oi, te mandei a fanfic por e-mail", meu corpo todo gela. Eu não posso ver a sua notificação descendo na minha tela que o meu coração já quase escapa pela boca. Eu tenho vontade de chorar sempre que você entra em contato comigo. Sempre.

Hoje você me prometeu que não entraria mais em contato depois que a fanfic estivesse terminada. Por um lado, eu fiquei aliviada, por outro, eu fiquei devastada. Mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria. Eu não sou mais a sua namorada, também não consegui ser só sua amiga. O desfecho é óbvio: nós vamos nos separar em breve.

Não consigo descrever os sentimentos contraditórios que pulsam dentro de mim agora. Eu vou te perder... para sempre. Nunca mais um "oi", nem nada. Isso me enche de angústia, suga-me as forças, corrói-me, dilacera-me. Porque a expectativa de receber qualquer coisinha sua após o término me deixava doente, ter uma conversa seca com você me deixava mais doente ainda. Mas era o único motivo que me fazia ficar no celular o tempo todo. Meus pais me diziam que eu estava viciada em internet, mas não estava. Na verdade, eu estava viciada em você.

Agora apenas vejo youtubers e leio fanfics para passar o tempo, mas no fundo eu só queria conversar, interagir outra vez. Tenho vontade de desinstalar o WhatsApp. Sem você, o aplicativo de mensagens não tem sentido. Tenho apenas oito contatos no momento, sendo que dois deles são meus pais, outros dois são colegas que só conversam comigo por educação e os quatro restantes são tão relevantes que eu nem lembro quem são.

Eu sou uma pessoa extremamente solitária. Pareço extrovertida, mas no fundo acho que sou apenas irritante. As pessoas devem me chamar de attention whore pelas costas, pois tento parecer algo que eu não sou. Eu simplesmente não sei como fazer as pessoas gostarem de mim. Acho que eu tento com tanto afinco ser legal que pareço de plástico, uma robô programada para ser descontraída o tempo todo. Faço isso porque eu realmente gostaria de ser assim... Eu só queria ser aquela pessoa interessante, cativante, do tipo que ganha bolo dos amigos no dia do aniversário. Mas a verdade é que eu sou só mais um número na sala, pra não dizer que sou aquela doidinha de quem ninguém gosta. E é por isso que, mais cedo ou mais tarde, todo o mundo me deixa falando sozinha.

Minha colega não parece ter acreditado muito quando eu disse que só tinha beijado dois caras na vida, mas sim, é verdade. Eu dou uma de moderna e descolada, mas sou bicho do mato e não sei flertar. Não que isso seja condenável. Muitas pessoas não são exatamente mestras supremas da sedução. Mas é chata essa impressão de que todos beijam ou transam, menos eu. Sei que o meu desejo é fútil, coisa de quem reclama de barriga cheia. Sei também que isso é conversa de adolescente bobo. Só que eu não sou mais adolescente. Já era pra eu ter aprendido a estabelecer vínculos. Só que eu não aprendi.

Eu só queria ter amigos fora do virtual, amigos com quem eu pudesse sair. Eu também queria poder sair com você, meu beija-flor, ver um filme ruim no cinema e ficar ouvindo por horas você criticar os furos no roteiro, como você sempre faz. Queria poder encostar a minha cabeça no seu peito e ouvir o seu coração. Queria poder chorar nos seus braços até molhar a sua camiseta. Queria, mas não posso nada do que quero, pois praticamente todas as pessoas que eu mais quero por perto moram a centenas de quilômetros de mim. Eu nunca as abraçarei. Mas, por incrível que pareça, as palavras delas às vezes me confortam mais do que os abraços falsos que recebo de algumas pessoas que convivem comigo.

Minha mãe constantemente me diz que eu só me apego ao povo da internet por falta de opção, porque ninguém dá bola pra mim na vida real. Diz também que eu sou praticamente uma autista, que não olho nos olhos de ninguém e que espanto qualquer contato real porque sou covarde demais para ter um relacionamento cara a cara. Ela martela tanto isso na minha cabeça que hoje fiquei me perguntando se tem algum fundo de verdade nisso. Espero que não. Espero que não.

~*~

Hoje eu fui bastante monossilábica com você. Você me perguntou se eu já tinha lido os capítulos que me mandou anteontem. Eu só disse que não. Você disse que tudo bem. Mas... na verdade, não estou nem um pouco interessada em ler. Não pense que é porque eu estou com raiva de você. Eu só não quero ler mesmo. Não faz mais sentido ler. Queria poder te dizer isso, mas não tenho coragem.

Com amor,

Da sua eterna flor.

♡

Notas finais
Acham que devo dizer pra ele que não quero ler, ou é melhor ler só pra não ficar chato? y_y