Cartas para um beija-flor

10 Carta 10 – Virgindade


5 de novembro de 2018

Querido beija-flor,

O tema dessa carta é um pouco polêmico (ou não). Mas considerando que a sociedade é careta, é melhor já ir avisando que vou falar de virgindade. Quando a palavra "virgindade" surge, só tem como vir duas coisas na sua cabeça: se você não for virgem, vai pensar em como e quando foi a sua primeira vez; se for, vai tentar imaginar como e quando vai ser.

Em que grupo estamos, meu beija-flor e eu? No segundo.

Sim, nós somos o maior clichê dos filmes românticos: ambos nunca fizemos sexo. Eu até me lembro do dia em que a gente contou isso um pro outro. Você foi o primeiro a admitir que era virgem. Eu levei um susto. Não esperava uma revelação dessas. Um homem de mais de vinte anos... virgem? Não que isso seja algo de outro mundo, é apenas raro. Confesso que no início nem acreditei muito em você. Mas à medida que fui te conhecendo, sanei minha dúvida em definitivo. Afinal, você não tinha motivos para mentir pra mim.

Já que naquele dia você admitiu que era virgem, resolvi admitir logo em seguida que também era. Eu disse ter vergonha de contar que era virgem. Disse que preferia dar a entender para os meus amigos e conhecidos que já tinha transado. O motivo? Não gosto de perguntas idiotas. Também não gosto de ser tratada como uma santa assexuada. Não raro as pessoas mais velhas nutrem por mim uma admiração desmerecida, como se eu valesse mais do que as outras garotas só por ter a porcaria de um hímen intacto.

Eu particularmente odeio aquela cena do filme 50 Tons de Cinza em que a Ana admite que é virgem, e o Sr. Grey diz que todo homem deveria se ajoelhar aos pés dela. Por quê? Virgindade é algum tipo de troféu, por acaso? Se for para um homem se ajoelhar aos meus pés, que seja pela minha inteligência, pela minha personalidade, pelo meu talento, não porque nunca transei. Que motivo mais besta para admirar alguém!

Fiquei muito feliz quando revelei a você que era virgem e você não me idealizou, muito menos me objetificou. Você não mudou o seu tratamento para comigo, mostrou que entende a virgindade como um aspecto à parte, não como uma grande qualidade. Talvez você tenha agido da melhor forma porque também é virgem. Nesse caso, você tem uma vivência semelhante à minha. Você sabe que não tem nada de excepcional na sua virgindade, sabe que não é inferior aos outros caras por causa disso. Dessa forma, por que me acharia superior às outras garotas por causa disso? Não teria lógica nenhuma.

É irônica a matemática da virgindade. Se você for um homem, seu valor para a sociedade é inversamente proporcional à idade com que perdeu a virgindade. Se você for uma mulher, seu valor para a sociedade é diretamente proporcional à idade com que perdeu a virgindade. Àqueles que não são familiarizados com matemática, o cenário é simples: um cara que perdeu a virgindade aos doze é herói, uma garota que perdeu a virgindade aos doze é puta; um cara que perdeu a virgindade aos trinta é frouxo, uma garota que perdeu a virgindade aos trinta é uma deusa.

Um dia confessamos que queríamos perder a virgindade um com o outro – e que não conseguíamos imaginar a primeira vez de outra forma. Fizemos descrições de como poderia ser. Era incrível como tínhamos desejos e fantasias tão semelhantes! Tenho certeza de que a nossa sintonia na cama seria perfeita!

Agora que não estamos mais juntos, é triste ter que admitir que a sua primeira vez não será comigo, e que a minha não será com você. Outra garota vai ser a sua referência quando você pensar na palavra "virgindade", outro garoto vai ser a minha referência quando eu pensar na palavra "virgindade". É uma pena. Gostaria de revelar minha nudez física apenas a quem fosse capaz de se apaixonar pela nudez de minh'alma. E essa pessoa só poderia ser uma: você.

Apesar dos pesares, respiro aliviada quando penso que, para você, eu nunca fui uma deusa, nem uma puta. Fui humana.

Com amor,

Da sua eterna flor.

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